JOKER: a descida ao submundo de Gotham no primeiro volume da colecção DC Pocket
À primeira vista, pode parecer apenas mais uma história centrada no Joker. Mas Joker é, na realidade, um thriller criminal sombrio, construído como uma viagem ao coração apodrecido de Gotham — um lugar onde a violência, o medo e a ambição caminham lado a lado.
A história começa quando o Joker é misteriosamente libertado do Asilo Arkham. Durante a sua ausência, os equilíbrios do crime em Gotham mudaram e vários rivais aproveitaram para ocupar território e influência. O Joker regressa para reclamar aquilo que considera seu, desencadeando uma espiral de vingança, brutalidade e caos. Mas o grande trunfo do livro está na perspectiva escolhida por Azzarello: a narrativa não é contada pelo próprio Joker, nem por Batman, mas por Jonny Frost, um pequeno criminoso de Gotham que acaba por se tornar motorista e cúmplice ocasional do vilão. É através dos olhos deste homem comum — simultaneamente fascinado e aterrorizado — que o leitor observa a verdadeira natureza do Joker.
Embora Batman esteja presente, JOKER não é propriamente uma história do Cavaleiro das Trevas. O foco está no submundo de Gotham e nos seus jogadores — figuras como o Pinguim, Two-Face, Killer Croc ou Enigma aparecem como peças de um ecossistema criminoso em guerra, onde alianças são frágeis e a sobrevivência depende da brutalidade. O tom aproxima-se mais de um filme de gangsters urbano do que de uma aventura clássica de super-heróis. Há ecos de cinema noir, thrillers criminais modernos e até da interpretação mais realista e anárquica do Joker popularizada no final dos anos 2000. Não por acaso, muitos leitores apontam semelhanças atmosféricas com a era pós-The Dark Knight, embora a obra siga um caminho próprio.
Bermejo opta por um estilo quase fotográfico, hiper-realista e detalhado, afastando-se da estética colorida e exagerada típica dos comics de super-heróis. O Joker surge com cicatrizes, maquilhagem imperfeita e um visual quase tangível, mais próximo de um criminoso de carne e osso do que de uma caricatura extravagante. Gotham é suja, húmida e decadente — uma cidade onde cada rua parece esconder violência iminente.
Em Portugal, a edição da Devir integrará a nova colecção DC Pocket, num formato compacto e acessível, pensado para tornar histórias essenciais da DC mais fáceis de descobrir. Com cerca de 132 páginas em capa mole, JOKER surge como uma escolha particularmente forte para inaugurar a linha: uma obra curta, intensa e visualmente impressionante, ideal tanto para leitores veteranos como para quem quer entrar no universo DC por caminhos menos convencionais.
Joker (colecção DC Pocket), Brian Azzarello e Lee Bermejo, Devir, 132 pp., cor, capa mole, 10€

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