domingo, 7 de junho de 2026

Bedeteca promove oficina de escrita criativa e guionismo para Banda Desenhada


A Bedeteca vai acolher a oficina “BD ao Quadrado – Escrita² (Escrita ao Quadrado)”, uma formação dedicada à iniciação ao argumento e ao guionismo para Banda Desenhada. A iniciativa será orientada pelo reconhecido argumentista e guionista Nuno Duarte, profissional com vasta experiência em diferentes áreas da escrita criativa.

Esta oficina dirige-se a todos os interessados em desenvolver competências na construção de narrativas para Banda Desenhada, proporcionando uma abordagem prática ao processo de criação de argumentos, estruturação de histórias e desenvolvimento de linguagem narrativa específica para BD.

Ao longo da formação, os participantes terão a oportunidade de explorar técnicas fundamentais do guionismo, experimentando exercícios orientados e recebendo acompanhamento directo de um profissional da área, num ambiente de aprendizagem intensiva e criativa.

A participação na oficina está limitada a 12 participantes, garantindo um acompanhamento próximo e personalizado. O custo de inscrição é de 25 euros. Os interessados podem garantir a sua vaga através de inscrição por correio eletrónico, enviando a sua candidatura para: bedeteca@gmail.com

Lucky Luke visto por…: A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme

Integrado na prestigiada colecção “Lucky Luke visto por…”, A Longa Marcha de Lucky Luke representa uma das mais interessantes revisitações contemporâneas do célebre cowboy criado por Morris. Nesta obra, o autor francês Matthieu Bonhomme apropria-se do universo clássico da personagem para construir uma narrativa mais madura, realista e introspectiva, sem perder o espírito aventureiro que sempre caracterizou Lucky Luke.

A história começa quando Lucky Luke aceita acompanhar uma família de pioneiros através de territórios hostis do Oeste americano. O que inicialmente parece ser uma simples missão de escolta transforma-se numa longa e perigosa travessia, marcada por ameaças constantes, conflitos humanos e desafios naturais. Ao longo da jornada, o herói vê-se confrontado não apenas com perigos externos, mas também com questões relacionadas com a responsabilidade, a solidão e o sentido da sua própria existência errante.

Matthieu Bonhomme afasta-se deliberadamente do tom humorístico dominante nos álbuns clássicos escritos por René Goscinny. Embora mantenha alguns momentos de leveza, a narrativa privilegia uma abordagem mais realista e cinematográfica do Oeste. O autor apresenta um Lucky Luke menos caricatural e mais humano, um homem marcado pela experiência, pela independência e pela consciência de que o seu destino é continuar sempre em movimento.

Graficamente, o álbum é impressionante. O traço elegante e expressivo de Bonhomme destaca-se pela atenção aos cenários, à luz e às paisagens do Oeste americano. As vastas planícies, os desertos e os acampamentos são representados com um grande sentido de escala e atmosfera, reforçando a dimensão épica da viagem. A narrativa visual revela uma influência evidente do western clássico, tanto do cinema como da banda desenhada europeia. Um dos aspetos mais interessantes da obra é a forma como o autor preserva a essência da personagem. Lucky Luke continua a ser o herói solitário, justo e habilidoso que os leitores conhecem, mas surge aqui enriquecido por uma maior profundidade psicológica. O mito do “homem que dispara mais depressa do que a própria sombra” é reinterpretado sem ser desconstruído, permitindo uma leitura simultaneamente nostálgica e renovadora.

A Longa Marcha de Lucky Luke demonstra o potencial da coleção “Lucky Luke visto por…” para explorar novas perspetivas sobre uma figura clássica da banda desenhada franco-belga. Matthieu Bonhomme presta homenagem ao legado de Morris e Goscinny, ao mesmo tempo que oferece uma obra autónoma, sofisticada e visualmente deslumbrante. O resultado é um western moderno que alia aventura, reflexão e grande qualidade artística, capaz de conquistar tanto os admiradores históricos de Lucky Luke como novos leitores.

A complementar o volume, A Seita apresenta um caderno gráfico com esboços do autor.

Lucky Luke visto por…: A Longa Marcha de Lucky Luke, Matthieu Bonhomme, A Seita, 88 pp., cor, capa dura

Enki Bilal, itinéraire gráfico de um visionário: o novo hors-série dos Cahiers de la BD

A revista Les Cahiers de la BD dedica o seu mais recente hors-série a um dos nomes mais influentes da banda desenhada europeia: Enki Bilal. Intitulado Enki Bilal – Itinéraire graphique d’un artiste engagé, o volume propõe uma exploração aprofundada da obra e da trajectória de um criador cuja influência ultrapassa largamente os limites da nona arte. O número foi lançado este mês e integra a prestigiada colecção de hors-séries da revista, dedicada a autores e obras fundamentais da história da BD.

Desde os anos 1970, Bilal construiu uma obra singular, marcada por universos distópicos, reflexão política e uma estética imediatamente reconhecível. Nascido em Belgrado e radicado em França desde a infância, o autor transformou as suas experiências pessoais e a sua visão crítica do mundo em narrativas que conjugam ficção científica, memória histórica e questionamento filosófico. Obras como a Trilogia Nikopol, Partie de chasse ou, mais recentemente, a série BUG, consolidaram-no como uma das vozes mais originais da BD contemporânea.

O hors-série dos Cahiers de la BD procura justamente compreender essa evolução artística. Segundo a apresentação editorial, o volume reúne dossiês temáticos, entrevistas exclusivas, análises críticas e uma vasta iconografia composta por documentos de arquivo, pranchas emblemáticas e ilustrações raras. O objectivo é acompanhar a transformação do traço de Bilal, desde os desenhos mais clássicos das primeiras décadas até às experiências digitais que caracterizam parte da sua produção recente. 

Um dos aspetos mais interessantes da publicação é a forma como enquadra Bilal não apenas como autor de banda desenhada, mas como artista multidisciplinar. O hors-série aborda igualmente o seu trabalho como pintor e cineasta, destacando a coerência temática entre as diferentes áreas da sua criação. A melancolia, a fragmentação da memória, os conflitos geopolíticos e a relação entre tecnologia e humanidade surgem como elementos recorrentes de uma obra que permanece profundamente atual. 

Ao longo das últimas décadas, Bilal tornou-se uma referência incontornável para várias gerações de leitores e criadores. Em comunidades de leitores de banda desenhada, continua a ser frequentemente citado ao lado de autores como Moebius ou Alejandro Jodorowsky quando se fala das grandes obras de ficção científica da BD europeia.

Les Cahiers de la BD HS #15: Enki Bilal - Itinérarire graphique d'un artiste passionné, 128 pp., cor, capa dura, 19,90€

sábado, 6 de junho de 2026

O Deserto dos Tártaros: a espera transformada em banda desenhada

A adaptação para banda desenhada de O Deserto dos Tártaros, realizada por Pasquale Frisenda e Michele Medda, transporta para o universo gráfico um dos romances mais marcantes de Dino Buzzati. Publicada originalmente em Itália, esta versão preserva a essência filosófica e existencial da obra, ao mesmo tempo que explora as potencialidades narrativas e visuais da BD.

A história acompanha Giovanni Drogo, um jovem oficial que é destacado para a remota Fortaleza Bastiani, situada na fronteira de um vasto deserto. Convencido de que a sua permanência ali será breve, Drogo sonha com uma carreira militar gloriosa. Contudo, os dias transformam-se em meses, os meses em anos, e a expectativa de um acontecimento extraordinário — a possível chegada dos misteriosos tártaros — passa a dominar a sua existência. A fortaleza torna-se assim um símbolo da condição humana, marcada pela espera, pela esperança e pela passagem inexorável do tempo.

O argumento de Michele Medda demonstra grande fidelidade ao romance de Buzzati. Em vez de simplificar a narrativa, procura preservar a atmosfera melancólica e a reflexão sobre o destino humano. A adaptação concentra-se na evolução psicológica de Drogo, mostrando como a expectativa de uma oportunidade futura acaba por consumir o presente e moldar toda a sua vida.

O trabalho gráfico de Pasquale Frisenda constitui um dos maiores méritos da obra. O desenhador recria a Fortaleza Bastiani como um espaço simultaneamente majestoso e opressivo, cercado por um deserto quase metafísico. As paisagens amplas, os horizontes vazios e a monumentalidade da arquitetura reforçam a sensação de isolamento e de suspensão temporal que caracteriza o romance. A expressividade das personagens e o cuidado com a composição das páginas contribuem para transmitir emoções que, na obra literária, emergem sobretudo através da introspeção. A banda desenhada destaca-se também pela sua capacidade de transformar em imagens os temas centrais de Buzzati: a solidão, a passagem do tempo, a ilusão da glória e a inevitabilidade da morte. O deserto deixa de ser apenas um cenário geográfico para se tornar uma representação visual do vazio existencial e das expectativas que orientam, e por vezes limitam, a vida humana.

Mais do que uma simples adaptação, O Deserto dos Tártaros em BD revela-se uma interpretação artística respeitosa e ambiciosa da obra original. Frisenda e Medda conseguem manter intacta a profundidade filosófica do romance, oferecendo simultaneamente uma experiência visual rica e envolvente. O resultado é uma leitura que poderá interessar tanto aos admiradores de Dino Buzzati como aos leitores de banda desenhada que procuram obras de grande densidade literária e reflexiva.

A presente edição d' A Seita apresenta um extra de esboços de Frisenda, acompanhado de "A cor das sombras", um texto de Gianmaria Contro

O deserto dos tártaros, Michele Medda e Pasquale Frisenda, A Seita, 184 pp., p&b, capa dura

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Marjane Satrapi (1969–2026): a voz que desenhou a liberdade

O mundo da banda desenhada perdeu uma das suas autoras mais influentes com a morte de Marjane Satrapi, falecida hoje, 4 de junho de 2026, aos 56 anos. Escritora, ilustradora, realizadora e activista, Satrapi tornou-se uma referência mundial graças à sua capacidade de transformar experiências pessoais em narrativas universais sobre liberdade, identidade, exílio e resistência.  

Nascida em Rasht, no Irão, em 1969, cresceu durante os anos turbulentos da Revolução Islâmica. Essa vivência daria origem à sua obra mais célebre, Persépolis, publicada originalmente em quatro volumes entre 2000 e 2003. A autobiografia gráfica relata a sua infância no Irão revolucionário, a adolescência na Áustria e o regresso ao seu país natal, antes de se estabelecer definitivamente em França. A obra tornou-se um marco da novela gráfica contemporânea e foi adaptada ao cinema em 2007, recebendo aclamação internacional.  

Ao longo da sua carreira, Satrapi destacou-se também por obras como Bordados e Frango com Ameixas, nas quais explorou a memória, as relações familiares e a condição feminina com o humor mordaz e a simplicidade gráfica que caracterizam o seu trabalho. Nos últimos anos manteve-se activa na defesa dos direitos humanos e da liberdade das mulheres iranianas.  

A bibliografia de Marjane Satrapi publicada em português europeu é relativamente curta, mas reúne os seus trabalhos mais importantes:  

  • Persépolis — publicado inicialmente pela Polvo em 2004; posteriormente numa edição integral pela Contraponto em 2012 e pela Bertrand em 2015; 
  • Frango com Ameixas — edição portuguesa lançada pela Levoir em 2019;  
  • Bordados — publicado pela Levoir em 2020.  
  • Mulher, vida e liberdade — colectânea de vários autores, coordenada por Marjane, editada pela Iguana em 2023. 

Através destas obras, Marjane Satrapi deixou um legado singular: mostrou que a banda desenhada podia ser simultaneamente literatura, testemunho histórico e intervenção cívica. A sua voz permanece como uma das mais importantes da cultura contemporânea, lembrando que a arte pode ser uma poderosa forma de resistência.  

Arsène Lupin contra Sherlock Holmes: o duelo definitivo entre duas lendas

Quando duas das maiores figuras da literatura policial se encontram, o resultado só pode ser explosivo. Em Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, os autores Jérôme Félix e Alain Janolle recuperam o universo criado por Maurice Leblanc e imaginam aquele que poderá ser o derradeiro confronto entre o famoso ladrão-cavalheiro e o mais célebre detetive do mundo.

A história começa quando Arsène Lupin, disfarçado de criptologista, recebe a visita de um homem que afirma ser… Arsène Lupin. Intrigado, aceita decifrar uma misteriosa sequência de códigos. Com a ajuda do seu fiel companheiro Grognard, descobre que o impostor é Maurice Guercin, marido da rica Garance Montessieux. O avô desta, recentemente falecido, era conhecido pela sua obsessão pela alquimia e por uma descoberta extraordinária: o segredo da transmutação do chumbo em ouro.

O mistério é irresistível para Lupin. Contudo, enquanto segue as pistas deixadas pelo alquimista, ignora que Sherlock Holmes continua a persegui-lo. As margens do Sena tornam-se palco de uma caçada implacável que conduz ao confronto final entre os dois rivais. Desta vez, não se trata apenas de inteligência e astúcia: está em jogo a própria sobrevivência.

Jérôme Félix constrói uma narrativa repleta de enigmas, heranças secretas e falsas identidades, respeitando o espírito das aventuras clássicas de Maurice Leblanc. O desenho elegante e detalhado de Alain Janolle reforça a atmosfera de mistério e aventura, evocando a Belle Époque e os grandes romances folhetinescos do início do século XX.

Originalmente publicada em França pela colecção Grand Angle, da Bamboo Édition, a obra surgiu em dois volumes: a primeira parte foi lançada em 29 de Junho de 2022, enquanto a segunda parte chegou às livrarias em 31 de Maio de 2023. Posteriormente, a história foi reunida numa edição integral publicada em 2025.

Mais do que uma simples aventura, Arsène Lupin contra Sherlock Holmes presta homenagem a duas personagens que marcaram gerações de leitores. Entre códigos secretos, alquimia e perseguições, a banda desenhada oferece um encontro memorável entre o génio do crime elegante e o mestre da dedução.

Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, Jérôme Félix e Alain Janolle, Ala dos Livros, 112 pp., cor, capa dura, 27,50€

Novela gráfica «Dostoiévski: O Sol Negro» revisita a vida tumultuosa do génio russo

Chega hoje às livrarias a novela gráfica Dostoiévski: O Sol Negro, uma obra que propõe uma imersão visual e narrativa na vida de um dos mais influentes escritores da literatura universal. Originalmente publicada em França a 11 de Janeiro de 2023 pela editora Futuropolis, a obra resulta da colaboração entre a argumentista belga Chantal Van den Heuvel e o ilustrador dinamarquês Henrik Rehr

Formada em Jornalismo e Comunicação pela Universidade de Bruxelas, Chantal Van den Heuvel construiu uma carreira marcada pela versatilidade, repartindo-se entre a escrita de romances, contos infantis, banda desenhada e guiões para televisão e cinema. Para este projecto, a autora desenvolveu uma investigação aprofundada sobre a vida de Fiódor Dostoiévski, procurando revelar não apenas o escritor, mas também o homem por detrás de algumas das mais importantes obras da literatura russa.

A componente gráfica está a cargo de Henrik Rehr, ilustrador nascido em Odense, na Dinamarca. Autodidacta, Rehr encontrou inspiração na tradição da banda desenhada europeia e em autores como Jean Giraud, Hermann e Hugo Pratt. Desde os anos 1980 tem desenvolvido uma carreira internacional, destacando-se pela capacidade de conjugar rigor histórico e expressividade visual.

A narrativa transporta os leitores para São Petersburgo, em Dezembro de 1849. Com apenas 28 anos, Dostoiévski caminha pela neve em direcção ao local onde acredita que será executado. Sob o peso do medo e da incerteza, as ruas da cidade assumem contornos quase fantasmagóricos, refletindo o estado psicológico do jovem escritor. Enquanto aguarda a ordem fatal perante o pelotão de execução, revive os episódios mais marcantes da sua vida.

O que desconhece é que a execução não passa de uma encenação cuidadosamente preparada pelas autoridades imperiais. No último instante, uma ordem do czar comuta a pena de morte para vários anos de trabalhos forçados na Sibéria, numa experiência traumática que marcaria profundamente a sua visão do mundo e influenciaria obras futuras como Memórias da Casa dos Mortos

Ao longo das suas páginas, Dostoiévski: O Sol Negro acompanha as múltiplas facetas do escritor: a epilepsia, o vício do jogo, as dívidas constantes, os amores tumultuosos, a prisão, as convicções religiosas e os conflitos ideológicos. A obra apresenta um retrato complexo de uma personalidade que viveu entre a rebeldia, a fé, o sofrimento e a criação literária.

Combinando uma narrativa biográfica rigorosa com um desenho detalhado e expressivo, Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr oferecem uma nova perspectiva sobre a vida do autor de Crime e Castigo, O Idiota e Os Irmãos Karamázov, revelando os dramas pessoais que alimentaram uma das obras mais profundas da literatura mundial.

Colecção Novelas Gráficas (IX série): Dostoiévski: O Sol Negro, Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr, Levoir, 136 pp., cor, capa dura, 16,90€