2 de março de 2026

A Nossa Voz

A Nossa Voz é uma narrativa gráfica sensível e atual que dá continuidade ao universo iniciado em Um Coração, Dois Caminhos. Nesta obra, Nora Dåsnes volta a centrar-se na adolescência precoce, explorando com autenticidade as emoções, as dúvidas e as descobertas próprias dos 12 anos.

A história acompanha Bao, uma jovem determinada e atenta ao mundo que a rodeia. Juntamente com as suas melhores amigas, Tuva e Linnéa, decide organizar um protesto para defender uma floresta ameaçada. O gesto nasce de uma inquietação genuína: a percepção de que os adultos nem sempre escutam — ou valorizam — as preocupações dos mais novos.

Ao longo da narrativa, a autora coloca questões pertinentes:

Conseguirão os jovens fazer-se ouvir?

Os colegas, como Abdi e os restantes rapazes da escola, compreendem verdadeiramente a urgência da causa ambiental?

Como se constrói coragem para enfrentar a indiferença?

Mais do que uma história sobre ambiente, o livro é um retrato delicado da formação da identidade. Bao aprende que o activismo não é apenas erguer cartazes, mas também dialogar, persistir e aceitar que a mudança exige tempo e união. A amizade entre as três protagonistas funciona como alicerce emocional, mostrando que o crescimento é mais seguro quando partilhado.

A linguagem visual — característica das novelas gráficas — reforça a intensidade emocional da narrativa. As expressões das personagens, o uso da cor e a composição das páginas traduzem inseguranças, entusiasmo e frustração com grande proximidade, tornando a leitura acessível e envolvente.

Recomendada para leitores em idade pré-adolescente e juvenil, A Nossa Voz destaca-se como uma obra que incentiva à reflexão crítica e à participação activa na sociedade. É um livro que transmite uma mensagem clara: a idade não limita o impacto da nossa voz — quando falamos com convicção, podemos contribuir para transformar o mundo.

A Nossa Voz, Nora Dåsnes, Nuvem de Letras, 240 pp., cor, capa mole, 15,95€

27 de fevereiro de 2026

Boa Noite, Punpun #5

O quinto volume de Boa Noite, Punpun (Oyasumi Punpun), de Inio Asano, continua a explorar com crueza e sensibilidade os abismos emocionais do seu protagonista, numa das séries mais marcantes do mangá contemporâneo.

Publicado originalmente no Japão em 2010, pela editora Shogakukan, este volume coloca Punpun num momento de aparente estabilidade que rapidamente se revela frágil. Depois de reencontrar Sachi, Punpun acredita finalmente ter encontrado um lugar no mundo — alguém que lhe oferece a ilusão de normalidade e pertença. No entanto, um acidente inesperado afasta-os, empurrando-o novamente para o isolamento e para o desespero que têm marcado o seu percurso.

À medida que a sua vida actual se desmorona, Punpun vê-se obrigado a confrontar os próprios limites emocionais e a sensação persistente de fracasso. Ainda assim, no meio da escuridão, surgem indícios de mudança: sinais subtis de um novo mundo possível, menos opressivo, ainda que longe de ser plenamente luminoso.

Este volume destaca-se pelo equilíbrio entre desesperança e expectativa, reforçando a identidade única da obra de Inio Asano — uma narrativa profundamente humana, desconfortável e honesta, que recusa respostas fáceis. Boa Noite, PunpunVolume 5 confirma a maturidade da série e prepara o leitor para transformações decisivas na trajectória do protagonista.

Boa Noite, Punpun #5, Inio Asano, Devir, 432 pp., p&b, capa mole, 20€

Sessão de apresentação de "Os charutos do faraó" em mirandês - Panteão Nacional

 


26 de fevereiro de 2026

L' Histoire du Journal Bravo!

A obra L’histoire du journal Bravo! constitui um estudo histórico detalhado dedicado à revista Bravo!, uma das publicações juvenis mais relevantes da Bélgica francófona no século XX. Jean Fontaine e Frans Lambeau reconstroem, com rigor documental, o percurso editorial da revista desde a sua fundação, em 1936, até ao seu declínio e desaparecimento, contextualizando-a no panorama cultural e político europeu.

O livro combina investigação histórica, análise editorial e documentação iconográfica abundante (capas, pranchas, anúncios e fotografias), permitindo compreender não apenas a evolução gráfica da revista, mas também as transformações sociais e ideológicas que marcaram o período, nomeadamente o impacto da Segunda Guerra Mundial na imprensa juvenil.

Os autores exploram:

A fundação do Journal Bravo! na Bélgica;

A influência dos modelos norte-americanos e franceses na banda desenhada publicada;

A publicação de séries marcantes, incluindo aventuras que introduziram personagens que se tornariam clássicas na BD europeia;

As adaptações editoriais durante a ocupação alemã;

A concorrência com outras revistas juvenis belgas, como Le Journal de Spirou.

O Journal Bravo! ocupa um lugar central na consolidação da cultura juvenil francófona por várias razões:

1. Consolidação da banda desenhada como literatura juvenil

A revista contribuiu para legitimar a banda desenhada como forma narrativa dirigida ao público jovem, ajudando a estruturar um mercado editorial específico para essa faixa etária.

2. Difusão internacional de personagens

Publicou versões francófonas de personagens que viriam a marcar a cultura popular europeia, ampliando o acesso dos jovens leitores belgas e franceses a universos narrativos internacionais.

3. Formação de leitores

Tal como outras grandes revistas juvenis do período, o Bravo! desempenhou um papel pedagógico indireto: fomentou hábitos de leitura regular, criou expectativas narrativas seriadas e contribuiu para a formação de uma identidade cultural juvenil.

4. Papel histórico durante a guerra

Durante a Segunda Guerra Mundial, a revista adaptou-se às restrições políticas e materiais, tornando-se também um reflexo das tensões ideológicas da época. O estudo de Fontaine e Lambeau evidencia como a imprensa juvenil não era neutra, mas integrada no contexto sociopolítico.

5. Influência na tradição belga da “bande dessinée”

A Bélgica tornar-se-ia um dos centros mundiais da banda desenhada francófona. O Bravo! participou ativamente na consolidação dessa tradição, que mais tarde seria internacionalmente reconhecida.

L’histoire du journal Bravo! é mais do que a história de uma revista: é um contributo essencial para compreender a evolução da imprensa juvenil e da banda desenhada francófona no século XX. 

L’histoire du journal Bravo!, Jean Fontaine e Frans Lambeau, Éditions de L'Élan, 464 pp., cor, capa dura, 95€ 

Sangoma – Os Condenados da Cidade do Cabo: crime, memória e feridas abertas na África do Sul

Vinte anos após o fim do Apartheid, a África do Sul continua a viver com as suas cicatrizes expostas. O regime caiu oficialmente em 1994, com a eleição de Nelson Mandela, mas as desigualdades estruturais permanecem profundas. A propriedade da terra — concentrada historicamente nas mãos da minoria branca — continua a ser um dos temas mais fracturantes da sociedade sul-africana.

É neste cenário politicamente inflamável que surge Sangoma – Os Condenados da Cidade do Cabo, a nova obra publicada em Portugal pela Arte de Autor, com argumento de Caryl Férey e desenho de Corentin Rouge.

Sam, trabalhador negro, é encontrado morto nas terras da quinta Pienaar, propriedade dos seus patrões brancos. O caso é atribuído ao tenente Shane Shepperd, que rapidamente se confronta com um labirinto de silêncios, mentiras e tensões raciais latentes.

O que começa como uma investigação criminal transforma-se numa radiografia social. À medida que Shepperd interroga proprietários e trabalhadores, percebe que o homicídio não pode ser desligado do contexto mais vasto: o debate nacional sobre a reforma agrária.

No parlamento sul-africano, a redistribuição de terras — prometida como forma de corrigir as injustiças históricas do apartheid — reacende divisões profundas. Partidos radicais pressionam por expropriações sem indemnização, enquanto sectores conservadores temem o colapso económico. Este pano de fundo político não é decorativo: é o motor invisível que alimenta o conflito.

Sangoma não surge no vazio. A questão da terra na África do Sul é um tema real e altamente sensível. Após 1994, o governo implementou programas de restituição e redistribuição fundiária, mas o processo revelou-se lento e controverso. Dados oficiais mostram que, décadas depois do fim do regime segregacionista, uma parte significativa das terras agrícolas continua concentrada na minoria branca.

Caryl Férey é conhecido por trabalhar os seus thrillers a partir de contextos políticos reais — já o fizera na África do Sul com o romance Zulu. Aqui, volta a mergulhar nas contradições do país, explorando não apenas o legado do apartheid, mas também as frustrações do presente: corrupção, desigualdade económica e desconfiança institucional.

O título Sangoma remete para os curandeiros tradicionais sul-africanos, figuras espirituais que simbolizam ligação à terra e à memória ancestral — uma metáfora poderosa numa narrativa onde passado e presente se entrelaçam.

O traço de Corentin Rouge acrescenta densidade atmosférica à história. As paisagens sul-africanas — da Cidade do Cabo às zonas rurais — surgem simultaneamente belas e inquietantes. O contraste entre espaços abertos e interiores claustrofóbicos reforça a sensação de tensão constante. A arte serve o argumento com sobriedade e impacto, evitando caricaturas e optando por uma abordagem realista que amplifica o peso social da narrativa.

No lançamento original em França, a obra foi destacada pela crítica especializada pela sua abordagem política madura e pela forma como alia thriller policial a comentário social. A imprensa sublinhou a capacidade de Férey em transformar conflitos geopolíticos complexos em narrativas humanas intensas. A colaboração entre Férey e Rouge foi particularmente elogiada pela coerência entre texto e imagem, consolidando o álbum como uma das adaptações mais ambiciosas do universo literário do autor para a banda desenhada.

A edição da Arte de Autor reforça a aposta da editora em banda desenhada de forte dimensão literária e política, trazendo aos leitores portugueses uma obra que dialoga diretamente com a atualidade internacional. Mais do que um thriller, Sangoma é um espelho de um país onde a História não passou — apenas mudou de forma.

Sangoma – Os Condenados da Cidade do Cabo, Caryl Férey e Corentin Rouge, Arte de Autor, 152 pp., cor, capa dura, 33€ 

25 de fevereiro de 2026

O Verão em Que Hikaru Morreu #4

Um mistério inexplicável, uma amizade inesperada. O quarto volume de O Verão em Que Hikaru Morreu aprofunda a tensão psicológica e o terror subtil que tornaram esta série numa das mais inquietantes da actualidade.

Publicado pela primeira vez no Japão em 2023 pela editora Kadokawa Corporation, sob o título original Hikaru ga Shinda Natsu, este volume dá continuidade à perturbadora jornada de Yoshiki — agora cada vez mais consciente de que o “Hikaru” que regressou da montanha não é o amigo que outrora conheceu. Confrontado com essa realidade dolorosa, Yoshiki toma uma decisão inesperada: permanecer ao lado dele. Apesar do medo e da dúvida, entre os dois nasce uma ligação estranha e ambígua, quase como se a amizade tivesse renascido sob uma nova e inquietante forma. No entanto, a verdadeira identidade desta entidade que assumiu o lugar de Hikaru continua envolta em mistério — um enigma que nem o próprio “Hikaru” parece compreender totalmente.

A investigação conduz os rapazes até à biblioteca local, onde, entre arquivos antigos e lendas esquecidas, descobrem referências perturbadoras sobre acontecimentos misteriosos na região. Um nome surge das sombras do passado — o de uma entidade tão enigmática quanto ameaçadora. Cada pista aproxima-os da verdade, mas também intensifica a sensação de que forças incompreensíveis estão em movimento.

Neste volume, o terror não se impõe apenas através do sobrenatural, mas sobretudo pela atmosfera sufocante e pela fragilidade das relações humanas. À medida que Yoshiki explora o passado, percebe que tudo à sua volta pode mudar de forma imprevisível — e que aquele verão, marcado pela perda e pelo desconhecido, jamais se repetirá. Com uma narrativa delicada e ao mesmo tempo perturbadora, o quarto volume confirma O Verão em Que Hikaru Morreu como uma obra que transcende o horror convencional, explorando a amizade, a identidade e o medo do que nos é familiar… mas já não é humano.

O Verão em Que Hikaru Morreu, Mokumokuren, Editorial Presença, 200 pp., p&b, capa mole, 11,90€