23 de abril de 2026

A Fuga

Nos turbulentos finais dos anos 50, quando Portugal fervilhava entre a miséria, a coragem e a repressão, um homem simples torna-se protagonista de uma das fugas mais audaciosas da história do regime salazarista. António Tereso, motorista da Carris e militante clandestino do PCP, é preso pela PIDE e, quebrado pela tortura, carrega uma culpa que o consome: falou quando não devia. Agora, precisa de recuperar a honra — perante a família, os companheiros e o próprio Partido.

A Fuga revela o percurso íntimo e heróico de Tereso: a vergonha, o isolamento entre os «rachados», a humilhação e o plano impossível que aceita para se redimir — organizar uma evasão da fortíssima cadeia de Caxias. Durante dois anos vive uma dupla identidade, conquista a confiança dos guardas e prepara, em segredo absoluto, uma operação digna de cinema.

O resultado é uma fuga espetacular: um carro blindado oferecido por Hitler a Salazar, sete dos mais importantes dirigentes comunistas escondidos no seu interior e um homem determinado a recuperar a dignidade perdida — custe o que custar.

A fuga, Jorge Mateus e Paulo Caetano, Iguana, 110 pp., cor, capa mole, 18,45€


A adopção #3

Um nascimento e pedidos de adopção que se concretizam quando menos se espera. Depois, a dor que vira tudo de cabeça para baixo. Uma família onde o pai espanhol entrou com um pedido de adopção em Espanha enquanto a mãe francesa entrou com um pedido de adopção em França. Uma família onde ambos os pedidos se concretizam ao mesmo tempo e, como costuma acontecer nesses casos, uma família onde a natureza assume o controlo e a mãe engravida. É uma família onde a terceira menina é repentinamente adoptada. É também uma família onde quem mais sofre é quem sai do ventre da mãe, porque ela não foi adoptada como as suas duas irmãs. E é uma família onde a dor ataca, deixando o pai sozinho com as suas três filhas adoptivas. É uma história de vida, ou melhor, de quatro vidas, e acima de tudo, é uma enorme história de amor.

Depois de o segundo tomo de A Adopção ter obtido, em 2017 e 2018 respectivamente os Prémio Saint-Michel para o Melhor álbum Francófono e o Prémio da BD Fnac da Bélgica, esta série tornou-se uma referência incontornável da BD europeia dos últimos anos.

Após a edição dos volumes Integrais 1 e 2 desta série (Ala dos Livros, 2022 e 2024, respectivamente) a Ala dos Livros, publica o 3º volume da série.

A Adopção #3: O rei dos mares, Arno Monin e Zidrou, 72 pp., cor, capa dura, 25,90€

11.ª Mostra do Clube Tex

 


22 de abril de 2026

A Trilogia Shakespeariana de Gianni De Luca amanhã nas bancas


A Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca, é uma das obras mais inovadoras da história da banda desenhada europeia. Publicada originalmente na década de 1970, a obra reúne adaptações em quadrinhos de três peças clássicas de William Shakespeare: A Tempestade, Hamlet e Romeu e Julieta. Com textos adaptados por Raoul Traverso, esta trilogia não apenas recria os enredos shakespearianos, mas também redefine a linguagem visual do meio.

A adaptação de obras teatrais para banda desenhada é um desafio significativo, sobretudo no caso de Shakespeare, cuja dramaturgia se baseia intensamente no diálogo, na expressão corporal e em cenários minimalistas. A Trilogia Shakespeariana surge como uma resposta criativa a esse desafio, propondo uma fusão entre teatro e banda desenhada que rompe com convenções tradicionais.

A trilogia é composta por três narrativas:

* A Tempestade – uma história de magia, vingança e reconciliação.

* Hamlet – a tragédia do príncipe dinamarquês consumido pela dúvida e pela vingança.

* Romeu e Julieta – o clássico romance trágico entre jovens amantes de famílias rivais.

Estas histórias foram originalmente publicadas na revista Il Giornalino entre 1975 e 1976 e posteriormente reunidas em diferentes edições em volume.  

As obras representam um marco na história da banda desenhada europeia, que continua a influenciar autores contemporâneos e a demonstrar o potencial artístico da banda desenhada enquanto meio narrativo. Nesta trilogia, De Luca abandona a divisão clássica em quadradinhos, criando páginas onde as personagens se movem livremente através de cenários contínuos, quase como se estivessem em palco. Essa solução visual aproxima a banda desenhada da linguagem teatral, respeitando simultaneamente o espírito das obras originais.

Trilogia Shakespeariana, de Gianni De Luca e Raoul Traverso, Levoir/A Seita/Público, p&b, 168 pp., capa dura, 16,90€


O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo: quando a banda desenhada reencontra Antoine de Saint-Exupéry

Há livros que contam histórias — e há outros que exploram os momentos em que as histórias nasceram. O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, do autor canadiano Philippe Girard, pertence claramente à segunda categoria: uma obra que revisita um período decisivo da vida de Saint-Exupéry e o transforma numa narrativa sensível, quase onírica.

Publicada originalmente com o título Le prince des oiseaux de haut vol (2023), esta banda desenhada chega em Portugal pela ASA, propondo uma leitura que cruza biografia, ficção e homenagem literária.

Abril de 1942. Em plena Segunda Guerra Mundial, Saint-Exupéry encontra-se em Nova Iorque, afastado do combate e profundamente desanimado. Aviador por vocação e patriota convicto, sente-se inútil longe da França ocupada. É neste contexto que aceita um convite inesperado: uma digressão promocional pelo Canadá. Contudo, o que parecia uma simples viagem transforma-se rapidamente num impasse político — com o encerramento das embaixadas francesas, o escritor acaba “preso” no Quebeque. Girard parte deste episódio histórico para construir uma narrativa onde a realidade se mistura com elementos que parecem saídos diretamente de O Principezinho.

Durante a sua estadia no Canadá, Saint-Exupéry cruza-se com figuras enigmáticas: uma menina que desenha carneiros, um acendedor de candeeiros, um rapaz de olhar curioso que faz perguntas incessantes.

Para qualquer leitor familiarizado com a sua obra mais célebre, estes encontros não são coincidência. São ecos — ou talvez sementes — do universo que viria a ganhar forma pouco depois. A banda desenhada constrói assim uma espécie de “pré-história” de O Principezinho, sugerindo que a criação literária nasce tanto da experiência vivida como da necessidade emocional de escapar a ela.

O traço de Philippe Girard aposta numa estética expressiva e acessível, que equilibra leveza com profundidade. As paisagens canadianas — entre cidades e zonas rurais — servem de pano de fundo para o isolamento do protagonista, ao mesmo tempo que acolhem a emergência de um mundo interior rico e simbólico. Mais do que uma biografia tradicional, esta obra funciona como uma meditação sobre a solidão, a guerra e o poder da imaginação.

No fim, fica a sensação de que Girard não quis apenas contar o que aconteceu — quis imaginar o que poderia ter acontecido dentro da mente de um homem que, longe de casa e da guerra, encontrou uma outra forma de resistência: a criação.

O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, Philippe Girard, ASA, 160 pp., cor, capa dura, 29,90€

21 de abril de 2026

Magriços

O lançamento de uma nova obra dedicada à campanha histórica de Portugal no Mundial de 1966 promete reacender a memória colectiva de um dos momentos mais marcantes do futebol nacional. Pela mão do autor Vasco Parracho, conhecido pelo seu trabalho na biografia em banda desenhada de Fernando Peyroteo, chega agora um livro que revisita a epopeia dos Magriços com um olhar simultaneamente artístico e documental.

A competição, realizada em Inglaterra, ficou gravada na história como o palco onde Portugal alcançou um extraordinário terceiro lugar — até hoje a melhor classificação nacional em Campeonatos do Mundo de Futebol. Liderada por figuras lendárias como Eusébio, a selecção conquistou o coração dos portugueses com exibições memoráveis, incluindo a célebre reviravolta frente à Coreia do Norte.

Nesta nova obra, Parracho transporta esse percurso para o universo da banda desenhada, oferecendo uma narrativa visual dinâmica que combina rigor histórico com expressividade artística. O seu “traço único” dá vida aos momentos-chave da competição, recriando jogos, emoções e episódios que marcaram gerações.

Um dos grandes destaques do livro é a colaboração de António Simões, um dos protagonistas de 1966. Através do seu testemunho directo, a obra ganha uma dimensão inédita, revelando pormenores de bastidores até agora desconhecidos do grande público. Histórias do balneário, curiosidades sobre o ambiente vivido durante o torneio e episódios menos mediáticos ajudam a construir um retrato mais íntimo e humano da equipa.

Mais do que uma simples homenagem, este lançamento surge como uma ponte entre gerações: permite aos mais novos descobrir a grandeza dos Magriços e oferece aos mais velhos uma viagem nostálgica a um tempo em que o futebol português conquistou o mundo.

O livro afirma-se, assim, como uma peça relevante não só para os amantes do futebol, mas também para apreciadores de banda desenhada e da história cultural portuguesa. Ao cruzar arte e memória, Vasco Parracho volta a demonstrar a capacidade da narrativa gráfica para preservar e reinventar momentos fundamentais da nossa identidade colectiva.

Magriços, Vasco Parracho, Primne Books, 64 pp., cor, capa dura, 19,90€

A Sombra das Luzes – Tomo 2: Rendas, Colares e Conchas

Depois do fulgurante arranque com O Burlão nas Índias, Alain Ayroles regressa com o segundo volume de A Sombra das Luzes, consolidando uma obra que se afirma como uma das mais refinadas bandas desenhadas históricas contemporâneas. Em Rendas, Colares e Conchas, o autor prossegue o seu elaborado jogo narrativo, inspirando-se na tradição epistolar de intrigas e manipulações, num claro eco de Ligações Perigosas, mas com uma identidade própria, mais aventureira e visualmente expansiva.

A narrativa acompanha o libertino Saint-Sauveur, uma figura tão fascinante quanto inquietante, cuja inteligência e ausência de escrúpulos o colocam no centro de uma teia de enganos e apostas perigosas. Desta vez, o cenário desloca-se para a Nova França, território exótico e imprevisível que serve de palco a novas reviravoltas. Acompanhado pelo iroquês Adario e por um criado de inclinações filosóficas, Saint-Sauveur vê-se confrontado com um mundo que desafia os seus preconceitos europeus.

Ayroles demonstra, mais uma vez, um domínio notável da escrita: o texto é sofisticado, irónico e repleto de subtilezas, construindo um constante jogo de expectativas no leitor. As maquinações do protagonista, inicialmente brilhantes, começam a escapar ao seu controlo, revelando o lado trágico de quem acredita poder manipular emoções impunemente. O autor não se limita a entreter — convida à reflexão sobre moralidade, colonialismo e a ilusão de superioridade cultural.

No plano visual, Guérineau eleva a obra com uma representação riquíssima do século XVIII. O contraste entre a elegância europeia — rendas e colares — e a rudeza natural das paisagens americanas — conchas, florestas, peles — é explorado com mestria. Cada página respira detalhe, desde os trajes até às expressões das personagens, reforçando a imersão num mundo simultaneamente belo e implacável.

Este segundo tomo intensifica o tom da série, conduzindo o leitor por um percurso onde a sedução dá lugar à sobrevivência e onde as certezas civilizacionais se desfazem. Saint-Sauveur, despido dos seus privilégios e confrontado com novas realidades, inicia uma transformação que promete ter consequências profundas no desfecho da trilogia.

Com Rendas, Colares e Conchas, A Sombra das Luzes afirma-se definitivamente como uma obra ambiciosa e elegante, onde argumento e arte se entrelaçam com rara harmonia. Resta agora aguardar o terceiro volume para descobrir até onde Ayroles levará este jogo de sombras, luzes e ilusões.

A Sombra das Luzes – Tomo 2: Rendas, Colares e Conchas, Alain Ayroles e Richard Guerineau, Ala dos Livros, 72 pp., cor, capa dura, 25€