1 de abril de 2026

Leituras de BD no mês de Março de 2026

 






Escolhidos 42 autores para receber bolsas de criação literária, BD e infantojuvenil

A atribuição das bolsas de criação literária de 2025 trouxe uma novidade relevante no panorama cultural português: a autonomização da Banda Desenhada (BD) enquanto área específica de apoio, com financiamento próprio e um conjunto dedicado de criadores selecionados.

Pela primeira vez, a BD deixou de estar incluída no programa geral de bolsas de criação literária, passando a integrar uma linha independente, ao lado da literatura infantil e juvenil. Esta mudança reflecte um reconhecimento crescente da BD enquanto forma artística autónoma, com linguagem, público e processos criativos próprios.

No total, foram atribuídas sete bolsas na área da banda desenhada, cada uma no valor de 15 mil euros, integradas num montante global de 270 mil euros que também contempla projetos infantojuvenis. Este apoio anual visa garantir condições para que os autores possam desenvolver os seus projetos com maior estabilidade e dedicação.

Entre os 114 projetos submetidos a concurso na área da BD, apenas sete foram selecionados, evidenciando a elevada competitividade do processo. Os bolseiros escolhidos são Marco Mendes, Ana Margarida Rocha da Silva Matos. Francisco Sousa Lobo, Júlia Barata, Alexandra Maria Lourenço Dias, Joana Morgado Simão e Carlos Baptista Moura Pinheiro.

A diversidade de percursos e estilos entre os selecionados sugere uma aposta em diferentes abordagens narrativas e visuais dentro da BD contemporânea portuguesa.

A criação desta linha específica de financiamento acompanha a evolução da banda desenhada em Portugal, que tem vindo a ganhar visibilidade tanto no mercado editorial como em circuitos internacionais. Autores portugueses têm marcado presença em festivais, exposições e publicações fora do país, consolidando uma cena criativa dinâmica.

Ao destacar a BD com um programa próprio, a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB) reconhece não só o crescimento do setor, mas também a necessidade de respostas mais ajustadas às suas especificidades, desde os tempos de produção até à experimentação gráfica.

O concurso contou com um total de 447 candidaturas nas duas áreas (BD e literatura infantojuvenil), sendo 114 na BD. A taxa de sucesso foi, portanto, bastante reduzida, o que reforça o carácter selectivo e meritocrático da atribuição das bolsas.

O júri responsável integrou o escritor e crítico de banda desenhada João Ramalho-Santos e a especialista em literatura infantil Dora Batalim SottoMayor, assegurando uma avaliação informada e especializada dos projetos apresentados.

Mais do que um apoio financeiro, estas bolsas representam um investimento estratégico no desenvolvimento da banda desenhada portuguesa. Ao permitir que autores se dediquem aos seus projectos durante um ano, contribuem para o surgimento de novas obras, a consolidação de carreiras e o enriquecimento do panorama cultural nacional.

Num contexto em que a BD continua a conquistar novos leitores e a explorar territórios híbridos entre literatura, artes visuais e narrativa gráfica, este tipo de incentivo público poderá revelar-se decisivo para o seu crescimento sustentado.

31 de março de 2026

Entradas na minha biblioteca de BD no mês de Março de 2026

 







Final Cut de Charles Burns

Publicado originalmente em 2014 pela Pantheon Books, Final Cut encerra a trilogia iniciada com X’ed Out (2010) e continuada em The Hive (2012). Trata-se de um dos trabalhos mais densos e formalmente sofisticados de Charles Burns, autor incontornável da banda desenhada contemporânea.

A narrativa acompanha Brian, jovem artista e aspirante a cineasta que, desde a infância, filma pequenas histórias de ficção científica no quintal de casa. Anos depois, decide realizar um verdadeiro filme de terror em 8 mm numa cabana isolada, com os amigos Jimmy, Tina e Laurie — esta última, musa involuntária e objecto de uma paixão não correspondida.

A homenagem declarada é ao clássico Invasion of the Body Snatchers, referência maior da ficção científica paranóica dos anos 50. Contudo, à medida que a rodagem avança, o leitor percebe que o verdadeiro palco da acção não é a floresta, mas a mente fragmentada de Brian.

Burns constrói um jogo subtil entre realidade, fantasia e memória. A idealização de Laurie transforma-se numa narrativa paralela onde Brian assume o papel de salvador, confundindo desejo com ficção. O autor explora a forma como o impulso criativo pode tornar-se fuga — ou até distorção — do real.

Graficamente, Final Cut mantém o traço rigoroso e contrastado que celebrizou o autor. O preto profundo e os enquadramentos meticulosamente compostos evocam tanto o cinema clássico como a estranheza do surrealismo. Há uma cadência quase hipnótica nas sequências mudas, onde o silêncio pesa tanto quanto o diálogo.

No panorama da banda desenhada contemporânea, Final Cut afirma-se como uma obra madura, inquietante e profundamente autoral. Charles Burns confirma aqui o seu estatuto de mestre da forma, capaz de transformar obsessões pessoais numa experiência estética de rara intensidade.

Base de dados

Final Cut, Charles Burns, ASA, 224 pp., cor, capa mole, 29,90€

30 de março de 2026

Carlota, Imperatriz – Uma narrativa intensa entre ambição, poder e desilusão

A obra Carlota, Imperatriz, de Fabien Nury e Matthieu Bonhomme, publicada em Portugal pela Ala dos Livros, apresenta-se como uma das mais marcantes novelas gráficas históricas dos últimos anos. Estruturada em dois volumes — cada um contendo dois tomos —, esta edição integral oferece ao leitor uma experiência completa e profundamente imersiva na vida de Charlotte da Bélgica, figura histórica tão fascinante quanto trágica.

Desde cedo, Charlotte foi moldada para a grandeza. Filha do rei Leopoldo I da Bélgica, o seu destino parecia inevitavelmente ligado a um casamento de prestígio. A união com o arquiduque Maximiliano da Áustria, irmão do imperador Francisco José, surge como a concretização desse desígnio. No entanto, aquilo que começou como um casamento promissor rapidamente se revela uma relação marcada por frustração, desencontro e ambições divergentes.

A narrativa ganha particular intensidade quando o casal aceita o trono do México, num contexto político extremamente instável e manipulado por interesses externos, nomeadamente pelo imperador francês Napoleão III. Ao chegarem a Veracruz, Charlotte e Maximiliano encontram um país profundamente fragilizado, longe da imagem idealizada que lhes fora apresentada. A resistência das elites locais, a instabilidade social e a fragilidade política do novo imperador criam um cenário de tensão permanente. É neste ambiente adverso que Charlotte emerge como uma figura central. Longe de ser apenas uma consorte passiva, a protagonista revela uma crescente determinação e complexidade psicológica. À medida que Maximiliano se mostra indeciso e incapaz de liderar, Charlotte assume um papel cada vez mais activo, tentando salvar um projecto imperial condenado desde o início. A sua trajectória transforma-se, assim, num percurso de afirmação pessoal, mas também de progressiva desilusão e colapso.

Do ponto de vista artístico, Matthieu Bonhomme apresenta um traço elegante e expressivo, capaz de transmitir tanto a grandiosidade dos cenários históricos como a intimidade emocional das personagens. Já o argumento de Fabien Nury destaca-se pela profundidade psicológica e pelo rigor histórico, equilibrando com mestria o drama pessoal e o contexto político. 

A obra, Carlota, Imperatriz foi amplamente elogiada pela crítica internacional, tendo recebido distinções importantes no circuito da banda desenhada europeia. Entre elas, destaca-se a sua nomeação e presença em selecções oficiais de festivais de prestígio, como o Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême, um dos mais relevantes a nível mundial. A obra foi também distinguida em prémios franceses de BD, reforçando o seu estatuto como uma referência contemporânea no género histórico.

Carlota, Imperatriz é muito mais do que uma simples recriação histórica. Trata-se de um retrato poderoso de uma mulher presa entre o dever e a ambição, num mundo dominado por jogos de poder implacáveis. Uma leitura envolvente, visualmente deslumbrante e emocionalmente intensa, que merece lugar de destaque em qualquer biblioteca dedicada à banda desenhada de qualidade.

Base de dados

Carlota, Imperatriz (Tomos 1 e 2), Matthieu Bonhomme e Fabien Nury, Ala dos Livros, 192 pp., cor, capa dura, 35€ 

Tokyo Revengers – Tomo 9

A intensa guerra entre gangues chega ao seu clímax neste volume de Tokyo Revengers,  aclamada série criada por Ken Wakui. Após uma batalha épica entre a Toman e a Valhalla, o desfecho traz consequências inesperadas — e ainda mais perigosas.

Com a vitória da Toman, Takemichi regressa ao futuro esperando que tudo tenha mudado para melhor. No entanto, a realidade revela-se mais sombria: agora numa posição de destaque dentro da organização, ele percebe rapidamente que algo está errado. A presença de antigos membros dos Black Dragons infiltrados na liderança cria um ambiente de tensão e instabilidade. E quando Kisaki volta a entrar em cena, novas revelações vêm à tona — especialmente através de Naoto — colocando em causa tudo aquilo que Takemichi acreditava saber.

Este nono volume marca uma transição importante na história, abrindo caminho para novos conflitos e aprofundando o lado mais psicológico e estratégico da obra. A narrativa intensifica-se, mostrando que, mesmo quando o passado é alterado, o futuro pode esconder ameaças ainda maiores.

O mangá Tokyo Revengers é publicado pela Kodansha e serializado na revista Weekly Shōnen Magazine desde 2017. O tomo 9 foi originalmente lançado no Japão a 16 de Novembro de 2018, integrando uma série que rapidamente se tornou um fenómeno global, combinando acção, viagem no tempo e drama juvenil.

Base de dados

Tokyo Revengers #9, Ken Wakui, Distrito Manga, 192 pp., p&b, capa mole, 10,95€

26 de março de 2026

A força intemporal de A História de Uma Serva: a nova vida de um clássico

Depois de uma primeira edição (em 2020) rapidamente esgotada, a Bertrand Editora traz agora uma nova oportunidade para mergulhar no universo perturbador de A História de Uma Serva, desta vez numa edição em capa mole e com uma abordagem renovada. Lançada hoje, 26 de Março, esta reedição da novela gráfica reafirma a relevância de uma obra que continua a ecoar com inquietante actualidade.

Baseado no icónico romance de Margaret Atwood, este formato ganha nova expressão através da adaptação visual de Renée Nault, que transforma a narrativa numa experiência gráfica intensa e imersiva. O resultado é uma obra que mantém toda a força do original, mas que dialoga com novos públicos e novas formas de leitura. Provocante, chocante e profundamente profético, A História de Uma Serva consolidou-se como um dos livros mais influentes da literatura contemporânea. A sua visão distópica, marcada por temas como o controlo sobre o corpo feminino, o autoritarismo e a perda de direitos, tornou-se não apenas relevante, mas essencial para compreender muitas das tensões do mundo atual.

Antes desta reedição da novela gráfica, a Bertrand já havia assinalado os 40 anos da obra original com uma edição especial comemorativa, que se destacou pela sua apresentação cuidada: nova capa, sprayed edges e um prefácio exclusivo de Alberto Manguel. Este conjunto de iniciativas editoriais demonstra não só o reconhecimento da importância da obra, como também o seu contínuo apelo junto dos leitores.

O impacto de A História de Uma Serva ultrapassou largamente as páginas do livro. A adaptação televisiva, criada por Bruce Miller e protagonizada por Elisabeth Moss, tornou-se um fenómeno global, conquistando audiências e crítica ao longo de seis temporadas. Entre os muitos reconhecimentos, destacam-se 15 prémios Emmy e o Globo de Ouro para Melhor Série Dramática em 2018 — prova clara da força narrativa e simbólica desta história.

Base de dados

A História de uma Serva, Renée Nault, Bertrand Editora, 240 pp., cor, capa mole, 20,90€