quinta-feira, 4 de junho de 2026

Marjane Satrapi (1969–2026): a voz que desenhou a liberdade

O mundo da banda desenhada perdeu uma das suas autoras mais influentes com a morte de Marjane Satrapi, falecida hoje, 4 de junho de 2026, aos 56 anos. Escritora, ilustradora, realizadora e activista, Satrapi tornou-se uma referência mundial graças à sua capacidade de transformar experiências pessoais em narrativas universais sobre liberdade, identidade, exílio e resistência.  

Nascida em Rasht, no Irão, em 1969, cresceu durante os anos turbulentos da Revolução Islâmica. Essa vivência daria origem à sua obra mais célebre, Persépolis, publicada originalmente em quatro volumes entre 2000 e 2003. A autobiografia gráfica relata a sua infância no Irão revolucionário, a adolescência na Áustria e o regresso ao seu país natal, antes de se estabelecer definitivamente em França. A obra tornou-se um marco da novela gráfica contemporânea e foi adaptada ao cinema em 2007, recebendo aclamação internacional.  

Ao longo da sua carreira, Satrapi destacou-se também por obras como Bordados e Frango com Ameixas, nas quais explorou a memória, as relações familiares e a condição feminina com o humor mordaz e a simplicidade gráfica que caracterizam o seu trabalho. Nos últimos anos manteve-se activa na defesa dos direitos humanos e da liberdade das mulheres iranianas.  

A bibliografia de Marjane Satrapi publicada em português europeu é relativamente curta, mas reúne os seus trabalhos mais importantes:  

  • Persépolis — publicado inicialmente pela Polvo em 2004; posteriormente numa edição integral pela Contraponto em 2012 e pela Bertrand em 2015; 
  • Frango com Ameixas — edição portuguesa lançada pela Levoir em 2019;  
  • Bordados — publicado pela Levoir em 2020.  
  • Mulher, vida e liberdade — colectânea de vários autores, coordenada por Marjane, editada pela Iguana em 2023. 

Através destas obras, Marjane Satrapi deixou um legado singular: mostrou que a banda desenhada podia ser simultaneamente literatura, testemunho histórico e intervenção cívica. A sua voz permanece como uma das mais importantes da cultura contemporânea, lembrando que a arte pode ser uma poderosa forma de resistência.  

Arsène Lupin contra Sherlock Holmes: o duelo definitivo entre duas lendas

Quando duas das maiores figuras da literatura policial se encontram, o resultado só pode ser explosivo. Em Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, os autores Jérôme Félix e Alain Janolle recuperam o universo criado por Maurice Leblanc e imaginam aquele que poderá ser o derradeiro confronto entre o famoso ladrão-cavalheiro e o mais célebre detetive do mundo.

A história começa quando Arsène Lupin, disfarçado de criptologista, recebe a visita de um homem que afirma ser… Arsène Lupin. Intrigado, aceita decifrar uma misteriosa sequência de códigos. Com a ajuda do seu fiel companheiro Grognard, descobre que o impostor é Maurice Guercin, marido da rica Garance Montessieux. O avô desta, recentemente falecido, era conhecido pela sua obsessão pela alquimia e por uma descoberta extraordinária: o segredo da transmutação do chumbo em ouro.

O mistério é irresistível para Lupin. Contudo, enquanto segue as pistas deixadas pelo alquimista, ignora que Sherlock Holmes continua a persegui-lo. As margens do Sena tornam-se palco de uma caçada implacável que conduz ao confronto final entre os dois rivais. Desta vez, não se trata apenas de inteligência e astúcia: está em jogo a própria sobrevivência.

Jérôme Félix constrói uma narrativa repleta de enigmas, heranças secretas e falsas identidades, respeitando o espírito das aventuras clássicas de Maurice Leblanc. O desenho elegante e detalhado de Alain Janolle reforça a atmosfera de mistério e aventura, evocando a Belle Époque e os grandes romances folhetinescos do início do século XX.

Originalmente publicada em França pela colecção Grand Angle, da Bamboo Édition, a obra surgiu em dois volumes: a primeira parte foi lançada em 29 de Junho de 2022, enquanto a segunda parte chegou às livrarias em 31 de Maio de 2023. Posteriormente, a história foi reunida numa edição integral publicada em 2025.

Mais do que uma simples aventura, Arsène Lupin contra Sherlock Holmes presta homenagem a duas personagens que marcaram gerações de leitores. Entre códigos secretos, alquimia e perseguições, a banda desenhada oferece um encontro memorável entre o génio do crime elegante e o mestre da dedução.

Arsène Lupin contra Sherlock Holmes, Jérôme Félix e Alain Janolle, Ala dos Livros, 112 pp., cor, capa dura, 27,50€

Novela gráfica «Dostoiévski: O Sol Negro» revisita a vida tumultuosa do génio russo

Chega hoje às livrarias a novela gráfica Dostoiévski: O Sol Negro, uma obra que propõe uma imersão visual e narrativa na vida de um dos mais influentes escritores da literatura universal. Originalmente publicada em França a 11 de Janeiro de 2023 pela editora Futuropolis, a obra resulta da colaboração entre a argumentista belga Chantal Van den Heuvel e o ilustrador dinamarquês Henrik Rehr

Formada em Jornalismo e Comunicação pela Universidade de Bruxelas, Chantal Van den Heuvel construiu uma carreira marcada pela versatilidade, repartindo-se entre a escrita de romances, contos infantis, banda desenhada e guiões para televisão e cinema. Para este projecto, a autora desenvolveu uma investigação aprofundada sobre a vida de Fiódor Dostoiévski, procurando revelar não apenas o escritor, mas também o homem por detrás de algumas das mais importantes obras da literatura russa.

A componente gráfica está a cargo de Henrik Rehr, ilustrador nascido em Odense, na Dinamarca. Autodidacta, Rehr encontrou inspiração na tradição da banda desenhada europeia e em autores como Jean Giraud, Hermann e Hugo Pratt. Desde os anos 1980 tem desenvolvido uma carreira internacional, destacando-se pela capacidade de conjugar rigor histórico e expressividade visual.

A narrativa transporta os leitores para São Petersburgo, em Dezembro de 1849. Com apenas 28 anos, Dostoiévski caminha pela neve em direcção ao local onde acredita que será executado. Sob o peso do medo e da incerteza, as ruas da cidade assumem contornos quase fantasmagóricos, refletindo o estado psicológico do jovem escritor. Enquanto aguarda a ordem fatal perante o pelotão de execução, revive os episódios mais marcantes da sua vida.

O que desconhece é que a execução não passa de uma encenação cuidadosamente preparada pelas autoridades imperiais. No último instante, uma ordem do czar comuta a pena de morte para vários anos de trabalhos forçados na Sibéria, numa experiência traumática que marcaria profundamente a sua visão do mundo e influenciaria obras futuras como Memórias da Casa dos Mortos

Ao longo das suas páginas, Dostoiévski: O Sol Negro acompanha as múltiplas facetas do escritor: a epilepsia, o vício do jogo, as dívidas constantes, os amores tumultuosos, a prisão, as convicções religiosas e os conflitos ideológicos. A obra apresenta um retrato complexo de uma personalidade que viveu entre a rebeldia, a fé, o sofrimento e a criação literária.

Combinando uma narrativa biográfica rigorosa com um desenho detalhado e expressivo, Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr oferecem uma nova perspectiva sobre a vida do autor de Crime e Castigo, O Idiota e Os Irmãos Karamázov, revelando os dramas pessoais que alimentaram uma das obras mais profundas da literatura mundial.

Colecção Novelas Gráficas (IX série): Dostoiévski: O Sol Negro, Chantal Van den Heuvel e Henrik Rehr, Levoir, 136 pp., cor, capa dura, 16,90€

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Magriços em digressão

 


“O Mercenário” regressa com o Volume 9: Os Antepassados Perdidos

Os fãs de fantasia clássica em banda desenhada têm motivos para celebrar: chega às livrarias o nono volume de O Mercenário, a lendária série criada por Vicente Segrelles. Intitulado Os Antepassados Perdidos, este novo tomo dá continuidade à edição definitiva, revista e aumentada, de uma das mais marcantes obras da BD fantástica europeia.

Nesta nova aventura, Nan-Tay e o Mercenário embarcam numa intensa e perigosa demanda em busca das origens da jovem guerreira. A investigação sobre os seus antepassados leva-os a desvendar um surpreendente segredo ligado aos descendentes da mítica Atlântida — uma civilização oriunda do planeta Geos, que teria chegado à Terra como colona e desenvolvido uma cultura extraordinariamente avançada, preservada no isolamento durante milénios.

Como é habitual no universo imaginado por Segrelles, a narrativa cruza fantasia, história e mistério em cenários grandiosos e repletos de detalhe. Desta vez, a viagem do Mercenário atravessa diferentes tempos e geografias, levando-o desde a Espanha da Reconquista, marcada pelas guerras religiosas, até ao continente americano dos Maias. Pelo caminho, o protagonista reencontrará alguém que julgava perdido no passado — um regresso inesperado que promete marcar profundamente o rumo da história.

Considerada uma verdadeira obra-prima da banda desenhada de fantasia, O Mercenário permanece uma leitura incontornável para coleccionadores e apreciadores do género. A arte pictórica singular de Vicente Segrelles, construída com um impressionante detalhe visual e uma estética quase cinematográfica, continua a distinguir esta série como uma peça única no panorama da BD europeia.

O Mercenário #9: Os Antepassados Perdidos, Vicente Segrelles, Ala dos Livros, 64 pp., cor, capa dura

terça-feira, 2 de junho de 2026

Slava #2: Os novos russos

Slava 2: Os Novos Russos, de Pierre-Henry Gomont, dá continuidade a uma das narrativas mais cruas e humanas da banda desenhada contemporânea europeia, mergulhando novamente no caos social e moral da Rússia dos anos 90. Este segundo volume aprofunda as consequências das escolhas das suas personagens, num cenário marcado por ambição, queda e procura de identidade.

Após a violenta rutura com Slava, o destino de Lavrine revela-se particularmente sombrio. Abandonado por Troubetskoï numa aldeia isolada, mutilado e sem recursos, Lavrine transforma-se numa figura quase fantasmagórica. A sobrevivência ainda depende dos seus velhos truques — enganar e explorar a boa vontade alheia —, mas algo mudou profundamente: perdeu o impulso, o apetite pelo lucro fácil que antes definia a sua existência. O volume constrói, assim, um retrato poderoso de um homem em colapso, confrontado com o vazio das suas próprias escolhas. Essa dimensão introspectiva levanta uma questão central: poderá Lavrine, no meio da dor e da dúvida, reencontrar um propósito? A narrativa conduz o leitor por esse território incerto, onde redenção e desespero coexistem.

Em paralelo, Slava segue um percurso igualmente tenso, embora de natureza diferente. Dividido entre os negócios arriscados com Troubetskoï — fundamentais para salvar a mina — e a sua relação clandestina com Nina, Slava vê-se enredado numa teia de perigos pessoais e profissionais. A situação complica-se ainda mais com a presença de Arkady, noivo de Nina, cuja eventual descoberta do caso poderá ter consequências explosivas.

Gomont constrói este volume com um equilíbrio notável entre tensão narrativa e profundidade psicológica. Mais do que uma história de crime ou sobrevivência, Os Novos Russos é uma reflexão sobre identidade, ambição e perda num período histórico marcado por transformações brutais.

Slava 2: Os Novos Russos, Pierre-Henry Gomont, ASA, cor, capa dura, 20,90€