quinta-feira, 28 de maio de 2026

A trilogia CoBrA aproxima-se do fim: “CoBrA – Porto” chega para encerrar a saga da Ala dos Livros

Depois de Operação Goa e Operação Conacri — esta última dividida em dois volumes — a Ala dos Livros prepara-se para fechar um dos mais ambiciosos projectos de ficção histórica da BD portuguesa contemporânea. O capítulo final da trilogia criada por Marco Calhorda chama-se “CoBrA – Porto” e promete um desfecho intenso, agora com arte assinada por Paulo Montes.

Se Operação Goa contou com ilustração de Daniel Maia e Operação Conacri reuniu os traços de Zoran Jovicic e Osvaldo Medina, cabe agora a Paulo Montes assumir integralmente a componente visual do derradeiro álbum da série.

A narrativa transporta-nos para o início dos anos 1980, mais de uma década após o assalto a Conacri. Portugal vive tempos de instabilidade política e social, marcados por uma vaga de acções terroristas alimentadas por conflitos ideológicos e pelas tensões herdadas do período revolucionário. É neste contexto que regressamos a Afonso Costa e Ivone Reis, personagens centrais no universo CoBrA, ainda no activo e envolvidos nas investigações da Polícia Judiciária para desmontar as FP-25.

Entre memórias do passado, mudanças profundas no país e feridas ainda abertas, CoBrA – Porto apresenta-se como um brutal ajuste de contas — uma história de vingança, ideologia e sobrevivência, construída sobre um sólido pano de fundo histórico.

Tomando como enquadramento os anos mais violentos da actividade das FP-25 — organização responsável por mais de duas dezenas de mortos e dezenas de feridos, tornando-se a mais mortífera organização terrorista da história contemporânea portuguesa —, a obra assume-se como ficção baseada em acontecimentos reais, explorando um dos períodos mais conturbados do pós-25 de Abril.

Os volumes anteriores, CoBrA – Operação Goa e CoBrA – Operação Conacri, estiveram nomeados em categorias como Melhor Obra de BD de Autor Português nos Prémios de BD da Amadora 2022, Melhor Ilustração em Obra Nacional no 4.º Prémio Bandas Desenhadas 2022 e Melhor Argumento de Autor Português nos Vinhetas d’Ouro.

Para os leitores que acompanharam a série desde o início — e também para os interessados em ficção histórica ancorada na história recente de Portugal —, CoBrA – Porto perfila-se como uma edição incontornável e o culminar de uma saga que soube cruzar espionagem, memória histórica e thriller político com rara ambição na BD portuguesa.

CoBrA - Porto, Marco Calhorda e Paulo Montes, Ala dos Livros, 88 pp., p&b, capa dura, 21,90€

segunda-feira, 25 de maio de 2026

XXI Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja


De 5 a 21 de Junho, Beja volta a afirmar-se como uma das capitais portuguesas da nona arte com a realização do XXI Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, uma iniciativa já consolidada no panorama cultural nacional e internacional. Organizado pela Câmara Municipal de Beja, o festival mantém a aposta numa programação diversificada, reunindo exposições, encontros com autores, apresentações de livros e momentos de convívio em torno da banda desenhada, atraindo artistas, editores, leitores e curiosos à cidade alentejana.  

A edição deste ano contará com 15 exposições, reunindo autores de diferentes geografias e sensibilidades estéticas, numa demonstração da diversidade criativa que caracteriza a BD contemporânea. Entre os nomes já anunciados figuram autores de Portugal, França, Brasil, Canadá e Suíça, como Benjamin Bachelier, Thomas Ott, Philippe Girard, Beatriz Brajal, Diniz Conefrey ou Inês Louro. Paralelamente, haverá espaço para exposições coletivas e temáticas, entre as quais “Aventureras gráficas”, “Dracula in Comics”, “Portugal em Bruxelas”, “H-ALT” e “Toupeira – Há movimento debaixo da terra”, reforçando a dimensão internacional do evento.  

Como é tradição, o primeiro fim de semana do festival — entre 5 e 7 de Junho — deverá concentrar grande parte da presença dos autores convidados, com sessões de autógrafos, conversas, apresentações editoriais e momentos de contacto direto com o público, transformando Beja num ponto de encontro privilegiado para os apaixonados pela banda desenhada. O festival continua também a afirmar-se como um espaço de descoberta de novos talentos e de celebração de diferentes linguagens narrativas e gráficas.  

Ao longo dos anos, o Festival Internacional de BD de Beja conquistou um lugar de referência no circuito cultural português, muito associado ao trabalho desenvolvido pela Bedeteca de Beja e ao dinamismo de uma comunidade dedicada à promoção da banda desenhada. A realização da 21.ª edição acontece ainda num momento particularmente simbólico para a cidade, numa altura em que continua a ganhar forma o futuro Museu da Banda Desenhada de Beja, previsto para reforçar o papel do concelho como centro nacional desta expressão artística.

sábado, 23 de maio de 2026

A raposa malvada

Uma raposa magricela quer afirmar-se como um predador temível. Mas entre um coelho distraído, um porco jardineiro, um cão preguiçoso e uma galinha de temperamento difícil, os seus planos parecem condenados ao fracasso.

Depois de perceber que as suas estratégias habituais não funcionam, a raposa decide mudar de método: roubar ovos, criar os pintainhos e, no momento certo, assustá-los… para depois os comer. No entanto, tudo se complica quando os pequenos a reconhecem como mãe e um inesperado instinto maternal começa a transformar os seus planos.

Com humor, ritmo e personagens improváveis, A Raposa Malvada apresenta uma história sobre identidade, convivência e os laços que surgem nos lugares menos esperados.

Benjamin Renner (França, 1983) é autor de banda desenhada, realizador e animador. Tornou-se amplamente conhecido como co-realizador do filme de animação Ernest & Celestine, nomeado para o Óscar de Melhor Filme de Animação em 2014. Em 2015 publicou A Raposa Malvada (Le Grand Méchant Renard), obra que viria a adaptar ao cinema em 2017, no filme The Big Bad Fox and Other Tales, também realizado por si. Mais recentemente, realizou o filme de animação Migration (2023).

A adaptação cinematográfica de A Raposa Malvada recebeu vários reconhecimentos internacionais, incluindo o César de Melhor Filme de Animação (2018) e o Lumière Award de Melhor Filme de Animação (2018), além de nomeações para os Annie Awards nas categorias de realização e animação. Benjamin Renner foi também nomeado para o Óscar de Melhor Filme de Animação por Ernest & Celestine (2014).

A raposa malvada, Benjamin Renner, Arte de Autor, 192 pp., capa dura, cor, 25€

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Novela Gráfica - IX série #1: A Aranha de Mashhad - Viagem a um Irão desconhecido

O arranque da IX série de Novelas Gráficas, fruto da parceria entre o jornal Público e a editora Levoir, faz-se com um regresso a um autor já conhecido dos leitores portugueses: Mana Neyestani. Depois de Uma Metamorfose Iraniana, obra autobiográfica em que relatava a prisão e perseguição sofridas no Irão após um cartoon ter sido interpretado pelas autoridades como ofensivo, o autor iraniano apresenta agora A Aranha de Mashhad, uma narrativa intensa inspirada em factos reais que mergulha nas contradições sociais, religiosas e morais do Irão contemporâneo.  

Baseada num caso verídico que abalou o país no início dos anos 2000, a novela gráfica acompanha a história de Saeed Hanaei, conhecido pela imprensa como “a aranha de Mashhad”, responsável pelo assassinato de 16 mulheres — maioritariamente prostitutas ou toxicodependentes — na cidade sagrada de Mashhad. Hanaei justificava os crimes como uma missão moral e religiosa, acreditando estar a “purificar” a sociedade. O caso tornou-se particularmente perturbador não apenas pela violência dos actos, mas também pelo apoio que parte da população demonstrou ao assassino após a sua detenção, revelando as tensões entre fanatismo religioso, marginalização social e justiça.  

Mais do que uma reconstituição criminal, A Aranha de Mashhad afirma-se como uma investigação sobre os mecanismos de exclusão numa sociedade profundamente marcada pelo conservadorismo. Combinando entrevistas reais, elementos documentais e dramatização gráfica, Neyestani constrói um retrato multifacetado que não se limita ao olhar do assassino, dando igualmente voz às vítimas, às suas famílias, às autoridades e ao contexto cultural da cidade de Mashhad, um dos centros religiosos mais conservadores do Irão.  

O lançamento deste volume inaugura uma nova série da colecção de novelas gráficas com uma obra exigente e politicamente relevante, confirmando a aposta do Público e da Levoir em títulos que cruzam qualidade artística, reportagem e reflexão histórica. Ao mesmo tempo, reforça a presença de Mana Neyestani no catálogo português, um autor cuja obra continua a oferecer um olhar raro e incisivo sobre um Irão muitas vezes desconhecido do grande público.  

Novela Gráfica - IX série #1: A Aranha de Mashhad - Viagem a um Irão desconhecido, Mana Neyestani, Público/Levoir, 172 pp., p&b, capa dura, 16,90€

quinta-feira, 21 de maio de 2026

As linhas que traçam o meu corpo

Uma obra autobiográfica sobre crescer no Irão enquanto mulher, sob um sistema de controlo e violência marcado pela desigualdade de género.

Em As Linhas que Traçam o Meu Corpo, Mansoureh Kamari revisita a infância e adolescência em Teerão, retratando as restrições impostas às mulheres desde cedo: proibições quotidianas, medo constante, assédio e a ausência de autonomia sobre o próprio corpo e destino. O livro aborda também a fuga da autora do Irão e o percurso de reconstrução da sua liberdade.

Com argumento e desenho da própria Mansoureh Kamari, esta novela gráfica cruza memória pessoal e testemunho social, oferecendo um retrato da condição feminina no Irão contemporâneo.

Mansoureh Kamari nasceu e cresceu em Teerão, no Irão, onde se formou em desenho industrial. Apaixonada pelo cinema de animação, mudou-se para França em 2011 e prosseguiu os estudos na escola Gobelins, em Paris. Desde 2015 trabalha como character designer para estúdios de animação em França e noutros países. As Linhas que Traçam o Meu Corpo é a sua estreia na banda desenhada. 

As Linhas que Traçam o Meu Corpo, Mansoureh Kamari, Arte de Autor, 200 pp., cor, capa dura, 25€