25 de março de 2026

Murena #13 – As Neronia: o fogo da retórica e da ambição

O décimo terceiro volume de Murena, intitulado As Neronia, marca mais um capítulo na monumental recriação da Roma imperial por Jean Dufaux. Com a série a entrar numa fase mais sombria e politicamente densa, este novo tomo mergulha na arena do poder, onde palavra e espectáculo se confundem sob o olhar imprevisível de Nero.

No centro deste volume surge Lúcio Crasso (L. Crassus), jovem cuja reputação não assenta em heranças nem em protecções, mas na força da sua própria eloquência. Ainda em idade precoce, Crasso conquista notoriedade através de uma acusação pública memorável — gesto audaz numa Roma onde a retórica é arma e escudo.

Dufaux sublinha o contraste: numa fase da vida em que muitos são apenas celebrados por promessas, Crasso já triunfa nos tribunais. A sua presença na corte revela ambição, mas também uma consciência aguda de que, no coração do Império, o verbo pode ser tão letal quanto a lâmina.

As “Neronia” referem-se aos jogos instituídos por Nero — competições artísticas e atléticas concebidas à imagem dos festivais gregos. Mais do que celebração cultural, estes jogos funcionam como instrumento político: distraem o povo, consolidam a imagem do imperador-artista e reforçam a teatralização do poder. Neste contexto, a tensão dramática intensifica-se. A Roma de Murena não é apenas cenário histórico; é um palco onde cada gesto tem peso simbólico. O espectáculo público ecoa as intrigas privadas, e a linha entre justiça e encenação torna-se perigosamente ténue.

Jean Dufaux mantém a sua marca: diálogos densos, quase teatrais, carregados de subtexto. A intriga avança menos pela acção física e mais pelo embate ideológico e moral. A juventude de Crasso serve de contraponto à decadência progressiva do regime de Nero, num jogo subtil entre idealismo e corrupção.

A série, que desde o início tem explorado as zonas de sombra do poder imperial, ganha aqui uma dimensão particularmente política. A retórica, a justiça e a manipulação mediática surgem como temas centrais — surpreendentemente actuais.

Este novo tomo não é apenas mais um capítulo: é uma afirmação da maturidade da série. Roma arde — não necessariamente em chamas, mas na febre da palavra, da e vaidade e do poder.

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Murena #13: As Neronia, Jean Dufaux e Jeremy, ASA, 56 pp., cor, capa dura, 17,90€

Lançamento: Simone de Beauvoir – Quero Tudo da Vida

A vida e o pensamento de Simone de Beauvoir continuam a inspirar gerações — e agora ganham uma nova abordagem acessível e visual com o lançamento de Simone de Beauvoir – Quero Tudo da Vida, das autoras Julia Korbik e Julia Bernhard.

Desde muito jovem, numa época em que as mulheres eram privadas de direitos fundamentais como estudar, votar ou escolher livremente a sua profissão, Simone de Beauvoir destacou-se por desafiar convenções. Movida por uma curiosidade insaciável e por uma recusa firme em aceitar papéis impostos, embarcou numa jornada profundamente pessoal: a de construir a sua própria identidade.

Filósofa existencialista e autora da obra marcante O Segundo Sexo, Beauvoir revolucionou a forma como a sociedade encara o papel da mulher. O seu pensamento continua atual, influenciando debates sobre igualdade, liberdade e identidade.

Neste novo livro, Korbik e Bernhard oferecem um retrato multifacetado de Beauvoir — não apenas como intelectual, mas também como filha, amiga e mulher. A obra destaca-se pela sua abordagem visual apelativa, com ilustrações a cores que tornam a leitura mais dinâmica e envolvente, aproximando o público contemporâneo do legado da pensadora. Mais do que uma biografia tradicional, Quero Tudo da Vida convida o leitor a mergulhar nas questões que marcaram a vida de Beauvoir: a condição feminina, a sexualidade e a busca pela liberdade.

Num momento em que as questões de género e igualdade continuam no centro do debate público, esta obra surge como uma leitura relevante e inspiradora. Ao apresentar Simone de Beauvoir de forma acessível e visual, torna o seu pensamento mais próximo de leitores de todas as idades.

Simone de Beauvoir – Quero Tudo da Vida não é apenas uma homenagem — é um convite a pensar, questionar e, sobretudo, a viver com a mesma intensidade e liberdade que marcaram a vida desta pensadora extraordinária.

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Simone de Beauvoir – Quero Tudo da Vida,  Julia Korbik e Julia Bernhard, Iguana, 224 pp., cor, capa dura, 21,95€

24 de março de 2026

Sétimo Homem e outros contos

Um homem desaparece entre andares. Um sapo gigante tenta salvar Tóquio. Uma jovem recebe a promessa de um desejo único.

Em Sétimo Homem e Outros Contos, o insólito instala-se no quotidiano com uma naturalidade desconcertante, dando forma a um universo onde o real e o fantástico coexistem sem fronteiras definidas.

Esta obra reúne nove narrativas ilustradas adaptadas a partir de contos de Haruki Murakami, sob a interpretação visual e narrativa de Jean-Christophe Deveney e PMGL. A edição original foi publicada em França, em 2023, com o título Le Septième Homme et autres récits, antes de chegar a outros mercados internacionais.

As histórias que compõem o volume foram inicialmente publicadas no Japão em formato literário, integrando várias colectâneas de Murakami ao longo das décadas. Nesta versão ilustrada, ganham nova dimensão estética, com um traço que reforça o lado onírico, melancólico e por vezes tragicómico tão característico do autor japonês. Entre desaparecimentos inexplicáveis, insónias obsessivas e criaturas improváveis que emergem no coração das grandes cidades, o livro recria esse espaço tão caro a Murakami: a fronteira onde o banal se funde com o extraordinário. O resultado é um cenário poético e ligeiramente barroco, onde o absurdo convive com emoções profundamente humanas como a solidão, o medo e o desejo.

Haruki Murakami é um dos mais reconhecidos escritores contemporâneos do Japão e uma figura central da literatura mundial. Nascido em 1949, em Quioto, destacou-se a partir da década de 1980 com romances que combinam realismo mágico, cultura pop, jazz, solidão urbana e elementos surrealistas. Autor de obras como Norwegian Wood, Kafka à Beira-Mar e 1Q84, Murakami construiu um estilo inconfundível, marcado por atmosferas enigmáticas, personagens introspectivas e acontecimentos inexplicáveis tratados com aparente normalidade. A sua escrita explora frequentemente temas como identidade, memória, perda e a permeabilidade entre mundos.

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Sétimo Homem e outros contos, Jean-Christophe Deveney e PMGL, Casa das Letras, 424 pp., cor, capa mole, 31,90€

Coimbra BD


O regresso do Coimbra BD promete transformar a cidade de Coimbra num verdadeiro ponto de encontro para fãs de banda desenhada, cultura pop e criatividade contemporânea. Entre os dias 24 e 26 de Abril, o evento volta a ocupar o emblemático Convento São Francisco (CSF), desta vez com uma área expositiva ampliada e uma programação ainda mais diversificada.

A edição de 2026 destaca-se pela expansão do espaço, com a inclusão da Antiga Igreja do CSF, permitindo acolher mais exposições, atividades e visitantes. Organizado pela Câmara Municipal de Coimbra, o evento mantém a entrada gratuita, reforçando o seu compromisso com a acessibilidade e a promoção cultural.

O cartaz reúne nomes importantes da banda desenhada nacional e internacional. Entre os autores confirmados estão Daniel Maia, Luís Louro, Osvaldo Medina, Ricardo Cabral, João Mascarenhas, Filipe Abranches, André Carrilho, os irmãos Duarte e Henrique Gandum, e ainda o espanhol Ángel de la Calle.

Para além das sessões de autógrafos, os visitantes terão a oportunidade de conhecer de perto o trabalho destes artistas e descobrir novos talentos na área de Artists’ Alley, um espaço dedicado à criatividade independente.

O festival apresenta um conjunto de exposições que cruzam estilos e narrativas, como:

Butterfly Chronicles, de João Mascarenhas

Distopias e Metamorfoses: os Clássicos Ilustrados, de André Carrilho

Rattlesnake, de João Amaral

Kachisou: Entre a BD e Ilustração, da artista japonesa Kachisou

A programação inclui ainda cinema, lançamentos editoriais, workshops e demonstrações de jogos, incluindo sessões de Dungeons & Dragons.

Uma das grandes novidades deste ano é o reforço do cosplay, com a realização — pela primeira vez em Portugal — de uma eliminatória do Cosplay Central Crown Championships. Esta competição irá selecionar o representante nacional para a final internacional em Londres, elevando o evento a um novo patamar no circuito global. Além disso, regressa o tradicional concurso de cosplay aberto ao público, bem como encontros com cosplayers convidados.

O Coimbra BD aposta numa programação inclusiva, com conteúdos dedicados a mangá, anime e K-Pop, bem como uma área de gaming com consolas, realidade virtual, PC gaming e retrogaming.

As famílias também encontram um espaço dedicado às crianças, com atividades como Horas do Conto, oficinas de pintura e desenho e workshops criativos.

Com horários alargados — das 10h00 às 20h00 nos dias 24 e 25, e até às 18h00 no dia 26 — o Coimbra BD 2026 afirma-se como um dos principais eventos culturais da região. A produção está a cargo da GuessTheChoice, sendo esperado o anúncio detalhado do programa completo em breve.

Se és fã de banda desenhada, ilustração ou cultura pop, este é um evento obrigatório na agenda de Abril.

“O Sr. Agricultor” — humor, simplicidade e humanidade no quotidiano

Publicado em 2026, O Sr. Agricultor, de Rohini Nilekani, com ilustrações de Angie & Upesh, é um livro infantil que reúne pequenas histórias em torno de uma personagem tão excêntrica quanto cativante: Sringeri Srinivas.

O protagonista é um agricultor de uma pequena aldeia, conhecido pelo seu ar rabugento e comportamento imprevisível — mas, paradoxalmente, muito querido por todos. As histórias acompanham episódios do seu quotidiano, marcados por situações simples que ganham contornos inesperados e humorísticos.

O livro insere-se num conjunto mais amplo de histórias protagonizadas pela mesma personagem, originalmente publicadas pela editora indiana Pratham Books.

Títulos como Too Many Bananas ou Annual Haircut Day exploram o mesmo universo, centrado no humor e em situações do quotidiano rural. 

Este contexto ajuda a perceber que O Sr. Agricultor não é apenas um livro isolado, mas parte de uma espécie de “ciclo” narrativo, onde a repetição da personagem reforça a identificação do jovem leitor.

Rohini Nilekani é uma filantropa, autora e ex-jornalista indiana. Reconhecida pelo seu impacto no sector social da Índia ao longo de décadas. Escreveu diversas obras, desde thrillers médicos a livros infantis populares.

Angie & Upesh são Angeline S. Pradhan e Upesh Pradhan, uma dupla de ilustradores e designers indianos, conhecidos pelo seu trabalho em ilustração. Mas não só, também são reconhecidos como autores de outras formas de artes manuais.

Para os interessados, a obra está disponível em https://linktr.ee/faeditora

O Sr. Agricultor, Rohini Nilekani e Angie & Upesh, FA, 44 pp., cor, capa mole, 17,90€ (e-book: 7,99€)

Há monstros debaixo da minha cama? — A imaginação sem limites de Calvin & Hobbes regressa às livrarias

As aventuras de Calvin e do seu inseparável tigre de peluche Hobbes continuam a conquistar leitores em todo o mundo. Publicadas pela primeira vez em Novembro de 1985, as tiras desta série tornaram-se um fenómeno internacional, traduzido em mais de quarenta línguas e com cerca de trinta milhões de exemplares vendidos. Agora, os leitores portugueses têm novamente a oportunidade de mergulhar neste universo com a reedição do livro “Há monstros debaixo da minha cama?”, lançada pela Gradiva.

O volume corresponde à edição original “Something Under the Bed Is Drooling”, publicada em 1988, e reúne um conjunto de tiras que acompanharam os primeiros anos de sucesso da série nos jornais. Nelas encontramos o humor inteligente, a imaginação exuberante e a visão irreverente do mundo que tornaram estas personagens tão queridas por várias gerações.

Calvin é um rapaz de seis anos com uma imaginação ilimitada. Num momento pode estar a lutar contra monstros escondidos debaixo da cama e, no instante seguinte, transforma-se num astronauta destemido ou num explorador intergaláctico. Ao seu lado está sempre Hobbes, o tigre de peluche que, aos olhos de Calvin, ganha vida própria e participa nas suas aventuras, partilhando reflexões inesperadamente profundas e comentários sarcásticos sobre o quotidiano.

A reedição de “Há monstros debaixo da minha cama?” surge como uma excelente oportunidade para novos leitores descobrirem o universo de Calvin & Hobbes e para os fãs de longa data revisitarem algumas das histórias mais memoráveis da dupla. Num tempo em que o humor rápido domina as redes sociais, estas tiras recordam-nos que a imaginação, a curiosidade e o espírito crítico continuam a ser ingredientes essenciais para olhar a realidade com outros olhos.

Mais do que simples banda desenhada, Calvin & Hobbes permanece um clássico intemporal que continua a fazer rir, pensar e sonhar.

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Calvin & Hobbes: Há monstros debaixo da minha cama?. Bill Watterson, Gradiva, 128 pp., p&b, capa mole, 13,99€

23 de março de 2026

Hermann [1938-2026]

O desenhador belga Hermann Huppen, conhecido artisticamente apenas como “Hermann”, faleceu a 22 de Março de 2026, aos 87 anos, deixando uma das carreiras mais marcantes da banda desenhada europeia.

Hermann nasceu a 17 de Julho de 1938, em Malmedy, na Bélgica. Antes de se dedicar aos quadradinhos, formou-se em marcenaria e trabalhou como designer de interiores. Entrou no mundo da banda desenhada nos anos 1960, publicando as primeiras histórias na revista Spirou. O seu talento foi rapidamente reconhecido pelo argumentista Greg, com quem colaborou em várias séries iniciais. A partir do final da década de 1970, começou a escrever também os seus próprios argumentos, afirmando-se como autor completo. Desenvolveu um estilo realista, frequentemente sombrio, marcado por uma visão crítica da sociedade e da natureza humana.

Hermann construiu uma obra extensa e influente, com séries que se tornaram clássicos da banda desenhada franco-belga:

Jeremiah (desde 1979) – A sua obra mais famosa, uma série pós-apocalíptica que viria a ser adaptada para televisão.  

Bernard Prince (1969–1980) – Série de aventura marítima criada com Greg.

Comanche (1972–1983) – Um western de referência na BD europeia. 

Jugurtha (1975–1977) – Série histórica ambientada na Antiguidade. 

As Torres de Bois-Maury (desde 1983) – Saga medieval mais introspectiva e realista.

Além destas séries, produziu diversos álbuns independentes, como Sarajevo Tango ou Caatinga, este último ambientado no Nordeste brasileiro, além de vários trabalhos com o seu filhos Yves como argumentista.

Ao longo da carreira, Hermann recebeu numerosos prémios importantes no mundo da banda desenhada:

Prix Saint-Michel (1973 e 1980);

Grande Prémio Saint-Michel (2002);

Prémios Haxtur (Espanha), incluindo melhor álbum (1992) e melhor desenho (2001);

Grande Prémio da Cidade de Angoulême (2016), uma das maiores distinções da BD mundial;

Troféu HQ Mix (Brasil, 1999), pelo álbum Caatinga.

Hermann é considerado um dos grandes mestres da banda desenhada europeia. A sua obra destacou-se pelo realismo gráfico, pela complexidade psicológica das personagens e por narrativas frequentemente duras e desencantadas. Com séries como Jeremiah ou Les Tours de Bois-Maury, influenciou várias gerações de autores e ajudou a consolidar a banda desenhada como forma de arte adulta e literária.

Ensaio de quadriculografia portuguesa