sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Estamos Todas Bem: Ana Penyas dá voz às mulheres esquecidas pelo franquismo

O Público e a Levoir lançaram hoje Estamos Todas Bem, de Ana Penyas, uma das obras mais premiadas e marcantes da banda desenhada espanhola dos últimos anos. Um livro profundamente íntimo que recupera, através das memórias das avós da autora, a experiência de toda uma geração de mulheres cuja história raramente encontrou lugar na narrativa oficial.

Publicada originalmente em Espanha com o título Estamos todas bien, a obra valeu a Ana Penyas, em 2018, o Prémio Nacional de Banda Desenhada de Espanha, tornando-a a primeira mulher a receber esta distinção.

Ana Penyas parte das memórias das suas duas avós, Maruja e Herminia, para reconstruir vidas aparentemente comuns, mas representativas de milhões de mulheres espanholas que atravessaram a Guerra Civil, a ditadura franquista e, mais tarde, a transição para a democracia. Não estamos perante uma biografia convencional nem uma grande narrativa histórica. A História surge através do quotidiano: o casamento, a maternidade, o trabalho doméstico, a educação dos filhos, a religião, as convenções sociais, as renúncias e o lugar reservado às mulheres numa sociedade profundamente conservadora.

Penyas olha para aquilo que habitualmente ficou fora dos relatos sobre o franquismo: como viviam as mulheres dentro de casa, o que lhes era permitido desejar, aquilo a que tiveram de renunciar e de que forma envelheceram depois de uma vida construída em função dos outros.

Um dos aspetos mais interessantes de Estamos Todas Bem é a forma como passado e presente se cruzam constantemente.

A autora acompanha, por exemplo, a rotina atual de Maruja. A idade tornou difícil aquilo que anteriormente era banal. Uma pequena caminhada entre o parque e casa transforma-se num percurso demorado e cansativo. A solidão, o envelhecimento e uma cidade pouco preparada para quem perdeu mobilidade fazem parte desse presente. As memórias invadem o presente e as vozes das duas mulheres conduzem-nos a outras épocas, permitindo perceber não apenas aquilo que viveram, mas também a forma como hoje recordam essas experiências.

Fotografias antigas são apropriadas e transformadas pelo desenho; imagens domésticas ganham um novo significado quando colocadas perante os testemunhos das protagonistas; fragmentos de conversas revelam muito mais do que longas explicações históricas. A autora não precisa de dramatizar artificialmente as vidas que retrata. Deixa que sejam Maruja e Herminia a falar e permite que os silêncios, os gestos e as imagens completem aquilo que as palavras não dizem.

Estamos Todas Bem é também uma obra assumidamente feminista, não porque transforme as suas protagonistas em heroínas exemplares, mas porque lhes devolve um espaço que durante demasiado tempo lhes foi negado. Penyas questiona uma memória histórica tradicionalmente construída em torno das experiências masculinas e pergunta implicitamente: onde estavam as mulheres enquanto tudo isto acontecia? Estavam em casa, a criar os filhos, a trabalhar, a cuidar dos familiares, a obedecer às convenções impostas pela ditadura e pela Igreja, a sobreviver e, muitas vezes, a abdicar dos seus próprios projectos.

Nascida em Valência, em 1987, Ana Penyas estudou Design Industrial e Belas-Artes na Universidade Politécnica de Valência e começou por se destacar no campo da ilustração.

Em 2017, venceu o Prémio Internacional de Banda Desenhada Fnac-Salamandra, que possibilitou a publicação de Estamos todas bien, a sua primeira novela gráfica.

O reconhecimento foi imediato. Em 2018 recebeu o prémio de Autora Revelação no Salón Internacional del Cómic de Barcelona e, sobretudo, o Prémio Nacional de Banda Desenhada, atribuído pelo Ministério da Cultura espanhol. Pela primeira vez desde a criação do galardão, em 2007, uma mulher conquistava o prémio. Não deixa de ser particularmente significativo que essa distinção tenha sido atribuída precisamente a uma obra dedicada a retirar do silêncio as mulheres de uma geração anterior.

Estamos todas bem (Colecção Novela Gráfica - IX série, n.º 8), Ana Penyas, Levoir, 120 pp., cor, capa dura, formato italiano, 16,90€ 

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

NAU lança programa de cursos sobre a História da Banda Desenhada Portuguesa

A plataforma NAU acaba de lançar o programa online A História da Banda Desenhada em Portugal, desenvolvido em parceria com João Miguel Lameiras, especialista em BD, professor universitário e responsável pela livraria Dr. Kartoon, em Coimbra.

O programa propõe uma viagem por mais de 140 anos de banda desenhada portuguesa, mostrando como a nona arte acompanhou as transformações políticas, sociais e culturais do país.

A formação divide-se em dois cursos: A Banda Desenhada Portuguesa do Zé Povinho ao 25 de Abril, dedicado às origens e à evolução da BD nacional até ao final do Estado Novo, e A Banda Desenhada Portuguesa da Revolução aos Dias de Hoje, que acompanha as mudanças ocorridas depois de Abril de 1974 e a evolução até à criação contemporânea.

Para João Miguel Lameiras, a iniciativa pretende chegar não apenas aos leitores habituais de BD, mas a um público mais vasto, contribuindo para dar a conhecer a riqueza da banda desenhada portuguesa e a qualidade dos seus autores.

Uma excelente oportunidade para descobrir — ou redescobrir — uma parte importante do nosso património cultural.

A História da Banda Desenhada em Portugal – NAU

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Blacksad: Amarillo regressa em nova edição pela Ala dos Livros

Mais de duas décadas depois da primeira edição portuguesa, Amarillo regressa às livrarias numa nova edição da Ala dos Livros, agora acompanhada por um caderno de extras.

Publicado originalmente em Portugal pela Arcádia, Amarillo é o quinto álbum de Blacksad, a série criada por Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido. A nova edição da Ala dos Livros recupera uma das aventuras mais marcadamente americanas do detective John Blacksad.

Depois dos acontecimentos em Nova Orleães, Weekly decide partir, enquanto John prefere ficar e procurar trabalho. A oportunidade surge através de um texano abastado, que lhe propõe uma tarefa aparentemente simples e bem remunerada: conduzir o seu automóvel até casa. Mas a viagem depressa se complica. Numa bomba de gasolina, o carro é roubado por Chad Lowell e Abe Greenberg, dois escritores beatniks a caminho de Amarillo, no Texas. A rivalidade entre ambos termina em tragédia quando Chad dispara sobre Abe e se vê obrigado a fugir, procurando refúgio num circo.

Blacksad parte então no seu encalço, numa viagem pelas estradas dos Estados Unidos que o leva através do Novo México e do Colorado, cruzando-se com escritores, artistas de circo e outras personagens à margem da sociedade.

Amarillo combina assim a investigação policial característica de Blacksad com uma narrativa de estrada, tendo como pano de fundo a América da geração beat.

A nova edição da Ala dos Livros inclui ainda um caderno de extras, constituindo uma oportunidade para recuperar este quinto capítulo da série numa edição renovada.

Blacksad #5: Amarillo, Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido, Ala dos Livros, 88 pp., cor, capa dura, 29,90€

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Carlota Imperatriz: a conclusão da tetralogia

A Ala dos Livros conclui a publicação portuguesa de Carlota Imperatriz, a ambiciosa tetralogia histórica de Fabien Nury (argumento) e Matthieu Bonhomme (desenho), dedicada ao trágico destino de Carlota da Bélgica, mulher de Maximiliano de Habsburgo e imperatriz do México.

Publicada originalmente pela Dargaud, em França, entre 2018 e 2025, a série é constituída por quatro álbuns: La Princesse et l’Archiduc, L’Empire, Adios, Carlotta e Soixante ans de solitude. A edição portuguesa reúne a tetralogia em dois volumes integrais, cada um contendo dois dos álbuns originais. O terceiro volume francês, Adios, Carlotta, foi publicado em Maio de 2023, enquanto o derradeiro Soixante ans de solitude chegou às livrarias francesas em Abril de 2025.

Neste segundo integral encontramos, portanto, Adiós Carlotta (Adios, Carlotta, 2023) e Sessenta Anos de Solidão (Soixante ans de solitude, 2025).

Na ausência de Maximiliano, e apoiada pelo coronel Alfred van der Smissen, por quem sente uma crescente atracção, Carlota assume as rédeas do Império Mexicano. Mas o regresso do marido coincide com o agravamento da situação: as revoltas multiplicam-se e a França prepara-se para retirar as suas tropas do México. Entretanto, Maximiliano deseja desesperadamente assegurar um herdeiro, enquanto Carlota, conhecedora da doença do marido, se recusa a partilhar o leito com ele.

A situação leva a imperatriz a atravessar novamente o Atlântico, procurando na Europa apoios para salvar Maximiliano e o império. Encontra, porém, portas que se fecham e aliados cada vez mais escassos. Abandonada e progressivamente dominada pela perturbação mental, Carlota inicia o longo e doloroso período de isolamento que marcará o resto da sua vida. O quarto álbum encerra expressamente a quadrilogia de Nury e Bonhomme.

Com Sessenta Anos de Solidão, chega assim ao fim uma das mais interessantes séries históricas franco-belgas dos últimos anos: o retrato de uma mulher colocada no centro dos jogos políticos e dinásticos da Europa do século XIX, cujo sonho imperial mexicano acabaria por se transformar numa tragédia pessoal que se prolongou por seis décadas.

Carlota Imperatriz (2/2), Fabien Nury e Matthieu Bonhomme, Ala dos Livros, 168 pp., cor, capa dura, 35€

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Soli Deo Gloria: Uma novidade da Ala dos Livros

Nascidos sob o céu sombrio do Sacro Império Romano-Germânico, Hans e Helma estavam destinados a uma vida de dificuldades e pobreza. O seu talento para a música e seu amor por ela ofereciam-lhes esperança; um vislumbre de luz na sua existência escura e desoladora. Após o desaparecimento da sua família, foram acolhidos por um músico eremita que os apresentou aos ricos sons da natureza. Mais tarde, acolhidos num internato religioso, aprenderam o básico da leitura e da teoria musical, o que lhes permitiu decifrar as mais belas partituras da época.

Adoptados por um margrave, um senhor da guerra, descobririam então a beleza dos instrumentos musicais. Os palácios de diversas cidades europeias tornar-se-iam, por fim, testemunhas silenciosas dos seus sucessos, mas também das suas mais amargas decepções.

Inspirando-se nas convenções do romance de formação, Soli Deo Gloria oferece uma história austera, repleta de beleza e esperança. Pela primeira vez, Jean-Christophe Deveney coloca o seu talento para a escrita ao serviço do estilo preciso e elegante de Édouard Cour. Juntos, oferecem uma obra de beleza impressionante.

Soli Deo Gloria, Jean-Christophe Deveney e Édouard Cour, Ala dos Livros, 280 pp., p&b, capa dura, 37,50€

sábado, 22 de agosto de 2026

Libri Impress celebra The Katzenjammer Kids com uma edição monumental restaurada por Manuel Caldas

Com quase 30 anos de atraso em relação ao centenário, a Libri Impress apresenta uma edição que procura fazer justiça a uma das séries fundamentais da história da banda desenhada: The Katzenjammer Kids, de Rudolph Dirks.

Criada em 1897, a série ocupa um lugar incontornável na evolução da BD norte-americana e é frequentemente apontada como uma das primeiras verdadeiras tiras de banda desenhada. Jim Lowe, em The Encyclopedia of American Comics (1990), considera que, independentemente da discussão sobre qual terá sido efectivamente a primeira comic strip, o formato e muitas das convenções desenvolvidas por Dirks em The Katzenjammer Kids estabeleceram um modelo cuja influência se prolongou pelas gerações seguintes.

Agora, a Libri Impress recupera esse património numa edição de grandes dimensões, resultado de um extenso trabalho de restauro realizado por Manuel Caldas, contando também com a colaboração de Antonio Moreno.

O volume apresenta 100 páginas a cores, abrangendo o período de 1897 a 1902,, no generoso formato de 27 × 35 cm, e capa dura. Uma edição pensada para permitir apreciar devidamente o desenho, a composição das páginas e as cores de uma obra que ajudou a estabelecer parte da linguagem da banda desenhada moderna. Encontra-se disponível pelo preço de 42 euros, a que acrescem portes de envio: 7,50 euros para a Península Ibérica, 13,50 euros para a Europa e ilhas e 23 euros para os Estados Unidos. Para outros destinos, os portes deverão ser consultados directamente junto do editor.

A edição foi realizada através de impressão digital, utilizando um papel semelhante ao de jornal, embora de qualidade superior. O editor alerta que, devido ao processo de impressão, alguns exemplares poderão apresentar ocasionalmente pequenas manchas de tinta, circunstância que importa ter em consideração numa edição desta natureza.

Mais do que uma simples recuperação histórica, este lançamento constitui mais um exemplo do trabalho que Manuel Caldas e a Libri Impress têm desenvolvido na preservação e restituição gráfica de clássicos da banda desenhada, frequentemente através de um minucioso trabalho sobre materiais antigos.

The Katzenjammer Kids chega assim, finalmente, à edição comemorativa que o seu centenário, em 1997, não teve. Quase três décadas depois, uma oportunidade para regressar às origens da banda desenhada moderna e descobrir — ou redescobrir — uma obra com mais de um século de história.

Boa Noite, Punpun #6 — quando fugir já não é suficiente

A Devir prossegue a edição portuguesa de Boa Noite, Punpun, de Inio Asano, com o sexto volume de uma das obras mais intensas e perturbadoras do autor japonês.

Depois de tantos encontros e desencontros, Punpun e Aiko estão finalmente juntos. Aquilo que durante anos pareceu um sonho impossível torna-se realidade, e os dois partem em viagem em direcção ao lugar que, ainda em crianças, imaginaram como uma espécie de terra prometida. Mas esta não é propriamente uma fuga feliz. Punpun e Aiko transportam consigo um acontecimento terrível que muda radicalmente a natureza da relação entre ambos. À medida que avançam pela estrada, procurando deixar o passado para trás, o isolamento, a culpa e o desespero tornam-se cada vez mais presentes. O sonho de infância confronta-se agora com uma realidade da qual talvez já não seja possível escapar.

Neste penúltimo volume da edição da Devir, Inio Asano conduz a história para o seu momento mais sombrio. A relação entre Punpun e Aiko, construída ao longo de anos sobre memórias, idealizações e promessas, é finalmente colocada perante aquilo que ambos são no presente. O resultado é uma viagem simultaneamente física e emocional em que amor, dependência, medo e esperança se tornam cada vez mais difíceis de distinguir.

A edição portuguesa em sete volumes segue a organização das edições omnibus. No Japão, Oyasumi Punpun (おやすみプンプン) foi originalmente publicado pela Shogakukan, tendo sido serializado entre 2007 e 2013 e reunido em 13 volumes tankōbon.

O material correspondente a este volume 6 da edição em formato duplo reúne conteúdo dos volumes japoneses 11 e 12, publicados originalmente em 2012 e 2013, respectivamente.

Boa Noite, Punpun 06, Inio Asano, Devir, 480 pp., p&b, capa mole, 20€