3 de abril de 2026

CPBD celebra 50 anos com um ambicioso plano de actividades para 2026

O ano de 2026 será marcante para o Clube Português de Banda Desenhada, que assinala meio século de existência dedicada à promoção, estudo e divulgação da banda desenhada em Portugal. Para celebrar esta data histórica, o CPBD preparou um conjunto diversificado de iniciativas culturais e editoriais, cuja concretização contará com o apoio solicitado à Câmara Municipal da Amadora (CMA), no valor de 7.000 euros.

As comemorações do cinquentenário serão acompanhadas por uma forte identidade visual, com todos os materiais promocionais e publicações a integrarem o logótipo da CMA, em associação com uma imagem especialmente criada para a efeméride: “CPBD – 50 ANOS”.

Entre as actividades previstas, destaca-se a publicação de quatro boletins do CPBD ao longo do ano, incluindo uma edição comemorativa que fará uma retrospectiva dos boletins publicados ao longo das últimas cinco décadas, sublinhando o percurso e o contributo do Clube para a cultura da banda desenhada em Portugal.

No domínio editorial, é previsto o lançamento de um importante catálogo ilustrado das revistas portuguesas de banda desenhada, abrangendo publicações desde 1921 até ao 25 de Abril de 1974. Esta obra, com cerca de 170 páginas já em fase final de revisão, constitui um trabalho de grande relevância histórica e documental. 

Outro destaque será a publicação de um estudo monográfico dedicado à 1ª série da revista Camarada, aprofundando o conhecimento sobre uma das publicações mais emblemáticas da história da banda desenhada portuguesa.

O ponto alto das comemorações será a sessão solene do Cinquentenário do CPBD, a realizar na sede do Clube ou em instalações da Câmara Municipal da Amadora. Este evento incluirá a inauguração de uma exposição dedicada à colecção completa dos boletins do CPBD, acompanhada por uma sessão de entrevistas a personalidades convidadas, que partilharão memórias sobre o papel da banda desenhada na sua formação cultural durante a infância e juventude.

No campo das exposições, estão também previstas mostras dedicadas a dois importantes nomes da banda desenhada nacional: Vítor Péon e Luís Louro, contribuindo para valorizar o trabalho de autores que marcaram diferentes gerações de leitores.

Por fim, o CPBD aposta na modernização da sua presença digital com a criação de um novo site institucional. Este projecto será desenvolvido em colaboração com estudantes de um curso técnico superior profissional (CTeSP) em Marketing Digital, no âmbito de estágios curriculares promovidos pela CMA, garantindo assim uma abordagem contemporânea e sustentável à comunicação do Clube.

Com este conjunto abrangente de iniciativas, o CPBD pretende não apenas celebrar os seus 50 anos de história, mas também reforçar o seu papel como agente cultural ativo, promovendo a banda desenhada junto de novos públicos e preservando a memória do seu rico património.

2 de abril de 2026

Clássicos da literatura portuguesa em BD vão sair em inglês, espanhol e polaco

A editora Levoir vai levar além-fronteiras a colecção de adaptações em banda desenhada de clássicos da literatura portuguesa, com edições previstas em inglês, espanhol e polaco. O primeiro título a ser publicado nestes mercados é Mensagem, de Fernando Pessoa, cuja versão em BD chega esta semana às livrarias em inglês e espanhol, enquanto a edição polaca será lançada pela editora independente Timoff.

A adaptação de Mensagem, com argumento de Pedro Vieira de Moura e ilustração de Susa Monteiro, marcou em 2024 o arranque da coleção “Clássicos da Literatura Portuguesa em BD”, desenvolvida pela Levoir em parceria com a RTP. Desde então, a colecção já ultrapassou uma dezena de volumes publicados.

A expansão internacional não se fica por este título. Na Polónia, estão já confirmadas edições de A Dama Pé-de-Cabra, de Alexandre Herculano, e Maria Moisés, de Camilo Castelo Branco, com lançamento previsto para maio. Seguem-se, nos meses de Junho e Julho, adaptações de Os Lusíadas, de Luís de Camões, A Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente, e O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz.

Em Espanha, além de Mensagem, a Levoir prepara a publicação de vários títulos da colecção, incluindo Os Maias e O Crime do Padre Amaro, ambos de Eça de Queiroz, Livro do Desassossego, novamente de Fernando Pessoa, e Os Lusíadas.

Paralelamente, a editora continua a desenvolver novas adaptações para esta colecção. Entre os próximos projetos estão A Cidade e as Serras, de Eça de Queiroz, A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro, e Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, cujos detalhes de adaptação ainda não foram totalmente revelados.

Com esta aposta, a Levoir reforça a internacionalização da literatura portuguesa através da banda desenhada, tornando obras clássicas mais acessíveis a novos públicos e leitores em diferentes línguas.

1 de abril de 2026

Leituras de BD no mês de Março de 2026

 






Escolhidos 42 autores para receber bolsas de criação literária, BD e infantojuvenil

A atribuição das bolsas de criação literária de 2025 trouxe uma novidade relevante no panorama cultural português: a autonomização da Banda Desenhada (BD) enquanto área específica de apoio, com financiamento próprio e um conjunto dedicado de criadores selecionados.

Pela primeira vez, a BD deixou de estar incluída no programa geral de bolsas de criação literária, passando a integrar uma linha independente, ao lado da literatura infantil e juvenil. Esta mudança reflecte um reconhecimento crescente da BD enquanto forma artística autónoma, com linguagem, público e processos criativos próprios.

No total, foram atribuídas sete bolsas na área da banda desenhada, cada uma no valor de 15 mil euros, integradas num montante global de 270 mil euros que também contempla projetos infantojuvenis. Este apoio anual visa garantir condições para que os autores possam desenvolver os seus projetos com maior estabilidade e dedicação.

Entre os 114 projetos submetidos a concurso na área da BD, apenas sete foram selecionados, evidenciando a elevada competitividade do processo. Os bolseiros escolhidos são Marco Mendes, Ana Margarida Rocha da Silva Matos. Francisco Sousa Lobo, Júlia Barata, Alexandra Maria Lourenço Dias, Joana Morgado Simão e Carlos Baptista Moura Pinheiro.

A diversidade de percursos e estilos entre os selecionados sugere uma aposta em diferentes abordagens narrativas e visuais dentro da BD contemporânea portuguesa.

A criação desta linha específica de financiamento acompanha a evolução da banda desenhada em Portugal, que tem vindo a ganhar visibilidade tanto no mercado editorial como em circuitos internacionais. Autores portugueses têm marcado presença em festivais, exposições e publicações fora do país, consolidando uma cena criativa dinâmica.

Ao destacar a BD com um programa próprio, a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB) reconhece não só o crescimento do setor, mas também a necessidade de respostas mais ajustadas às suas especificidades, desde os tempos de produção até à experimentação gráfica.

O concurso contou com um total de 447 candidaturas nas duas áreas (BD e literatura infantojuvenil), sendo 114 na BD. A taxa de sucesso foi, portanto, bastante reduzida, o que reforça o carácter selectivo e meritocrático da atribuição das bolsas.

O júri responsável integrou o escritor e crítico de banda desenhada João Ramalho-Santos e a especialista em literatura infantil Dora Batalim SottoMayor, assegurando uma avaliação informada e especializada dos projetos apresentados.

Mais do que um apoio financeiro, estas bolsas representam um investimento estratégico no desenvolvimento da banda desenhada portuguesa. Ao permitir que autores se dediquem aos seus projectos durante um ano, contribuem para o surgimento de novas obras, a consolidação de carreiras e o enriquecimento do panorama cultural nacional.

Num contexto em que a BD continua a conquistar novos leitores e a explorar territórios híbridos entre literatura, artes visuais e narrativa gráfica, este tipo de incentivo público poderá revelar-se decisivo para o seu crescimento sustentado.

31 de março de 2026

Entradas na minha biblioteca de BD no mês de Março de 2026

 







Final Cut de Charles Burns

Publicado originalmente em 2014 pela Pantheon Books, Final Cut encerra a trilogia iniciada com X’ed Out (2010) e continuada em The Hive (2012). Trata-se de um dos trabalhos mais densos e formalmente sofisticados de Charles Burns, autor incontornável da banda desenhada contemporânea.

A narrativa acompanha Brian, jovem artista e aspirante a cineasta que, desde a infância, filma pequenas histórias de ficção científica no quintal de casa. Anos depois, decide realizar um verdadeiro filme de terror em 8 mm numa cabana isolada, com os amigos Jimmy, Tina e Laurie — esta última, musa involuntária e objecto de uma paixão não correspondida.

A homenagem declarada é ao clássico Invasion of the Body Snatchers, referência maior da ficção científica paranóica dos anos 50. Contudo, à medida que a rodagem avança, o leitor percebe que o verdadeiro palco da acção não é a floresta, mas a mente fragmentada de Brian.

Burns constrói um jogo subtil entre realidade, fantasia e memória. A idealização de Laurie transforma-se numa narrativa paralela onde Brian assume o papel de salvador, confundindo desejo com ficção. O autor explora a forma como o impulso criativo pode tornar-se fuga — ou até distorção — do real.

Graficamente, Final Cut mantém o traço rigoroso e contrastado que celebrizou o autor. O preto profundo e os enquadramentos meticulosamente compostos evocam tanto o cinema clássico como a estranheza do surrealismo. Há uma cadência quase hipnótica nas sequências mudas, onde o silêncio pesa tanto quanto o diálogo.

No panorama da banda desenhada contemporânea, Final Cut afirma-se como uma obra madura, inquietante e profundamente autoral. Charles Burns confirma aqui o seu estatuto de mestre da forma, capaz de transformar obsessões pessoais numa experiência estética de rara intensidade.

Base de dados

Final Cut, Charles Burns, ASA, 224 pp., cor, capa mole, 29,90€

30 de março de 2026

Carlota, Imperatriz – Uma narrativa intensa entre ambição, poder e desilusão

A obra Carlota, Imperatriz, de Fabien Nury e Matthieu Bonhomme, publicada em Portugal pela Ala dos Livros, apresenta-se como uma das mais marcantes novelas gráficas históricas dos últimos anos. Estruturada em dois volumes — cada um contendo dois tomos —, esta edição integral oferece ao leitor uma experiência completa e profundamente imersiva na vida de Charlotte da Bélgica, figura histórica tão fascinante quanto trágica.

Desde cedo, Charlotte foi moldada para a grandeza. Filha do rei Leopoldo I da Bélgica, o seu destino parecia inevitavelmente ligado a um casamento de prestígio. A união com o arquiduque Maximiliano da Áustria, irmão do imperador Francisco José, surge como a concretização desse desígnio. No entanto, aquilo que começou como um casamento promissor rapidamente se revela uma relação marcada por frustração, desencontro e ambições divergentes.

A narrativa ganha particular intensidade quando o casal aceita o trono do México, num contexto político extremamente instável e manipulado por interesses externos, nomeadamente pelo imperador francês Napoleão III. Ao chegarem a Veracruz, Charlotte e Maximiliano encontram um país profundamente fragilizado, longe da imagem idealizada que lhes fora apresentada. A resistência das elites locais, a instabilidade social e a fragilidade política do novo imperador criam um cenário de tensão permanente. É neste ambiente adverso que Charlotte emerge como uma figura central. Longe de ser apenas uma consorte passiva, a protagonista revela uma crescente determinação e complexidade psicológica. À medida que Maximiliano se mostra indeciso e incapaz de liderar, Charlotte assume um papel cada vez mais activo, tentando salvar um projecto imperial condenado desde o início. A sua trajectória transforma-se, assim, num percurso de afirmação pessoal, mas também de progressiva desilusão e colapso.

Do ponto de vista artístico, Matthieu Bonhomme apresenta um traço elegante e expressivo, capaz de transmitir tanto a grandiosidade dos cenários históricos como a intimidade emocional das personagens. Já o argumento de Fabien Nury destaca-se pela profundidade psicológica e pelo rigor histórico, equilibrando com mestria o drama pessoal e o contexto político. 

A obra, Carlota, Imperatriz foi amplamente elogiada pela crítica internacional, tendo recebido distinções importantes no circuito da banda desenhada europeia. Entre elas, destaca-se a sua nomeação e presença em selecções oficiais de festivais de prestígio, como o Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême, um dos mais relevantes a nível mundial. A obra foi também distinguida em prémios franceses de BD, reforçando o seu estatuto como uma referência contemporânea no género histórico.

Carlota, Imperatriz é muito mais do que uma simples recriação histórica. Trata-se de um retrato poderoso de uma mulher presa entre o dever e a ambição, num mundo dominado por jogos de poder implacáveis. Uma leitura envolvente, visualmente deslumbrante e emocionalmente intensa, que merece lugar de destaque em qualquer biblioteca dedicada à banda desenhada de qualidade.

Base de dados

Carlota, Imperatriz (Tomos 1 e 2), Matthieu Bonhomme e Fabien Nury, Ala dos Livros, 192 pp., cor, capa dura, 35€