terça-feira, 15 de setembro de 2026

Monster 8: as memórias de Nina aproximam-nos da origem do «monstro»

A Devir prossegue a edição portuguesa de uma das obras maiores de Naoki Urasawa com o lançamento de Monster #8. Neste novo volume, a investigação em torno de Johan Liebert aproxima-se de algumas das respostas mais aguardadas da série, enquanto as memórias de Nina conduzem o leitor até aos acontecimentos traumáticos que marcaram a infância dos dois gémeos.

Desde o início de Monster, Johan permanece simultaneamente no centro da história e estranhamente ausente dela. A sua presença manifesta-se sobretudo através das consequências das suas ações, das pessoas que manipula e das vidas que destrói.

Neste volume, Urasawa mergulha ainda mais profundamente na construção da identidade, na memória e nos traumas da infância. Nina percebe que as suas próprias recordações poderão conter uma das chaves para explicar aquilo em que o irmão se transformou.

Monster começou a ser publicado no Japão em Dezembro de 1994, na revista Big Comic Original, da Shogakukan, mantendo-se em serialização até Dezembro de 2001. Os 162 capítulos foram posteriormente reunidos em 18 volumes tankōbon, publicados entre 1995 e 2002.

A edição que a Devir está a publicar em Portugal corresponde, porém, à posterior kanzenban, uma edição de luxo que reorganiza a série em nove volumes de maior dimensão, cada um reunindo aproximadamente dois volumes da edição original.

No Japão, o Monster Kanzenban 08 foi publicado pela Shogakukan em 30 de Julho de 2008.

Monster #8, Naoki Urasawa, Devir, 426 pp., p&b, capa mole, 20€

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Terra dos Homens, de Saint-Exupéry, ilustrado por Riad Sattouf

Chega uma edição especial de Terra dos Homens, de Antoine de Saint-Exupéry, enriquecida com ilustrações inéditas de Riad Sattouf, um dos mais reconhecidos e premiados autores contemporâneos de banda desenhada.

Publicado originalmente em 1939, Terra dos Homens (Terre des hommes) é uma das obras fundamentais do autor de O Principezinho. Inspirando-se nas suas experiências como aviador, Saint-Exupéry constrói uma reflexão sobre a aventura humana, a solidariedade, a responsabilidade e o sentido da vida. Entre os perigos dos primeiros voos de correio aéreo, os acidentes e a luta pela sobrevivência, emerge sobretudo uma celebração da coragem, da amizade e dos laços que unem os seres humanos perante a adversidade.

Esta edição ganha particular interesse pela participação de Riad Sattouf, autor de obras como O Árabe do Futuro, que acompanha o texto de Saint-Exupéry com um conjunto de ilustrações inéditas.

A combinação de um clássico incontornável da literatura do século XX com o trabalho gráfico de um dos grandes nomes da banda desenhada atual confere a esta edição um especial interesse bibliográfico e coleccionável, tanto para os leitores de Saint-Exupéry como para os apreciadores da obra de Riad Sattouf.

sábado, 12 de setembro de 2026

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O Anjo Pasolini – Pasolini revisitado em novela gráfica

A Levoir, em parceria com o jornal Público, publica O anjo Pasolini, de Éric Liberge (desenho), Arnaud Delalande e Denis Gombert (argumento), integrado na X Série da colecção Novela Gráfica.

Publicado originalmente em França pela Denoël Graphic, em Fevereiro de 2025, L’Ange Pasolini assinala os cinquenta anos da morte de Pier Paolo Pasolini (1922-1975), uma das personalidades mais singulares, polémicas e influentes da cultura italiana do século XX.

Poeta, cineasta, escritor, ensaísta e intelectual marxista, Pasolini assumiu publicamente a sua homossexualidade numa Itália profundamente marcada pelo catolicismo e pelo conservadorismo moral. Ao longo da sua carreira transformou, sobretudo, o cinema num poderoso instrumento de intervenção política, social e cultural. Crítico feroz do consumismo, da burguesia italiana e da transformação acelerada da sociedade do pós-guerra, Pasolini considerava que a expansão do capitalismo e da sociedade de consumo estava a provocar uma profunda uniformização cultural e uma verdadeira mutação antropológica. Nem a esquerda escapou às suas críticas, numa atitude intelectual que frequentemente o colocou numa posição incómoda e isolada. Nos últimos anos da sua vida, as suas intervenções tornaram-se particularmente contundentes. Nos artigos publicados na imprensa italiana, questionou as estruturas do poder e denunciou a corrupção e as ligações entre interesses políticos, económicos e outros poderes instalados. Pasolini tornara-se uma voz difícil de enquadrar e ainda mais difícil de silenciar.

É precisamente na sua morte que L’Ange Pasolini começa.

Estamos em novembro de 1975. Pasolini, com 53 anos, é atraído para uma armadilha numa praia de Ostia, nos arredores de Roma, onde é brutalmente agredido e assassinado. Enquanto agoniza, surge-lhe um anjo. Entre ambos inicia-se um diálogo que permite revisitar os momentos fundamentais da vida do poeta e cineasta.

A opção de Delalande e Gombert não é, portanto, a de construir uma biografia convencional. O encontro imaginário entre Pasolini e o anjo funciona como dispositivo narrativo para um exame de consciência: regressam as origens familiares, as contradições políticas e religiosas, a sexualidade, a criação artística, as polémicas, os sucessos e os fracassos de uma vida marcada por permanentes conflitos. É também um retrato das contradições do próprio Pasolini: progressista mas crítico da modernidade, marxista mas profundamente interessado pelo sagrado, provocador e simultaneamente nostálgico de um mundo popular que via desaparecer perante o avanço da sociedade de consumo. A própria apresentação da edição francesa sublinha essa sucessão de paradoxos que marcou a sua personalidade e a sua obra.

O desenho de Éric Liberge, em preto e branco, acompanha essa abordagem introspectiva e contribui para uma narrativa que se situa entre a biografia, a evocação histórica e a reflexão sobre a memória. Mais do que contar simplesmente a vida de Pier Paolo Pasolini, L’Ange Pasolini procura regressar às suas ideias, às suas inquietações e às suas contradições. Cinquenta anos depois do seu assassinato, muitas das questões que colocou — o poder dos meios de comunicação, a sociedade de consumo, a uniformização cultural, a relação entre política e poder económico — ajudam também a explicar por que razão Pasolini continua a ser uma figura tão discutida e atual.

O Anjo Pasolini, Arnaud Delagrand, Denis Gombert e Eric Liberge, Levoir, 104 pp., p&b, 16,90€

terça-feira, 8 de setembro de 2026

ZITS regressa em setembro com Apocalipse


A Gradiva prepara para este mês uma nova edição portuguesa de Zits, a popular série de tiras humorísticas criada por Jerry Scott (argumento) e Jim Borgman (desenho).

Com o título Apocalipse Zits, o novo volume volta ao quotidiano de Jeremy Duncan e à eterna batalha entre adolescentes e adultos. Desta vez, a comparação é particularmente apropriada: adolescentes e zombies têm mais em comum do que seria desejável — movem-se lentamente, comunicam de forma nem sempre inteligível e parecem estar permanentemente com fome. Como resume provocatoriamente a edição: «Os zombies comem cérebros. Tás safo».

A Gradiva mantém assim a sua longa ligação à série, que publica em Portugal há mais de duas décadas. Entre os títulos anteriormente editados encontram-se E No Entanto Move-se, Dá-lhe Gás, Peace, Love & Wi-Fi e Zits em Concerto.

Apocalipse Zits, Jerry Scott e Jim Borgman, Gradiva, 208 pp., p&b, capa mole, 19€

Level up na estante: novidades Devir a caminho

A mangá, a banda desenhada e o romance gráfico já não são fenómenos de nicho. Conquistam novos leitores todos os dias e ocupam um lugar cada vez mais destacado nas tabelas de vendas, entre miúdos e graúdos.

É neste contexto que a DEVIR entra na rentrée com novas séries, edições especiais, grandes clássicos e algumas despedidas de títulos de culto, num calendário de lançamentos que se estende de setembro a novembro.

Entre os destaques está A Casa do Desertor, nova antologia do mestre do terror japonês Junji Ito; A Morte do Tetraz-Lira, romance gráfico de David Combet sobre identidade, relações familiares e os modelos tradicionais de masculinidade; e Ichi the Witch, de Osamu Nishi e Shiro Usazaki, uma das novas sensações da manga japonesa e vencedora dos Next Manga Awards 2025.

Há ainda regressos de peso, como O Longo Halloween, de Jeph Loeb e Tim Sale, V for Vendetta, de Alan Moore e David Lloyd, e novas incursões nos universos de Batman e Superman. A rentrée marca também o final de séries como Monster, Boa Noite, Punpun, Kenshin, o Samurai Errante e The Walking Dead.

Guy Delisle marcará presença na 37.ª edição da Amadora BD, que lhe dedica uma exposição centrada nos seus célebres livros de viagens — Pyongyang, Crónicas de Jerusalém, Crónicas da Birmânia e Shenzhen — obras que ajudaram a levar o seu trabalho muito para além do público tradicional da BD.

The Beatles em BD: a história dos Fab Four chega à banda desenhada pela ASA

Poucas bandas deixaram uma marca tão profunda na cultura popular como os Beatles. John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr precisaram de pouco mais de uma década para transformar a música popular, provocar um fenómeno social à escala mundial e deixar uma obra que continua a conquistar novas gerações. A partir de hoje nas livrarias, a ASA propõe uma forma diferente de revisitar essa história com a edição portuguesa de The Beatles em BD, com argumento de Gaet's e o desenho de vários autores.

A obra não se limita a recordar os discos ou os grandes êxitos. A narrativa acompanha o percurso do grupo desde os tempos dos Quarrymen, passando pela formação definitiva dos Beatles, pelas primeiras atuações, pela explosão da Beatlemania, pela conquista dos Estados Unidos e pela extraordinária evolução musical que os levou de simples ídolos juvenis a protagonistas de uma verdadeira revolução cultural. Foram apenas oito anos de carreira discográfica, mas bastaram para produzir doze álbuns originais e mais de 200 canções, num percurso em que os quatro músicos de Liverpool alteraram sucessivamente aquilo que se esperava de uma banda pop.

O livro acompanha naturalmente episódios fundamentais dessa trajectória: a ascensão fulgurante do grupo, as digressões marcadas por multidões de fãs, o abandono dos concertos, a crescente experimentação em estúdio e, finalmente, as tensões que conduziriam à separação.

The Beatles em BD não é uma biografia gráfica convencional. A proposta concebida por Gaet's e Stéphane Nappez combina sequências de banda desenhada com textos documentais e material ilustrado, permitindo contextualizar historicamente os acontecimentos narrados. É precisamente esta estrutura híbrida que distingue o álbum. Ao lado dos grandes momentos conhecidos por praticamente todos os admiradores dos Beatles surgem episódios e curiosidades menos divulgados, proporcionando uma leitura simultaneamente narrativa e documental. A própria apresentação portuguesa destaca essa intenção: permitir «descobri-los de outra forma», percorrendo a história do grupo dos Quarrymen até à separação.

A edição tem 232 páginas em capa dura, assumindo-se assim como um volume de dimensão considerável e destinado não apenas aos leitores habituais de banda desenhada, mas também aos amantes da música e, naturalmente, aos inúmeros admiradores dos Fab Four.

É difícil encontrar outra banda cuja evolução tenha sido tão rápida. Entre os primeiros êxitos de Please Please Me e a sofisticação de obras como Revolver, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, The Beatles ou Abbey Road decorreram apenas alguns anos. E talvez seja precisamente essa transformação que torna a história dos Beatles tão adequada à banda desenhada: quatro jovens de Liverpool passam dos pequenos clubes para os maiores palcos do mundo, tornam-se protagonistas de uma histeria coletiva sem precedentes e, quando poderiam simplesmente repetir a fórmula do sucesso, abandonam as digressões e transformam o estúdio de gravação num verdadeiro laboratório criativo. Depois chegam as divergências, os projectos individuais e uma separação que, em 1970, encerra uma história extraordinariamente curta quando comparada com a dimensão do legado deixado.

Existem milhares de livros dedicados aos Beatles. Biografias, estudos musicais, testemunhos, fotografias e análises minuciosas praticamente não deixaram um único dia da carreira do grupo por documentar. A originalidade desta edição está, portanto, menos na descoberta de uma história desconhecida do que na forma escolhida para voltar a contá-la.

A conjugação entre banda desenhada e documentação permite transformar episódios célebres em pequenas narrativas visuais e, ao mesmo tempo, fornecer ao leitor o contexto necessário para compreender como quatro músicos ingleses se tornaram um dos maiores fenómenos culturais do século XX.

Depois de várias apostas recentes em obras que aproximam a banda desenhada de outras manifestações culturais, a ASA acrescenta assim ao seu catálogo um título bastante diferente das séries franco-belgas que tradicionalmente constituem uma parte importante da sua edição de BD. A própria editora apresentou The Beatles em BD como uma das propostas mais «fora da caixa» do seu programa para o segundo semestre de 2026. Para quem gosta simultaneamente de banda desenhada e música, dificilmente poderia haver encontro mais apetecível.

The Beatles em BD, Gaet's e vários autores, ASA, 232 pp., cor, capa dura, 28,90€