12 de fevereiro de 2026

O Menino Triste - Exposição de originais

 


Perigo na Casa da Falésia: Hercule Poirot em banda desenhada

A obra Perigo na Casa da Falésia (Peril at End House), um dos romances mais populares de Agatha Christie protagonizados por Hercule Poirot, ganhou uma elegante adaptação para banda desenhada, transportando para o campo visual toda a intriga psicológica e o charme clássico do detective belga.

Nesta versão em BD, com argumento de Frédéric Brémaud e desenho de Alberto Zanon, somos conduzidos até à costa da Cornualha, onde se ergue uma magnífica casa empoleirada numa falésia, propriedade de Nick Buckley — jovem, independente e aparentemente perseguida pela morte. O que começa como uma sucessão de “acidentes” estranhos transforma-se rapidamente num caso sério quando um tiro parece ser disparado contra a jovem no jardim de um hotel vizinho, onde Poirot e o capitão Hastings se encontram hospedados.

Incansável e metódico, Poirot entra em acção, recorrendo às suas célebres “pequenas células cinzentas” para desvendar quem deseja eliminar Nick Buckley — e porquê. À medida que investiga os hóspedes da Casa da Falésia, o detective revela uma teia de mentiras, identidades ambíguas e motivações ocultas, numa história onde nada é exatamente o que parece.

Frédéric Brémaud opta por uma adaptação fiel ao espírito do romance original, mantendo o ritmo clássico da narrativa de Christie, mas com uma leitura visual dinâmica e acessível. O trabalho gráfico de Alberto Zanon destaca-se pelo traço claro, expressivo e pela recriação cuidada da atmosfera britânica dos anos 1930, contribuindo para uma leitura envolvente tanto para fãs de longa data como para novos leitores.

Esta adaptação de Perigo na Casa da Falésia confirma o potencial da banda desenhada como meio para revitalizar os clássicos do policial. Respeitando a complexidade do enredo original e valorizando a figura icónica de Hercule Poirot, o álbum funciona tanto como homenagem à autora como porta de entrada para novos leitores descobrirem — ou redescobrirem — Agatha Christie.

Perigo na Casa da Falésia, Frédéric Brémaud e Alberto Zanon, Arte de Autor, 56 pp., cor, capa dura, 19,50€

11 de fevereiro de 2026

Casemate #198

A edição abre com um dossiê especial sobre o Festival de Angoulême, no qual 12 vencedores do Grande Prémio partilham memórias, alegrias e frustrações ligadas ao mais prestigiado evento da BD europeia.

Segue-se uma entrevista com Neidhardt, que revisita a sua carreira singular marcada por uma trajectória “épica” como impostor profissional — um percurso invulgar que atravessa a sua obra e identidade artística.

A reportagem “Hypersurveillance” aborda os perigos da vigilância massiva e do controlo digital, refletindo sobre o “grande policiamento” contemporâneo e os seus impactos sociais.

No cinema, destaque para o Marsupilami na versão de Philippe Lacheau, analisando a adaptação da famosa personagem franco-belga ao grande ecrã.

As secções habituais marcam presença:
Journorama: revista de imprensa sobre a actualidade da BD.
L’Écho des Rézos: o melhor das redes sociais (Facebook, X, Bluesky, Instagram, etc.).

Entre as pré-publicações com pranchas exclusivas, a revista apresenta:
Apogée, um space opera bélico de Duval, Emem e Blanchard.
Landais, numa exploração na Guiana em busca dos montes Tumuc-Humac.
Terre ou Lune, de Khoo, que imagina um futuro dominado por aves e restrições.
Thorgal, por Bec e Mangin, confrontando o herói com a misteriosa deusa de âmbar.
Off, de Renard e Tollet, num cenário pós-apocalíptico.
Barrio negro, centrado na comunidade francesa no Panamá.
Eldorado, sobre o sonho frustrado de um jovem aspirante a futebolista profissional.

A edição inclui ainda:
Um guia de 24 bandas desenhadas a descobrir em fevereiro.
Um agenda detalhada com 218 lançamentos, além de festivais e exposições.
Um passeio por um Paris atípico, guiado por Finot.
Um retrato de Guston, por Michaëlis.
E, a encerrar, a habitual secção de cartas dos leitores.

No conjunto, esta edição combina grandes entrevistas, temas sociais contemporâneos, pré-publicações exclusivas e um panorama abrangente das novidades da BD em Fevereiro de 2026.

Casemate #198, février 2026, 100 pp., 9,95€

10 de fevereiro de 2026

Um livro esquecido num banco: quando a leitura se torna encontro

Num tempo dominado por ecrãs, notificações e mensagens instantâneas, Um livro esquecido num banco, de Jim & Mig, surge como um gesto delicado de resistência poética ao fluxo digital. A obra, que chega às livrarias portuguesas pela ASA a 10 de Fevereiro, propõe algo simples e ao mesmo tempo profundamente humano: voltar a comunicar através do papel, da espera e do mistério.

A história começa de forma quase banal. Camélia está sentada num banco público quando repara num livro pousado ao seu lado, aparentemente esquecido. Ao abri-lo, descobre uma dedicatória inesperada: um convite para o levar, lê-lo e, depois, deixá-lo noutro banco, para que continue o seu percurso nas mãos de um novo leitor. Intrigada e divertida, Camélia aceita o jogo.

Mas o livro guarda um segredo. Ao folheá-lo em casa, ela percebe que algumas letras estão cuidadosamente assinaladas, formando uma mensagem escondida — uma espécie de chamada silenciosa à comunicação. Tocada por esse gesto anónimo e cansada da monotonia do seu quotidiano, Camélia decide responder da mesma forma: marca letras, constrói palavras, quase um desejo, e devolve o livro a um banco público, à espera de uma resposta.

É assim que se inicia uma correspondência “à livro aberto”, feita de fragmentos, pistas e silêncios partilhados, entre Camélia e um desconhecido. Uma troca que não depende de perfis, likes ou respostas imediatas, mas sim de atenção, tempo e sensibilidade.

Jim & Mig constroem aqui uma narrativa subtil e profundamente actual, apesar — ou precisamente por causa — da sua recusa em seguir os códigos da comunicação moderna. Um livro esquecido num banco fala de solidão urbana, do desejo de ligação e da magia dos encontros improváveis. Cada página convida o leitor a desacelerar, a observar os detalhes e a lembrar-se de que as histórias mais marcantes nem sempre começam com grandes acontecimentos, mas com pequenos gestos.

Visualmente e narrativamente delicado, o livro destaca-se também pelo seu conceito: o livro como objecto vivo, que circula, transporta vozes e cria laços entre pessoas que talvez nunca se encontrem, mas que se reconhecem nas palavras deixadas para trás.

Mais do que uma simples história de ficção, Um livro esquecido num banco é uma reflexão sensível sobre a forma como nos relacionamos, lemos e comunicamos. Um convite a redescobrir o prazer da leitura partilhada e a acreditar que, mesmo num mundo hiperconectado, ainda há espaço para o mistério, a espera e a poesia.

A partir de 10 de Fevereiro, este pequeno grande livro promete encontrar novos leitores — talvez num banco de jardim, talvez numa estante — e lembrar-nos de que, às vezes, basta abrir um livro para não estarmos tão sós.

Um livro esquecido num banco, Jim & Mig, ASA, cor, capa dura, 97 pp.

9 de fevereiro de 2026

Fanfulla: Hugo Pratt recuperado em Portugal numa obra rara e aventureira

A Colecção Obras de Pratt, da editora Ala dos Livros, continua a revelar facetas menos conhecidas de um dos maiores mestres da banda desenhada mundial. A mais recente novidade é Fanfulla, uma história de “capa-e-espada” assinada por Hugo Pratt, pouco conhecida do grande público, mas fundamental para compreender a sua evolução artística e narrativa.

Originalmente publicada no histórico semanário juvenil italiano Corriere dei Piccoli, Fanfulla nasce de uma fase muito específica da carreira de Pratt. O autor pretendia dar um novo rumo à banda desenhada nas páginas do jornal, afastando-se de fórmulas mais convencionais e apostando numa narrativa histórica mais madura, visualmente ousada e literariamente ambiciosa.

Com argumento de Mino Milani e desenho de Hugo Pratt, surgem assim as Aventuras de Fanfulla, protagonizadas por Bartolomeo Tito Alon, mais conhecido como Fanfulla da Lodi. A personagem inspira-se numa figura histórica real: um carismático aventureiro renascentista e destemido condottiere que participou nas guerras italianas do século XVI.

A narrativa arranca num momento marcante da História europeia: 6 de Maio de 1527, data do célebre Saque de Roma pelos lansquenetes ao serviço de Carlos V, comandados pelo general Georg von Frundsberg. Fanfulla surge integrado neste cenário brutal e caótico, servindo como fio condutor de uma história onde a ação, a intriga política e o retrato histórico se cruzam com a elegância gráfica típica de Pratt.

Publicada originalmente entre Outubro de 1967 e Fevereiro de 1968, a série estendeu-se por 45 pranchas, apresentadas num curioso jogo visual entre tricromia e bicromia, uma escolha estética que reforçava o dinamismo e o dramatismo da narrativa. Apesar da qualidade da obra e do prestígio dos seus autores, Fanfulla acabou por cair num relativo esquecimento ao longo das décadas, ofuscada por títulos mais populares de Pratt.

Essa lacuna começa agora a ser colmatada com esta edição portuguesa da Ala dos Livros, que recupera Fanfulla no seu formato “italiano” original, respeitando a estrutura e a identidade visual da publicação histórica. Trata-se não apenas de um resgate editorial, mas também de uma oportunidade para redescobrir uma obra que teve boa receção em Itália, integrou o movimento de renovação da BD italiana dos anos 60 e contribuiu para consolidar o nome de Hugo Pratt no panorama internacional.

Com Fanfulla, os leitores portugueses podem revisitar um período menos explorado da obra de Pratt, mas absolutamente essencial: aquele em que o autor experimentava linguagens, estilos e temas que mais tarde culminariam em personagens icónicas como Corto Maltese. Um lançamento que combina aventura, História e memória editorial — e que merece um lugar de destaque nas estantes dos amantes de banda desenhada.

Fanfulla, Mino Milani e Hugo Pratt, Ala dos Livros, 120 pp., cor, capa dura, 33€

4 de fevereiro de 2026

Vincent, de Barbara Stok: a vida e a fragilidade de um génio em novela gráfica

A Iguana lançou esta semana uma novela gráfica dedicada à vida de Vincent van Gogh, um dos artistas mais influentes — e simultaneamente mais incompreendidos — da história da arte. A obra tem autoria da ilustradora e argumentista holandesa Barbara Stok, conhecida pela sua abordagem sensível e intimista a figuras reais e temas existenciais.

O génio e a vida turbulenta de Van Gogh continuam a ser uma fonte inesgotável de inspiração para artistas, estudiosos e amantes de arte. Nesta belíssima novela gráfica, Barbara Stok escolhe focar-se num dos períodos mais intensos e decisivos da vida do pintor: a sua estadia em Arles, no sul de França.

É em Arles que Van Gogh se reencontra, ainda que por breves momentos, com a esperança. Encantado pelas paisagens bucólicas, pela luz vibrante da região e pelas cores do sul francês, o pintor encontra finalmente o ambiente que lhe permite criar algumas das obras que o tornariam imortal.

Este período é marcado por um renovado entusiasmo criativo e pelo sonho de fundar um ateliê de artistas, um espaço de partilha onde pudesse trabalhar lado a lado com outros pintores. Contudo, a fragilidade emocional que o acompanhou ao longo da vida volta a manifestar-se com intensidade crescente.

Os surtos da doença mental de que sofre tornam-se mais frequentes, conduzindo-o a episódios de profunda angústia e perda de controlo. A convivência com Paul Gauguin, inicialmente desejada e idealizada, acaba por agravar a instabilidade emocional de Van Gogh. Após uma discussão violenta entre ambos, ocorre o episódio mais célebre — e trágico — da sua biografia: Van Gogh corta parte da própria orelha, um gesto que simboliza o colapso dos seus sonhos e a ruptura definitiva daquele ideal artístico colectivo.

Barbara Stok evita o sensacionalismo e opta por uma abordagem contida, empática e profundamente humana. O seu estilo gráfico, reconhecível pelos traços expressivos, pela simplicidade formal e pelo uso de cores intensas, traduz com subtileza o estado emocional do pintor e a forma como este percepcionava o mundo à sua volta.

Mais do que uma biografia factual, esta novela gráfica é um retrato emocional de um homem em luta consigo próprio, dividido entre a beleza que via no mundo e a dor que carregava dentro de si.

Vincent van Gogh (1853–1890) produziu a maior parte da sua obra num curto espaço de tempo, criando mais de 800 pinturas num período inferior a uma década. Em vida, vendeu apenas um quadro, sendo o reconhecimento do seu génio essencialmente póstumo. Hoje, é considerado uma figura central da arte moderna, símbolo da relação complexa entre criação artística e sofrimento mental.

Barbara Stok, nascida nos Países Baixos, tem-se destacado no panorama europeu da banda desenhada por obras de carácter autobiográfico e biográfico, como Vincent, Rembrandt e The Coffee Maker. O seu trabalho é frequentemente elogiado pela capacidade de transformar vidas reais em narrativas intimistas, acessíveis e emocionalmente ressonantes.

Esta novela gráfica sobre Vincent van Gogh é, acima de tudo, uma reflexão sobre fragilidade, criação e solidão. Ao centrar-se no período de Arles, Barbara Stok oferece-nos um olhar contido mas poderoso sobre um momento decisivo na vida de um artista que mudou para sempre a história da arte.

Com esta edição, a Iguana traz ao público português uma obra que dialoga tanto com leitores de banda desenhada como com amantes de arte, confirmando a novela gráfica como um meio privilegiado para contar histórias humanas complexas e intemporais.

Vincent, Barbara Stok, Iguana, 144 pp., capa mole, cor, 19,95€

3 de fevereiro de 2026

O Meu Casamento Feliz chega ao volume 5

O Meu Casamento Feliz é mais uma daquelas séries que temos acompanhado com particular interesse. Em Fevereiro, chega às livrarias portuguesas o quinto volume desta obra que, desde o seu lançamento, tem vindo a conquistar leitores um pouco por todo o mundo — e também por cá. O livro já se encontra disponível em pré-venda, sinal claro da expectativa em torno deste novo capítulo.

Combinando cenários visualmente deslumbrantes, uma forte componente emocional e uma narrativa que cruza romance, drama familiar e fantasia sobrenatural, O Meu Casamento Feliz afirma-se como muito mais do que uma simples história de amor.

No centro da narrativa está Miyo Saimori, uma jovem marcada por uma infância de negligência emocional e abuso psicológico, num contexto familiar onde o valor pessoal é medido pela posse de dons sobrenaturais. Sem qualquer habilidade aparente, Miyo cresce acreditando que não tem lugar nem valor no mundo.

No quinto volume, a história entra numa fase decisiva: Miyo descobre finalmente que herdou um raro e poderoso dom do enigmático clã Usuba, um segredo cuidadosamente guardado ao longo de gerações. Este despertar não traz alívio imediato — pelo contrário, vem acompanhado de fragilidade física, pesadelos e uma profunda instabilidade emocional.

Os Usubas insistem para que Miyo permaneça com eles e aprenda a dominar o poder que traz dentro de si. Contudo, aceitar esse dom implica enfrentar traumas, medos e escolhas que podem redefinir o seu futuro.

Em paralelo, Kiyoka Kudou, cuja figura austera esconde um carácter profundamente íntegro, enfrenta pressões crescentes para proteger Miyo e garantir um futuro onde ambos possam finalmente ser felizes. A relação entre os dois continua a desenvolver-se de forma contida, mas emocionalmente intensa, sustentada pela confiança e pela aceitação mútua.

Este quinto volume é particularmente relevante por marcar um momento de revelação e crescimento. Os conflitos deixam de ser apenas externos e tornam-se cada vez mais interiores: identidade, auto-aceitação e responsabilidade ganham peso narrativo.

A pergunta central mantém-se: será o amor entre Miyo e Kiyoka suficiente para ultrapassar os segredos, as expectativas familiares e o peso de um poder que pode tanto salvar como destruir?

O Meu Casamento Feliz (Watashi no Shiawase na Kekkon) teve origem como light novel, escrita por Akumi Agitogi e ilustrada por Tsukiho Tsukioka, sendo publicada pela primeira vez no Japão em 2019. O sucesso foi quase imediato, destacando-se num género frequentemente saturado graças ao seu tom mais maduro e introspectivo.

A adaptação para manga, ilustrada por Rito Kohsaka, veio consolidar ainda mais a popularidade da obra, ampliando o seu alcance internacional. Posteriormente, a série conheceu uma adaptação em anime, estreada em 2023, que ajudou a projectar definitivamente a história para um público global.

Akumi Agitogi tem sido elogiada pela forma sensível como aborda temas como abuso emocional, auto-estima, trauma e reconstrução pessoal, enquanto Rito Kohsaka consegue traduzir visualmente essa carga emocional através de expressões subtis e uma composição elegante, reforçando o tom melancólico e esperançoso da narrativa.

O Meu Casamento Feliz distingue-se por subverter expectativas: não é apenas uma história romântica, nem apenas fantasia sobrenatural. É uma narrativa sobre aprender a reconhecer o próprio valor, sobre encontrar segurança num mundo hostil e sobre a lenta construção da felicidade.

Com este quinto volume, a série reafirma-se como uma das propostas mais interessantes do romance gráfico contemporâneo, capaz de emocionar sem recorrer a excessos e de abordar temas complexos com delicadeza e profundidade.

Um lançamento aguardado, e mais um passo firme numa história que continua a crescer em impacto e relevância.

O Meu Casamento Feliz #5, Akumi Agitogi, Rito Kohsaka e Tsukiho Tsukioka, Presença, 240 pp. p&b, capa mole, 10,90€