Publicada originalmente em Espanha com o título Estamos todas bien, a obra valeu a Ana Penyas, em 2018, o Prémio Nacional de Banda Desenhada de Espanha, tornando-a a primeira mulher a receber esta distinção.
Ana Penyas parte das memórias das suas duas avós, Maruja e Herminia, para reconstruir vidas aparentemente comuns, mas representativas de milhões de mulheres espanholas que atravessaram a Guerra Civil, a ditadura franquista e, mais tarde, a transição para a democracia. Não estamos perante uma biografia convencional nem uma grande narrativa histórica. A História surge através do quotidiano: o casamento, a maternidade, o trabalho doméstico, a educação dos filhos, a religião, as convenções sociais, as renúncias e o lugar reservado às mulheres numa sociedade profundamente conservadora.
Penyas olha para aquilo que habitualmente ficou fora dos relatos sobre o franquismo: como viviam as mulheres dentro de casa, o que lhes era permitido desejar, aquilo a que tiveram de renunciar e de que forma envelheceram depois de uma vida construída em função dos outros.
Um dos aspetos mais interessantes de Estamos Todas Bem é a forma como passado e presente se cruzam constantemente.
A autora acompanha, por exemplo, a rotina atual de Maruja. A idade tornou difícil aquilo que anteriormente era banal. Uma pequena caminhada entre o parque e casa transforma-se num percurso demorado e cansativo. A solidão, o envelhecimento e uma cidade pouco preparada para quem perdeu mobilidade fazem parte desse presente. As memórias invadem o presente e as vozes das duas mulheres conduzem-nos a outras épocas, permitindo perceber não apenas aquilo que viveram, mas também a forma como hoje recordam essas experiências.
Fotografias antigas são apropriadas e transformadas pelo desenho; imagens domésticas ganham um novo significado quando colocadas perante os testemunhos das protagonistas; fragmentos de conversas revelam muito mais do que longas explicações históricas. A autora não precisa de dramatizar artificialmente as vidas que retrata. Deixa que sejam Maruja e Herminia a falar e permite que os silêncios, os gestos e as imagens completem aquilo que as palavras não dizem.
Estamos Todas Bem é também uma obra assumidamente feminista, não porque transforme as suas protagonistas em heroínas exemplares, mas porque lhes devolve um espaço que durante demasiado tempo lhes foi negado. Penyas questiona uma memória histórica tradicionalmente construída em torno das experiências masculinas e pergunta implicitamente: onde estavam as mulheres enquanto tudo isto acontecia? Estavam em casa, a criar os filhos, a trabalhar, a cuidar dos familiares, a obedecer às convenções impostas pela ditadura e pela Igreja, a sobreviver e, muitas vezes, a abdicar dos seus próprios projectos.
Nascida em Valência, em 1987, Ana Penyas estudou Design Industrial e Belas-Artes na Universidade Politécnica de Valência e começou por se destacar no campo da ilustração.
Em 2017, venceu o Prémio Internacional de Banda Desenhada Fnac-Salamandra, que possibilitou a publicação de Estamos todas bien, a sua primeira novela gráfica.
O reconhecimento foi imediato. Em 2018 recebeu o prémio de Autora Revelação no Salón Internacional del Cómic de Barcelona e, sobretudo, o Prémio Nacional de Banda Desenhada, atribuído pelo Ministério da Cultura espanhol. Pela primeira vez desde a criação do galardão, em 2007, uma mulher conquistava o prémio. Não deixa de ser particularmente significativo que essa distinção tenha sido atribuída precisamente a uma obra dedicada a retirar do silêncio as mulheres de uma geração anterior.

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