10 de março de 2026

O voto feminino em Portugal: uma exposição para revisitar a história

 


No próximo 11 de Março de 2026, às 17h30, será inaugurada na Casa do Parlamento – Centro Interpretativo a exposição “O Voto Feminino em Portugal”, uma iniciativa que convida o público a revisitar um dos capítulos mais significativos da história da cidadania e da democracia no país.

O evento decorre num espaço integrado na Assembleia da República, dedicado à divulgação da história parlamentar portuguesa e ao aprofundamento da literacia democrática.

A exposição ficará patente até 31 de Março, permitindo aos visitantes conhecer melhor o percurso, muitas vezes longo e desigual, que conduziu ao reconhecimento pleno do direito de voto das mulheres em Portugal.

O sufrágio feminino em Portugal não surgiu de forma imediata nem linear. Durante décadas, o direito de voto esteve reservado aos homens, refleCtindo uma concePção restrita de participação política.

Um momento simbólico ocorreu em 1911, quando Carolina Beatriz Ângelo conseguiu votar nas eleições para a Assembleia Constituinte, aproveitando uma lacuna na lei eleitoral da Primeira República. A legislação seria posteriormente alterada para impedir que outras mulheres votassem nas mesmas condições.

Só muito mais tarde, já no século XX, e após diversas mudanças políticas e sociais — culminando com a democratização iniciada pela Revolução de 25 de Abril de 1974 — o sufrágio universal se consolidou plenamente, garantindo igualdade formal entre homens e mulheres no acesso ao voto.

9 de março de 2026

O guia do mau pai

Publicado originalmente em 2013, com o título francês Le Guide du mauvais père, o livro do autor canadiano Guy Delisle rapidamente conquistou leitores em vários países. Em inglês, a obra ficou conhecida como The Guide to a Bad Father, e em português recebeu o título O Guia do Mau Pai, numa edição da Devir.

Conhecido pelos seus romances gráficos de viagem e reportagem — como Pyongyang ou Crónicas de Jerusalém — Delisle surpreende aqui com um registo mais íntimo e autobiográfico. Em vez de conflitos políticos e contextos geográficos complexos, o autor mergulha no território universal da paternidade.

O título é provocador, mas profundamente irónico. O “mau pai” de Delisle não é negligente nem irresponsável; é simplesmente humano. Através de pequenas vinhetas independentes, o autor retrata episódios do quotidiano com os filhos: explicações científicas improvisadas e duvidosas, promessas feitas para ganhar alguns minutos de descanso, estratégias criativas (e questionáveis) para lidar com birras ou momentos de ternura que surgem inesperadamente.

O humor nasce do reconhecimento. Quem lê identifica-se — seja como pai, mãe ou filho. Delisle expõe as falhas e contradições da parentalidade contemporânea sem moralismos, mas também sem cinismo.

O traço é simples, limpo e expressivo. As cores suaves reforçam o tom leve da narrativa. Cada página funciona quase como uma tira autónoma, o que torna a leitura dinâmica e acessível. Não há uma história linear tradicional. Em vez disso, o livro constrói um mosaico de situações que, em conjunto, revelam uma relação afectiva sólida entre pai e filhos. O humor nunca diminui o vínculo — pelo contrário, reforça-o.

O Guia do Mau Pai é uma obra leve na forma, mas profunda no conteúdo. Ao transformar pequenas falhas quotidianas em matéria literária e humorística, Guy Delisle lembra-nos que ser pai — ou mãe — não é um exercício de perfeição, mas de presença. É uma leitura recomendada tanto para quem já vive a experiência da parentalidade como para quem gosta de banda desenhada autobiográfica com inteligência e sensibilidade.

O guia do mau pai, Guy Delisle, Devir, 302 pp., p&b, capa mole, 25€

6 de março de 2026

Cartoon Xira regressa a Vila Franca de Xira com quase 220 cartoons e destaque para Maria Picassó

A cidade de Vila Franca de Xira volta a receber um dos mais relevantes eventos de humor gráfico em Portugal. A 27.ª edição da Cartoon Xira abre portas no próximo sábado, n’O Celeiro da Patriarcal, reunindo cerca de 220 cartoons de 110 artistas portugueses numa exposição que promete revisitar a actualidade através da sátira, da crítica social e do humor.

Com curadoria do cartoonista António Antunes, a mostra apresenta os “Cartoons do Ano 2025”, uma seleção que reflecte os acontecimentos mais marcantes do último ano através do olhar atento e irónico de alguns dos principais nomes do cartoon nacional. Entre os artistas presentes encontram-se André Carrilho, António Maia, Cristina Sampaio, Henrique Monteiro, João Fazenda, Nuno Saraiva, Pedro Ferreira, Pedro Silva, Rodrigo de Matos e Vasco Gargalo, entre muitos outros.

Como é habitual, a Cartoon Xira propõe uma viagem pela actualidade política, social e cultural, explorando o poder do desenho satírico enquanto forma de comentário e reflexão crítica sobre o mundo contemporâneo.

Além da exposição colectiva, esta edição conta com uma mostra dedicada à artista espanhola Maria Picassó (1983). Natural de Manresa, na Catalunha, Picassó tem formação em arquitectura e destaca-se pelo seu traço depurado e por uma abordagem contemporânea à caricatura.

Ao longo da sua carreira, conquistou reconhecimento internacional, incluindo a Medalha de Prata nos World Humour Awards (2022) e dois Prémios Bronze ÑH – Design de Imprensa na Península Ibérica (2015 e 2021). Em 2019, integrou também o júri do prestigiado World Press Cartoon.

Reconhecida a nível nacional e internacional, a Cartoon Xira tem-se afirmado como um espaço privilegiado para a divulgação do cartoon e da caricatura, reunindo artistas e públicos em torno do humor gráfico. A exposição oferece uma retrospectiva visual dos principais temas sociais, culturais e políticos da actualidade, reforçando o papel do cartoon como forma de intervenção artística e cívica.

A iniciativa, organizada pela autarquia de Vila Franca de Xira, decorre até 31 de Maio e tem entrada livre, sublinhando o compromisso do município com a promoção da cultura, da liberdade de expressão e do pensamento crítico.

Para os visitantes, será uma oportunidade de olhar para o mundo com ironia — e perceber como, muitas vezes, um simples desenho consegue dizer mais do que muitas palavras.

5 de março de 2026

Something is Killing the Children – Livro Dois: terror regressa às livrarias

A aclamada série de banda desenhada Something is Killing the Children continua a conquistar leitores em todo o mundo. Criada pelo argumentista James Tynion IV e ilustrada por Werther Dell’Edera, esta obra mistura horror, mistério e drama numa narrativa intensa que rapidamente se tornou uma das séries mais populares da editora norte-americana Boom! Studios.

Depois do sucesso do primeiro volume, os leitores podem agora continuar a acompanhar as aventuras de Erica Slaughter, a misteriosa caçadora de monstros que enfrenta criaturas responsáveis por terríveis mortes de crianças.

Desde a sua estreia em 2019 nos Estados Unidos, Something is Killing the Children tornou-se um verdadeiro fenómeno editorial. A série recebeu vários Prémios Eisner, incluindo distinções para melhor argumentista atribuídas a James Tynion IV em 2021, 2022 e 2023, bem como o prémio de Melhor Série Contínua em 2022. 

A história acompanha a jovem Erica Slaughter, enviada para pequenas cidades americanas onde crianças estão a desaparecer ou a morrer de forma inexplicável. Enquanto os adultos recusam acreditar nos relatos de monstros vindos das sombras, Erica sabe que essas criaturas existem — e está determinada a eliminá-las.

O Livro Dois continua a aprofundar o universo da série e o passado da protagonista. Nesta nova fase da narrativa, os leitores descobrem mais sobre a misteriosa Ordem de São Jorge, a organização secreta dedicada à caça de monstros, e o percurso que levou Erica a tornar-se uma das suas agentes. Este volume reúne arcos narrativos posteriores da série original e expande o mundo criado por Tynion IV, oferecendo mais acção, suspense e revelações sobre a protagonista.

Something is Killing the Children – Livro Dois, James Tynion IV e Werther Dell’Edera, Devir, 132 pp., cor, capa mole 18€




Kiki de Montparnasse — Biografia em banda desenhada de um ícone livre

Na história da arte do século XX, muitas mulheres ficaram eternizadas como musas — rostos, corpos e presenças que inspiraram artistas homens. Poucas, porém, foram reconhecidas como criadoras e protagonistas da sua própria narrativa. É precisamente essa reparação simbólica que Catel Muller e José-Louis Bocquet realizam em Kiki de Montparnasse, uma das mais marcantes biografias em banda desenhada das últimas décadas.

Publicada originalmente em 2007, a obra reconstrói a vida de Kiki de Montparnasse (Alice Prin), figura central da boémia parisiense dos anos 1920. Modelo, cantora, pintora, atriz e escritora, Kiki foi muito mais do que a célebre imagem captada por Man Ray em Le Violon d’Ingres. Foi um símbolo de liberdade feminina numa época de intensa efervescência artística.

Catel e Bocquet não optam por uma narrativa breve ou episódica. Pelo contrário, constroem um volume extenso, de fôlego quase romanesco, que acompanha Kiki desde a infância pobre até à consagração como “rainha de Montparnasse”. O traço elegante e expressivo de Catel — predominantemente a preto e branco — equilibra leveza e densidade histórica. A linha clara reforça a dimensão documental, mas nunca abdica da emoção. O argumento de Bocquet, por sua vez, articula rigor histórico e fluidez narrativa, evitando tanto a hagiografia como o sensacionalismo.

A obra recebeu o Prémio do Público no Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême em 2008, distinção que consolidou o seu estatuto no panorama europeu da BD.

Kiki de Montparnasse, Catel Muller e José-Louis Bocquet, Devir, 406 pp., p&b, capa dura, 22€

4 de março de 2026

“Bob de Moor – La ligne claire d’Hergé” – Uma homenagem definitiva a um mestre da banda desenhada

Bob de Moor – La ligne claire d’Hergé” é um livro monumental dedicado ao artista belga Bob de Moor, escrito pelo especialista em banda desenhada Gilles Ratier e publicado pela editora BD Must em finais de 2025.  Chegou-me hoje um exemplar numerado exclusivo dos Les Amis de Hergé.

Com 320 páginas em grande formato (cerca de 26,5 × 32 cm) e enriquecido com cerca de 600 ilustrações, incluindo desenhos raros, pranchas, fotografias inéditas e documentos de arquivo, este volume é considerado a biografia mais completa já editada sobre De Moor, tanto pelo seu rigor documental como pela qualidade visual.

Gilles Ratier é um jornalista e historiador da BD francês reconhecido pelo seu trabalho editorial e crítico no campo da banda desenhada. Antes desta obra, Ratier já tinha publicado biografias ilustradas de grandes figuras do meio, como Jean-Michel Charlier, o que lhe confere experiência e sensibilidade para abordar De Moor com profundidade. 

Organizado em 18 capítulos, o livro traça a trajetória humana e artística de Bob de Moor, desde os seus primeiros passos na revista Kuifje/Tintin até ao reconhecimento como um dos grandes mestres da ligne claire — o estilo de desenho caracterizado por linhas claras e precisas, sem hachuras extensivas e com forte equilíbrio entre formas e cores, cuja paternidade Hergé ajudou a definir. 

Entre os temas abordados, destacam-se:

A colaboração com Hergé e a sua importância nas aventuras de Tintin, onde De Moor foi assistente principal e elemento central nos Studios Hergé durante várias décadas.

O seu trabalho pessoal, com séries como Barelli, Cori, le Moussaillon, Monsieur Tric e Oncle Zigomar, que revelam a sua versatilidade criativa para além da obra herdada de Hergé.

As contribuições em outras séries de grande influência, como Lefranc ou Blake e Mortimer, confirmando o seu papel mais amplo no desenvolvimento da BD franco-belga. 

Memórias, fotografias e documentos inéditos da família e dos arquivos dos Studios Hergé, que permitem ao leitor ver e compreender melhor não só o artista mas também o ambiente e os métodos de trabalho da época.

Graças à colaboração com a família De Moor e ao acesso a importantes arquivos pessoais, Gilles Ratier fez mais do que documentar datas e obras: ele devolve voz a um artista fundamental, permitindo perceber a dimensão do seu trabalho e a sua contribuição essencial para uma das épocas mais ricas da história da BD. 

Bob de Moor – La ligne claire d’Hergé, Gilles Ratier, BD Must, 320 pp., cor, capa dura, 95€

2 de março de 2026

A Nossa Voz

A Nossa Voz é uma narrativa gráfica sensível e atual que dá continuidade ao universo iniciado em Um Coração, Dois Caminhos. Nesta obra, Nora Dåsnes volta a centrar-se na adolescência precoce, explorando com autenticidade as emoções, as dúvidas e as descobertas próprias dos 12 anos.

A história acompanha Bao, uma jovem determinada e atenta ao mundo que a rodeia. Juntamente com as suas melhores amigas, Tuva e Linnéa, decide organizar um protesto para defender uma floresta ameaçada. O gesto nasce de uma inquietação genuína: a percepção de que os adultos nem sempre escutam — ou valorizam — as preocupações dos mais novos.

Ao longo da narrativa, a autora coloca questões pertinentes:

Conseguirão os jovens fazer-se ouvir?

Os colegas, como Abdi e os restantes rapazes da escola, compreendem verdadeiramente a urgência da causa ambiental?

Como se constrói coragem para enfrentar a indiferença?

Mais do que uma história sobre ambiente, o livro é um retrato delicado da formação da identidade. Bao aprende que o activismo não é apenas erguer cartazes, mas também dialogar, persistir e aceitar que a mudança exige tempo e união. A amizade entre as três protagonistas funciona como alicerce emocional, mostrando que o crescimento é mais seguro quando partilhado.

A linguagem visual — característica das novelas gráficas — reforça a intensidade emocional da narrativa. As expressões das personagens, o uso da cor e a composição das páginas traduzem inseguranças, entusiasmo e frustração com grande proximidade, tornando a leitura acessível e envolvente.

Recomendada para leitores em idade pré-adolescente e juvenil, A Nossa Voz destaca-se como uma obra que incentiva à reflexão crítica e à participação activa na sociedade. É um livro que transmite uma mensagem clara: a idade não limita o impacto da nossa voz — quando falamos com convicção, podemos contribuir para transformar o mundo.

A Nossa Voz, Nora Dåsnes, Nuvem de Letras, 240 pp., cor, capa mole, 15,95€