Steven Spielberg, Amazing Améziane, ASA, 200 pp., cor, capa mole, 29,90€
Steven Spielberg, Amazing Améziane, ASA, 200 pp., cor, capa mole, 29,90€
No centro da narrativa encontramos Rubin, uma figura enigmática — um rakshasa com ambições muito pouco demoníacas à primeira vista: tornar-se uma espécie de Anthony Bourdain do sobrenatural. Para isso, recruta Mo, um cineasta em declínio, para o acompanhar numa jornada pela rica e diversa cozinha indiana. O objectivo? Captar não apenas os sabores, mas as histórias, as pessoas e a alma por trás de cada prato.
Mas, como seria de esperar, nada é assim tão simples. À medida que a viagem avança, Mo começa a perceber que Rubin esconde uma natureza muito mais sombria — e que os humanos podem ter um papel nesta história muito mais perturbador do que imaginava.
Rare Flavours é muito mais do que uma narrativa sobre comida. É uma reflexão sobre identidade, desejo, mortalidade e o significado de viver plenamente. Através de uma combinação magistral de texto e ilustração, a obra convida-nos a abrandar, a saborear — não só a comida, mas também os momentos que compõem a nossa existência.
Com uma estética visual envolvente e uma narrativa que oscila entre o poético e o inquietante, esta banda desenhada destaca-se como uma das propostas mais originais dos últimos anos, tendo sido reconhecida com nomeações para várias categorias dos prestigiados Prémios Eisner.
Uma leitura obrigatória para quem procura histórias que alimentam tanto o pensamento quanto a imaginação.
Nesta obra, o leitor é convidado a mergulhar no pensamento e percurso de Hugo Pratt, figura maior da BD europeia e criador do icónico Corto Maltese. Mais do que uma cronologia detalhada, o livro constrói-se como um conjunto de reflexões, episódios e memórias que ajudam a compreender o homem por detrás da obra.
Pratt surge aqui como um viajante incansável — não apenas geográfico, mas também cultural e imaginário. As suas experiências em África, na América do Sul e na Europa ecoam nas histórias que criou, sempre marcadas por um sentido de aventura, liberdade e ambiguidade moral.
Um dos aspetos mais marcantes de A Mão de Deus é a forma como combina texto e imagem. As ilustrações são do próprio Hugo Pratt, mas não organizadas como uma narrativa sequencial típica da banda desenhada. Em vez disso, funcionam como extensões visuais do pensamento do autor — fragmentos de um imaginário que ajudou a redefinir o género.
O traço de Pratt, aparentemente simples mas profundamente expressivo, reforça o caráter evocativo do livro. Cada imagem parece conter uma história em potência, um momento suspenso entre realidade e ficção.
Embora esteja intimamente ligada ao percurso de um dos maiores nomes da banda desenhada, A Mão de Deus não deve ser lida como uma BD convencional. É antes uma obra contemplativa, que convida à leitura pausada e à descoberta de camadas mais subtis da personalidade e visão artística de Hugo Pratt.
Para leitores habituados às aventuras de Corto Maltese, este livro oferece uma perspectiva diferente: mais introspectiva, mais próxima do autor do que das suas personagens. Para novos leitores, pode ser uma porta de entrada curiosa para um universo criativo onde a fronteira entre vida e ficção é constantemente desafiada.
No fundo, A Mão de Deus funciona como uma chave — discreta mas reveladora — para compreender melhor não só a obra de Hugo Pratt, mas também o espírito inquieto e livre que a tornou possível.
Hugo Pratt - A mão de Deus, Ángel de la Calle, Arte de Autor, 160 pp., p&b, capa dura, 19,90€
No centro da história está a relação entre Cédric e o seu cão Ubac, um imponente Cão de Montanha de Berna que, mais do que um companheiro, se torna presença estruturante na vida do autor. Ao longo de treze anos, acompanhamos uma convivência feita de cumplicidade, pequenos rituais e momentos de intensidade silenciosa — até que a inevitabilidade da morte redefine tudo. Mais do que uma simples história sobre um homem e o seu animal, trata-se de uma reflexão profunda sobre o amor incondicional e sobre a forma como os vínculos verdadeiros perduram para lá da ausência.
A adaptação em BD respeita o tom contemplativo da obra original, traduzindo em imagens a delicadeza das emoções evocadas por Sapin-Defour. O traço de Munuera, simultaneamente expressivo e subtil, consegue captar tanto a beleza dos cenários naturais como a intimidade dos gestos quotidianos, criando uma leitura envolvente e sensorial — quase como um eco visual da memória, esse “aroma” que permanece.
Quanto a José-Luis Munuera, trata-se de um autor espanhol nascido em 1972, reconhecido internacionalmente pelo seu trabalho na banda desenhada franco-belga. Começou a sua carreira nos anos 1990 e destacou-se ao assumir, durante algum tempo, a série Spirou et Fantasio, uma das mais icónicas do género. Ao longo dos anos, desenvolveu um estilo muito próprio, combinando dinamismo narrativo com uma grande sensibilidade emocional, algo que se revela particularmente adequado nesta adaptação.
Esta edição, integrada na linha da Arte de Autor, é uma verdadeira ode à vida e à memória. Um livro que convida à pausa e à contemplação — e que certamente tocará todos aqueles que já experimentaram a profundidade de um laço que não precisa de palavras para existir.
O cheiro dele depois da chuva, José-Luis Munuera, Arte de Autor, 136 pp., capa dura, cor, 27€
Outrora um dos locais mais visitados da cidade, Núvia tornou-se, com o passar do tempo, um espaço envolto em silêncio e receio. Aquilo que já foi um jardim vibrante e acolhedor é hoje cenário de acontecimentos inexplicáveis, evitando-se até mencionar o seu nome. Poucos ousam atravessar os seus portões — mas a chegada de um enigmático forasteiro promete desafiar os segredos que permanecem ocultos entre os ramos das árvores. Quem é ele, e o que sabe realmente sobre o passado deste lugar?
Fábio Veras, licenciado em Desenho pela Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, tem vindo a afirmar-se como um dos nomes promissores da banda desenhada portuguesa. Em 2016, venceu o primeiro prémio do concurso Amadora BD e, em 2018, destacou-se também no concurso de Odemira. Nesse mesmo ano, lançou Jardim dos Espectros, consolidando a sua voz autoral.
Desde então, o autor tem somado participações em diversas publicações e antologias, além de lançar obras como Filhos do Rato (2019), que lhe valeu o Prémio Revelação na 30.ª edição do Amadora BD, e O Homem de Lugar Nenhum (2021). Mais recentemente, Veras tem expandido o seu trabalho para o mercado internacional, colaborando com editoras como a DC Comics e a Image Comics.
Esta nova edição de Jardim dos Espectros representa não só o reconhecimento do impacto da obra junto do público, mas também uma oportunidade para novos leitores descobrirem um dos títulos mais intrigantes da banda desenhada contemporânea portuguesa.
Jardim dos Espectros [2ª edição], Fábio Veras, Escorpião Azul, 64 pp., cor, capa mole, 19€
Marcos está determinado a encontrar o seu filho e levá-lo de volta para Roma, numa tentativa desesperada de salvar o irmão das mãos de Cabar. No entanto, o destino revela-se implacável: Morfea já matou o refém, alterando drasticamente o rumo dos acontecimentos. Ainda assim, Marcos não abandona a missão que lhe foi confiada por Germânico — recuperar as águias perdidas de Roma, símbolos de honra e poder. Uma delas, ao que tudo indica, encontra-se nas mãos dos temidos brúcteros. Do outro lado, Arminio enfrenta a sua própria dor. Abalado pela captura de Thusnelda, o líder germânico deixa-se consumir por um desejo crescente de vingança. Mais determinado do que nunca, prepara-se para esmagar os romanos e pôr fim à sua presença de uma vez por todas.
Este oitavo volume promete acção intensa, reviravoltas dramáticas e um aprofundar das emoções que movem estas personagens marcantes. Entre lealdade, vingança e destino, a série continua a explorar os limites da guerra e da humanidade.
Prepara-te para um novo capítulo onde cada decisão tem consequências — e onde o passado e o presente colidem de forma explosiva.
As Águias de Roma: Livro VIII, Enrico Marini, ASA, 64 pp., cor, capa dura, 17,90€