quarta-feira, 12 de agosto de 2026

CLING! La bande dessinée parle cash — quando a BD fala de dinheiro

A relação entre banda desenhada e dinheiro está no centro de CLING! La bande dessinée parle cash, catálogo da exposição com o mesmo título apresentada na Monnaie de Paris, em Paris, de 10 de Abril a 6 de Setembro de 2026.

Sob a direcção de Lucas Hureau e Damien MacDonald, com a contribuição de Irène Le Roy Ladurie, a obra acompanha uma exposição que parte de uma ideia particularmente fértil: ao longo da sua história, a banda desenhada utilizou constantemente o dinheiro, a riqueza e a sua ausência para falar da sociedade.

Da imprensa popular às paredes dos museus, o 9.º Arte conquistou progressivamente reconhecimento sem perder a capacidade de observar com ironia o mundo que o rodeia. E poucos temas serão tão universais como o dinheiro. Moeda e banda desenhada têm, aliás, algo em comum: ambas são objectos populares, produzidos em série e destinados a circular.

É neste cruzamento que encontramos personagens incontornáveis da história da BD. Tio Patinhas mergulha na sua caixa-forte, os Dalton assaltam bancos, Tintin persegue tesouros, Largo Winch herda um império e Gaston Lagaffe declara guerra aos parquímetros. Através deles e de muitos outros, a banda desenhada tem representado o dinheiro enquanto objecto de desejo, instrumento de poder, causa de conflitos ou simplesmente inesgotável fonte de humor.

CLING! La bande dessinée parle cash organiza esta relação através de oito grandes arquétipos: aventureiros, ladrões, poupadores, milionários, marginais, jogadores, falsificadores e alquimistas. São diferentes maneiras de procurar, acumular, gastar, roubar, fabricar ou rejeitar a riqueza, permitindo simultaneamente observar como a BD tem retratado as transformações económicas e sociais.

O catálogo reúne pranchas originais, obras raras e criações contemporâneas, prolongando em livro um percurso expositivo que abrange cerca de dois séculos de criação, dos strips da imprensa norte-americana aos comics, passando pela BD franco-belga e pelo manga. A exposição que lhe serve de base reúne mais de 250 obras provenientes de colecções públicas e privadas.

Mais do que um simples catálogo de exposição, CLING! propõe assim olhar para a História da banda desenhada através de um elemento omnipresente nas nossas sociedades: o dinheiro. Entre humor, aventura, crítica social e sátira, as moedas, notas, tesouros, fortunas e falências que povoam as vinhetas acabam por revelar muito sobre as sociedades que as produziram.

CLING! La bande dessinée parle cash, direcção de Lucas Hureau e Damien MacDonald, 160 pp., cor, capa mole, 30 €

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Casemate #204: Lucky Luke em destaque na edição de Agosto/Setembro

Já está disponível o n.º 204 da revista francesa Casemate, correspondente a Agosto/Setembro de 2026, com Lucky Luke em grande destaque na capa. E há uma boa razão para isso: o cowboy que dispara mais depressa do que a própria sombra prepara-se para celebrar 80 anos, e a revista dedica dez páginas ao próximo álbum da série, assinado por Achdé e Jul, incluindo quatro pranchas de antecipação.

Sob a sugestiva chamada de capa em torno de uma «receita milagrosa» preparada para o octogenário Lucky Luke, a Casemate antecipa assim uma das novidades mais aguardadas da BD franco-belga deste ano.

Mas este número oferece muito mais. A revista começa por recordar como Arthur Conan Doyle chegou a assumir o papel do seu próprio detective, Sherlock Holmes, seguindo-se Chloé Cruchaudet e Home Sweet Home. Philippe Squarzoni coloca em órbita Musk, dedicado ao homem mais rico do mundo, enquanto Pierre-Henry Gomont se interessa pelo espectacular Palio, as célebres corridas de cavalos italianas. Entre as principais antevisões encontram-se ainda Jordi Lafebre, numa escapadela pelos céus ingleses a bordo de um balão; Pascal Rabaté, com L’Enfance des ruines; e Catel, que revisita René Goscinny, apresentado como um inesgotável criador de ideias.

Outro dos destaques é Nanbanjin, apresentado como um duplo relato construído a partir dos diferentes pontos de vista de Cyril Pedrosa e Taiyō Matsumoto. Há ainda espaço para Chroniques de fer et d’écailles, onde se cruzam fantasy e steampunk, e para Catherine Meurisse, que transforma Henry David Thoreau num inesperado precursor do ecossabotagem. Michel Rabagliati traça, por seu lado, um retrato simultaneamente terno e amargo de uma Montreal cheia de contrastes, enquanto Alexandre Standjofski aborda o optimismo e a alegria de El Bacha.

Com Lucky Luke na capa e dez páginas dedicadas ao seu regresso, a Casemate é, naturalmente, um número particularmente apetecível para os seguidores do célebre cowboy criado por Morris, mas também uma boa antevisão da intensa rentrée da banda desenhada franco-belga de 2026.

Casemate #204, août-septembre 2026, 98 pp., 9,95€

Gannibal 7: o terror aperta o cerco em Kuge

A Seita prossegue a publicação portuguesa de Gannibal, de Masaaki Ninomiya, com a edição do sétimo volume daquela que é considerada uma das mais marcantes séries de suspense e terror japonesas da última década.

Publicado originalmente no Japão pela Nihon Bungeisha, em 19 de Outubro de 2020, o sétimo volume reúne capítulos anteriormente serializados na revista Weekly Manga Goraku, onde Gannibal foi publicada entre 2018 e 2021, num total de 13 volumes.

Ao longo da série, o polícia Daigo Agawa, recentemente transferido para a remota aldeia de Kuge, vê-se confrontado com uma comunidade fechada sobre si própria, marcada por tradições ancestrais e por um inquietante rumor: os habitantes poderão praticar canibalismo. À medida que a investigação avança, o ambiente torna-se cada vez mais opressivo e as fronteiras entre superstição, violência e realidade começam a esbater-se.

Neste sétimo tomo, Masaaki Ninomiya mantém o ritmo intenso que caracteriza a série, aprofundando os conflitos entre Daigo e os habitantes da aldeia, ao mesmo tempo que acrescenta novas peças ao complexo puzzle que envolve a família Gotō e os segredos de Kuge. O suspense é construído de forma gradual, recorrendo a um notável equilíbrio entre a investigação policial, o horror psicológico e a tensão permanente que envolve todas as personagens.

Graficamente, Gannibal continua a impressionar pelo traço realista de Ninomiya. O domínio dos contrastes, das expressões faciais e dos enquadramentos transmite uma constante sensação de claustrofobia e ameaça, fazendo da própria aldeia uma personagem central da narrativa.

Gannibal #7, Masaaki Ninomiya, A Seita, 192 pp., p&b, capa mole, 11,99€

sábado, 8 de agosto de 2026

Dylan Dog: Morte em 16 por 9

Criado por Tiziano Sclavi em 1986, Dylan Dog é o célebre investigador do paranormal, o detective dos pesadelos, uma das mais conhecidas personagens de BD de sempre, cujas aventuras ao mesmo tempo aterradoras, inquietantes e melancólicas, têm encantado leitores – e leitoras – em todo o mundo. Onde termina o artista e começa a obra, onde se interrompe a dor e se inicia o prazer, onde se fundem as linhas que separam a vítima do carrasco? É nesse espaço liminal nebuloso que se terá de mover Dylan Dog, lutando para não acabar sufocado nas espirais inebriantes de uma misteriosa mecenas que fez da arte a sua razão de vida. E de morte. Roberto Recchioni e Corrado Roi arrastam-nos numa viagem alucinante, uma tempestade de emoções contrastantes que levará o investigador do pesadelo a ficar prisioneiro de uma mente alienígena, e o levará ao ponto de ruptura, a um passo do abismo, obrigando-o a enfrentar os piores fantasmas do seu passado.

Dylan Dog: Morte em 16 por 9, Roberto Recchioni e Corrado Roi, A Seita, 208 pp., p&b, capa dura, 24€

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Thorgal Saga 2: Wendigo

Durante a viagem de regresso do país Qâ, Thorgal e a sua família veem‑se apanhados em pleno conflito entre dois povos autóctones. Nestas terras ainda selvagens, nada parece capaz de travar o caos da guerra, desde que o Wendigo, uma criatura mitológica, foi invocado. Para salvar Aaricia, grávida e ferida, Thorgal não tem outra escolha senão tomar partido e voltar a comprometer‑se na loucura dos homens.

Mergulhando nas lendas ancestrais do Norte, Fred Duval constrói uma narrativa tensa e profundamente humana baseada em Wendigo, uma criatura do folclore ameríndio associada à fome, à solidão extrema e à perda da humanidade. A história destaca-se pela forma como combina aventura e horror, colocando as personagens perante dilemas éticos intensos. O traço expressivo de Corentin Rouge, aliado ao argumento sólido de Fred Duval, reforça o sentimento de claustrofobia e tensão constante. Mais do que um simples episódio de aventura, Wendigo é uma reflexão sobre o instinto de sobrevivência e o preço a pagar quando a civilização cede lugar à barbárie.

Thorgal Saga 2: Wendigo, Fred Duval e Corentin Rouge, A Seita, 136 pp., cor, capa dura, 28€

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Wild West regressa com um novo capítulo!

A Ala dos Livros acaba de editar o 5.º volume da série Wild West, intitulado Redenção, da dupla Thierry Gloris (argumento) e Jacques Lamontagne (desenho), dando início a um novo díptico que volta a cruzar ficção com personagens reais da conquista do Oeste americano.

Desde o primeiro volume, Thierry Gloris tem construído a série recorrendo a figuras históricas do Velho Oeste, como Wild Bill Hickok, Calamity Jane e Charlie Utter, integrando-as em tramas ficcionais cheias de acção, violência, suspense e rigor na reconstituição histórica. Neste quinto álbum, junta-se à narrativa mais uma personagem lendária: Belle Starr, uma das mais famosas fora da lei da história do Oeste americano, conhecida como a "Rainha dos Bandidos".

A acção decorre em Dolores City, na fronteira entre a Califórnia e o Nevada. Depois dos acontecimentos dramáticos dos volumes anteriores, Wild Bill vive agora como xerife da pequena cidade, enquanto Calamity Jane regressa aos excessos da bebida e Charlie Utter desempenha as funções de carteiro. A aparente tranquilidade termina com a chegada da família Ballou, liderada pela enigmática Catherine. Sob a identidade de pacíficos rancheiros escondem-se perigosos fugitivos, cuja presença irá mergulhar Dolores City no caos e conduzir ao reencontro com um velho inimigo.

Um dos grandes trunfos da série continua a ser o extraordinário trabalho gráfico de Jacques Lamontagne. O seu desenho realista, a atenção ao detalhe histórico e a qualidade das paisagens do Oeste fazem de Wild West uma das mais belas séries de western franco-belga da actualidade. A capa de Redenção volta a confirmar esse nível de excelência, sendo, uma vez mais, um dos grandes atractivos do álbum.

Wild West – Volume 5: Redenção: Thierry Gloris e Jacques Lamontagne, Ala dos Livros, 48 pp., cor, capa dura, 17,50€

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O Diabo e a Coral: a nova obra de Josep Homs já chegou às livrarias

A Ala dos Livros acaba de editar em Portugal O Diabo e a Coral, a mais recente obra de Josep Homs, um álbum que combina ficção histórica, fantasia e drama num dos períodos mais sombrios da história europeia.

A ação decorre em Praga, em 1938, quando o continente se afunda no ódio, na intolerância e na iminência da Segunda Guerra Mundial. Enquanto Hitler parece conduzir a Europa para o abismo, corre o rumor de que o ditador é guiado pelo próprio Diabo. Mas e se essa ideia não fosse apenas uma metáfora?

É neste contexto que surge Lúcifer, preso contra a sua vontade ao mundo dos homens e incapaz de regressar ao Inferno. A única pessoa capaz de o ver é Coral, uma jovem judia inteligente e determinada. Entre ambos estabelece-se uma estranha relação de dependência, obrigando-os a unir esforços para quebrar o misterioso feitiço que os mantém ligados. A resposta poderá estar escondida no passado do pai de Coral, o enigmático Rabino Loew.

Com o seu reconhecido talento gráfico, Josep Homs constrói uma narrativa visualmente deslumbrante, onde o fantástico se cruza com acontecimentos históricos reais, oferecendo uma reflexão sobre o fanatismo, a liberdade e a condição humana.