sábado, 12 de setembro de 2026
sexta-feira, 11 de setembro de 2026
O Anjo Pasolini – Pasolini revisitado em novela gráfica
Publicado originalmente em França pela Denoël Graphic, em Fevereiro de 2025, L’Ange Pasolini assinala os cinquenta anos da morte de Pier Paolo Pasolini (1922-1975), uma das personalidades mais singulares, polémicas e influentes da cultura italiana do século XX.
Poeta, cineasta, escritor, ensaísta e intelectual marxista, Pasolini assumiu publicamente a sua homossexualidade numa Itália profundamente marcada pelo catolicismo e pelo conservadorismo moral. Ao longo da sua carreira transformou, sobretudo, o cinema num poderoso instrumento de intervenção política, social e cultural. Crítico feroz do consumismo, da burguesia italiana e da transformação acelerada da sociedade do pós-guerra, Pasolini considerava que a expansão do capitalismo e da sociedade de consumo estava a provocar uma profunda uniformização cultural e uma verdadeira mutação antropológica. Nem a esquerda escapou às suas críticas, numa atitude intelectual que frequentemente o colocou numa posição incómoda e isolada. Nos últimos anos da sua vida, as suas intervenções tornaram-se particularmente contundentes. Nos artigos publicados na imprensa italiana, questionou as estruturas do poder e denunciou a corrupção e as ligações entre interesses políticos, económicos e outros poderes instalados. Pasolini tornara-se uma voz difícil de enquadrar e ainda mais difícil de silenciar.
É precisamente na sua morte que L’Ange Pasolini começa.
Estamos em novembro de 1975. Pasolini, com 53 anos, é atraído para uma armadilha numa praia de Ostia, nos arredores de Roma, onde é brutalmente agredido e assassinado. Enquanto agoniza, surge-lhe um anjo. Entre ambos inicia-se um diálogo que permite revisitar os momentos fundamentais da vida do poeta e cineasta.
A opção de Delalande e Gombert não é, portanto, a de construir uma biografia convencional. O encontro imaginário entre Pasolini e o anjo funciona como dispositivo narrativo para um exame de consciência: regressam as origens familiares, as contradições políticas e religiosas, a sexualidade, a criação artística, as polémicas, os sucessos e os fracassos de uma vida marcada por permanentes conflitos. É também um retrato das contradições do próprio Pasolini: progressista mas crítico da modernidade, marxista mas profundamente interessado pelo sagrado, provocador e simultaneamente nostálgico de um mundo popular que via desaparecer perante o avanço da sociedade de consumo. A própria apresentação da edição francesa sublinha essa sucessão de paradoxos que marcou a sua personalidade e a sua obra.
O desenho de Éric Liberge, em preto e branco, acompanha essa abordagem introspectiva e contribui para uma narrativa que se situa entre a biografia, a evocação histórica e a reflexão sobre a memória. Mais do que contar simplesmente a vida de Pier Paolo Pasolini, L’Ange Pasolini procura regressar às suas ideias, às suas inquietações e às suas contradições. Cinquenta anos depois do seu assassinato, muitas das questões que colocou — o poder dos meios de comunicação, a sociedade de consumo, a uniformização cultural, a relação entre política e poder económico — ajudam também a explicar por que razão Pasolini continua a ser uma figura tão discutida e atual.
O Anjo Pasolini, Arnaud Delagrand, Denis Gombert e Eric Liberge, Levoir, 104 pp., p&b, 16,90€
terça-feira, 8 de setembro de 2026
ZITS regressa em setembro com Apocalipse
Com o título Apocalipse Zits, o novo volume volta ao quotidiano de Jeremy Duncan e à eterna batalha entre adolescentes e adultos. Desta vez, a comparação é particularmente apropriada: adolescentes e zombies têm mais em comum do que seria desejável — movem-se lentamente, comunicam de forma nem sempre inteligível e parecem estar permanentemente com fome. Como resume provocatoriamente a edição: «Os zombies comem cérebros. Tás safo».
A Gradiva mantém assim a sua longa ligação à série, que publica em Portugal há mais de duas décadas. Entre os títulos anteriormente editados encontram-se E No Entanto Move-se, Dá-lhe Gás, Peace, Love & Wi-Fi e Zits em Concerto.
Apocalipse Zits, Jerry Scott e Jim Borgman, Gradiva, 208 pp., p&b, capa mole, 19€
Level up na estante: novidades Devir a caminho
A mangá, a banda desenhada e o romance gráfico já não são fenómenos de nicho. Conquistam novos leitores todos os dias e ocupam um lugar cada vez mais destacado nas tabelas de vendas, entre miúdos e graúdos.
É neste contexto que a DEVIR entra na rentrée com novas séries, edições especiais, grandes clássicos e algumas despedidas de títulos de culto, num calendário de lançamentos que se estende de setembro a novembro.
Entre os destaques está A Casa do Desertor, nova antologia do mestre do terror japonês Junji Ito; A Morte do Tetraz-Lira, romance gráfico de David Combet sobre identidade, relações familiares e os modelos tradicionais de masculinidade; e Ichi the Witch, de Osamu Nishi e Shiro Usazaki, uma das novas sensações da manga japonesa e vencedora dos Next Manga Awards 2025.
Há ainda regressos de peso, como O Longo Halloween, de Jeph Loeb e Tim Sale, V for Vendetta, de Alan Moore e David Lloyd, e novas incursões nos universos de Batman e Superman. A rentrée marca também o final de séries como Monster, Boa Noite, Punpun, Kenshin, o Samurai Errante e The Walking Dead.
Guy Delisle marcará presença na 37.ª edição da Amadora BD, que lhe dedica uma exposição centrada nos seus célebres livros de viagens — Pyongyang, Crónicas de Jerusalém, Crónicas da Birmânia e Shenzhen — obras que ajudaram a levar o seu trabalho muito para além do público tradicional da BD.
The Beatles em BD: a história dos Fab Four chega à banda desenhada pela ASA
A obra não se limita a recordar os discos ou os grandes êxitos. A narrativa acompanha o percurso do grupo desde os tempos dos Quarrymen, passando pela formação definitiva dos Beatles, pelas primeiras atuações, pela explosão da Beatlemania, pela conquista dos Estados Unidos e pela extraordinária evolução musical que os levou de simples ídolos juvenis a protagonistas de uma verdadeira revolução cultural. Foram apenas oito anos de carreira discográfica, mas bastaram para produzir doze álbuns originais e mais de 200 canções, num percurso em que os quatro músicos de Liverpool alteraram sucessivamente aquilo que se esperava de uma banda pop.
O livro acompanha naturalmente episódios fundamentais dessa trajectória: a ascensão fulgurante do grupo, as digressões marcadas por multidões de fãs, o abandono dos concertos, a crescente experimentação em estúdio e, finalmente, as tensões que conduziriam à separação.
The Beatles em BD não é uma biografia gráfica convencional. A proposta concebida por Gaet's e Stéphane Nappez combina sequências de banda desenhada com textos documentais e material ilustrado, permitindo contextualizar historicamente os acontecimentos narrados. É precisamente esta estrutura híbrida que distingue o álbum. Ao lado dos grandes momentos conhecidos por praticamente todos os admiradores dos Beatles surgem episódios e curiosidades menos divulgados, proporcionando uma leitura simultaneamente narrativa e documental. A própria apresentação portuguesa destaca essa intenção: permitir «descobri-los de outra forma», percorrendo a história do grupo dos Quarrymen até à separação.
A edição tem 232 páginas em capa dura, assumindo-se assim como um volume de dimensão considerável e destinado não apenas aos leitores habituais de banda desenhada, mas também aos amantes da música e, naturalmente, aos inúmeros admiradores dos Fab Four.
É difícil encontrar outra banda cuja evolução tenha sido tão rápida. Entre os primeiros êxitos de Please Please Me e a sofisticação de obras como Revolver, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, The Beatles ou Abbey Road decorreram apenas alguns anos. E talvez seja precisamente essa transformação que torna a história dos Beatles tão adequada à banda desenhada: quatro jovens de Liverpool passam dos pequenos clubes para os maiores palcos do mundo, tornam-se protagonistas de uma histeria coletiva sem precedentes e, quando poderiam simplesmente repetir a fórmula do sucesso, abandonam as digressões e transformam o estúdio de gravação num verdadeiro laboratório criativo. Depois chegam as divergências, os projectos individuais e uma separação que, em 1970, encerra uma história extraordinariamente curta quando comparada com a dimensão do legado deixado.
Existem milhares de livros dedicados aos Beatles. Biografias, estudos musicais, testemunhos, fotografias e análises minuciosas praticamente não deixaram um único dia da carreira do grupo por documentar. A originalidade desta edição está, portanto, menos na descoberta de uma história desconhecida do que na forma escolhida para voltar a contá-la.
A conjugação entre banda desenhada e documentação permite transformar episódios célebres em pequenas narrativas visuais e, ao mesmo tempo, fornecer ao leitor o contexto necessário para compreender como quatro músicos ingleses se tornaram um dos maiores fenómenos culturais do século XX.
Depois de várias apostas recentes em obras que aproximam a banda desenhada de outras manifestações culturais, a ASA acrescenta assim ao seu catálogo um título bastante diferente das séries franco-belgas que tradicionalmente constituem uma parte importante da sua edição de BD. A própria editora apresentou The Beatles em BD como uma das propostas mais «fora da caixa» do seu programa para o segundo semestre de 2026. Para quem gosta simultaneamente de banda desenhada e música, dificilmente poderia haver encontro mais apetecível.
The Beatles em BD, Gaet's e vários autores, ASA, 232 pp., cor, capa dura, 28,90€
segunda-feira, 7 de setembro de 2026
SHI regressa pela Ala dos Livros: Zidrou e Homs levam-nos ao coração do «Grande Fedor» de Londres
Depois dos acontecimentos que abalaram Londres, Jay e Kita são agora consideradas terroristas por uma burguesia que vê nas duas mulheres uma ameaça à ordem estabelecida. Mas aquilo que deveria significar o fim da sua luta acaba por produzir o efeito contrário. Graças às «Mães Furiosas», o movimento alastra pela cidade e o misterioso símbolo SHI nunca esteve tão presente nas ruas de Londres. Ao mesmo tempo, no presente, Apolline aproxima-se cada vez mais da verdade sobre a mãe biológica. Junto ao túmulo de Jay, começa finalmente a compreender a dimensão da vida que esta levou: uma existência marcada pela luta, pelo sofrimento e pela dedicação absoluta a uma causa. A descoberta coloca, porém, uma questão inevitável: estará Apolline preparada para suportar o peso dessa herança e assumir o legado de uma mãe que praticamente só conhece através da memória dos outros?
Jay aguarda na prisão o julgamento pelos trágicos acontecimentos de Trafalgar Square. Kita e Sensei procuram recuperar dos ferimentos, físicos e emocionais, enquanto uma nova ameaça se abate sobre a capital do Império Britânico. Uma vaga de calor sufocante faz baixar drasticamente as águas do Tamisa. O rio, transformado numa gigantesca cloaca a céu aberto, espalha pela cidade um odor insuportável e coloca Londres perante uma grave crise sanitária e o risco de novas epidemias. É o episódio que ficaria conhecido na História como The Great Stink — o Grande Fedor de Londres.
Zidrou volta assim a inserir as suas personagens ficcionais num acontecimento histórico real, ocorrido durante o verão de 1858 e decisivo para a modernização do sistema de saneamento londrino. A miséria das classes populares, as deficientes condições sanitárias e as enormes desigualdades sociais da Inglaterra vitoriana proporcionam um cenário particularmente adequado ao universo de SHI. E as Mães Furiosas não estão dispostas a permanecer quietas.
Enquanto Londres quase sufoca, continuam a preparar novos ataques, combatem o trabalho infantil e procuram desesperadamente a filha de Jay. Paralelamente, aproxima-se mais uma etapa do plano que atravessa toda a série: falta apenas a encarnação do quarto demónio para que a vingança contra o Império possa finalmente concretizar-se.
Desde o primeiro volume, SHI distingue-se pela forma como Zidrou combina aventura, drama histórico, fantástico e crítica social. Por detrás das conspirações, dos mistérios e dos elementos sobrenaturais encontramos questões bem concretas: exploração laboral, pobreza, desigualdade entre homens e mulheres, colonialismo, racismo e os privilégios de uma sociedade rigidamente hierarquizada.
E se o argumento de Zidrou constrói uma Inglaterra vitoriana particularmente sombria, Homs dá-lhe uma extraordinária presença visual. As ruas sobrelotadas, os interiores burgueses, as zonas miseráveis da cidade e, agora, uma Londres abrasada pelo calor e contaminada pelo Tamisa criam um ambiente simultaneamente grandioso e opressivo. O chamado Grande Fedor parece, aliás, feito à medida do seu desenho.
Com este lançamento, a Ala dos Livros dá continuidade a uma série que tem vindo a conquistar um lugar de destaque entre os leitores portugueses de BD franco-belga. O novo volume aprofunda simultaneamente as duas linhas temporais de SHI: a luta de Jay e Kita na Londres do século XIX e a descoberta, pelas gerações seguintes, das consequências dessa luta. E a revolta das Mães Furiosas está longe de ter terminado.
domingo, 6 de setembro de 2026
BLAST chega ao fim em Portugal: a Ala dos Livros publica o segundo e último integral da obra-prima de Manu Larcenet
Com este segundo volume encerra-se a perturbadora viagem de Polza Mancini, uma das personagens mais extraordinárias e desconcertantes criadas pela banda desenhada francesa contemporânea.
Polza continua sob custódia policial, interrogado na sequência da morte de uma jovem. Obeso, marginal, inteligente e profundamente perturbado, relata aos investigadores os acontecimentos que o conduziram até ali. Mas o seu depoimento está longe de constituir uma simples confissão. É uma descida aos lugares mais obscuros da memória e da mente de um homem que decidiu abandonar as convenções da sociedade para perseguir uma experiência quase impossível de explicar.
O Blast é aquele instante de iluminação que Polza procura obsessivamente: um momento em que a realidade parece dissolver-se e ele é transportado para outro estado de consciência, libertando-se, ainda que brevemente, do peso do corpo, da existência e do mundo. Para voltar a encontrá-lo, Polza afasta-se progressivamente da sociedade. Deambula, bebe, dorme ao relento, conhece outros excluídos e atravessa sucessivas experiências de degradação física e psicológica. Pelo caminho surgem hospitais psiquiátricos, pesadelos, alucinações, violência e recordações que tornam cada vez mais difícil distinguir a verdade da versão que ele próprio construiu.
Neste segundo integral, a viagem aproxima-se inevitavelmente do seu destino. As peças dispersas começam a encontrar o seu lugar e os acontecimentos que conduziram Polza à esquadra adquirem progressivamente outro significado. A verdade aproxima-se — mas não necessariamente da maneira que esperamos.
Larcenet abandona aqui grande parte dos códigos gráficos pelos quais se tornara conhecido e mergulha num universo predominantemente a preto e branco, carregado de manchas, sombras, texturas e silêncios. Os corpos têm peso. A lama parece colar-se às páginas. As florestas tornam-se simultaneamente refúgio e ameaça. Os rostos revelam uma humanidade que oscila permanentemente entre a ternura e a brutalidade. Estamos perante um Larcenet muito diferente daquele que muitos leitores conheceram através de obras mais humorísticas. É um autor disposto a explorar os limites da própria linguagem gráfica.
Originalmente, Blast foi publicado em França em quatro grandes álbuns, entre 2009 e 2014. A edição da Ala dos Livros reúne-os em dois volumes integrais, preservando a dimensão monumental de uma narrativa concebida para ser lida como um todo. Este segundo integral corresponde à segunda metade da obra e conduz a história até à sua conclusão definitiva.
BLAST – Volume Integral 2, Manu Larcenet, Ala dos Livros, 408 pp., p&b, capa dura, 49,90€




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