Publicado originalmente pela Dargaud, em Novembro de 2025, com o título Sur la piste de Blueberry, o álbum foi concebido para assinalar os 60 anos da publicação de Fort Navajo, primeiro álbum da série. Não estamos, porém, perante uma nova aventura convencional nem perante uma continuação assinada por uma única equipa criativa. Trata-se de uma grande homenagem colectiva a Mike Steve Blueberry e, inevitavelmente, aos seus criadores.
A proposta é particularmente sedutora: reunir alguns dos mais destacados autores da banda desenhada europeia contemporânea e convidá-los a seguir, cada um à sua maneira, o rasto deixado por Blueberry. O resultado alterna histórias curtas e ilustrações, permitindo revisitar diferentes momentos e facetas da vida da personagem e, simultaneamente, perceber até que ponto a criação de Charlier e Giraud continua presente no imaginário de sucessivas gerações de autores.
E a lista de participantes impressiona. Encontramos nomes como Anlor, Alberto Belmonte, Dominique Bertail, Michel Blanc-Dumont, Blutch, Olivier Bocquet, Vincent Brugeas, Stefano Carloni, Alexandre Coutelis, Fred Duval, Jérôme Félix, Paul Gastine, Goossens, Mathieu Lauffray, Lu Ming, Jean Mallard, Milo Manara, Enrico Marini, Mathieu Mariolle, Thierry Martin, Matz, Ralph Meyer, Félix Meynet, Vincent Perriot, Corentin Rouge, Olivier Taduc, Ronan Toulhoat, Jean-François Vivier e Philippe Xavier. Cada um contribui com uma história curta ou uma ilustração dedicada ao mítico cowboy.
É precisamente esta diversidade que torna No Rasto de Blueberry especialmente interessante. Não se procura substituir Jean Giraud nem reproduzir artificialmente o seu traço. Pelo contrário, diferentes sensibilidades gráficas e narrativas confrontam-se com uma personagem que marcou profundamente a evolução do western em banda desenhada. De autores intimamente associados ao género a criadores com universos muito diferentes, todos têm aqui a oportunidade de mostrar o seu Blueberry.
Criado em 1963 nas páginas da revista Pilote, Blueberry ajudou a transformar profundamente o western franco-belga. Charlier afastou progressivamente a série dos modelos mais convencionais da aventura juvenil, enquanto Giraud desenvolveu uma representação cada vez mais realista, cinematográfica e visualmente poderosa do Oeste americano. O tenente também estava longe do herói imaculado tradicional: indisciplinado, jogador, beberrão, por vezes insolente e frequentemente perseguido pela própria reputação, tornou-se uma personagem extraordinariamente humana.
Daí que esta homenagem tenha um significado que ultrapassa a simples celebração de um aniversário. Sessenta anos depois de Fort Navajo, Blueberry continua a inspirar alguns dos melhores desenhadores e argumentistas europeus.
A publicação portuguesa pela ASA é, por isso, uma excelente notícia para os leitores que acompanharam durante décadas as aventuras de Blueberry em Portugal e também para quem queira descobrir a dimensão do legado deixado por Charlier e Giraud.






