Nesta obra, o leitor é convidado a mergulhar no pensamento e percurso de Hugo Pratt, figura maior da BD europeia e criador do icónico Corto Maltese. Mais do que uma cronologia detalhada, o livro constrói-se como um conjunto de reflexões, episódios e memórias que ajudam a compreender o homem por detrás da obra.
Pratt surge aqui como um viajante incansável — não apenas geográfico, mas também cultural e imaginário. As suas experiências em África, na América do Sul e na Europa ecoam nas histórias que criou, sempre marcadas por um sentido de aventura, liberdade e ambiguidade moral.
Um dos aspetos mais marcantes de A Mão de Deus é a forma como combina texto e imagem. As ilustrações são do próprio Hugo Pratt, mas não organizadas como uma narrativa sequencial típica da banda desenhada. Em vez disso, funcionam como extensões visuais do pensamento do autor — fragmentos de um imaginário que ajudou a redefinir o género.
O traço de Pratt, aparentemente simples mas profundamente expressivo, reforça o caráter evocativo do livro. Cada imagem parece conter uma história em potência, um momento suspenso entre realidade e ficção.
Embora esteja intimamente ligada ao percurso de um dos maiores nomes da banda desenhada, A Mão de Deus não deve ser lida como uma BD convencional. É antes uma obra contemplativa, que convida à leitura pausada e à descoberta de camadas mais subtis da personalidade e visão artística de Hugo Pratt.
Para leitores habituados às aventuras de Corto Maltese, este livro oferece uma perspectiva diferente: mais introspectiva, mais próxima do autor do que das suas personagens. Para novos leitores, pode ser uma porta de entrada curiosa para um universo criativo onde a fronteira entre vida e ficção é constantemente desafiada.
No fundo, A Mão de Deus funciona como uma chave — discreta mas reveladora — para compreender melhor não só a obra de Hugo Pratt, mas também o espírito inquieto e livre que a tornou possível.
Hugo Pratt - A mão de Deus, Ángel de la Calle, Arte de Autor, 160 pp., p&b, capa dura, 19,90€




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