2 de fevereiro de 2026

Duas Raparigas Nuas, de Luz

A ASA acaba de lançar Duas Raparigas Nuas, um romance gráfico histórico de grande fôlego assinado por Luz, que propõe uma abordagem original e profundamente perturbadora à História do século XX: contá-la através do percurso silencioso de uma obra de arte.

Tudo começa em 1919, numa floresta nos arredores de Berlim, quando o pintor expressionista Otto Mueller cria o quadro Duas Mulheres Nuas. A partir desse momento, a pintura deixa de ser apenas um objecto estético para se tornar uma testemunha muda do seu tempo, atravessando décadas marcadas por transformações políticas, sociais e culturais violentas.

Do atelier do artista às paredes do escritório do seu primeiro proprietário, Duas Raparigas Nuas acompanha a vida quotidiana de quem com ela convive. No entanto, esse percurso íntimo é rapidamente engolido pelas convulsões de um dos períodos mais sombrios da História europeia: a ascensão de Hitler ao poder, o anti-semitismo institucional, a perseguição à arte moderna, classificada como “degenerada” pelo regime nazi, a desapropriação de famílias judias, as exposições infamantes, as vendas forçadas e a destruição pelo fogo.

O quadro não age, não reage, não escolhe. É um actor passivo num mundo que lhe é exterior, mas é precisamente essa passividade que lhe confere uma força narrativa singular. Duas Raparigas Nuas sobrevive onde tantos falharam. Sobrevive às ideologias, à violência e ao esquecimento.

Fruto de uma investigação rigorosa conduzida por Luz, esta obra não se limita a reconstruir factos históricos. Pelo contrário, convida o leitor a uma reflexão profundamente actual sobre a fragilidade da liberdade artística e a necessidade constante de vigilância face a todas as formas de censura política e cultural.

Ao seguir o trajecto de uma pintura classificada como indesejável por um regime totalitário, o autor lembra-nos que a perseguição à arte é sempre um sintoma claro da perseguição ao pensamento livre. O passado narrado ecoa perigosamente no presente.

A importância e a qualidade de Duas Raparigas Nuas foram amplamente reconhecidas pela crítica internacional. A obra conquistou a Fauve d’Or 2025 — Melhor Álbum do Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême e o Grande Prémio da Crítica ACBD 2025

O autor Luz, nascido em 1972, na região de Indre-et-Loire, é uma figura central do desenho de imprensa e da banda desenhada francesa contemporânea. O seu percurso inclui colaborações marcantes com publicações como Grosse Bertha e Charlie Hebdo, onde desenvolveu um trabalho profundamente ligado à sátira, ao comentário político e cultural. Colaborador regular de revistas como Les Inrockuptibles, Magic e Fluide Glacial, Luz construiu uma obra plural, onde se cruzam o desenho, a crónica musical e a narrativa gráfica. A sua ligação intensa ao universo da música e ao circuito underground influencia decisivamente o seu estilo visual e a sua abordagem narrativa, sempre pessoal, crítica e inquieta.

Com Duas Raparigas Nuas, a ASA traz ao público português uma obra maior da banda desenhada contemporânea, que cruza História, arte e memória com uma inteligência rara. Um livro que não se limita a contar o passado, mas que nos obriga a olhar para o presente com maior atenção e responsabilidade.

Uma leitura exigente, perturbadora e absolutamente necessária.

Duas Raparigas Nuas, Luz, ASA, 200 pp., cor, capa dura, 32,90€

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