20 de março de 2026

Elric encontra Stormbringer: o segundo volume da saga chega em banda desenhada

Depois do impacto de O Trono de Rubi, a saga de Elric de Melniboné continua com Stormbringer, o segundo volume da série publicada em Portugal pela Arte de Autor. A adaptação da obra criada por Michael Moorcock aprofunda agora o destino trágico do imperador albino e introduz um dos elementos mais emblemáticos de toda a fantasia: a sua espada demoníaca.

A história retoma os acontecimentos do primeiro volume com uma situação dramática. Yyrkoon, primo e rival de Elric, fugiu de Melniboné, levando consigo Cymoril, a noiva do imperador. Determinado a resgatá-la, Elric descobre que ela se encontra prisioneira nas ruínas de Dhoz Kham, nos chamados Reinos Jovens.

Para enfrentar o seu primo e recuperar Cymoril, Elric reúne um pequeno grupo de aliados e recebe a bênção de Straasha, o Senhor dos Mares. A viagem conduz-lo a um confronto decisivo, onde o destino do imperador e do seu império começa a tomar um rumo cada vez mais sombrio.

Mas o momento mais marcante deste volume é o encontro de Elric com Stormbringer, a lendária espada negra que se tornará inseparável da personagem. Mais do que uma simples arma, Stormbringer é uma entidade com vontade própria, capaz de devorar almas e alimentar a força vital do seu portador — um poder terrível que irá marcar profundamente o destino trágico de Elric.

Tal como o primeiro volume, esta adaptação apresenta um impressionante trabalho visual de Didier Poli e Robin Recht, que recriam o universo decadente e fantástico de Moorcock com cenários grandiosos e uma atmosfera gótica que se adequa perfeitamente à narrativa. O argumento continua a cargo de Julien Blondel e Jean-Luc Cano, responsáveis por condensar a complexa mitologia da saga numa narrativa visual fluida e intensa.

A edição ganha ainda um toque especial com um prefácio de Alan Moore, um dos autores mais influentes da história da banda desenhada, cuja presença reforça o estatuto quase mítico desta adaptação.

Considerada pelo próprio Michael Moorcock como “a melhor adaptação alguma vez feita” do seu universo, esta série confirma, volume após volume, a força duradoura de Elric — um anti-herói trágico, melancólico e profundamente humano, que continua a fascinar leitores décadas depois da sua criação. Com Stormbringer, a saga avança para territórios cada vez mais épicos e sombrios, aproximando-nos do coração da lenda de Elric e da maldição que o acompanhará para sempre.

Elric #2: Stormbringer, Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Didier Poli, Robin Recht, Arte de Autor, 56 pp., cor, capa dura, 19,50€

18 de março de 2026

Solo Leveling #17

O fenómeno global Solo Leveling continua a conquistar leitores por todo o mundo, e o seu 17.º volume confirma que esta não é apenas uma história de ascensão — é uma saga em constante reinvenção. Publicado originalmente em 2023 na Coreia do Sul pela D&C Media, este volume chega agora ao público português através da Editorial Presença, trazendo consigo uma nova etapa carregada de tensão, mistério e acção.

Depois da batalha final que redefiniu o destino do mundo, Seong Jinu já não é apenas o caçador mais poderoso — é alguém que carrega o peso de tudo o que foi e do que ainda poderá ser. Este volume mergulha precisamente nesse espaço: o “depois” que tantas histórias evitam explorar.

Jinu regressa ao mundo humano após anos de ausência entre dimensões, procurando uma vida tranquila. No entanto, rapidamente se torna evidente que a paz não é um caminho fácil para alguém com o seu passado. Fenómenos inexplicáveis começam a surgir, e forças antigas despertam, atraídas pelo poder que ele tentou esconder.

Um dos grandes trunfos deste volume está no conflito interno do protagonista. Longe de ser apenas uma máquina de combate, Jinu enfrenta agora um dilema mais humano: até que ponto pode ele escolher a sua própria vida, quando o mundo continua a precisar dele? Os ecos do passado tornam-se cada vez mais intensos, e a narrativa constrói uma atmosfera de antecipação constante. Há uma sensação clara de que algo maior se aproxima — uma crise que exigirá decisões difíceis e sacrifícios inevitáveis.

Fiel à identidade da série, este volume não abdica de sequências de acção intensas e visualmente marcantes. No entanto, vai mais longe ao aprofundar o universo da história, introduzindo novos enigmas e expandindo as forças em jogo. As ameaças deixam de ser apenas físicas — há agora uma dimensão mais ampla, quase mitológica, que eleva o tom da narrativa e prepara o terreno para confrontos ainda mais grandiosos.

Parte do sucesso de Solo Leveling reside na sua capacidade de equilibrar espetáculo com evolução narrativa. O 17.º volume prova isso mesmo: ao invés de repetir fórmulas, aposta na transformação do protagonista e na expansão do mundo. Para fãs de longa data, este é um capítulo essencial que aprofunda as consequências do final da história principal. Para novos leitores, é mais uma demonstração do porquê desta série ter alcançado milhões de leitores globalmente.

Solo Leveling, Chugong, Presença, 272 pp., cor, capa mole, 16,90€ 


17 de março de 2026

Os Cabelos de Edith: memória, culpa e reconciliação na Paris do pós-guerra

Na Primavera de 1945, a Europa começava lentamente a despertar de um dos períodos mais sombrios da sua história. Em Paris, o histórico Hotel Lutetia foi transformado num centro de acolhimento para sobreviventes dos campos de concentração nazis que regressavam a casa após o fim da guerra. É neste cenário carregado de emoção e memória que se desenrola Os Cabelos de Édith, um romance gráfico sensível e profundamente humano.

A obra é assinada por Fabienne Blanchut e Catherine Locandro, com ilustrações do desenhador Dawid Cathelin (conhecido artisticamente como Dawid). O livro foi publicado originalmente em França em Setembro de 2025, pela editora Dargaud, e chega este mês a Portugal, numa edição da ASA.  

A história acompanha Louis, um estudante de 17 anos que, numa Paris recentemente libertada, divide o seu tempo entre os estudos para o exame final do liceu e pequenos trabalhos. Tudo muda quando decide tornar-se voluntário no centro de repatriamento instalado no Hotel Lutetia. Ali chegam diariamente homens e mulheres que sobreviveram ao horror dos campos de concentração. É nesse contexto que Louis conhece Edith, uma jovem que regressou de Auschwitz‑Birkenau. Marcada por memórias traumáticas, Edith vive presa a um silêncio pesado, incapaz de traduzir plenamente a experiência que viveu. Ainda assim, entre ela e Louis nasce um vínculo profundo, feito de gestos simples, respeito e uma tentativa sincera de compreender o sofrimento do outro.

Ao mesmo tempo, o jovem confronta-se com uma revelação devastadora sobre a sua própria família. Ao investigar o passado da guerra, Louis descobre que o pai trabalhou como motorista durante a ocupação e transportou judeus para o campo de internamento de Drancy Internment Camp, ponto de partida para deportações para os campos de extermínio. A descoberta provoca uma ruptura irreparável entre pai e filho, colocando Louis perante questões difíceis sobre culpa, responsabilidade e memória histórica.

Com uma narrativa delicada e emocionalmente poderosa, Os Cabelos de Edith aborda temas fundamentais da memória do Holocausto: a dificuldade de regressar à vida após o trauma, o silêncio das vítimas e o peso moral que a guerra deixou em toda uma geração. O desenho suave e expressivo de Dawid reforça essa dimensão humana, criando um contraste tocante entre a ternura das personagens e a violência do passado que as assombra. Mais do que um relato histórico, este romance gráfico é também uma reflexão sobre a necessidade de lembrar. Ao contar uma história íntima dentro da grande História, os autores prestam homenagem aos sobreviventes e recordam-nos que compreender o passado é essencial para evitar que o horror se repita.

Com a edição portuguesa da ASA, Os Cabelos de Edith afirma-se como uma das obras de banda desenhada histórica mais marcantes dos últimos anos, convidando leitores de todas as idades a refletirem sobre memória, responsabilidade e humanidade.

Os Cabelos de Edith, Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid, ASA, 168 pp., capa dura, 24,90€

Jujutsu Kaisen #19: 1.ª Colónia de Tóquio – A ira do Homem

O volume 19 de Jujutsu Kaisen, da autoria de Gege Akutami, mergulha ainda mais fundo no intenso arco narrativo do Jogo da Extinção, colocando Yuji Itadori e Megumi Fushiguro perante novos desafios e inimigos cada vez mais perigosos.

Determinados a alterar as regras do jogo mortal criado por Kenjaku, Itadori e Fushiguro partem em busca de Hiromi Higuruma, um poderoso participante que já acumulou 100 pontos — uma pontuação suficiente para introduzir novas regras no jogo. A esperança dos protagonistas é persuadi-lo a colaborar, criando condições que possam salvar mais participantes e alterar o rumo deste confronto sobrenatural.

Ao entrarem na 1.ª Colónia de Tóquio, uma das zonas onde decorre o Jogo da Extinção, os dois acabam por se separar, o que complica ainda mais a missão. Cada um terá de enfrentar adversários perigosos e tomar decisões difíceis enquanto tenta localizar Higuruma.

Em  A ira do Homem, este volume aprofunda a dimensão moral e psicológica do conflito, explorando temas como justiça, culpa e vingança. Hiromi Higuruma revela-se uma personagem complexa, cuja visão do mundo e do sistema de justiça coloca Itadori perante um dilema moral.

Entre combates espectaculares e momentos de tensão dramática, o volume 19 continua a expandir o universo de Jujutsu Kaisen, preparando o terreno para confrontos ainda mais decisivos dentro do Jogo da Extinção.

O volume 19 de Jujutsu Kaisen foi publicado originalmente no Japão a 4 de Abril de 2022, pela editora Shueisha, reunindo capítulos que haviam sido previamente serializados na revista Weekly Shōnen Jump, uma das publicações mais influentes do manga contemporâneo.

Jujutsu Kaisen #19: 1.ª Colónia de Tóquio – A ira do Homem, Gege Akutami, Devir, 208 pp., p&b, capa mole, 9,99€

16 de março de 2026

Dan Da Dan #2: monstros, espíritos e acção sem travões

Depois de um primeiro volume explosivo, Dan Da Dan de Yukinobu Tatsu, regressa com uma continuação ainda mais caótica, misturando terror sobrenatural, humor absurdo e batalhas frenéticas.

A história acompanha Okarun, um jovem obcecado por fenómenos paranormais, e Ayase Momo, uma estudante do secundário com poderes psíquicos. No final do primeiro volume, Okarun acaba amaldiçoado pela temível Velhota Turbo, um espírito lendário que habita num local assombrado. Para quebrar a maldição, os dois são forçados a aceitar um desafio insólito: jogar à apanhada contra o espírito. A única forma de sobreviver é fugir e vencer o desafio. No entanto, a tarefa complica-se quando surge um novo perigo pelo caminho: o espírito vingativo de um assassino preso à Terra, que assume a forma de um gigantesco caranguejo sobrenatural. Entre perseguições, confrontos e situações cada vez mais absurdas, Okarun e Momo terão de usar todas as suas capacidades — paranormais ou não — para escapar.

Neste segundo volume, Yukinobu Tatsu intensifica todos os elementos que tornaram a série popular: combates frenéticos contra criaturas sobrenaturais, aparições bizarras e monstros gigantes, uma narrativa rápida, cheia de humor inesperado e a dinâmica peculiar entre os dois protagonistas.

A mistura de romance juvenil, terror paranormal e acção desenfreada continua a ser uma das marcas distintivas da obra, mantendo o leitor constantemente surpreendido.

Dan Da Dan é uma série relativamente recente no universo do manga. A obra de Yukinobu Tatsu foi publicada pela primeira vez a 6 de Abril de 2021 na plataforma digital Shōnen Jump+, da editora japonesa Shueisha, conhecida por acolher títulos inovadores dentro do universo shōnen.

Com este segundo volume, Dan Da Dan confirma o seu tom imprevisível e caótico: uma corrida constante entre espíritos, monstros gigantes e emoções à flor da pele, onde o amor e o perigo parecem sempre andar lado a lado.

Dan Da Dan #2, Yukinobu Tatsu, Devir, 204 pp., p&b, capa mole, 9,99€

Elric de Melniboné regressa à banda desenhada – “O Trono de Rubi”

Entre as grandes figuras da fantasia heróica do século XX, poucas são tão singulares como Elric de Melniboné, o imperador albino criado por Michael Moorcock. Agora, esta personagem regressa à banda desenhada numa nova adaptação publicada em Portugal pela Arte de Autor, com o primeiro volume da série: O Trono de Rubi.

Criado em 1961 e rapidamente transformado numa figura de culto da literatura fantástica, Elric é tudo o que um herói tradicional não é. Frágil, doente e dependente de drogas e magia para sobreviver, o imperador de Melniboné governa um império antigo e decadente, herdeiro de poderes concedidos pelos deuses há milénios. Este contraste entre poder absoluto e fraqueza física dá origem a uma personagem profundamente trágica, marcada por dúvidas, ambiguidade moral e uma ligação inquietante aos Senhores do Caos.

Neste primeiro volume, O Trono de Rubi, acompanhamos um momento crítico do reinado de Elric. O seu primo Yyrkoon, ambicioso e implacável, despreza a fragilidade do imperador e pretende usurpar-lhe o trono. Quando surge a notícia de um iminente ataque de piratas às costas do império, Elric vê aí uma oportunidade para reafirmar a sua autoridade. No entanto, ao fazê-lo, revela não apenas a sua complexidade enquanto governante, mas também a sua ligação ao poderoso Senhor do Caos Arioch, entidade cujos desígnios permanecem envoltos em mistério.

A adaptação desta saga clássica assume aqui uma forma particularmente ambiciosa. Produzida por uma equipa criativa francesa, com ilustração de Didier Poli e Robin Recht, a série apresenta uma abordagem visual grandiosa, marcada por cenários sombrios, arquitetura fantástica e uma atmosfera gótica que combina perfeitamente com o universo criado por Moorcock.

A saga de Elric tem uma longa história de adaptações — desde romances e jogos de role-playing até videojogos e banda desenhada, incluindo a célebre interpretação de Philippe Druillet no final da década de 1960. Esta nova versão, no entanto, destaca-se pela ambição narrativa e pela qualidade gráfica, tendo recebido a aprovação entusiástica do próprio Moorcock.

Com O Trono de Rubi, a Arte de Autor inicia a publicação de uma série que promete trazer às livrarias portuguesas uma das mais icónicas sagas da fantasia. Épica, gótica e fascinante, esta adaptação devolve-nos um dos anti-heróis mais marcantes do género — uma personagem cuja grandeza reside precisamente nas suas contradições.

Para leitores de fantasia clássica, fãs de banda desenhada europeia ou simplesmente curiosos por descobrir uma das figuras mais influentes do género, este primeiro volume é um convite irresistível para entrar no mundo sombrio e majestoso de Elric de Melniboné.

Elric #1: O Trono de Rubi", Julien Blondel, Didier Poli, Robin Recht e Jean Bastide, Arte de Autor, 64 pp., cor, capa dura, 19,50€

15 de março de 2026

Qual é o problema com os beijos de cão? – Mais histórias irresistíveis do Snoopy

As aventuras do Snoopy parecem nunca ter fim — e ainda bem! No novo livro da colecção Peanuts da Nuvem de Letras, “Qual é o problema com os beijos de cão?”, somos novamente convidados a entrar no mundo divertido, caótico e surpreendentemente terno do cão mais famoso da banda desenhada.

Criado por Charles M. Schulz, o universo de Snoopy continua a encantar leitores de todas as idades. Desta vez, Snoopy vê a sua rotina (se é que ele tem alguma!) virar do avesso com a visita inesperada do seu irmão mais velho, Spike. Entre situações absurdas, momentos de ternura e muito humor, o nosso beagle preferido prova que a vida nunca é aborrecida quando se tem amigos por perto.

Como sempre, Snoopy não está sozinho. Ao seu lado estão o fiel Woodstock, a determinada Lucy van Pelt, o reflexivo Linus van Pelt e, claro, o eterno sonhador Charlie Brown — o “miúdo da cabeça redonda” que todos reconhecemos.

Ao longo das páginas, acompanhamos Snoopy em momentos tão inesperados quanto hilariantes: uma pata fracturada, cartas de rejeição particularmente cruéis, um irmão em fuga e até um momento complicado em Wimbledon. Mas, mesmo quando tudo parece correr mal, há sempre amizade, imaginação e um toque de humor para pôr as coisas no lugar.

Com a ajuda dos amigos, Snoopy consegue voltar a equilibrar a vida — e talvez até roubar um daqueles famosos beijos de cão, babados e cheios de carinho. Afinal, como o próprio Snoopy diria: qual é realmente o problema com os beijos de cão?

Este novo volume da colecção Peanuts é perfeito tanto para fãs antigos como para novos leitores que querem descobrir o charme intemporal destas personagens. Entre tiras clássicas e momentos inesquecíveis, o livro recorda-nos algo simples, mas essencial: mesmo nos dias mais complicados, a amizade e o humor podem fazer toda a diferença.

Se procura uma leitura leve, divertida e cheia de coração, “Qual é o problema com os beijos de cão?” é uma excelente companhia.

Qual é o problema com os beijos de cão?, Charles Schulz, Nuvem de Letras, 196 pp., cor, capa dura, 15,95€

13 de março de 2026

12 de março de 2026

Made in Abyss – Volume 4: Mais fundo no mistério do Abismo

O quarto volume de Made in Abyss leva-nos ainda mais fundo numa das histórias mais fascinantes e inquietantes da manga contemporânea. À medida que a narrativa avança, o Abismo revela novas camadas de perigo, beleza e mistério, colocando à prova a coragem dos seus jovens exploradores.

No centro da história continua a estar o Abismo, uma gigantesca cratera que mergulha nas profundezas da Terra e que esconde criaturas enigmáticas, relíquias de civilizações antigas e fenómenos que desafiam a compreensão humana. A sua origem permanece envolta em mistério, e cada nova camada explorada revela perigos ainda mais extremos. Ao longo dos anos, inúmeros exploradores tentaram desvendar os segredos deste lugar. Muitos desapareceram para sempre nas suas profundezas. Apenas os mais extraordinários conseguem sobreviver às descidas mais perigosas: os lendários Apitos Brancos, figuras quase míticas para os habitantes da superfície.

Neste volume, Rico e Reg continuam a sua arriscada descida pelo Abismo na esperança de encontrar a mãe de Rico. A jornada torna-se ainda mais intensa com a companhia de Nanachi, uma personagem tão adorável quanto misteriosa: um híbrido entre humano e animal que carrega consigo um passado sombrio e doloroso. A travessia leva-os por locais assustadores e fascinantes, como o temível Campo de Flores Proibido, um cenário tão belo quanto mortal. A tensão aumenta à medida que o grupo se aproxima da parte inferior da quinta camada do Abismo.

O destino deste volume é Ido Front, uma cidadela misteriosa que guarda segredos profundos sobre o funcionamento do Abismo. É aqui que os protagonistas conhecem Prushka, uma rapariga doce e curiosa, cuja vida está inevitavelmente ligada ao seu pai. Esse pai é ninguém menos que Bondrewd, um dos Apitos Brancos mais temidos e enigmáticos. A sua presença traz à narrativa um dos momentos mais intensos, perturbadores e emocionalmente devastadores de toda a série

Made in Abyss #4, AkihitoTsukushi, A Seita, 168 pp., p&b, capa mole, 9,99€

11 de março de 2026

LouriBD regressa à Lourinhã com uma semana dedicada à descoberta na Banda Desenhada

A vila da Lourinhã prepara-se para receber a 4.ª edição do LouriBD – Festival de Banda Desenhada da Lourinhã, que decorre entre 16 e 22 de Março, reunindo autores, editores, leitores e público escolar numa programação dedicada à criação contemporânea e à reflexão em torno da banda desenhada.

Organizado pelo Município da Lourinhã, em parceria com a editora local Escorpião Azul, o festival conta ainda com o apoio media da Antena 1 e com a colaboração do Museu da Lourinhã e da Galeria Parasol. Ao longo de uma semana, o evento propõe um encontro entre diferentes públicos e criadores, afirmando-se como um espaço de partilha, descoberta e debate.

Sob o tema “A Descoberta”, o LouriBD propõe uma reflexão sobre o acto de explorar novas possibilidades criativas dentro da narrativa gráfica. A ideia de descoberta atravessa toda a programação do festival, seja através da revelação de novos autores, da experimentação de linguagens visuais ou da apresentação de novas leituras da banda desenhada contemporânea. A iniciativa pretende assim incentivar o contacto com diferentes formas de expressão artística e promover o diálogo entre criadores e público.

Ao longo da semana, o festival apresenta um mercado do livro de banda desenhada e diversas exposições, que poderão ser visitadas durante todo o evento. A programação inclui ainda oficinas dirigidas a vários públicos, desde o pré-escolar e os diferentes ciclos do ensino básico e secundário até ao público sénior. Entre as actividades previstas estão também sessões de autógrafos e conversas com autores convidados, proporcionando momentos de proximidade entre criadores e leitores.

O programa intensifica-se durante o fim-de-semana, com lançamentos e apresentações de novas obras, bem como debates integrados nos Estados Gerais da Banda Desenhada, espaço dedicado à reflexão crítica sobre o presente e o futuro da BD.

A programação inclui ainda uma sessão de cinema dirigida ao público familiar e a apresentação do Primeiro Museu Nacional de Banda Desenhada, iniciativa que pretende valorizar e preservar o património desta forma de expressão artística.

Um dos momentos especiais do festival terá lugar no dia 22 de Março, com o lançamento do livro “Portugal Jurássico”, no Museu da Lourinhã. A obra estabelece uma ponte entre o património científico associado à paleontologia da região e a criação artística em banda desenhada.

A exposição colectiva desta edição reúne autores de Portugal e do Brasil, representando diferentes estilos e abordagens estéticas dentro da narrativa gráfica. Nesta mostra, as máscaras assumem um papel conceptual de destaque, surgindo trabalhadas em cortiça e acompanhadas por ilustrações produzidas com caneta BIC, café e vinho. A proposta explora temas como identidade, anonimato e liberdade formal, revelando novas possibilidades materiais e simbólicas no campo da ilustração.

Com esta quarta edição, o LouriBD reforça um modelo de colaboração entre instituições culturais e o sector editorial, consolidando-se progressivamente como um espaço de programação regular, debate crítico e apresentação de nova produção em banda desenhada.

Mais informações sobre o festival podem ser consultadas no site do Município da Lourinhã.




10 de março de 2026

O voto feminino em Portugal: uma exposição para revisitar a história

 


No próximo 11 de Março de 2026, às 17h30, será inaugurada na Casa do Parlamento – Centro Interpretativo a exposição “O Voto Feminino em Portugal”, uma iniciativa que convida o público a revisitar um dos capítulos mais significativos da história da cidadania e da democracia no país.

O evento decorre num espaço integrado na Assembleia da República, dedicado à divulgação da história parlamentar portuguesa e ao aprofundamento da literacia democrática.

A exposição ficará patente até 31 de Março, permitindo aos visitantes conhecer melhor o percurso, muitas vezes longo e desigual, que conduziu ao reconhecimento pleno do direito de voto das mulheres em Portugal.

O sufrágio feminino em Portugal não surgiu de forma imediata nem linear. Durante décadas, o direito de voto esteve reservado aos homens, refleCtindo uma concePção restrita de participação política.

Um momento simbólico ocorreu em 1911, quando Carolina Beatriz Ângelo conseguiu votar nas eleições para a Assembleia Constituinte, aproveitando uma lacuna na lei eleitoral da Primeira República. A legislação seria posteriormente alterada para impedir que outras mulheres votassem nas mesmas condições.

Só muito mais tarde, já no século XX, e após diversas mudanças políticas e sociais — culminando com a democratização iniciada pela Revolução de 25 de Abril de 1974 — o sufrágio universal se consolidou plenamente, garantindo igualdade formal entre homens e mulheres no acesso ao voto.

9 de março de 2026

O guia do mau pai

Publicado originalmente em 2013, com o título francês Le Guide du mauvais père, o livro do autor canadiano Guy Delisle rapidamente conquistou leitores em vários países. Em inglês, a obra ficou conhecida como The Guide to a Bad Father, e em português recebeu o título O Guia do Mau Pai, numa edição da Devir.

Conhecido pelos seus romances gráficos de viagem e reportagem — como Pyongyang ou Crónicas de Jerusalém — Delisle surpreende aqui com um registo mais íntimo e autobiográfico. Em vez de conflitos políticos e contextos geográficos complexos, o autor mergulha no território universal da paternidade.

O título é provocador, mas profundamente irónico. O “mau pai” de Delisle não é negligente nem irresponsável; é simplesmente humano. Através de pequenas vinhetas independentes, o autor retrata episódios do quotidiano com os filhos: explicações científicas improvisadas e duvidosas, promessas feitas para ganhar alguns minutos de descanso, estratégias criativas (e questionáveis) para lidar com birras ou momentos de ternura que surgem inesperadamente.

O humor nasce do reconhecimento. Quem lê identifica-se — seja como pai, mãe ou filho. Delisle expõe as falhas e contradições da parentalidade contemporânea sem moralismos, mas também sem cinismo.

O traço é simples, limpo e expressivo. As cores suaves reforçam o tom leve da narrativa. Cada página funciona quase como uma tira autónoma, o que torna a leitura dinâmica e acessível. Não há uma história linear tradicional. Em vez disso, o livro constrói um mosaico de situações que, em conjunto, revelam uma relação afectiva sólida entre pai e filhos. O humor nunca diminui o vínculo — pelo contrário, reforça-o.

O Guia do Mau Pai é uma obra leve na forma, mas profunda no conteúdo. Ao transformar pequenas falhas quotidianas em matéria literária e humorística, Guy Delisle lembra-nos que ser pai — ou mãe — não é um exercício de perfeição, mas de presença. É uma leitura recomendada tanto para quem já vive a experiência da parentalidade como para quem gosta de banda desenhada autobiográfica com inteligência e sensibilidade.

O guia do mau pai, Guy Delisle, Devir, 302 pp., p&b, capa mole, 25€

6 de março de 2026

Cartoon Xira regressa a Vila Franca de Xira com quase 220 cartoons e destaque para Maria Picassó

A cidade de Vila Franca de Xira volta a receber um dos mais relevantes eventos de humor gráfico em Portugal. A 27.ª edição da Cartoon Xira abre portas no próximo sábado, n’O Celeiro da Patriarcal, reunindo cerca de 220 cartoons de 110 artistas portugueses numa exposição que promete revisitar a actualidade através da sátira, da crítica social e do humor.

Com curadoria do cartoonista António Antunes, a mostra apresenta os “Cartoons do Ano 2025”, uma seleção que reflecte os acontecimentos mais marcantes do último ano através do olhar atento e irónico de alguns dos principais nomes do cartoon nacional. Entre os artistas presentes encontram-se André Carrilho, António Maia, Cristina Sampaio, Henrique Monteiro, João Fazenda, Nuno Saraiva, Pedro Ferreira, Pedro Silva, Rodrigo de Matos e Vasco Gargalo, entre muitos outros.

Como é habitual, a Cartoon Xira propõe uma viagem pela actualidade política, social e cultural, explorando o poder do desenho satírico enquanto forma de comentário e reflexão crítica sobre o mundo contemporâneo.

Além da exposição colectiva, esta edição conta com uma mostra dedicada à artista espanhola Maria Picassó (1983). Natural de Manresa, na Catalunha, Picassó tem formação em arquitectura e destaca-se pelo seu traço depurado e por uma abordagem contemporânea à caricatura.

Ao longo da sua carreira, conquistou reconhecimento internacional, incluindo a Medalha de Prata nos World Humour Awards (2022) e dois Prémios Bronze ÑH – Design de Imprensa na Península Ibérica (2015 e 2021). Em 2019, integrou também o júri do prestigiado World Press Cartoon.

Reconhecida a nível nacional e internacional, a Cartoon Xira tem-se afirmado como um espaço privilegiado para a divulgação do cartoon e da caricatura, reunindo artistas e públicos em torno do humor gráfico. A exposição oferece uma retrospectiva visual dos principais temas sociais, culturais e políticos da actualidade, reforçando o papel do cartoon como forma de intervenção artística e cívica.

A iniciativa, organizada pela autarquia de Vila Franca de Xira, decorre até 31 de Maio e tem entrada livre, sublinhando o compromisso do município com a promoção da cultura, da liberdade de expressão e do pensamento crítico.

Para os visitantes, será uma oportunidade de olhar para o mundo com ironia — e perceber como, muitas vezes, um simples desenho consegue dizer mais do que muitas palavras.

5 de março de 2026

Something is Killing the Children – Livro Dois: terror regressa às livrarias

A aclamada série de banda desenhada Something is Killing the Children continua a conquistar leitores em todo o mundo. Criada pelo argumentista James Tynion IV e ilustrada por Werther Dell’Edera, esta obra mistura horror, mistério e drama numa narrativa intensa que rapidamente se tornou uma das séries mais populares da editora norte-americana Boom! Studios.

Depois do sucesso do primeiro volume, os leitores podem agora continuar a acompanhar as aventuras de Erica Slaughter, a misteriosa caçadora de monstros que enfrenta criaturas responsáveis por terríveis mortes de crianças.

Desde a sua estreia em 2019 nos Estados Unidos, Something is Killing the Children tornou-se um verdadeiro fenómeno editorial. A série recebeu vários Prémios Eisner, incluindo distinções para melhor argumentista atribuídas a James Tynion IV em 2021, 2022 e 2023, bem como o prémio de Melhor Série Contínua em 2022. 

A história acompanha a jovem Erica Slaughter, enviada para pequenas cidades americanas onde crianças estão a desaparecer ou a morrer de forma inexplicável. Enquanto os adultos recusam acreditar nos relatos de monstros vindos das sombras, Erica sabe que essas criaturas existem — e está determinada a eliminá-las.

O Livro Dois continua a aprofundar o universo da série e o passado da protagonista. Nesta nova fase da narrativa, os leitores descobrem mais sobre a misteriosa Ordem de São Jorge, a organização secreta dedicada à caça de monstros, e o percurso que levou Erica a tornar-se uma das suas agentes. Este volume reúne arcos narrativos posteriores da série original e expande o mundo criado por Tynion IV, oferecendo mais acção, suspense e revelações sobre a protagonista.

Something is Killing the Children – Livro Dois, James Tynion IV e Werther Dell’Edera, Devir, 132 pp., cor, capa mole 18€




Kiki de Montparnasse — Biografia em banda desenhada de um ícone livre

Na história da arte do século XX, muitas mulheres ficaram eternizadas como musas — rostos, corpos e presenças que inspiraram artistas homens. Poucas, porém, foram reconhecidas como criadoras e protagonistas da sua própria narrativa. É precisamente essa reparação simbólica que Catel Muller e José-Louis Bocquet realizam em Kiki de Montparnasse, uma das mais marcantes biografias em banda desenhada das últimas décadas.

Publicada originalmente em 2007, a obra reconstrói a vida de Kiki de Montparnasse (Alice Prin), figura central da boémia parisiense dos anos 1920. Modelo, cantora, pintora, atriz e escritora, Kiki foi muito mais do que a célebre imagem captada por Man Ray em Le Violon d’Ingres. Foi um símbolo de liberdade feminina numa época de intensa efervescência artística.

Catel e Bocquet não optam por uma narrativa breve ou episódica. Pelo contrário, constroem um volume extenso, de fôlego quase romanesco, que acompanha Kiki desde a infância pobre até à consagração como “rainha de Montparnasse”. O traço elegante e expressivo de Catel — predominantemente a preto e branco — equilibra leveza e densidade histórica. A linha clara reforça a dimensão documental, mas nunca abdica da emoção. O argumento de Bocquet, por sua vez, articula rigor histórico e fluidez narrativa, evitando tanto a hagiografia como o sensacionalismo.

A obra recebeu o Prémio do Público no Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême em 2008, distinção que consolidou o seu estatuto no panorama europeu da BD.

Kiki de Montparnasse, Catel Muller e José-Louis Bocquet, Devir, 406 pp., p&b, capa dura, 22€

4 de março de 2026

“Bob de Moor – La ligne claire d’Hergé” – Uma homenagem definitiva a um mestre da banda desenhada

Bob de Moor – La ligne claire d’Hergé” é um livro monumental dedicado ao artista belga Bob de Moor, escrito pelo especialista em banda desenhada Gilles Ratier e publicado pela editora BD Must em finais de 2025.  Chegou-me hoje um exemplar numerado exclusivo dos Les Amis de Hergé.

Com 320 páginas em grande formato (cerca de 26,5 × 32 cm) e enriquecido com cerca de 600 ilustrações, incluindo desenhos raros, pranchas, fotografias inéditas e documentos de arquivo, este volume é considerado a biografia mais completa já editada sobre De Moor, tanto pelo seu rigor documental como pela qualidade visual.

Gilles Ratier é um jornalista e historiador da BD francês reconhecido pelo seu trabalho editorial e crítico no campo da banda desenhada. Antes desta obra, Ratier já tinha publicado biografias ilustradas de grandes figuras do meio, como Jean-Michel Charlier, o que lhe confere experiência e sensibilidade para abordar De Moor com profundidade. 

Organizado em 18 capítulos, o livro traça a trajetória humana e artística de Bob de Moor, desde os seus primeiros passos na revista Kuifje/Tintin até ao reconhecimento como um dos grandes mestres da ligne claire — o estilo de desenho caracterizado por linhas claras e precisas, sem hachuras extensivas e com forte equilíbrio entre formas e cores, cuja paternidade Hergé ajudou a definir. 

Entre os temas abordados, destacam-se:

A colaboração com Hergé e a sua importância nas aventuras de Tintin, onde De Moor foi assistente principal e elemento central nos Studios Hergé durante várias décadas.

O seu trabalho pessoal, com séries como Barelli, Cori, le Moussaillon, Monsieur Tric e Oncle Zigomar, que revelam a sua versatilidade criativa para além da obra herdada de Hergé.

As contribuições em outras séries de grande influência, como Lefranc ou Blake e Mortimer, confirmando o seu papel mais amplo no desenvolvimento da BD franco-belga. 

Memórias, fotografias e documentos inéditos da família e dos arquivos dos Studios Hergé, que permitem ao leitor ver e compreender melhor não só o artista mas também o ambiente e os métodos de trabalho da época.

Graças à colaboração com a família De Moor e ao acesso a importantes arquivos pessoais, Gilles Ratier fez mais do que documentar datas e obras: ele devolve voz a um artista fundamental, permitindo perceber a dimensão do seu trabalho e a sua contribuição essencial para uma das épocas mais ricas da história da BD. 

Bob de Moor – La ligne claire d’Hergé, Gilles Ratier, BD Must, 320 pp., cor, capa dura, 95€

2 de março de 2026

A Nossa Voz

A Nossa Voz é uma narrativa gráfica sensível e atual que dá continuidade ao universo iniciado em Um Coração, Dois Caminhos. Nesta obra, Nora Dåsnes volta a centrar-se na adolescência precoce, explorando com autenticidade as emoções, as dúvidas e as descobertas próprias dos 12 anos.

A história acompanha Bao, uma jovem determinada e atenta ao mundo que a rodeia. Juntamente com as suas melhores amigas, Tuva e Linnéa, decide organizar um protesto para defender uma floresta ameaçada. O gesto nasce de uma inquietação genuína: a percepção de que os adultos nem sempre escutam — ou valorizam — as preocupações dos mais novos.

Ao longo da narrativa, a autora coloca questões pertinentes:

Conseguirão os jovens fazer-se ouvir?

Os colegas, como Abdi e os restantes rapazes da escola, compreendem verdadeiramente a urgência da causa ambiental?

Como se constrói coragem para enfrentar a indiferença?

Mais do que uma história sobre ambiente, o livro é um retrato delicado da formação da identidade. Bao aprende que o activismo não é apenas erguer cartazes, mas também dialogar, persistir e aceitar que a mudança exige tempo e união. A amizade entre as três protagonistas funciona como alicerce emocional, mostrando que o crescimento é mais seguro quando partilhado.

A linguagem visual — característica das novelas gráficas — reforça a intensidade emocional da narrativa. As expressões das personagens, o uso da cor e a composição das páginas traduzem inseguranças, entusiasmo e frustração com grande proximidade, tornando a leitura acessível e envolvente.

Recomendada para leitores em idade pré-adolescente e juvenil, A Nossa Voz destaca-se como uma obra que incentiva à reflexão crítica e à participação activa na sociedade. É um livro que transmite uma mensagem clara: a idade não limita o impacto da nossa voz — quando falamos com convicção, podemos contribuir para transformar o mundo.

A Nossa Voz, Nora Dåsnes, Nuvem de Letras, 240 pp., cor, capa mole, 15,95€