2 de março de 2026

A Nossa Voz

A Nossa Voz é uma narrativa gráfica sensível e atual que dá continuidade ao universo iniciado em Um Coração, Dois Caminhos. Nesta obra, Nora Dåsnes volta a centrar-se na adolescência precoce, explorando com autenticidade as emoções, as dúvidas e as descobertas próprias dos 12 anos.

A história acompanha Bao, uma jovem determinada e atenta ao mundo que a rodeia. Juntamente com as suas melhores amigas, Tuva e Linnéa, decide organizar um protesto para defender uma floresta ameaçada. O gesto nasce de uma inquietação genuína: a percepção de que os adultos nem sempre escutam — ou valorizam — as preocupações dos mais novos.

Ao longo da narrativa, a autora coloca questões pertinentes:

Conseguirão os jovens fazer-se ouvir?

Os colegas, como Abdi e os restantes rapazes da escola, compreendem verdadeiramente a urgência da causa ambiental?

Como se constrói coragem para enfrentar a indiferença?

Mais do que uma história sobre ambiente, o livro é um retrato delicado da formação da identidade. Bao aprende que o activismo não é apenas erguer cartazes, mas também dialogar, persistir e aceitar que a mudança exige tempo e união. A amizade entre as três protagonistas funciona como alicerce emocional, mostrando que o crescimento é mais seguro quando partilhado.

A linguagem visual — característica das novelas gráficas — reforça a intensidade emocional da narrativa. As expressões das personagens, o uso da cor e a composição das páginas traduzem inseguranças, entusiasmo e frustração com grande proximidade, tornando a leitura acessível e envolvente.

Recomendada para leitores em idade pré-adolescente e juvenil, A Nossa Voz destaca-se como uma obra que incentiva à reflexão crítica e à participação activa na sociedade. É um livro que transmite uma mensagem clara: a idade não limita o impacto da nossa voz — quando falamos com convicção, podemos contribuir para transformar o mundo.

A Nossa Voz, Nora Dåsnes, Nuvem de Letras, 240 pp., cor, capa mole, 15,95€

27 de fevereiro de 2026

Boa Noite, Punpun #5

O quinto volume de Boa Noite, Punpun (Oyasumi Punpun), de Inio Asano, continua a explorar com crueza e sensibilidade os abismos emocionais do seu protagonista, numa das séries mais marcantes do mangá contemporâneo.

Publicado originalmente no Japão em 2010, pela editora Shogakukan, este volume coloca Punpun num momento de aparente estabilidade que rapidamente se revela frágil. Depois de reencontrar Sachi, Punpun acredita finalmente ter encontrado um lugar no mundo — alguém que lhe oferece a ilusão de normalidade e pertença. No entanto, um acidente inesperado afasta-os, empurrando-o novamente para o isolamento e para o desespero que têm marcado o seu percurso.

À medida que a sua vida actual se desmorona, Punpun vê-se obrigado a confrontar os próprios limites emocionais e a sensação persistente de fracasso. Ainda assim, no meio da escuridão, surgem indícios de mudança: sinais subtis de um novo mundo possível, menos opressivo, ainda que longe de ser plenamente luminoso.

Este volume destaca-se pelo equilíbrio entre desesperança e expectativa, reforçando a identidade única da obra de Inio Asano — uma narrativa profundamente humana, desconfortável e honesta, que recusa respostas fáceis. Boa Noite, PunpunVolume 5 confirma a maturidade da série e prepara o leitor para transformações decisivas na trajectória do protagonista.

Boa Noite, Punpun #5, Inio Asano, Devir, 432 pp., p&b, capa mole, 20€

Sessão de apresentação de "Os charutos do faraó" em mirandês - Panteão Nacional

 


26 de fevereiro de 2026

L' Histoire du Journal Bravo!

A obra L’histoire du journal Bravo! constitui um estudo histórico detalhado dedicado à revista Bravo!, uma das publicações juvenis mais relevantes da Bélgica francófona no século XX. Jean Fontaine e Frans Lambeau reconstroem, com rigor documental, o percurso editorial da revista desde a sua fundação, em 1936, até ao seu declínio e desaparecimento, contextualizando-a no panorama cultural e político europeu.

O livro combina investigação histórica, análise editorial e documentação iconográfica abundante (capas, pranchas, anúncios e fotografias), permitindo compreender não apenas a evolução gráfica da revista, mas também as transformações sociais e ideológicas que marcaram o período, nomeadamente o impacto da Segunda Guerra Mundial na imprensa juvenil.

Os autores exploram:

A fundação do Journal Bravo! na Bélgica;

A influência dos modelos norte-americanos e franceses na banda desenhada publicada;

A publicação de séries marcantes, incluindo aventuras que introduziram personagens que se tornariam clássicas na BD europeia;

As adaptações editoriais durante a ocupação alemã;

A concorrência com outras revistas juvenis belgas, como Le Journal de Spirou.

O Journal Bravo! ocupa um lugar central na consolidação da cultura juvenil francófona por várias razões:

1. Consolidação da banda desenhada como literatura juvenil

A revista contribuiu para legitimar a banda desenhada como forma narrativa dirigida ao público jovem, ajudando a estruturar um mercado editorial específico para essa faixa etária.

2. Difusão internacional de personagens

Publicou versões francófonas de personagens que viriam a marcar a cultura popular europeia, ampliando o acesso dos jovens leitores belgas e franceses a universos narrativos internacionais.

3. Formação de leitores

Tal como outras grandes revistas juvenis do período, o Bravo! desempenhou um papel pedagógico indireto: fomentou hábitos de leitura regular, criou expectativas narrativas seriadas e contribuiu para a formação de uma identidade cultural juvenil.

4. Papel histórico durante a guerra

Durante a Segunda Guerra Mundial, a revista adaptou-se às restrições políticas e materiais, tornando-se também um reflexo das tensões ideológicas da época. O estudo de Fontaine e Lambeau evidencia como a imprensa juvenil não era neutra, mas integrada no contexto sociopolítico.

5. Influência na tradição belga da “bande dessinée”

A Bélgica tornar-se-ia um dos centros mundiais da banda desenhada francófona. O Bravo! participou ativamente na consolidação dessa tradição, que mais tarde seria internacionalmente reconhecida.

L’histoire du journal Bravo! é mais do que a história de uma revista: é um contributo essencial para compreender a evolução da imprensa juvenil e da banda desenhada francófona no século XX. 

L’histoire du journal Bravo!, Jean Fontaine e Frans Lambeau, Éditions de L'Élan, 464 pp., cor, capa dura, 95€ 

Sangoma – Os Condenados da Cidade do Cabo: crime, memória e feridas abertas na África do Sul

Vinte anos após o fim do Apartheid, a África do Sul continua a viver com as suas cicatrizes expostas. O regime caiu oficialmente em 1994, com a eleição de Nelson Mandela, mas as desigualdades estruturais permanecem profundas. A propriedade da terra — concentrada historicamente nas mãos da minoria branca — continua a ser um dos temas mais fracturantes da sociedade sul-africana.

É neste cenário politicamente inflamável que surge Sangoma – Os Condenados da Cidade do Cabo, a nova obra publicada em Portugal pela Arte de Autor, com argumento de Caryl Férey e desenho de Corentin Rouge.

Sam, trabalhador negro, é encontrado morto nas terras da quinta Pienaar, propriedade dos seus patrões brancos. O caso é atribuído ao tenente Shane Shepperd, que rapidamente se confronta com um labirinto de silêncios, mentiras e tensões raciais latentes.

O que começa como uma investigação criminal transforma-se numa radiografia social. À medida que Shepperd interroga proprietários e trabalhadores, percebe que o homicídio não pode ser desligado do contexto mais vasto: o debate nacional sobre a reforma agrária.

No parlamento sul-africano, a redistribuição de terras — prometida como forma de corrigir as injustiças históricas do apartheid — reacende divisões profundas. Partidos radicais pressionam por expropriações sem indemnização, enquanto sectores conservadores temem o colapso económico. Este pano de fundo político não é decorativo: é o motor invisível que alimenta o conflito.

Sangoma não surge no vazio. A questão da terra na África do Sul é um tema real e altamente sensível. Após 1994, o governo implementou programas de restituição e redistribuição fundiária, mas o processo revelou-se lento e controverso. Dados oficiais mostram que, décadas depois do fim do regime segregacionista, uma parte significativa das terras agrícolas continua concentrada na minoria branca.

Caryl Férey é conhecido por trabalhar os seus thrillers a partir de contextos políticos reais — já o fizera na África do Sul com o romance Zulu. Aqui, volta a mergulhar nas contradições do país, explorando não apenas o legado do apartheid, mas também as frustrações do presente: corrupção, desigualdade económica e desconfiança institucional.

O título Sangoma remete para os curandeiros tradicionais sul-africanos, figuras espirituais que simbolizam ligação à terra e à memória ancestral — uma metáfora poderosa numa narrativa onde passado e presente se entrelaçam.

O traço de Corentin Rouge acrescenta densidade atmosférica à história. As paisagens sul-africanas — da Cidade do Cabo às zonas rurais — surgem simultaneamente belas e inquietantes. O contraste entre espaços abertos e interiores claustrofóbicos reforça a sensação de tensão constante. A arte serve o argumento com sobriedade e impacto, evitando caricaturas e optando por uma abordagem realista que amplifica o peso social da narrativa.

No lançamento original em França, a obra foi destacada pela crítica especializada pela sua abordagem política madura e pela forma como alia thriller policial a comentário social. A imprensa sublinhou a capacidade de Férey em transformar conflitos geopolíticos complexos em narrativas humanas intensas. A colaboração entre Férey e Rouge foi particularmente elogiada pela coerência entre texto e imagem, consolidando o álbum como uma das adaptações mais ambiciosas do universo literário do autor para a banda desenhada.

A edição da Arte de Autor reforça a aposta da editora em banda desenhada de forte dimensão literária e política, trazendo aos leitores portugueses uma obra que dialoga diretamente com a atualidade internacional. Mais do que um thriller, Sangoma é um espelho de um país onde a História não passou — apenas mudou de forma.

Sangoma – Os Condenados da Cidade do Cabo, Caryl Férey e Corentin Rouge, Arte de Autor, 152 pp., cor, capa dura, 33€ 

25 de fevereiro de 2026

O Verão em Que Hikaru Morreu #4

Um mistério inexplicável, uma amizade inesperada. O quarto volume de O Verão em Que Hikaru Morreu aprofunda a tensão psicológica e o terror subtil que tornaram esta série numa das mais inquietantes da actualidade.

Publicado pela primeira vez no Japão em 2023 pela editora Kadokawa Corporation, sob o título original Hikaru ga Shinda Natsu, este volume dá continuidade à perturbadora jornada de Yoshiki — agora cada vez mais consciente de que o “Hikaru” que regressou da montanha não é o amigo que outrora conheceu. Confrontado com essa realidade dolorosa, Yoshiki toma uma decisão inesperada: permanecer ao lado dele. Apesar do medo e da dúvida, entre os dois nasce uma ligação estranha e ambígua, quase como se a amizade tivesse renascido sob uma nova e inquietante forma. No entanto, a verdadeira identidade desta entidade que assumiu o lugar de Hikaru continua envolta em mistério — um enigma que nem o próprio “Hikaru” parece compreender totalmente.

A investigação conduz os rapazes até à biblioteca local, onde, entre arquivos antigos e lendas esquecidas, descobrem referências perturbadoras sobre acontecimentos misteriosos na região. Um nome surge das sombras do passado — o de uma entidade tão enigmática quanto ameaçadora. Cada pista aproxima-os da verdade, mas também intensifica a sensação de que forças incompreensíveis estão em movimento.

Neste volume, o terror não se impõe apenas através do sobrenatural, mas sobretudo pela atmosfera sufocante e pela fragilidade das relações humanas. À medida que Yoshiki explora o passado, percebe que tudo à sua volta pode mudar de forma imprevisível — e que aquele verão, marcado pela perda e pelo desconhecido, jamais se repetirá. Com uma narrativa delicada e ao mesmo tempo perturbadora, o quarto volume confirma O Verão em Que Hikaru Morreu como uma obra que transcende o horror convencional, explorando a amizade, a identidade e o medo do que nos é familiar… mas já não é humano.

O Verão em Que Hikaru Morreu, Mokumokuren, Editorial Presença, 200 pp., p&b, capa mole, 11,90€

O meu casamento feliz #5

Misturando cenários deslumbrantes com uma história profundamente emocional, o quinto volume de O Meu Casamento Feliz confirma por que razão esta série continua a conquistar leitores em todo o mundo. Entre tradição, poderes sobrenaturais e um romance delicado, a narrativa atinge aqui um dos seus momentos mais intensos.

Tudo o que Miyo queria era um pouco de felicidade… mas o destino reserva-lhe muito mais.

Neste volume, Miyo descobre finalmente que herdou o raro dom do enigmático clã Usuba — um segredo cuidadosamente protegido e praticamente desconhecido fora da família. Confrontada com a verdade sobre as suas origens, é levada para junto dos Usuba, que insistem que permaneça com eles para aprender a controlar o poder extraordinário que carrega dentro de si. Enquanto pesadelos perturbadores e uma crescente debilidade a assolam, Miyo enfrenta um dilema crucial: aceitar o seu dom e o peso que ele implica — ou arriscar-se a ser consumida por ele. Ao mesmo tempo, Kiyoka vê-se sob pressão crescente, determinado a protegê-la e a lutar pelo futuro que ambos desejam construir.

Este é um volume carregado de revelações, conflitos internos e crescimento emocional. A relação entre Miyo e Kiyoka é posta à prova num cenário onde segredos familiares e responsabilidades sobrenaturais ameaçam separá-los. Será o amor suficiente para ultrapassar as sombras do passado?

Adaptado do romance original e já com anime disponível na Netflix, O Meu Casamento Feliz continua a afirmar-se como uma das histórias românticas mais envolventes da atualidade no universo manga.

O meu casamento feliz #5, Akumi Agitogi Tsukiho Tsukioka e Rito Kohsaka, Editorial Presença, 240 pp., p&b, capa mole, 10,90€

Jujutsu Kaisen #18 – Febre

O 18º volume da série de Gege Akutami marca mais um passo intenso rumo ao caos total provocado pelo Jogo da Extinção, um dos arcos mais ambiciosos e cruéis da série.

Durante a sua suspensão da Escola Técnica de Jujutsu, o imprevisível Hakari Kinji, aluno do terceiro ano, dedica-se a organizar lutas clandestinas, movidas por apostas e regras próprias. É neste submundo que Yuji Itadori decide entrar, disposto a arriscar tudo para conquistar a ajuda de Hakari na tentativa de pacificar o jogo mortal que ameaça mergulhar o Japão num banho de sangue.

Enquanto Itadori negoceia diretamente com Hakari, Megumi Fushiguro infiltra-se no local para apoiar a missão — apenas para ser travado pela técnica amaldiçoada de outro aluno do terceiro ano, aliado de Hakari, revelando que os perigos vão muito além do esperado. As alianças são frágeis, as regras mudam a cada momento e a violência atinge novos patamares.

Este volume aprofunda não só a brutalidade do Jogo da Extinção, como também o carisma e a complexidade de Hakari, uma das personagens mais aguardadas pelos leitores, trazendo combates estratégicos, tensão constante e reviravoltas típicas do melhor Jujutsu Kaisen.

Os capítulos reunidos neste volume foram originalmente publicados no Japão na revista Weekly Shōnen Jump, da Shueisha, ao longo de 2021, tendo sido compilados em volume encadernado (tankōbon) no final desse mesmo ano. 

Um volume essencial para quem acompanha a série e um ponto de viragem que eleva ainda mais a aposta narrativa e emocional criada por Gege Akutami.

Jujutsu Kaisen #18 – Febre, Gege Akutami, Devir, 192 pp., p&b, capa mole, 9,99€

Oshi No Ko – Volume 6

O sexto volume de Oshi No Ko, com argumento de Aka Akasaka e ilustração de Mengo Yokoyari, marca um novo ponto de viragem na série ao aprofundar os bastidores do mundo do entretenimento japonês — desta vez, através do teatro 2,5D.

Publicado originalmente no Japão a 19 de Abril de 2022, pela Shueisha, este volume dá continuidade ao arco da peça teatral 2,5D, que se aproxima rapidamente da sua estreia. No chamado “quinto acto”, a tensão criativa atinge o auge quando a autora do mangá original dentro da narrativa, Abiko Samejima, rejeita a primeira versão do texto teatral. O impasse é ultrapassado apenas após um intenso processo de negociação com o dramaturgo GOA, culminando numa nova versão do guião que finalmente obtém a sua aprovação.

A obra reflecte, com o realismo já característico da série, os conflitos entre criadores, adaptações artísticas e expectativas do público. A célebre citação presente no volume — “Um ator por quem ninguém dava nada, quando de repente começa a fazer coisas incríveis, conquista toda a gente, não é?” — resume bem um dos temas centrais do livro: o reconhecimento conquistado através do talento e da persistência.

Desde a sua publicação inicial, Oshi No Ko consolidou-se como uma das séries mais relevantes do mangá contemporâneo, combinando drama, crítica social e uma visão crua da indústria do entretenimento. O volume 6 reforça essa posição, preparando o terreno para desenvolvimentos decisivos tanto para a peça 2,5D quanto para as personagens envolvidas.

Oshi No Ko #6, Aka Akasaka e Mengo Yokoyari, Devir, 192 pp., p&b, capa mole, 9,99

24 de fevereiro de 2026

O Deus Selvagem — A fúria, a poesia e o instinto numa obra maior da BD francófona

A Ala dos Livros lança a edição especial de O Deus Selvagem, uma das suas mais recentes apostas na banda desenhada. A obra é da autoria de Fabien Vehlmann (argumento) e Roger (desenho) e será publicada numa edição a preto e branco, que inclui um dossiê de extras a cores, com esboços e conteúdos adicionais.

O livro chega às livrarias a 24 de Fevereiro. A edição foi recentemente apresentada num evento “BD à Lupa”, na FNAC de Alfragide, onde foi elogiada pela qualidade gráfica, característica das publicações da Ala dos Livros.

Quando Fabien Vehlmann se junta ao talento gráfico arrebatador de Roger, o resultado só poderia ser uma obra intensa, física e emocionalmente avassaladora. Le Dieu-Fauve é um desses livros raros que conciliam espectáculo visual, densidade temática e ambição literária — um verdadeiro marco da banda desenhada francófona contemporânea.

Situada numa era longínqua, evocando o tempo mítico do Dilúvio, a narrativa acompanha um jovem macaco órfão que procura afirmar-se no seio do seu clã adotivo. O destino, porém, arrasta-o para a barbárie humana: após o massacre do seu povo, é capturado e transformado num “Deus-Fera”, um guerreiro sagrado moldado para combater nas arenas do Império.

Mas esta não é apenas uma história de sobrevivência. É um romance gráfico sobre identidade, violência, dominação e vingança, onde se esbatem as fronteiras entre homem e animal. Vehlmann constrói uma parábola poderosa sobre civilização e brutalidade, enquanto Roger dá corpo a esse universo com pranchas vibrantes, de um dinamismo quase sensorial.

O leitor sente o calor sufocante, o pó, o sangue e o silêncio tenso antes do combate. Cada página pulsa com energia.

Le Dieu-Fauve foi amplamente saudado pela crítica e integrou seleções oficiais de prestigiados festivais francófonos, destacando-se a Selecção Oficial do Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême.

A obra consolidou-se como uma das mais marcantes do seu ano editorial, reforçando a reputação dos seus autores.

Fabien Vehlmann é um dos nomes mais respeitados da escrita em banda desenhada contemporânea. Ao longo da sua carreira, foi distinguido com vários prémios importantes, entre os quais o Prémio René Goscinny (atribuído a argumentistas de excelência). A sua escrita combina profundidade psicológica, ritmo narrativo e uma capacidade rara de alternar entre o intimista e o épico.

Roger impõe-se em Le Dieu-Fauve com um trabalho gráfico arrebatador. O seu traço detalhado e orgânico capta tanto a violência crua como momentos de silêncio contemplativo. A construção anatómica das personagens e o domínio da composição reforçam o impacto cinematográfico da obra.

O artista tem sido amplamente reconhecido pelo virtuosismo do seu desenho, sendo regularmente destacado pela crítica especializada e pelos jurados de festivais europeus.

O Deus Selvagem, Roger e Fabien Vehlmann, Ala dos Livros, 128 a preto e branco (incluindo dossier de extras a cores), capa dura, 35€

O Nome da Rosa - Volume 2

No segundo volume de O Nome da Rosa em banda desenhada, Milo Manara aprofunda de forma notável a adaptação do célebre romance de Umberto Eco, conduzindo o leitor para o núcleo mais sombrio e intelectual da abadia. Se o primeiro volume estabelecia o cenário e o enigma, este segundo tomo mergulha plenamente nas suas tensões filosóficas, teológicas e políticas, onde o crime, o saber e o poder se cruzam de forma inevitável.

O traço de Manara revela aqui uma maturidade rara. A arquitectura monástica, os claustros, a biblioteca-labirinto e os espaços de clausura são representados com um rigor quase arqueológico, enquanto certas sequências assumem um carácter mais simbólico e introspectivo. O jogo de luz e sombra é essencial para criar uma atmosfera de permanente inquietação, e a composição das páginas acompanha o ritmo da investigação conduzida por Guilherme de Baskerville, sempre filtrada pelo olhar ainda ingénuo de Adso.

Longe de simplificar a obra original, Manara enfrenta o desafio de traduzir em imagens a densidade do romance de Umberto Eco. O segundo volume é particularmente rico nesse aspecto, pois concentra os grandes temas do livro: o conflito entre razão e dogma, o medo do riso, o controlo do conhecimento, a heresia e o poder da palavra escrita. A banda desenhada não se limita a ilustrar o texto, antes propõe uma leitura visual que respeita e amplifica a complexidade do original.

Umberto Eco, que sempre defendeu a banda desenhada como uma forma narrativa plenamente legítima, via nesta adaptação uma forma de devolver ao leitor a materialidade sensorial do seu romance: a pedra fria da abadia, o peso dos manuscritos, a tinta, o fogo, o silêncio e o terror. Neste segundo volume, essas dimensões ganham especial relevo, tornando visíveis ideias e tensões que no romance se desenvolvem sobretudo através do discurso.

Com a publicação deste tomo, finalmente acessível, completa-se uma adaptação ambiciosa e exemplar. O Nome da Rosa, na leitura gráfica de Milo Manara, é mais do que uma transposição de um clássico literário: é um diálogo entre dois grandes nomes da cultura italiana, entre palavra e imagem, que confirma tanto a actualidade do pensamento de Umberto Eco como a versatilidade de Manara num registo mais contido, rigoroso e profundamente narrativo.

O Nome da Rosa - Volume 2, Milo Manara, Gradiva, 72 pp., cor, capa dura, 24,50€

Michel Vaillant – Segunda Temporada #14: Remparts

A equipa Vaillante atravessa um dos momentos mais delicados da sua história. Em Remparts, o 14.º volume da segunda temporada de Michel Vaillant, a crise deixa de ser apenas desportiva para se tornar financeira, estratégica e profundamente identitária.

Para salvar a marca mítica de um verdadeiro krach financeiro, Françoise Vaillant toma uma decisão radical: suspender toda a actividade competitiva e recentrar a empresa no desenvolvimento de novos modelos de grande consumo. Uma escolha racional do ponto de vista empresarial, mas que provoca forte contestação interna. Muitos colaboradores passam a duvidar da capacidade da família Vaillant para continuar a liderar o grupo, colocando em causa o futuro da marca.

Neste novo contexto, Michel Vaillant vê-se afastado das pistas e transformado num verdadeiro embaixador de luxo da Vaillante. A sua missão é apresentar o novo modelo revolucionário da marca no Circuit des remparts, em Angoulême — um evento emblemático, carregado de história e simbolismo. O que deveria ser uma operação de comunicação perfeitamente controlada rapidamente se transforma num pesadelo.

O protótipo é roubado e Michel raptado, fazendo mergulhar a Vaillante numa crise ainda mais profunda. A intriga ganha então contornos de thriller, combinando tensão, conspiração industrial e drama humano, num ritmo narrativo que não dá tréguas ao leitor.

No meio deste cenário sombrio, surge uma nota mais luminosa: Steve Warson retoma a relação com o pai e vive um reencontro consigo próprio, ao mesmo tempo que conhece uma carismática piloto de drag, trazendo uma energia nova à narrativa e abrindo caminhos inesperados para o futuro da série.

Com Remparts, a segunda temporada de Michel Vaillant confirma a sua maturidade narrativa. Já não se trata apenas de vencer corridas, mas de sobreviver num mundo onde o desporto, a indústria e a política económica se cruzam de forma implacável. O álbum equilibra acção, reflexão e emoção, sem nunca perder o pulso da aventura. Este volume reforça a ideia de que Michel Vaillant é hoje mais do que um herói das pistas: é uma figura em constante adaptação, confrontada com escolhas difíceis e consequências reais.

Um álbum tenso, actual e surpreendente, a descobrir a partir de 24 de Fevereiro.

Michel Vaillant – Segunda Temporada #14: Remparts, Denis Lapière, Marc Bourgne e Eillam, ASA, 54 pp., cor, capa dura

Batman de Grant Morrison - Volume 5

Quando Bruce Wayne desaparece, Gotham é obrigada a aceitar uma ideia impensável: há um novo Batman. Em Batman – Grant Morrison Vol. 5, é Dick Grayson quem veste o manto do Cavaleiro das Trevas, formando uma dupla tão improvável quanto fascinante com Damian Wayne, agora Robin.

Grant Morrison leva-nos por um caminho estranho, perturbador e altamente criativo, onde o crime assume contornos quase surrealistas. Uma trupe de circo grotesca — povoada por figuras híbridas, como porcos e sapos — instala-se em Gotham, transformando o caos num espetáculo macabro em que as peças de dominó funcionam como sinistra moeda de troca. É neste cenário que Grayson e Damian tentam impor ordem, cada um com a sua visão muito própria do que significa ser Batman e Robin.

Este volume reúne as histórias Domino Effect e The Circus of Strange, originalmente publicadas em Batman & Robin #1–7, e marca uma das fases mais ousadas da longa história do herói. Morrison não só desafia as convenções da série, como prova que Batman é mais do que um homem — é um símbolo que pode sobreviver à ausência do seu criador.

Batman de Grant Morrison - Volume 5, Grant Morrison, Frank Quitely, Philip Tan e Cameron Stewart, Devir, 144 pp., cor, capa dura, 20€

19 de fevereiro de 2026

Clube das Princesas Amaldiçoadas – Volume 4

O quarto volume de Clube das Princesas Amaldiçoadas (que reúne os episódios 78 a 93 da popular webtoon criada por LambCat) marca um ponto de viragem na narrativa — mais intenso, mais revelador e emocionalmente mais arriscado do que nunca.

Gwendolyn nunca foi a princesa típica dos contos de fadas. Apesar de viver num castelo e ser filha de um rei, está longe de corresponder aos padrões de beleza e comportamento esperados. E é precisamente essa diferença que faz dela uma protagonista tão cativante. Depois de ter descoberto por acaso o misterioso Clube das Princesas Amaldiçoadas — um grupo de princesas que, por razões diversas, carregam maldições físicas ou sociais — Gwen começou um processo de autodescoberta e aceitação que continua a ganhar profundidade neste volume.

Neste volume, um simples jantar transforma-se num verdadeiro caos delicioso. Gwen, determinada a provar o seu valor, decide preparar a refeição com a ajuda de Frederick. O que ele não sabe é que acaba por passar uma tarde inteira na companhia das Princesas Amaldiçoadas — e as consequências dessa convivência são tão divertidas quanto reveladoras. O equilíbrio entre humor e tensão é uma das grandes forças da obra. As situações embaraçosas, os mal-entendidos e os diálogos rápidos dão ritmo à narrativa, mas há sempre algo mais profundo a acontecer por baixo da superfície.

Outro destaque é o papel crescente do misterioso Príncipe Whitney. Carismático, ambíguo e difícil de decifrar, ele acrescenta novas camadas à intriga política e emocional da história. As suas intenções não são totalmente claras — e isso só aumenta o suspense. Ao mesmo tempo, a premonição de Nell lança uma sombra inquietante sobre todos. Se o seu dom de clarividência for real, isso poderá significar que alguém não sobreviverá aos acontecimentos que se aproximam. Pela primeira vez, o perigo deixa de ser apenas emocional.

Neste quarto volume, nota-se uma maturidade crescente na narrativa. As personagens enfrentam escolhas difíceis, lidam com consequências reais e começam a perceber que crescer implica, por vezes, perder ilusões.

O traço expressivo de LambCat e o uso inteligente da comédia continuam a ser marcas registadas da série. A alternância entre momentos caricatos e cenas emocionalmente intensas cria um equilíbrio que prende o leitor do início ao fim.

Clube das Princesas Amaldiçoadas  #4, LambCat, ASA, 320 pp., cor, capa mole, 15,50€


18 de fevereiro de 2026

60º Volume de Naruto — O Clímax da Quarta Grande Guerra Ninja

Foi editado pela Devir o 60.º volume de Naruto, da autoria de Masashi Kishimoto, publicado no Japão a 4 de Maio de 2012 pela Shueisha. Este volume reúne os capítulos 567 a 576, originalmente serializados na Weekly Shōnen Jump entre o final de 2011 e o início de 2012.

O volume marca um dos momentos mais impactantes da Quarta Grande Guerra Ninja: a revelação da verdadeira identidade de Tobi. O confronto entre Naruto, Kakashi e o antigo companheiro desencadeia uma das cenas mais emocionais da série, aprofundando temas como amizade, perda e redenção.

Repleto de acção intensa e revelações decisivas, o volume 60 é um ponto de viragem fundamental na reta final da saga, preparando o caminho para os acontecimentos culminantes da guerra ninja.

Naruto #60, Masashi Kishimoto, Devir, capa mole, 192 pp., p&b, 9,99€

17 de fevereiro de 2026

Longe

«É possível viver a dois quando não sabemos viver connosco próprios?»

Ulysse e Aimée, um casal na casa dos trinta, viajam para o sul da Espanha numa carrinha com o objectivo de irem efectuar mergulho a Cabo de Gata. Mas serão estas as férias de Verão perfeitas? Nem por isso... pois o casal atravessa uma fase de relacionamento difícil e entre ambos nem tudo é cor-de-rosa.

Depois de um ano complicado, Ulysse precisa de novas aventuras, mas também de se reencontrar, principalmente através do mergulho, que encara como forma de terapia. Aimée, por seu turno, depois de ter trabalhado durante um ano na sua tese, sente-se perdida e culpabiliza-se por não ter estado suficientemente disponível para o seu parceiro.

Ulysse sonha em ver um peixe-lua no seu habitat natural; Aimée tem fobia da água. No entanto, cede ao parceiro e aceita efectuar esta viagem, decidindo calar os seus medos. Mas à medida que o casal se aproxima do Cabo de Gata, a tensão e a ansiedade aumentam. E a pergunta impõe-se: é possível viver a dois quando não sabemos viver connosco próprios?

Longe, a obra mais recente de Alicia Jaraba e que a Ala dos Livros edita agora em Portugal, é um road-movie intimista, que nos fala sobre o medo de se sair da zona de conforto e da inércia de um relacionamento longo, cujo rumo já não se controla

Longe, Alicia Jaraba, Ala dos Livros, 144 pp., cor, capa mole, 27,50€

Ulysse & Cyrano: ambição, cozinha e identidade na França das Trente Glorieuses

Ulysse & Cyrano é uma obra que cruza narrativa histórica, romance de formação e relato culinário, usando a cozinha como linguagem universal para falar de ambição, transmissão e realização pessoal. Com edição da ASA e chegada às livrarias a 17 de Fevereiro, esta banda desenhada confirma a mestria de Xavier Dorison na construção de histórias humanas, densas e profundamente actuais.

Ulysse Ducerf é um jovem brilhante, destinado a seguir os passos do pai à frente da empresa familiar. No entanto, no momento em que realiza o exame do bac, o seu futuro é abruptamente posto em causa: surgem acusações graves que apontam para a colaboração da empresa com o esforço de guerra alemão durante a Segunda Guerra Mundial. Subitamente, o sucesso deixa de ser um caminho linear e passa a carregar o peso da suspeita e da culpa herdada.

Para escapar à pressão mediática e social, Ulysse e a mãe refugiam-se na Borgonha, longe de Paris. É nesse novo cenário que o jovem conhece Cyrano, um homem rude, solitário e envolto em silêncio, cuja relação com a grande cozinha francesa é tão exigente quanto apaixonada. O encontro entre os dois é um choque de temperamentos, mas também o início de uma aprendizagem decisiva.

Através da cozinha, Cyrano transmite a Ulysse muito mais do que técnicas culinárias. Ensina-lhe rigor, humildade, paciência e respeito pela matéria-prima — valores que se tornam essenciais para compreender o mundo e o lugar que nele se ocupa. Cada prato preparado é também uma lição de vida, num processo de formação que molda o carácter do jovem protagonista.

Situado na França das Trente Glorieuses, período de crescimento económico e reconstrução, o livro não ignora as ambiguidades dessa época. Pelo contrário, questiona o preço do progresso, a moralidade do sucesso e as concessões feitas em nome da prosperidade. Ulysse & Cyrano interroga o leitor de forma directa e necessária: qual é o verdadeiro custo da realização pessoal? E será possível alcançá-la sem comprometer os próprios valores?

O argumento de Xavier Dorison alia-se ao desenho expressivo de Stéphane Servain, que confere corpo e textura à narrativa. As cenas de cozinha são particularmente marcantes, quase sensoriais, enquanto os silêncios entre personagens dizem tanto quanto os diálogos. O trabalho conjunto com Antoine Cristau reforça a solidez do relato, equilibrando emoção, reflexão e ritmo narrativo.

Mais do que uma história sobre gastronomia, Ulysse & Cyrano é um livro sobre transmissão, herança e escolha. Um retrato subtil de um jovem à procura do seu caminho e de um mentor improvável, num país que tenta reconciliar-se com o seu passado recente.

Uma leitura rica, exigente e profundamente humana, a descobrir a partir de 17 de Fevereiro, numa edição da ASA que merece destaque.

Ulysse & Cyrano, Xavier Dorison, Antoine Cristau e Stéphane Servain, ASA, cor, capa dura

16 de fevereiro de 2026

DAN DA DAN chega a Portugal: um fenómeno global do mangá estreia a 16 de fevereiro

Chega finalmente a Portugal, a 16 de Fevereiro, um dos títulos mais explosivos e comentados do mangá contemporâneo. DAN DA DAN, da autoria de Yukinobu Tatsu, estreia nas livrarias nacionais pela DEVIR, trazendo consigo o peso de um fenómeno internacional que conquistou leitores muito para além do Japão.

A série foi publicada originalmente a partir de 6 de Abril de 2021 na plataforma digital Shōnen Jump+, da Shueisha — uma revista online que se tornou um espaço privilegiado para novas vozes do mangá e para propostas mais ousadas dentro do universo shōnen. Desde o primeiro capítulo, DAN DA DAN destacou-se pela sua energia visual, liberdade criativa e pela forma irreverente como cruza géneros tradicionalmente separados.

Com mais de 10 milhões de exemplares vendidos, DAN DA DAN consolidou-se rapidamente como um dos grandes sucessos da nova geração do mangá. Em 2025, foi o terceiro título mais vendido no Japão, segundo a Oricon News, apenas atrás de One Piece e Jujutsu Kaisen — ambos também publicados em Portugal pela DEVIR.

A consagração internacional foi reforçada pela adaptação para anime, exibida em plataformas como Crunchyroll e Netflix, que apresentou a série a um público ainda mais vasto. O tema de abertura, “Otonoke”, tornou-se um fenómeno viral, mantendo-se durante 20 semanas consecutivas no primeiro lugar da Billboard Global Japan, um feito raro que ilustra o impacto cultural da obra.

No centro da narrativa estão Momo Ayase e Okarun, dois adolescentes com visões opostas do mundo sobrenatural: ela acredita em fantasmas, ele em extraterrestres. Um desafio aparentemente banal desencadeia uma sucessão de acontecimentos extraordinários que mudam radicalmente as suas vidas.

Ao longo da série, o leitor é confrontado com:

encontros com extraterrestres e entidades espirituais;

fenómenos paranormais tratados com imaginação e humor;

uma comédia romântica marcada por diálogos rápidos e genuínos;

sequências de ação dinâmicas, com um forte sentido cinematográfico.

O grande trunfo de DAN DA DAN está na forma como Yukinobu Tatsu consegue equilibrar o absurdo e o emocional, o grotesco e o humano, criando uma narrativa que é simultaneamente frenética e surpreendentemente sensível.

O lançamento do primeiro tomo de DAN DA DAN em Portugal reforça a aposta da DEVIR nos títulos mais relevantes do mangá atual e confirma a vitalidade do mercado nacional para a banda desenhada japonesa contemporânea. Publicada com respeito pela edição original, esta estreia oferece aos leitores portugueses a oportunidade de acompanhar, desde o início, uma série que já é considerada um clássico moderno do mangá.

Mais do que um sucesso comercial, DAN DA DAN representa uma nova forma de contar histórias no universo shōnen: livre, híbrida e profundamente ligada à cultura pop global. A 16 de Fevereiro, esse fenómeno começa oficialmente a escrever a sua história em Portugal.

DAN DA DAN, Yukinobu Tatsu, Devir, 

Edens Zero – Volume 9: Uma Nova Ameaça no Cosmos

O volume 9 do mangá Edens Zero, criado por Hiro Mashima, mergulha os leitores numa das sagas mais emocionantes de toda a série, trazendo um inimigo formidável que faz tremer a lendária nave Edens Zero e a sua tripulação.

Depois de ultrapassarem os perigos causados por Madame Kurenai, Shiki e os seus amigos enfrentam uma nova e ameaçadora presença: o temido Drakken Joe. Fascinado pela própria Edens Zero e pelos tesouros que a nave possa conter, Drakken Joe prepara-se para a reivindicar como sua, montando uma tripulação poderosa para o confronto. A tripulação de Shiki — composta por Rebecca, Happy, Weisz e outros — terá de unir forças mais uma vez para enfrentar essa ameaça e defender o seu legado no espaço. 

O volume 9 de Edens Zero foi publicado originalmente no Japão em 17 de Abril de 2020. Esta edição japonesa integra os capítulos que aprofundam o confronto com Drakken Joe e o arco do Sakura Cosmos

Posteriormente, a edição em inglês foi lançada em 15 de Setembro de 2020 para leitores de língua inglesa, expandindo ainda mais o alcance da obra no mercado global. 

Edens Zero #9, Hiro Mashima, Distrito Manga, 192 pp., p&b, capa mole, 10,95€

15 de fevereiro de 2026

Três milhões de visualizações do blogue! Obrigado a todos!

 




Tintin fala mirandês: “Ls Xarutos de l Faraó” chegam a Miranda do Douro

A língua mirandesa continua a afirmar-se no panorama cultural português — e agora ganha um reforço de peso: Tintin fala mirandês. A aventura “Ls Xarutos de l Faraó”, versão na Lhéngua de Os Charutos do Faraó, foi apresentada ontem na Biblioteca Municipal António Maria Mourinho, em Miranda do Douro.

Tratou-se de um momento simbólico para a promoção da segunda língua oficial de Portugal, reconhecida em 1999, e para a valorização cultural do planalto mirandês.

Publicada originalmente em 1934, Les Cigares du Pharaon, do autor belga Hergé, é a quarta aventura de Tintin e uma das mais exóticas da série. A narrativa leva o jovem repórter do Egipto à Índia, numa trama que envolve arqueologia, tráfico de droga e sociedades secretas.

Agora, nesta edição mirandesa, todas as personagens falam a língua da região: Tintin, Rastapopoulos, Dupond i Dupond, Oulibeira de la Figueira — e até Milú lhadra an mirandés.

Mais do que uma simples tradução, esta edição representa um gesto cultural de afirmação identitária, aproximando um clássico universal da realidade linguística local. A série é uma das mais traduzidas e vendidas da história da banda desenhada. Com mais de 250 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo e traduções em mais de uma centena de línguas e dialectos, Tintin tornou-se um verdadeiro embaixador da nona arte. A chegada ao mirandês reforça essa dimensão internacional e demonstra que as grandes obras também podem — e devem — dialogar com línguas minoritárias.

14 de fevereiro de 2026

Dan Da Dan chega a Portugal com celebração especial na FNAC Colombo


Um dos maiores fenómenos mundiais da mangá da actualidade está prestes a aterrar em Portugal. Dan Da Dan, a obra de sucesso que já conquistou leitores em todo o mundo, chega oficialmente às livrarias nacionais no próximo 16 de Fevereiro, numa edição da Devir. No Japão, o título ocupa um lugar de destaque como a terceira colecção mais vendida, apenas atrás de One Piece e Jujutsu Kaisen, somando mais de 10 milhões de exemplares vendidos.

Para assinalar este lançamento muito aguardado, a Devir prepara uma acção especial no dia 17 de Fevereiro, a partir das 16h00, na FNAC Colombo, em Lisboa. Mais do que uma simples apresentação editorial, o evento foi pensado como um verdadeiro ponto de encontro da comunidade mangá, celebrando a paixão pelo género num ambiente descontraído, participativo e festivo.

Com o apoio de daividjones, a iniciativa aposta fortemente na interação com o público. Um dos grandes destaques será a presença dos cosplayers Vins, que dará vida à personagem Momo, e Hantzie, no papel de Okarun. Ambos prometem contagiar os fãs com muita energia, sessões de fotografia e participação ativa nas várias dinâmicas do evento, criando uma experiência mais próxima e imersiva para todos os presentes.

Aproveitando o espírito do Carnaval, o convite estende-se também ao público: todos são incentivados a aparecer caracterizados ou em cosplay, seja inspirado no universo de Dan Da Dan ou noutras personagens icónicas do imaginário mangá e anime. O objectivo é tornar o evento ainda mais visual, divertido e memorável, celebrando a criatividade e a diversidade da comunidade.

Com este lançamento, Dan Da Dan promete não só conquistar novos leitores portugueses, como também reforçar o dinamismo da cena mangá em Portugal, mostrando que estas histórias continuam a atravessar fronteiras e a unir fãs de todas as idades.



13 de fevereiro de 2026

A Incrível Adele viaja até ao Canadá em “Funky Fofinho”

A irreverente Adele está de malas feitas — e desta vez o destino é gelado! No 15.º volume da colecção A Incrível Adele, intitulado “Funky Fofinho”, a protagonista troca as tropelias do costume por umas férias de inverno no Quebeque, Canadá. E claro: nada corre exactamente como seria de esperar… ainda bem.

Boa, vamos de férias. E não é para qualquer lado, é para o Canadá!” — é assim que começa esta nova aventura. Adele viaja com os pais para conhecer a prima Charlie, que a acha “mega” (um elogio que Adele aceita de imediato, mesmo sem perceber grande coisa do que se diz por lá!).

Entre gorros divertidos, neve até perder de vista e temperaturas bem abaixo de zero, o programa promete passeios em plena natureza canadiana, treinos improváveis de esquilos, confusões linguísticas e disparates em série. A companhia também não desilude: Charlie é tão energética quanto curiosa, e o seu coelho Jaja é um verdadeiro sósia do icónico Ajax. O resultado? Uma sucessão de momentos cómicos onde o humor sarcástico de Adele contrasta com a ternura “fofinha” do ambiente invernal.

A série original, Mortelle Adèle, tornou-se um autêntico fenómeno editorial em França. Criada pelo argumentista Antoine Dole (conhecido pelo pseudónimo Mr Tan) e ilustrada por Diane Le Feyer, a colecção conquistou milhões de leitores desde o seu lançamento.

Com dezenas de volumes publicados e presença constante nos tops de vendas de literatura infantojuvenil, Adele é hoje uma das personagens mais populares da banda desenhada europeia. O seu sucesso explica-se facilmente: humor mordaz, ilustrações expressivas e uma protagonista que pensa — e diz — exactamente aquilo que lhe passa pela cabeça.

A Incrível Adéle #15: Funky Fofinho, Mr Tan e Diane Le Feyer, Bertrand Editora, 80 pp. cor, capa mole, 12,20€

Portugal Jurássico: a BD que revive os gigantes que habitaram a Lourinhã

A importância da Lourinhã no panorama paleontológico global é difícil de sobrestimar. A região é reconhecida como um dos mais ricos depósitos fossilíferos do Jurássico Superior, frequentemente comparada, em relevância científica, a formações famosas como a Morrison (EUA).

O Museu da Lourinhã desempenha um papel central na investigação, preservação e divulgação deste património científico, sendo uma referência internacional no estudo de dinossauros europeus.

Editado pela Mudnag Edições, Portugal Jurássico assume-se essencialmente como um álbum de banda desenhada com ilustrações de grande dimensão, onde o impacto visual é protagonista. O objectivo é conjugar rigor científico com uma abordagem acessível e envolvente.

Todo o conteúdo científico foi verificado pelo paleontólogo André Saleiro, em parceria com o Museu da Lourinhã, garantindo que cada representação artística respeita o conhecimento científico actual. Mais do que um simples álbum ilustrado, a obra pretende funcionar como uma ponte entre ciência e público, especialmente junto de leitores jovens e entusiastas da paleontologia.

A escolha do Festival de Banda Desenhada da Lourinhã (LouriBD) no próximo mês de Março para o lançamento não poderia ser mais simbólica. Num território onde os dinossauros fazem parte da identidade local — da investigação científica ao turismo — a apresentação de uma obra dedicada ao Jurássico português assume um significado especial.

Com Portugal Jurássico, Henrique Gandum reforça a capacidade da banda desenhada como meio de divulgação científica, celebrando um dos capítulos mais fascinantes da história natural portuguesa e sublinhando o papel da Lourinhã como um dos epicentros mundiais do mundo jurássico.

Uma obra que promete transportar os leitores para um tempo em que Portugal era dominado por gigantes.

Portugal Jurássico, Henrique Gandum, Mudnag Edições, 36 pp., cor, capa mole, 14€

12 de fevereiro de 2026

O Menino Triste - Exposição de originais

 


Perigo na Casa da Falésia: Hercule Poirot em banda desenhada

A obra Perigo na Casa da Falésia (Peril at End House), um dos romances mais populares de Agatha Christie protagonizados por Hercule Poirot, ganhou uma elegante adaptação para banda desenhada, transportando para o campo visual toda a intriga psicológica e o charme clássico do detective belga.

Nesta versão em BD, com argumento de Frédéric Brémaud e desenho de Alberto Zanon, somos conduzidos até à costa da Cornualha, onde se ergue uma magnífica casa empoleirada numa falésia, propriedade de Nick Buckley — jovem, independente e aparentemente perseguida pela morte. O que começa como uma sucessão de “acidentes” estranhos transforma-se rapidamente num caso sério quando um tiro parece ser disparado contra a jovem no jardim de um hotel vizinho, onde Poirot e o capitão Hastings se encontram hospedados.

Incansável e metódico, Poirot entra em acção, recorrendo às suas célebres “pequenas células cinzentas” para desvendar quem deseja eliminar Nick Buckley — e porquê. À medida que investiga os hóspedes da Casa da Falésia, o detective revela uma teia de mentiras, identidades ambíguas e motivações ocultas, numa história onde nada é exatamente o que parece.

Frédéric Brémaud opta por uma adaptação fiel ao espírito do romance original, mantendo o ritmo clássico da narrativa de Christie, mas com uma leitura visual dinâmica e acessível. O trabalho gráfico de Alberto Zanon destaca-se pelo traço claro, expressivo e pela recriação cuidada da atmosfera britânica dos anos 1930, contribuindo para uma leitura envolvente tanto para fãs de longa data como para novos leitores.

Esta adaptação de Perigo na Casa da Falésia confirma o potencial da banda desenhada como meio para revitalizar os clássicos do policial. Respeitando a complexidade do enredo original e valorizando a figura icónica de Hercule Poirot, o álbum funciona tanto como homenagem à autora como porta de entrada para novos leitores descobrirem — ou redescobrirem — Agatha Christie.

Perigo na Casa da Falésia, Frédéric Brémaud e Alberto Zanon, Arte de Autor, 56 pp., cor, capa dura, 19,50€

11 de fevereiro de 2026

Casemate #198

A edição abre com um dossiê especial sobre o Festival de Angoulême, no qual 12 vencedores do Grande Prémio partilham memórias, alegrias e frustrações ligadas ao mais prestigiado evento da BD europeia.

Segue-se uma entrevista com Neidhardt, que revisita a sua carreira singular marcada por uma trajectória “épica” como impostor profissional — um percurso invulgar que atravessa a sua obra e identidade artística.

A reportagem “Hypersurveillance” aborda os perigos da vigilância massiva e do controlo digital, refletindo sobre o “grande policiamento” contemporâneo e os seus impactos sociais.

No cinema, destaque para o Marsupilami na versão de Philippe Lacheau, analisando a adaptação da famosa personagem franco-belga ao grande ecrã.

As secções habituais marcam presença:
Journorama: revista de imprensa sobre a actualidade da BD.
L’Écho des Rézos: o melhor das redes sociais (Facebook, X, Bluesky, Instagram, etc.).

Entre as pré-publicações com pranchas exclusivas, a revista apresenta:
Apogée, um space opera bélico de Duval, Emem e Blanchard.
Landais, numa exploração na Guiana em busca dos montes Tumuc-Humac.
Terre ou Lune, de Khoo, que imagina um futuro dominado por aves e restrições.
Thorgal, por Bec e Mangin, confrontando o herói com a misteriosa deusa de âmbar.
Off, de Renard e Tollet, num cenário pós-apocalíptico.
Barrio negro, centrado na comunidade francesa no Panamá.
Eldorado, sobre o sonho frustrado de um jovem aspirante a futebolista profissional.

A edição inclui ainda:
Um guia de 24 bandas desenhadas a descobrir em fevereiro.
Um agenda detalhada com 218 lançamentos, além de festivais e exposições.
Um passeio por um Paris atípico, guiado por Finot.
Um retrato de Guston, por Michaëlis.
E, a encerrar, a habitual secção de cartas dos leitores.

No conjunto, esta edição combina grandes entrevistas, temas sociais contemporâneos, pré-publicações exclusivas e um panorama abrangente das novidades da BD em Fevereiro de 2026.

Casemate #198, février 2026, 100 pp., 9,95€

10 de fevereiro de 2026

Um livro esquecido num banco: quando a leitura se torna encontro

Num tempo dominado por ecrãs, notificações e mensagens instantâneas, Um livro esquecido num banco, de Jim & Mig, surge como um gesto delicado de resistência poética ao fluxo digital. A obra, que chega às livrarias portuguesas pela ASA a 10 de Fevereiro, propõe algo simples e ao mesmo tempo profundamente humano: voltar a comunicar através do papel, da espera e do mistério.

A história começa de forma quase banal. Camélia está sentada num banco público quando repara num livro pousado ao seu lado, aparentemente esquecido. Ao abri-lo, descobre uma dedicatória inesperada: um convite para o levar, lê-lo e, depois, deixá-lo noutro banco, para que continue o seu percurso nas mãos de um novo leitor. Intrigada e divertida, Camélia aceita o jogo.

Mas o livro guarda um segredo. Ao folheá-lo em casa, ela percebe que algumas letras estão cuidadosamente assinaladas, formando uma mensagem escondida — uma espécie de chamada silenciosa à comunicação. Tocada por esse gesto anónimo e cansada da monotonia do seu quotidiano, Camélia decide responder da mesma forma: marca letras, constrói palavras, quase um desejo, e devolve o livro a um banco público, à espera de uma resposta.

É assim que se inicia uma correspondência “à livro aberto”, feita de fragmentos, pistas e silêncios partilhados, entre Camélia e um desconhecido. Uma troca que não depende de perfis, likes ou respostas imediatas, mas sim de atenção, tempo e sensibilidade.

Jim & Mig constroem aqui uma narrativa subtil e profundamente actual, apesar — ou precisamente por causa — da sua recusa em seguir os códigos da comunicação moderna. Um livro esquecido num banco fala de solidão urbana, do desejo de ligação e da magia dos encontros improváveis. Cada página convida o leitor a desacelerar, a observar os detalhes e a lembrar-se de que as histórias mais marcantes nem sempre começam com grandes acontecimentos, mas com pequenos gestos.

Visualmente e narrativamente delicado, o livro destaca-se também pelo seu conceito: o livro como objecto vivo, que circula, transporta vozes e cria laços entre pessoas que talvez nunca se encontrem, mas que se reconhecem nas palavras deixadas para trás.

Mais do que uma simples história de ficção, Um livro esquecido num banco é uma reflexão sensível sobre a forma como nos relacionamos, lemos e comunicamos. Um convite a redescobrir o prazer da leitura partilhada e a acreditar que, mesmo num mundo hiperconectado, ainda há espaço para o mistério, a espera e a poesia.

A partir de 10 de Fevereiro, este pequeno grande livro promete encontrar novos leitores — talvez num banco de jardim, talvez numa estante — e lembrar-nos de que, às vezes, basta abrir um livro para não estarmos tão sós.

Um livro esquecido num banco, Jim & Mig, ASA, cor, capa dura, 97 pp.