12 de abril de 2026

Lucky Luke: Um mergulho nas origens do mito

A revista Les Cahiers de la BD lançou recentemente um número hors-série inteiramente dedicado a uma das figuras mais icónicas da BD franco-belga: Lucky Luke. Sob o título Les dessous des cartes (1946–1954), esta edição especial convida os leitores a regressar às origens do “cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra” e a descobrir os bastidores criativos dos seus primeiros anos.

Criado por Morris em 1946, Lucky Luke nasceu nas páginas da revista Spirou, num contexto de renovação da BD europeia do pós-guerra. Este hors-série concentra-se precisamente nesse período inaugural, entre 1946 e 1954, quando a série ainda procurava o seu tom definitivo e a sua identidade gráfica.

A publicação analisa as primeiras histórias, evidenciando as influências do cinema western americano, da animação e do humor slapstick. Mostra também como o traço de Morris evoluiu rapidamente, passando de um estilo ainda algo rígido para a fluidez e expressividade que mais tarde se tornariam a sua marca registada.

Embora muitos leitores associem Lucky Luke à parceria com René Goscinny, este número especial foca-se no período anterior à entrada do célebre argumentista. Aqui encontramos um herói mais solitário, com narrativas menos estruturadas, mas já repletas de invenção visual e sentido de ritmo.

O dossier destaca como, mesmo antes da colaboração com Goscinny, Morris já experimentava gags visuais e situações absurdas que viriam a definir o humor da série. Ao mesmo tempo, observa-se a construção progressiva de elementos icónicos do universo Lucky Luke.

Um dos grandes atractivos deste hors-série é o acesso a materiais de arquivo: esboços, pranchas originais, capas e ilustrações pouco conhecidas. Estes documentos permitem compreender melhor o processo criativo de Morris e o contexto editorial da época. Além disso, especialistas em banda desenhada contribuem com ensaios que situam Lucky Luke na história da BD europeia, discutindo a sua importância cultural e a forma como reinterpretou os códigos do western para um público europeu.

Este número especial de Les Cahiers de la BD não é apenas uma homenagem nostálgica. É também uma obra de referência que ilumina um momento-chave da história da banda desenhada. Para fãs de longa data, oferece novas perspectivas sobre um clássico incontornável; para novos leitores, funciona como porta de entrada para compreender a génese de uma série lendária.

Les Cahiers de la BD Hors-Serie #15, Lucky Luke: Les dessous des cartes (1946–1954), 120 pp., cor, capa dura, 19,90€

Chainsaw Man #15

O 15.º volume de Chainsaw Man, manga de Tatsuki Fujimoto, dá continuidade a uma das fases mais intensas da segunda parte da obra, aprofundando o tom psicológico e introduzindo uma nova ameaça de grande escala narrativa.

Publicado originalmente no Japão pela Shueisha e serializado na plataforma digital Shōnen Jump+, Chainsaw Man regressa neste volume com foco na personagem Asa Mitaka e na crescente complexidade da sua relação com Yoru, o Demónio da Guerra.

No centro deste volume está a introdução do Demónio da Queda, uma entidade descrita como um dos terrores primordiais — conceitos que, no universo da série, representam medos universais e profundamente enraizados na psique humana. A sua presença marca uma escalada significativa na narrativa, não apenas pela ameaça física, mas sobretudo pelo impacto psicológico. Através da exploração das memórias e traumas das personagens, o Demónio da Queda expõe fragilidades internas, levando Asa a confrontar-se com experiências do passado que abalam a sua capacidade de confiar em Yoru. Este conflito interno torna-se um dos eixos centrais do volume.

Conhecida pela abordagem pouco convencional ao género shōnen, a obra de Fujimoto continua a destacar-se pela combinação de acção violenta com reflexão emocional. Neste volume, essa tendência acentua-se: o horror deixa de ser apenas visual ou físico, passando a operar sobretudo no plano psicológico. A ideia de “queda” surge aqui como metáfora para o fracasso humano — personagens que, muitas vezes sem consciência, caminham para a sua própria destruição. Esse percurso é representado de forma quase alegórica, culminando num cenário descrito como um “banquete do inferno”, onde as vítimas são consumidas pelas consequências dos seus próprios traumas.

Chainsaw Man #15, Devir, Tatsuki Fujimoto, 200 pp., p&b, capa mole, 9,99€

11 de abril de 2026

O Jardim, Paris

Na efervescente Paris da década de 1920, onde a arte, a liberdade e a transgressão se cruzam em cada esquina, nasce O Jardim, Paris, a deslumbrante novela gráfica de Gaëlle Geniller. Esta obra transporta-nos para o coração de um cabaré singular, onde identidade, sonho e pertença florescem como num verdadeiro jardim humano.

O Jardim” é mais do que um simples cabaré — é um refúgio. Gerido por uma mulher forte e carismática, este espaço acolhe artistas que adoptam nomes de flores e vivem como uma família escolhida. É neste ambiente caloroso e vibrante que conhecemos Rose, um jovem de 19 anos que cresceu entre bastidores, luzes e música. Embora seja rapaz, Rose partilha o mesmo sonho das suas companheiras: subir ao palco e dançar.

A narrativa acompanha a jornada de afirmação de Rose, que desafia convenções sociais e expectativas de género numa época ainda marcada por fortes normas. A sua ascensão a principal atracção do cabaré não é apenas uma conquista artística, mas também um poderoso gesto de liberdade e autenticidade. Através dele, a obra questiona identidades rígidas e celebra a diversidade com sensibilidade e delicadeza.

Visualmente, O Jardim, Paris é um verdadeiro espectáculo. O traço de Gaëlle Geniller destaca-se pela elegância, fluidez e riqueza cromática, evocando tanto a estética vibrante dos cabarés parisienses como a intimidade dos bastidores. Cada página é cuidadosamente composta, transformando a leitura numa experiência quase coreográfica. Mais do que uma história sobre dança, esta é uma ode à auto-expressão, à aceitação e ao poder transformador da arte. O Jardim, Paris convida o leitor a entrar num mundo onde as fronteiras se esbatem e onde cada indivíduo pode, finalmente, florescer à sua maneira.

Gaëlle Geniller é uma das vozes mais promissoras da nova geração da banda desenhada francófona, destacando-se pela sensibilidade com que aborda temas como identidade, diferença e auto-expressão.

Nascida em 1996, em Saint-Priest, no departamento do Ródano, revelou desde cedo uma forte inclinação para a criação artística. Ainda durante a escola primária, já desenvolvia as suas próprias histórias em banda desenhada, que partilhava com amigos, dando sinais precoces do seu talento narrativo e visual. Com formação técnica em animação, iniciou o seu percurso profissional num estúdio da área, experiência que contribuiu para o desenvolvimento do seu olhar cinematográfico e da fluidez do seu traço. No entanto, seria na banda desenhada que encontraria o espaço ideal para afirmar a sua voz autoral.

A sua estreia deu-se em 2019 com Les Fleurs de grand frère, publicado pela Delcourt. Esta obra, destinada ao público mais jovem, conquistou rapidamente a atenção da crítica e dos leitores, marcando o início de um percurso promissor. Em 2021, Geniller consolida o seu lugar no panorama da BD contemporânea com Le Jardin, Paris, uma narrativa ambientada na década de 1920, onde a autora aprofunda a sua exploração das questões ligadas à identidade e à aceitação, revelando uma abordagem delicada, poética e visualmente marcante.

Com um estilo elegante e uma forte componente emocional, Gaëlle Geniller afirma-se como uma autora a acompanhar de perto, capaz de transformar histórias íntimas em experiências universais através da arte da banda desenhada.

O Jardim de Gaëlle Geniller, que ganhou o prémio Melhor ilustração no Festival Lucca 2022.

O Jardim, Paris, Gaëlle Geniller, Arte de Autor, 224 pp., cor, capa dura, 28,50€

O Fantasma da Ópera

O Fantasma da Ópera, clássico intemporal de Gaston Leroux, ganha uma nova vida numa adaptação em novela gráfica lançada pela Arte de Autor. Pelas mãos dos irmãos Paul Brizzi e Gaëtan Brizzi, esta obra revisita o mistério e o romantismo sombrio que têm fascinado gerações.

Ambientada na icónica Ópera Garnier, em plena Paris do século XIX, a narrativa mergulha o leitor num ambiente onde o real e o sobrenatural se confundem. Eventos inexplicáveis começam a assombrar o teatro: um lustre que cai tragicamente durante um espectáculo, mortes suspeitas nos bastidores e rumores persistentes sobre uma figura enigmática — o temido Fantasma da Ópera. Mais do que uma simples lenda, a presença de Erik, o homem por detrás do mito, revela-se tanto aterradora quanto profundamente humana.

No centro da história está o triângulo emocional entre Christine Daaé, a jovem cantora em ascensão, Raoul de Chagny, o visconde apaixonado, e o próprio Fantasma, cuja voz misteriosa ecoa como um sussurro vindo das sombras. A tensão entre amor, obsessão e identidade conduz a narrativa, mantendo o leitor preso até à última página.

Os irmãos Gaëtan Brizzi e Paul Brizzi são duas figuras incontornáveis do universo da animação e da banda desenhada contemporânea. Gémeos, nascidos em 1951, dividem a sua vida entre França e Estados Unidos, construindo uma carreira multi-facetada como realizadores, pintores, ilustradores e autores.

O seu talento começou a ganhar destaque com várias curtas-metragens de animação, entre as quais se destaca Fracture, nomeada para os prestigiados Prémios César em 1977. Este reconhecimento abriu portas a uma colaboração rara: foram dos poucos criadores franceses a trabalhar com a Walt Disney Animation Studios. No universo Disney, deixaram a sua marca em projectos emblemáticos como O Corcunda de Notre-Dame e Fantasia 2000, onde realizaram sequências memoráveis, incluindo O Pássaro de Fogo, amplamente elogiada pela sua força visual e narrativa.

Mais recentemente, os Brizzi têm vindo a afirmar-se no campo da banda desenhada e da ilustração literária. Entre 2015 e 2020, adaptaram obras de autores como Louis-Ferdinand Céline, Boris Vian e Honoré de Balzac, revelando uma abordagem visual sofisticada e profundamente autoral. Em 2023, surpreenderam com uma interpretação singular de A Divina Comédia, mais concretamente O Inferno, numa forma híbrida entre ilustração e banda desenhada, onde o poder das imagens assume protagonismo absoluto. Este projeto deu origem a uma colecção que prosseguiu com Dom Quixote de la Mancha, mantendo a mesma linguagem estética inovadora. Nesse mesmo ano, exploraram também o universo gótico e fantástico de Edgar Allan Poe, com a publicação de dois livros ilustrados baseados nos seus Contos Extraordinários.

Esta edição da Arte de Autor e d' A Seita aposta numa estética cuidada, onde cada prancha funciona como um quadro, reforçando a dimensão sensorial da obra. Mais do que uma adaptação, esta novela gráfica é uma reinterpretação artística que respeita o espírito do original, ao mesmo tempo que o torna acessível a novos leitores.

Com esta publicação, O Fantasma da Ópera reafirma-se como uma narrativa universal, capaz de atravessar épocas e formatos. Entre o terror e a beleza, a nova obra promete conquistar tanto fãs do romance clássico como apreciadores de banda desenhada de autor.

O Fantasma da Ópera, Paul Brizzi e Gaëtan Brizzi, Arte de Autor/A Seita, 168 pp., p&b, capa dura, 29€

10 de abril de 2026

Mulheres de Papel – O Papel das Mulheres na Banda Desenhada Portuguesa


Com curadoria nacional, a mostra propõe um olhar abrangente sobre a produção feminina contemporânea na banda desenhada portuguesa, reunindo obras de 16 autoras: Alice Prestes, Amanda Baeza, Bárbara Lopes, Filipa Beleza, Inês Garcia, Joana Afonso, Joana Mosi, Joana Rosa, Kachisou, Margarida Madeira, Marta Teives, Patrícia Costa, Raquel Costa, Rita Alfaiate, Sofia Neto e Susa Monteiro.

A exposição distingue-se pela forte aposta em originais, privilegiando o contacto directo com o processo artístico em detrimento de reproduções. A complementar esta abordagem, haverá ainda uma componente audiovisual que revela os bastidores criativos de cada autora, oferecendo ao público uma perspectiva mais íntima e detalhada sobre a construção da banda desenhada.

Integrada na programação do festival, “Mulheres de Papel” dialoga com outras exposições dedicadas a universos icónicos como Naruto e Peanuts, bem como com a obra Don Vega, do autor francês Pierre Alary, que marcará presença no evento.

Spy x Family #16

O 16.º volume de Spy x Family, manga de Tatsuya Endo, dá continuidade ao equilíbrio característico entre comédia, acção e intriga política que tem definido a série desde a sua estreia. Neste novo tomo, a narrativa avança em duas frentes distintas: a missão secreta de Loid Forger e o quotidiano escolar de Anya.

A obra é publicada originalmente no Japão pela Shueisha, com serialização digital através da plataforma Shōnen Jump+, onde se tem mantido como um dos títulos mais populares da atualidade.

No centro da componente mais política da narrativa, Loid — sob a identidade de psiquiatra — aproveita uma oportunidade para recolher informações durante um encontro com Melinda Desmond. A personagem, ligada diretamente a Donovan Desmond, figura-chave da operação em curso, torna-se aqui uma peça relevante para o avanço da missão. Este momento permite levantar novas pistas sobre o enigmático líder político, cuja influência continua a pairar como uma ameaça latente. Ainda que as revelações sejam parciais, reforçam o clima de tensão e espionagem que sustenta o arco principal da série.

Em paralelo, o volume acompanha o início de um novo semestre na Academia Eden, onde Anya se vê envolvida numa inesperada rivalidade de dimensão internacional. Este desenvolvimento introduz novos elementos de humor e conflito, mantendo o tom leve que contrasta com a narrativa mais densa centrada nos adultos. A personagem continua a ser um dos motores da popularidade da série, funcionando como ponto de ligação entre o quotidiano escolar e o universo mais amplo de espionagem e conspiração.

Spy x Family tem-se destacado pela capacidade de cruzar géneros distintos, combinando elementos de comédia familiar com temas de espionagem e crítica social. Neste volume 16, essa fórmula mantém-se eficaz, alternando entre momentos de tensão política e episódios de cariz mais leve. A dinâmica entre os membros da família Forger — cada um com segredos próprios — continua a ser central, contribuindo para a construção de uma narrativa multifacetada que apela a diferentes públicos.

Spy x Family #16, Tatsuya Endo, Devir, 212 pp., p&b, capa mole, 9,99€

9 de abril de 2026

La ligne claire d’Hergé, de Gilles Rattier, dedicada a Bob de Moor

Se há coisa que nunca me canso de cole cionar são monografias de autores de banda desenhada. Ao longo dos anos, fui construindo uma biblioteca que já conta com dezenas de volumes — alguns raros, outros mais acessíveis — mas todos fundamentais para compreender melhor os bastidores desta arte que tanto me fascina. Não são apenas livros: são portas de entrada para processos criativos, contextos históricos e, muitas vezes, para autores que ficam injustamente na sombra.

Foi precisamente essa sensação que tive ao receber a edição especial de La ligne claire d’Hergé, de Gilles Rattier, dedicada a Bob de Moor. Este é o tipo de obra que encaixa na perfeição na minha estante — e que justifica plenamente a obsessão por este género editorial.

Quem, como eu, acumula monografias, sabe que o maior prazer está em descobrir o que não é imediatamente visível nas pranchas publicadas. Neste caso, Rattier oferece-nos um mergulho profundo no papel de Bob de Moor dentro do universo de Hergé.

Durante muito tempo, De Moor foi visto como o “segundo homem”, o colaborador exemplar mas discreto. Esta monografia desmonta essa visão redutora e mostra-nos um autor completo, cuja importância vai muito além do estatuto de assistente.

Ao folhear este livro, fica claro que De Moor não era apenas um executante talentoso: era um verdadeiro guardião da estética da linha clara. A sua capacidade de replicar — e, subtilmente, expandir — o estilo de Hergé é impressionante. Para qualquer leitor interessado em Tintin, esta obra oferece uma perspectiva quase inédita: a de perceber como a consistência visual das aventuras foi, em grande parte, assegurada por uma equipa, com De Moor em destaque.

O título do livro levanta uma questão fascinante: a “linha clara” pertence apenas a Hergé? Rattier sugere que não. No contexto dos Studios Hergé, este estilo transforma-se numa linguagem colectiva, dominada por vários artistas — mas poucos com a mestria de De Moor. Este é, aliás, um dos aspectos que mais aprecio em monografias: a capacidade de questionar ideias feitas e de revelar zonas cinzentas na história da BD.

Do ponto de vista editorial, esta edição especial é exactamente aquilo que procuro: rica em documentação, generosa em imagens e cuidada na abordagem crítica. Não é apenas um livro para ler — é um livro para revisitar, comparar, estudar.

E é aqui que entra o lado mais pessoal: quando olho para a minha biblioteca, com dezenas de monografias alinhadas, sei que esta veio ocupar um lugar merecido. Não apenas por ser dedicada a um autor muitas vezes secundarizado, mas porque contribui para uma compreensão mais ampla de um dos movimentos mais importantes da banda desenhada europeia.

Bob de Moor: La ligne claire d’Hergé, Gilles Rattier, BD Must, 320 pp., cor, capa dura, 95€ (exemplar exclusivo para Les Amis d'Hergé)

Punk Comix – Banda Desenhada e Punk em Portugal

A Biblioteca Municipal das Caldas da Rainha recebe, no próximo dia 11 de abril, um conjunto de iniciativas dedicadas à banda desenhada, no âmbito do Leituras a Oeste – Encontro de Artes e Banda Desenhada Jorge Machado-Dias. O evento promete reunir público, investigadores e entusiastas desta forma de expressão artística, numa tarde dedicada à reflexão e divulgação da BD em Portugal.

A programação tem início às 15h00 com a inauguração da exposição “Punk Comix – Banda Desenhada e Punk em Portugal”, que ficará patente ao público até ao dia 7 de Maio. Com curadoria de Marcos Farrajota e Joana Pires, a mostra propõe uma leitura aprofundada da relação entre a cultura punk e a banda desenhada no contexto português.

A exposição destaca o caráter alternativo, independente e contestatário desta ligação, apresentando autores, publicações e movimentos que marcaram diferentes momentos desta interseção cultural. Ao longo do percurso expositivo, os visitantes poderão explorar a evolução de uma contracultura que encontrou na BD um meio privilegiado de expressão artística e intervenção.

Pelas 15h30, terá lugar uma sessão de conversa com o investigador e autor Pedro Moura, subordinada ao tema “Banda desenhada: Nem fácil, nem menor”. A iniciativa propõe uma reflexão sobre a complexidade da banda desenhada enquanto forma narrativa, abordando a sua percepção pública, os desafios que enfrenta e o seu posicionamento no panorama cultural contemporâneo.

Com entrada livre, esta iniciativa integra a programação do festival e reforça o papel da Biblioteca Municipal como espaço de promoção cultural e reflexão artística, convidando a comunidade a descobrir e debater o universo da banda desenhada em Portugal.

8 de abril de 2026

Corto Maltese: O dia anterior

O regresso de Corto Maltese continua a afirmar-se como uma das reinvenções mais interessantes da banda desenhada europeia contemporânea. Em Corto Maltese – O Dia Anterior, com argumento de Martin Quenehen e desenho de Bastien Vivès, somos transportados para uma narrativa actual, onde os grandes temas do nosso tempo se cruzam com o espírito aventureiro clássico da personagem criada por Hugo Pratt.

A história começa em Sydney, onde Corto tenta ajudar Marcus, um velho amigo pirata preso numa espiral de autodestruição marcada pelo vício. Fiel à sua natureza errante, Corto opta por aquilo que melhor sabe fazer: fugir para a frente, lançando-se numa nova aventura. A oportunidade surge através de uma advogada que representa um grupo de activistas ambientais. Uma das suas integrantes foi detida nas ilhas Tuvalu e enfrenta a ameaça de extradição para a China — um destino que poderá significar o fim da sua liberdade.

É assim que se inicia uma viagem rumo ao Pacífico, a bordo de um hidroavião decadente pilotado por Marcus, numa missão que mistura resgate, redenção e denúncia. O cenário escolhido não é inocente: Tuvalu surge como símbolo das primeiras vítimas reais das alterações climáticas, com o aumento do nível do mar a ameaçar a própria existência destas ilhas.

Quenehen constrói um argumento que respeita o ADN de Corto — o aventureiro solitário, irónico e moralmente ambíguo — mas introduz uma camada contemporânea, onde temas como activismo, geopolítica e crise ambiental ganham protagonismo. Já Vivès oferece um traço moderno, depurado e expressivo, que pode dividir fãs mais puristas, mas que reforça o tom intimista e melancólico da narrativa.

O álbum destaca-se precisamente por esse equilíbrio entre tradição e renovação. Não se limita a revisitar o mito de Corto Maltese, antes procura colocá-lo no presente, confrontando-o com dilemas atuais e urgentes. A aventura mantém-se, mas agora carrega um peso mais real, mais político — e talvez por isso mais inquietante.

Corto Maltese – O Dia Anterior é, assim, uma leitura que vai além do escapismo habitual. É uma viagem que nos lembra que o espírito livre de Corto continua vivo, mas também que o mundo que ele percorre está em transformação — e nem sempre para melhor.

Corto Maltese: O dia anterior, Martin Quenehen e Bastien Vivès, Arte de Autor, 176 pp., p&b + caderno final a cores, capa dura, 27,95€

Ilustra BD - 7ª edição

O Ilustra BD está de regresso ao Barreiro para a sua 7.ª edição, reafirmando-se como um dos principais encontros dedicados à banda desenhada e à ilustração em Portugal. Com uma programação diversificada, o evento reúne autores nacionais e internacionais, editores e público, promovendo um espaço de partilha, descoberta e celebração da narrativa gráfica.

Entre os destaques desta edição estão as exposições, que percorrem diferentes universos e estilos. Uma das mais emblemáticas é dedicada ao universo de Snoopy e da série Peanuts, criada por Charles M. Schulz, assinalando os 75 anos desta icónica personagem, numa parceria com a Penguin Random House.

A programação inclui também “Shhhh”, do ilustrador André da Loba, uma proposta sensorial inspirada no seu livro homónimo, especialmente pensada para o público escolar, convidando à exploração dos sons do quotidiano.

Outro ponto alto é “Zorro - o Herói Popular”, de Pierre Alary, uma exposição que revisita o mito de Zorro enquanto símbolo de justiça e resistência, em parceria com a Ala dos Livros.

A mostra “Mulheres de Papel”, com curadoria de Hugo Pinto, reúne o trabalho de 16 ilustradoras contemporâneas, propondo uma reflexão sobre o papel das mulheres na banda desenhada portuguesa.

Já os fãs de manga poderão embarcar no universo de Naruto, criado por Masashi Kishimoto, numa exposição que percorre o caminho do jovem ninja, com curadoria de Paulo Monteiro e parceria com a Devir.

Para além das exposições, o Ilustra BD mantém a aposta numa programação abrangente, com feira do livro, sessões de autógrafos, conversas com autores, oficinas e visitas guiadas, proporcionando uma experiência completa para públicos de todas as idades.

A identidade visual desta edição é assinada por Gualter Amaro, contribuindo para reforçar a imagem contemporânea e dinâmica do evento.

Com entrada aberta à criatividade e ao imaginário, o Ilustra BD volta assim a afirmar o Barreiro como um ponto de encontro essencial para todos os amantes da banda desenhada e da ilustração.



7 de abril de 2026

Batman - Grant Morrison #6

O sexto volume da colecção Batman por Grant Morrison, reúne algumas das histórias mais experimentais e sombrias da sua passagem pelo universo do Cavaleiro das Trevas. Com 188 páginas, este tomo compila material originalmente publicado pela DC Comics no final da década de 2000.

O volume inclui os números #8 a #10 da série Batman and Robin, originalmente editados entre 2009 e 2010. Estas histórias integram a fase em que Dick Grayson assume o manto de Batman, acompanhado por Damian Wayne como Robin, num período de transição marcante após os eventos de Final Crisis.

Entre os arcos narrativos presentes, destaca-se Blackest Knight, uma história que cruza elementos de horror com o universo gótico de Gotham, e The Return of Bruce Wayne, do qual faz parte o capítulo The Time and the Batman.

Em Blackest Knight, Batman e Batwoman enfrentam uma ameaça insólita: uma figura que assume a identidade do Cavaleiro das Trevas sob a forma de um morto-vivo. A história explora temas de identidade e legado, recorrentes na escrita de Morrison, ao mesmo tempo que introduz uma atmosfera de terror que se afasta do tom mais tradicional das histórias do herói. A presença de Batwoman reforça a dimensão mais sombria e de investigação do enredo, num confronto que coloca em causa a própria noção de quem — ou o que — pode ser Batman.

Já em The Time and the Batman, Morrison desenvolve uma das suas abordagens mais características: a manipulação do tempo como elemento narrativo. A história liga passado, presente e futuro de Bruce Wayne, construindo um puzzle complexo que envolve viagens temporais e pistas deixadas ao longo de diferentes épocas. Com a participação do Joker, o arco reforça a dimensão quase mítica do confronto entre herói e vilão, apresentando-o como um ciclo que transcende o tempo.

Além do argumento de Grant Morrison, o volume conta com arte de Andy Clarke, Ian Hannin e Scott Hanna. O trabalho visual acompanha a complexidade do argumento, alternando entre sequências de ação intensa e momentos mais abstratos, especialmente nas passagens de caráter temporal.

Batman - Grant Morrison #6, Andy Clarke, Ian Hannin, Scott Hanna e Grant Morrison, Devir, 188 pp., cor, capa dura, 20€

4 de abril de 2026

Blacksad #4: O inferno, o silêncio

O universo sombrio e estilizado de Blacksad regressa com o lançamento em Portugal do seu quarto volume, O Inferno, o Silêncio, originalmente publicado em 2005 e agora integrado na cuidada edição da Ala dos Livros. Esta edição distingue-se não só pela qualidade gráfica e editorial — com destaque para a elegante lombada em tecido — como também pela valorização de uma obra que se tornou, ao longo de 25 anos, uma referência incontornável da banda desenhada contemporânea.

Criada pelo argumentista Juan Díaz Canales e pelo desenhador Juanjo Guarnido, a série Blacksad transporta os leitores para uma América dos anos 1950, recriada com uma estética noir profundamente influenciada pelo romance policial clássico e pela literatura americana da época. O protagonista, John Blacksad, é um detective privado com a forma de um gato antropomórfico, figura icónica de um universo povoado por animais humanizados que espelham as complexidades e contradições da sociedade humana.

Neste quarto volume, a história leva-nos até Nova Orleães, em plena efervescência do Carnaval. É neste cenário vibrante e caótico que Blacksad é contratado por Faust, um produtor de jazz gravemente doente, para investigar o desaparecimento de Sebastian, um talentoso pianista e peça-chave da sua editora. O caso, aparentemente simples, rapidamente se adensa, revelando uma teia de segredos, manipulação e decadência, onde o vício e a ambição se entrelaçam perigosamente. À medida que a investigação avança, Blacksad percebe que nem tudo lhe foi contado. Ainda assim, movido pelo seu código moral e pela busca da verdade, mergulha cada vez mais fundo num caso que se revela não apenas complexo, mas também profundamente perturbador. O resultado é uma das histórias mais intensas e emocionalmente carregadas da série.

Visualmente, O Inferno, o Silêncio confirma o talento excecional de Juanjo Guarnido. Os seus desenhos, ricos em detalhe e expressividade, são complementados por uma paleta de cores sofisticada que reforça a atmosfera densa e melancólica da narrativa. Cada vinheta é cuidadosamente construída, oferecendo uma experiência visual que se aproxima da pintura. Combinando argumento sólido, personagens memoráveis e uma execução artística de excelência, este volume reafirma o estatuto de Blacksad como uma obra-prima da banda desenhada. 

A edição portuguesa surge, assim, como uma oportunidade imperdível para novos leitores e um objecto de colecção para os admiradores da série.

Blacksad #4: O inferno, o silêncio, Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido, Ala dos Livros, 104 pp., cor, capa dura, 29,90€

3 de abril de 2026

CPBD celebra 50 anos com um ambicioso plano de actividades para 2026

O ano de 2026 será marcante para o Clube Português de Banda Desenhada, que assinala meio século de existência dedicada à promoção, estudo e divulgação da banda desenhada em Portugal. Para celebrar esta data histórica, o CPBD preparou um conjunto diversificado de iniciativas culturais e editoriais, cuja concretização contará com o apoio solicitado à Câmara Municipal da Amadora (CMA), no valor de 7.000 euros.

As comemorações do cinquentenário serão acompanhadas por uma forte identidade visual, com todos os materiais promocionais e publicações a integrarem o logótipo da CMA, em associação com uma imagem especialmente criada para a efeméride: “CPBD – 50 ANOS”.

Entre as actividades previstas, destaca-se a publicação de quatro boletins do CPBD ao longo do ano, incluindo uma edição comemorativa que fará uma retrospectiva dos boletins publicados ao longo das últimas cinco décadas, sublinhando o percurso e o contributo do Clube para a cultura da banda desenhada em Portugal.

No domínio editorial, é previsto o lançamento de um importante catálogo ilustrado das revistas portuguesas de banda desenhada, abrangendo publicações desde 1921 até ao 25 de Abril de 1974. Esta obra, com cerca de 170 páginas já em fase final de revisão, constitui um trabalho de grande relevância histórica e documental. 

Outro destaque será a publicação de um estudo monográfico dedicado à 1ª série da revista Camarada, aprofundando o conhecimento sobre uma das publicações mais emblemáticas da história da banda desenhada portuguesa.

O ponto alto das comemorações será a sessão solene do Cinquentenário do CPBD, a realizar na sede do Clube ou em instalações da Câmara Municipal da Amadora. Este evento incluirá a inauguração de uma exposição dedicada à colecção completa dos boletins do CPBD, acompanhada por uma sessão de entrevistas a personalidades convidadas, que partilharão memórias sobre o papel da banda desenhada na sua formação cultural durante a infância e juventude.

No campo das exposições, estão também previstas mostras dedicadas a dois importantes nomes da banda desenhada nacional: Vítor Péon e Luís Louro, contribuindo para valorizar o trabalho de autores que marcaram diferentes gerações de leitores.

Por fim, o CPBD aposta na modernização da sua presença digital com a criação de um novo site institucional. Este projecto será desenvolvido em colaboração com estudantes de um curso técnico superior profissional (CTeSP) em Marketing Digital, no âmbito de estágios curriculares promovidos pela CMA, garantindo assim uma abordagem contemporânea e sustentável à comunicação do Clube.

Com este conjunto abrangente de iniciativas, o CPBD pretende não apenas celebrar os seus 50 anos de história, mas também reforçar o seu papel como agente cultural ativo, promovendo a banda desenhada junto de novos públicos e preservando a memória do seu rico património.

2 de abril de 2026

Clássicos da literatura portuguesa em BD vão sair em inglês, espanhol e polaco

A editora Levoir vai levar além-fronteiras a colecção de adaptações em banda desenhada de clássicos da literatura portuguesa, com edições previstas em inglês, espanhol e polaco. O primeiro título a ser publicado nestes mercados é Mensagem, de Fernando Pessoa, cuja versão em BD chega esta semana às livrarias em inglês e espanhol, enquanto a edição polaca será lançada pela editora independente Timoff.

A adaptação de Mensagem, com argumento de Pedro Vieira de Moura e ilustração de Susa Monteiro, marcou em 2024 o arranque da coleção “Clássicos da Literatura Portuguesa em BD”, desenvolvida pela Levoir em parceria com a RTP. Desde então, a colecção já ultrapassou uma dezena de volumes publicados.

A expansão internacional não se fica por este título. Na Polónia, estão já confirmadas edições de A Dama Pé-de-Cabra, de Alexandre Herculano, e Maria Moisés, de Camilo Castelo Branco, com lançamento previsto para maio. Seguem-se, nos meses de Junho e Julho, adaptações de Os Lusíadas, de Luís de Camões, A Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente, e O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz.

Em Espanha, além de Mensagem, a Levoir prepara a publicação de vários títulos da colecção, incluindo Os Maias e O Crime do Padre Amaro, ambos de Eça de Queiroz, Livro do Desassossego, novamente de Fernando Pessoa, e Os Lusíadas.

Paralelamente, a editora continua a desenvolver novas adaptações para esta colecção. Entre os próximos projetos estão A Cidade e as Serras, de Eça de Queiroz, A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro, e Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, cujos detalhes de adaptação ainda não foram totalmente revelados.

Com esta aposta, a Levoir reforça a internacionalização da literatura portuguesa através da banda desenhada, tornando obras clássicas mais acessíveis a novos públicos e leitores em diferentes línguas.

1 de abril de 2026

Leituras de BD no mês de Março de 2026

 






Escolhidos 42 autores para receber bolsas de criação literária, BD e infantojuvenil

A atribuição das bolsas de criação literária de 2025 trouxe uma novidade relevante no panorama cultural português: a autonomização da Banda Desenhada (BD) enquanto área específica de apoio, com financiamento próprio e um conjunto dedicado de criadores selecionados.

Pela primeira vez, a BD deixou de estar incluída no programa geral de bolsas de criação literária, passando a integrar uma linha independente, ao lado da literatura infantil e juvenil. Esta mudança reflecte um reconhecimento crescente da BD enquanto forma artística autónoma, com linguagem, público e processos criativos próprios.

No total, foram atribuídas sete bolsas na área da banda desenhada, cada uma no valor de 15 mil euros, integradas num montante global de 270 mil euros que também contempla projetos infantojuvenis. Este apoio anual visa garantir condições para que os autores possam desenvolver os seus projetos com maior estabilidade e dedicação.

Entre os 114 projetos submetidos a concurso na área da BD, apenas sete foram selecionados, evidenciando a elevada competitividade do processo. Os bolseiros escolhidos são Marco Mendes, Ana Margarida Rocha da Silva Matos. Francisco Sousa Lobo, Júlia Barata, Alexandra Maria Lourenço Dias, Joana Morgado Simão e Carlos Baptista Moura Pinheiro.

A diversidade de percursos e estilos entre os selecionados sugere uma aposta em diferentes abordagens narrativas e visuais dentro da BD contemporânea portuguesa.

A criação desta linha específica de financiamento acompanha a evolução da banda desenhada em Portugal, que tem vindo a ganhar visibilidade tanto no mercado editorial como em circuitos internacionais. Autores portugueses têm marcado presença em festivais, exposições e publicações fora do país, consolidando uma cena criativa dinâmica.

Ao destacar a BD com um programa próprio, a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB) reconhece não só o crescimento do setor, mas também a necessidade de respostas mais ajustadas às suas especificidades, desde os tempos de produção até à experimentação gráfica.

O concurso contou com um total de 447 candidaturas nas duas áreas (BD e literatura infantojuvenil), sendo 114 na BD. A taxa de sucesso foi, portanto, bastante reduzida, o que reforça o carácter selectivo e meritocrático da atribuição das bolsas.

O júri responsável integrou o escritor e crítico de banda desenhada João Ramalho-Santos e a especialista em literatura infantil Dora Batalim SottoMayor, assegurando uma avaliação informada e especializada dos projetos apresentados.

Mais do que um apoio financeiro, estas bolsas representam um investimento estratégico no desenvolvimento da banda desenhada portuguesa. Ao permitir que autores se dediquem aos seus projectos durante um ano, contribuem para o surgimento de novas obras, a consolidação de carreiras e o enriquecimento do panorama cultural nacional.

Num contexto em que a BD continua a conquistar novos leitores e a explorar territórios híbridos entre literatura, artes visuais e narrativa gráfica, este tipo de incentivo público poderá revelar-se decisivo para o seu crescimento sustentado.

31 de março de 2026

Entradas na minha biblioteca de BD no mês de Março de 2026

 







Final Cut de Charles Burns

Publicado originalmente em 2014 pela Pantheon Books, Final Cut encerra a trilogia iniciada com X’ed Out (2010) e continuada em The Hive (2012). Trata-se de um dos trabalhos mais densos e formalmente sofisticados de Charles Burns, autor incontornável da banda desenhada contemporânea.

A narrativa acompanha Brian, jovem artista e aspirante a cineasta que, desde a infância, filma pequenas histórias de ficção científica no quintal de casa. Anos depois, decide realizar um verdadeiro filme de terror em 8 mm numa cabana isolada, com os amigos Jimmy, Tina e Laurie — esta última, musa involuntária e objecto de uma paixão não correspondida.

A homenagem declarada é ao clássico Invasion of the Body Snatchers, referência maior da ficção científica paranóica dos anos 50. Contudo, à medida que a rodagem avança, o leitor percebe que o verdadeiro palco da acção não é a floresta, mas a mente fragmentada de Brian.

Burns constrói um jogo subtil entre realidade, fantasia e memória. A idealização de Laurie transforma-se numa narrativa paralela onde Brian assume o papel de salvador, confundindo desejo com ficção. O autor explora a forma como o impulso criativo pode tornar-se fuga — ou até distorção — do real.

Graficamente, Final Cut mantém o traço rigoroso e contrastado que celebrizou o autor. O preto profundo e os enquadramentos meticulosamente compostos evocam tanto o cinema clássico como a estranheza do surrealismo. Há uma cadência quase hipnótica nas sequências mudas, onde o silêncio pesa tanto quanto o diálogo.

No panorama da banda desenhada contemporânea, Final Cut afirma-se como uma obra madura, inquietante e profundamente autoral. Charles Burns confirma aqui o seu estatuto de mestre da forma, capaz de transformar obsessões pessoais numa experiência estética de rara intensidade.

Base de dados

Final Cut, Charles Burns, ASA, 224 pp., cor, capa mole, 29,90€

30 de março de 2026

Carlota, Imperatriz – Uma narrativa intensa entre ambição, poder e desilusão

A obra Carlota, Imperatriz, de Fabien Nury e Matthieu Bonhomme, publicada em Portugal pela Ala dos Livros, apresenta-se como uma das mais marcantes novelas gráficas históricas dos últimos anos. Estruturada em dois volumes — cada um contendo dois tomos —, esta edição integral oferece ao leitor uma experiência completa e profundamente imersiva na vida de Charlotte da Bélgica, figura histórica tão fascinante quanto trágica.

Desde cedo, Charlotte foi moldada para a grandeza. Filha do rei Leopoldo I da Bélgica, o seu destino parecia inevitavelmente ligado a um casamento de prestígio. A união com o arquiduque Maximiliano da Áustria, irmão do imperador Francisco José, surge como a concretização desse desígnio. No entanto, aquilo que começou como um casamento promissor rapidamente se revela uma relação marcada por frustração, desencontro e ambições divergentes.

A narrativa ganha particular intensidade quando o casal aceita o trono do México, num contexto político extremamente instável e manipulado por interesses externos, nomeadamente pelo imperador francês Napoleão III. Ao chegarem a Veracruz, Charlotte e Maximiliano encontram um país profundamente fragilizado, longe da imagem idealizada que lhes fora apresentada. A resistência das elites locais, a instabilidade social e a fragilidade política do novo imperador criam um cenário de tensão permanente. É neste ambiente adverso que Charlotte emerge como uma figura central. Longe de ser apenas uma consorte passiva, a protagonista revela uma crescente determinação e complexidade psicológica. À medida que Maximiliano se mostra indeciso e incapaz de liderar, Charlotte assume um papel cada vez mais activo, tentando salvar um projecto imperial condenado desde o início. A sua trajectória transforma-se, assim, num percurso de afirmação pessoal, mas também de progressiva desilusão e colapso.

Do ponto de vista artístico, Matthieu Bonhomme apresenta um traço elegante e expressivo, capaz de transmitir tanto a grandiosidade dos cenários históricos como a intimidade emocional das personagens. Já o argumento de Fabien Nury destaca-se pela profundidade psicológica e pelo rigor histórico, equilibrando com mestria o drama pessoal e o contexto político. 

A obra, Carlota, Imperatriz foi amplamente elogiada pela crítica internacional, tendo recebido distinções importantes no circuito da banda desenhada europeia. Entre elas, destaca-se a sua nomeação e presença em selecções oficiais de festivais de prestígio, como o Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême, um dos mais relevantes a nível mundial. A obra foi também distinguida em prémios franceses de BD, reforçando o seu estatuto como uma referência contemporânea no género histórico.

Carlota, Imperatriz é muito mais do que uma simples recriação histórica. Trata-se de um retrato poderoso de uma mulher presa entre o dever e a ambição, num mundo dominado por jogos de poder implacáveis. Uma leitura envolvente, visualmente deslumbrante e emocionalmente intensa, que merece lugar de destaque em qualquer biblioteca dedicada à banda desenhada de qualidade.

Base de dados

Carlota, Imperatriz (Tomos 1 e 2), Matthieu Bonhomme e Fabien Nury, Ala dos Livros, 192 pp., cor, capa dura, 35€