9 de maio de 2026

Casemate n.º 201

A revista francesa especializada em banda desenhada Casemate regressa às bancas no mês de Maio de 2026 com a edição n.º 201, um número que assinala simbolicamente a entrada da publicação numa nova centena de edições e que reforça a sua identidade editorial: reportagens de bastidores, entrevistas a autores, pré-publicações exclusivas e um amplo panorama da atualidade franco-belga da nona arte.+

Depois de celebrar o marco dos 200 números, Casemate abre esta nova fase com um olhar retrospetivo sobre o seu percurso editorial. Nas páginas iniciais, a redacção levanta o véu sobre os bastidores dos últimos cem números da revista, revisitando momentos marcantes, encontros com autores e escolhas editoriais que ajudaram a consolidar a publicação como uma das referências da crítica e divulgação da banda desenhada em França. O dossiê funciona simultaneamente como memória institucional e reflexão sobre a evolução do mercado editorial francófono.

Entre os destaques centrais da edição encontra-se uma abordagem original ao universo de Montaigne,  onde a autora transforma a ansiedade numa viagem metafórica “em órbita”, não muito distante do imaginário espacial associado ao astronauta Thomas Pesquet. A peça mistura humor, introspecção e divulgação científica, num registo já característico da autora francesa.

A revista mantém igualmente a sua dimensão de observatório digital com L’Écho des Rézos, secção que compila os melhores momentos das redes sociais — de Facebook a X, passando por Bluesky e Instagram — acompanhando as tendências, polémicas e curiosidades do universo da banda desenhada online.

A actualidade editorial ganha espaço no tradicional Journorama, uma revista de imprensa dedicada ao noticiário da BD, antes de Casemate mergulhar numa série de pré-publicações exclusivas de álbuns a chegar ao mercado. Entre elas destaca-se Pourpre-Sang, onde o autor Chérel conduz os leitores numa narrativa de caça ao crânio, acompanhada por três páginas de prancha inéditas. Logo depois, Rubio e Jandro propõem uma pergunta tão histórica quanto aventureira: como escapar de Colditz?, numa antecipação enriquecida por quatro páginas do álbum.

Nas páginas 40 a 48, Alice dans les étoiles apresenta os piratas de Les Chants du Cygne Noir, misturando imaginação, ficção e exotismo espacial em mais uma pré-publicação ilustrada. Já entre as páginas 50 e 59, o Oeste americano regressa ao centro das atenções com um confronto entre apaches e comanches sob o olhar do desenhador Christian Rossi.

Um dos momentos mais aguardados pelos leitores é a selecção editorial de 24 álbuns de BD a descobrir em Maio, funcionando como guia de leitura para o mês. A secção é complementada pelo habitual agenda cultural, reunindo cerca de 230 lançamentos editoriais, bem como festivais e exposições dedicadas à banda desenhada.

Na reta final do número, Casemate volta a apostar nas pré-publicações de obras de forte identidade visual e narrativa. Zabus e Bodart oferecem uma história calorosa protagonizada por uma feiticeira, enquanto Dumontheuil apresenta um vampiro improvavelmente banhado pelo sol da Borgonha. A memória histórica também marca presença em Les Vents ovales, onde o espírito de Maio de 68 atravessa o meio rural francês pelas mãos de Horne, Tripp e Mermilliod.

Casemate #201, mai 2026, 100 pp., cor, 9,80'€

Mattéo – 2.ª Época (1917–1918): a Revolução e o destino individual no centro da História

Mattéo – 2.ª Época (1917–1918)  dá continuidade ao percurso de Mattéo, protagonista cuja trajectória pessoal se entrelaça com alguns dos mais marcantes acontecimentos históricos da primeira metade do século XX, nomeadamente a Primeira Guerra Mundial, a Revolução Russa, a Guerra Civil Espanhola e os conflitos ideológicos que moldaram a Europa contemporânea.

A narrativa situa-se entre 1917 e 1918, num período decisivo marcado pela intensificação da Revolução Russa. Após abandonar clandestinamente Espanha, onde se encontrava refugiado, Mattéo regressa temporariamente a Collioure para visitar a mãe no aniversário da morte do pai. Durante esta passagem reencontra Juliette, figura importante do seu passado afectivo, que tenta persuadi-lo a permanecer consigo. Contudo, após uma derradeira noite passada juntos, Mattéo parte para Petrogrado acompanhado de Gervasio, antigo amigo do pai, numa missão ligada aos meios anarquistas espanhóis.

Uma vez chegados à Rússia, ambos são confrontados com o ambiente instável e fervilhante da revolução em curso. No centro de um cenário simultaneamente caótico e entusiástico, Mattéo e Gervasio conhecem Dimitri, um anarquista libertário, e Léa, militante bolchevique convicta. Estas personagens introduzem novas tensões ideológicas à narrativa, reflectindo os debates políticos e sociais que atravessavam a Europa do início do século XX.

A obra distingue-se pela articulação entre ficção e contexto histórico. Sem assumir uma perspectiva estritamente documental, a narrativa procura enquadrar o percurso individual do protagonista nos grandes movimentos políticos do período, explorando o impacto dos acontecimentos históricos sobre as escolhas pessoais, as relações afectivas e os conflitos de consciência. A presença de diferentes correntes políticas — do anarquismo ao bolchevismo — contribui para uma representação plural das transformações revolucionárias da época.

Com este volume, a Ala dos Livros conclui a publicação integral de Mattéo, composta por seis volumes, repondo volumes de outras editoras há muito esgotados. 

Mattéo – 2.ª Época (1917–1918), Jean-Paul Gibrat, Ala dos Livros, 80 pp., cor, capa dura, 26,50€

8 de maio de 2026

Steven Spielberg

O livro de Amazing Ameziane sobre Steven Spielberg combina elementos biográficos com narrativa gráfica para apresentar o percurso de um dos realizadores mais conhecidos do cinema contemporâneo. A obra acompanha diferentes etapas da vida de Spielberg, desde a infância até à consolidação da sua carreira em Hollywood.

O autor retrata o interesse precoce de Spielberg pelo cinema, mostrando as primeiras experiências com câmaras e filmes amadores realizados durante a juventude. O livro aborda também as dificuldades encontradas no início da carreira e o processo de afirmação na indústria cinematográfica.

Ao longo da narrativa são referidos vários filmes marcantes da filmografia de Spielberg, enquadrados no contexto cultural e cinematográfico da época em que foram produzidos. A linguagem visual da banda desenhada permite representar episódios importantes da carreira do realizador e recriar ambientes associados às suas produções mais conhecidas.

A obra destaca igualmente a influência de Spielberg no cinema moderno, tanto ao nível técnico como narrativo, apresentando o impacto das suas realizações junto do público e da indústria cinematográfica.

Steven Spielberg, Amazing Améziane, ASA, 200 pp., cor, capa mole, 29,90€

7 de maio de 2026

Rare Flavours: Uma viagem sobrenatural pelos sentidos

Depois do aclamado As Muitas Mortes de Laila Starr, a dupla criativa Ram V e Filipe Andrade regressa com Rare Flavours, uma obra que desafia géneros e expectativas, cruzando gastronomia, espiritualidade e o lado mais obscuro da existência.

No centro da narrativa encontramos Rubin, uma figura enigmática — um rakshasa com ambições muito pouco demoníacas à primeira vista: tornar-se uma espécie de Anthony Bourdain do sobrenatural. Para isso, recruta Mo, um cineasta em declínio, para o acompanhar numa jornada pela rica e diversa cozinha indiana. O objectivo? Captar não apenas os sabores, mas as histórias, as pessoas e a alma por trás de cada prato.

Mas, como seria de esperar, nada é assim tão simples. À medida que a viagem avança, Mo começa a perceber que Rubin esconde uma natureza muito mais sombria — e que os humanos podem ter um papel nesta história muito mais perturbador do que imaginava.

Rare Flavours é muito mais do que uma narrativa sobre comida. É uma reflexão sobre identidade, desejo, mortalidade e o significado de viver plenamente. Através de uma combinação magistral de texto e ilustração, a obra convida-nos a abrandar, a saborear — não só a comida, mas também os momentos que compõem a nossa existência.

Com uma estética visual envolvente e uma narrativa que oscila entre o poético e o inquietante, esta banda desenhada destaca-se como uma das propostas mais originais dos últimos anos, tendo sido reconhecida com nomeações para várias categorias dos prestigiados Prémios Eisner.

Uma leitura obrigatória para quem procura histórias que alimentam tanto o pensamento quanto a imaginação.

Rare Flavours - Uma Viagem aos Sabores de Rubin Baksh, Ram V e Filipe Andrade, Kingpin Books, 160 pp., cor, capa dura, 29,95€

Hugo Pratt - A mão de Deus

A Mão de Deus é uma obra singular no universo editorial ligado a Hugo Pratt, afastando-se da narrativa clássica de banda desenhada para se afirmar como um objecto mais híbrido: entre biografia, memória e livro ilustrado.

Nesta obra, o leitor é convidado a mergulhar no pensamento e percurso de Hugo Pratt, figura maior da BD europeia e criador do icónico Corto Maltese. Mais do que uma cronologia detalhada, o livro constrói-se como um conjunto de reflexões, episódios e memórias que ajudam a compreender o homem por detrás da obra.

Pratt surge aqui como um viajante incansável — não apenas geográfico, mas também cultural e imaginário. As suas experiências em África, na América do Sul e na Europa ecoam nas histórias que criou, sempre marcadas por um sentido de aventura, liberdade e ambiguidade moral.

Um dos aspetos mais marcantes de A Mão de Deus é a forma como combina texto e imagem. As ilustrações são do próprio Hugo Pratt, mas não organizadas como uma narrativa sequencial típica da banda desenhada. Em vez disso, funcionam como extensões visuais do pensamento do autor — fragmentos de um imaginário que ajudou a redefinir o género.

O traço de Pratt, aparentemente simples mas profundamente expressivo, reforça o caráter evocativo do livro. Cada imagem parece conter uma história em potência, um momento suspenso entre realidade e ficção.

Embora esteja intimamente ligada ao percurso de um dos maiores nomes da banda desenhada, A Mão de Deus não deve ser lida como uma BD convencional. É antes uma obra contemplativa, que convida à leitura pausada e à descoberta de camadas mais subtis da personalidade e visão artística de Hugo Pratt.

Para leitores habituados às aventuras de Corto Maltese, este livro oferece uma perspectiva diferente: mais introspectiva, mais próxima do autor do que das suas personagens. Para novos leitores, pode ser uma porta de entrada curiosa para um universo criativo onde a fronteira entre vida e ficção é constantemente desafiada.

No fundo, A Mão de Deus funciona como uma chave — discreta mas reveladora — para compreender melhor não só a obra de Hugo Pratt, mas também o espírito inquieto e livre que a tornou possível.

Hugo Pratt - A mão de Deus, Ángel de la Calle, Arte de Autor, 160 pp., p&b, capa dura, 19,90€

6 de maio de 2026

O cheiro dele depois da chuva

A emocionante obra de Cédric Sapin-Defour, originalmente publicada com o título Son odeur après la pluie, ganha agora uma nova vida em banda desenhada pelas mãos de José-Luis Munuera. Esta adaptação, lançada em BD em 2025, reafirma a força intemporal de uma narrativa que conquistou leitores pela sua sensibilidade e verdade emocional.

No centro da história está a relação entre Cédric e o seu cão Ubac, um imponente Cão de Montanha de Berna que, mais do que um companheiro, se torna presença estruturante na vida do autor. Ao longo de treze anos, acompanhamos uma convivência feita de cumplicidade, pequenos rituais e momentos de intensidade silenciosa — até que a inevitabilidade da morte redefine tudo. Mais do que uma simples história sobre um homem e o seu animal, trata-se de uma reflexão profunda sobre o amor incondicional e sobre a forma como os vínculos verdadeiros perduram para lá da ausência.

A adaptação em BD respeita o tom contemplativo da obra original, traduzindo em imagens a delicadeza das emoções evocadas por Sapin-Defour. O traço de Munuera, simultaneamente expressivo e subtil, consegue captar tanto a beleza dos cenários naturais como a intimidade dos gestos quotidianos, criando uma leitura envolvente e sensorial — quase como um eco visual da memória, esse “aroma” que permanece.

Quanto a José-Luis Munuera, trata-se de um autor espanhol nascido em 1972, reconhecido internacionalmente pelo seu trabalho na banda desenhada franco-belga. Começou a sua carreira nos anos 1990 e destacou-se ao assumir, durante algum tempo, a série Spirou et Fantasio, uma das mais icónicas do género. Ao longo dos anos, desenvolveu um estilo muito próprio, combinando dinamismo narrativo com uma grande sensibilidade emocional, algo que se revela particularmente adequado nesta adaptação.

Esta edição, integrada na linha da Arte de Autor, é uma verdadeira ode à vida e à memória. Um livro que convida à pausa e à contemplação — e que certamente tocará todos aqueles que já experimentaram a profundidade de um laço que não precisa de palavras para existir.

O cheiro dele depois da chuva, José-Luis Munuera, Arte de Autor, 136 pp., capa dura, cor, 27€