quarta-feira, 20 de maio de 2026
terça-feira, 19 de maio de 2026
Vizinhos
Um homem faz do barulho de uma obra um campo de batalha onde o incómodo é outro. Um ex-presidiário regressa à vida em que toda a gente sabe que matou a mulher – e tenta descobrir se ainda é possível voltar a ser quem foi.
Duas velhas que já foram amigas vivem separadas por um andar, por muitos anos de silêncio e por vidas tão diferentes. Num condomínio, entre os assuntos mesquinhos do dia-a-dia, nasce um problema que é um bode expiatório.
Entre humor negro, ironia e humanidade, observam-se os laços e a necessidade de os atar, enquanto se mostra que a proximidade cria os problemas que a distância sabe manter ao longe.
Vizinhos, Nuno Saraiva e Ana Bárbara Pedrosa, ASA, cor, capa dura, 17,90€
Oshi no Ko #7
A adaptação da obra fictícia Tokyo Blade ganha finalmente vida em palco, servindo de catalisador para tensões antigas e novas ambições. Ao mesmo tempo, a história acompanha Aqua Hoshino numa fase decisiva do seu percurso como actor, onde o talento não é suficiente sem a coragem de enfrentar traumas profundamente enraizados. A sua jornada neste volume explora precisamente esse limite entre a interpretação e a realidade emocional, levantando a questão de até que ponto é possível transformar dor pessoal em arte genuína.
A série Oshi no Ko foi publicada pela primeira vez em Abril de 2020 na revista Weekly Young Jump, da editora Shueisha, e rapidamente se destacou pela forma como expõe os bastidores da indústria do entretenimento japonês com uma abordagem dramática e psicológica única. O volume 7, lançado originalmente no Japão em Julho de 2023, marca um ponto de viragem importante na narrativa, consolidando o arco teatral como um dos mais intensos da obra até ao momento e elevando ainda mais o conflito entre personagens que vivem para actuar, mas também para sobreviver aos seus próprios fantasmas.
Oshi no Ko #7, Aka Akasaka e Mengo Yokoyari, ASA, 194 pp., p&b, capa mole, 9,99€
Um quadrado de céu
O título remete para uma imagem poderosa: o “quadrado de céu” visível a partir das celas — uma pequena porção de liberdade observada por quem estava privado dela. A obra procura reconstruir não apenas os episódios de repressão, mas também o quotidiano do encarceramento: o isolamento, o medo, os interrogatórios, a solidariedade entre presos e as estratégias de resistência psicológica perante a violência do regime.
Mais do que um simples livro sobre o passado, Um Quadrado de Céu funciona como reflexão sobre a fragilidade da democracia e da liberdade. Ao revisitar a prisão política de Caxias — um dos símbolos da repressão do Estado Novo e da actuação da PIDE — os autores convidam o leitor a pensar na facilidade com que direitos fundamentais podem ser postos em causa, sobretudo quando a memória colectiva começa a esbater-se.
Visualmente, o trabalho de Joana Afonso tende a privilegiar uma narrativa emocional e intimista, onde os espaços fechados, os silêncios e as expressões das personagens têm um peso tão importante quanto os diálogos. Em vez de dramatização excessiva, há uma tentativa de proximidade com a experiência humana dos testemunhos, o que reforça o impacto do livro.
Pelo tema e pela abordagem, é uma obra que pode interessar não apenas a leitores de BD, mas também a quem acompanha história contemporânea portuguesa, memória do antifascismo ou literatura testemunhal. Sobretudo numa altura em que as discussões sobre liberdade, censura e revisionismo histórico voltam a ganhar espaço, Um Quadrado de Céu parece querer lembrar algo essencial: a democracia não é garantida — é construída e defendida continuamente.
sábado, 16 de maio de 2026
My Hero Academia #30 - Dança Dabi
No centro deste volume está o confronto tão aguardado entre Izuku Midoriya e Tomura Shigaraki. A luta finalmente ganha forma directa, com Shigaraki a revelar a sua intenção mais crítica: roubar o One For All. Este momento não é apenas um embate de força, mas um choque de ideologias, onde o futuro dos heróis parece pender para um fio extremamente frágil. Midoriya, por sua vez, é obrigado a ultrapassar limites físicos e mentais enquanto tenta proteger o legado que carrega.
Enquanto este confronto se desenrola, o campo de batalha expande-se para múltiplas frentes, mostrando que esta guerra não se limita a dois protagonistas. Outros heróis e vilões entram em colisão directa, reforçando a sensação de caos absoluto que domina o cenário.
Um dos confrontos mais emocionalmente carregados é o de Ochaco Uraraka contra Himiko Toga. Diferente de outras batalhas, este duelo não é guiado apenas pela violência. Toga, movida por uma obsessão emocional complexa, não procura simplesmente lutar — ela deseja uma conversa franca, uma tentativa distorcida de ligação humana. Este contraste entre afecto e conflito torna o encontro especialmente significativo dentro da narrativa.
No entanto, o ponto de maior impacto do volume chega com a entrada de Dabi em cena. A sua chegada à cidade é acompanhada por uma revelação chocante, que redefine percepções, expõe segredos profundamente enterrados e intensifica ainda mais o colapso moral do mundo dos heróis. Este momento funciona como um divisor de águas, ampliando o peso dramático da guerra em curso.
O volume 30 de My Hero Academia consolida assim a obra num estágio de conflito total, onde não existem zonas neutras. Cada personagem é empurrado para decisões extremas, e cada batalha deixa marcas irreversíveis. Horikoshi constrói aqui um ponto de viragem onde ação e drama emocional se fundem, preparando o terreno para as consequências finais desta longa guerra entre luz e escuridão.
My Hero Academia #30 - Dança Dabi, Kohei Horikoshi, Devir, 200 pp., p&b, capa mole, 9,99€
sexta-feira, 15 de maio de 2026
Kagurabachi #2
Neste volume, a introdução de Sojo não serve apenas como entrada de um novo antagonista, mas como um espelho distorcido dos ideais ligados às espadas enfeitiçadas. Durante o confronto, Sojo revela uma admiração profunda por Kunishige, o lendário criador dessas lâminas e pai de Chihiro. No entanto, essa admiração não se traduz em reverência moral: pelo contrário, ele interpreta o legado de Kunishige de forma radicalmente oposta, defendendo a convicção de que essas espadas nasceram para ceifar vidas.
Essa divergência de interpretação torna-se o núcleo temático do volume. De um lado, Chihiro carrega o peso emocional e ético da herança do pai; do outro, Sojo encarna uma leitura distorcida e brutal do mesmo legado. Ambos reconhecem a grandeza de Kunishige, mas seguem caminhos incompatíveis, quase como reflexos quebrados de uma mesma origem.
É também neste volume que se intensifica a transformação interna de Chihiro. Diante da crueldade de Sojo e da sua visão fria sobre a vida e a morte, o protagonista começa a forjar o seu próprio instinto assassino — não como simples reacção, mas como uma evolução inevitável imposta pelo mundo violento em que foi lançado. A narrativa sugere que essa mudança não é apenas física ou estratégica, mas profundamente psicológica.
A estreia de Sojo, portanto, não funciona apenas como apresentação de um antagonista poderoso, mas como catalisador narrativo. Ele força Chihiro a confrontar o verdadeiro peso das espadas enfeitiçadas e o legado do seu pai, abrindo espaço para um conflito que é tanto ideológico quanto sangrento.
No conjunto, o segundo volume consolida Kagurabachi como uma obra que equilibra acção intensa com um debate moral sobre violência, herança e propósito — estabelecendo desde cedo que cada lâmina tem não apenas um poder, mas uma filosofia por trás.
Kagurabachi #2, Takeru Hokazono, Devir, 208 pp., p&b, capa mole, 9,99€




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