26 de fevereiro de 2026

L' Histoire du Journal Bravo!

A obra L’histoire du journal Bravo! constitui um estudo histórico detalhado dedicado à revista Bravo!, uma das publicações juvenis mais relevantes da Bélgica francófona no século XX. Jean Fontaine e Frans Lambeau reconstroem, com rigor documental, o percurso editorial da revista desde a sua fundação, em 1936, até ao seu declínio e desaparecimento, contextualizando-a no panorama cultural e político europeu.

O livro combina investigação histórica, análise editorial e documentação iconográfica abundante (capas, pranchas, anúncios e fotografias), permitindo compreender não apenas a evolução gráfica da revista, mas também as transformações sociais e ideológicas que marcaram o período, nomeadamente o impacto da Segunda Guerra Mundial na imprensa juvenil.

Os autores exploram:

A fundação do Journal Bravo! na Bélgica;

A influência dos modelos norte-americanos e franceses na banda desenhada publicada;

A publicação de séries marcantes, incluindo aventuras que introduziram personagens que se tornariam clássicas na BD europeia;

As adaptações editoriais durante a ocupação alemã;

A concorrência com outras revistas juvenis belgas, como Le Journal de Spirou.

O Journal Bravo! ocupa um lugar central na consolidação da cultura juvenil francófona por várias razões:

1. Consolidação da banda desenhada como literatura juvenil

A revista contribuiu para legitimar a banda desenhada como forma narrativa dirigida ao público jovem, ajudando a estruturar um mercado editorial específico para essa faixa etária.

2. Difusão internacional de personagens

Publicou versões francófonas de personagens que viriam a marcar a cultura popular europeia, ampliando o acesso dos jovens leitores belgas e franceses a universos narrativos internacionais.

3. Formação de leitores

Tal como outras grandes revistas juvenis do período, o Bravo! desempenhou um papel pedagógico indireto: fomentou hábitos de leitura regular, criou expectativas narrativas seriadas e contribuiu para a formação de uma identidade cultural juvenil.

4. Papel histórico durante a guerra

Durante a Segunda Guerra Mundial, a revista adaptou-se às restrições políticas e materiais, tornando-se também um reflexo das tensões ideológicas da época. O estudo de Fontaine e Lambeau evidencia como a imprensa juvenil não era neutra, mas integrada no contexto sociopolítico.

5. Influência na tradição belga da “bande dessinée”

A Bélgica tornar-se-ia um dos centros mundiais da banda desenhada francófona. O Bravo! participou ativamente na consolidação dessa tradição, que mais tarde seria internacionalmente reconhecida.

L’histoire du journal Bravo! é mais do que a história de uma revista: é um contributo essencial para compreender a evolução da imprensa juvenil e da banda desenhada francófona no século XX. 

L’histoire du journal Bravo!, Jean Fontaine e Frans Lambeau, Éditions de L'Élan, 464 pp., cor, capa dura, 95€ 

Sangoma – Os Condenados da Cidade do Cabo: crime, memória e feridas abertas na África do Sul

Vinte anos após o fim do Apartheid, a África do Sul continua a viver com as suas cicatrizes expostas. O regime caiu oficialmente em 1994, com a eleição de Nelson Mandela, mas as desigualdades estruturais permanecem profundas. A propriedade da terra — concentrada historicamente nas mãos da minoria branca — continua a ser um dos temas mais fracturantes da sociedade sul-africana.

É neste cenário politicamente inflamável que surge Sangoma – Os Condenados da Cidade do Cabo, a nova obra publicada em Portugal pela Arte de Autor, com argumento de Caryl Férey e desenho de Corentin Rouge.

Sam, trabalhador negro, é encontrado morto nas terras da quinta Pienaar, propriedade dos seus patrões brancos. O caso é atribuído ao tenente Shane Shepperd, que rapidamente se confronta com um labirinto de silêncios, mentiras e tensões raciais latentes.

O que começa como uma investigação criminal transforma-se numa radiografia social. À medida que Shepperd interroga proprietários e trabalhadores, percebe que o homicídio não pode ser desligado do contexto mais vasto: o debate nacional sobre a reforma agrária.

No parlamento sul-africano, a redistribuição de terras — prometida como forma de corrigir as injustiças históricas do apartheid — reacende divisões profundas. Partidos radicais pressionam por expropriações sem indemnização, enquanto sectores conservadores temem o colapso económico. Este pano de fundo político não é decorativo: é o motor invisível que alimenta o conflito.

Sangoma não surge no vazio. A questão da terra na África do Sul é um tema real e altamente sensível. Após 1994, o governo implementou programas de restituição e redistribuição fundiária, mas o processo revelou-se lento e controverso. Dados oficiais mostram que, décadas depois do fim do regime segregacionista, uma parte significativa das terras agrícolas continua concentrada na minoria branca.

Caryl Férey é conhecido por trabalhar os seus thrillers a partir de contextos políticos reais — já o fizera na África do Sul com o romance Zulu. Aqui, volta a mergulhar nas contradições do país, explorando não apenas o legado do apartheid, mas também as frustrações do presente: corrupção, desigualdade económica e desconfiança institucional.

O título Sangoma remete para os curandeiros tradicionais sul-africanos, figuras espirituais que simbolizam ligação à terra e à memória ancestral — uma metáfora poderosa numa narrativa onde passado e presente se entrelaçam.

O traço de Corentin Rouge acrescenta densidade atmosférica à história. As paisagens sul-africanas — da Cidade do Cabo às zonas rurais — surgem simultaneamente belas e inquietantes. O contraste entre espaços abertos e interiores claustrofóbicos reforça a sensação de tensão constante. A arte serve o argumento com sobriedade e impacto, evitando caricaturas e optando por uma abordagem realista que amplifica o peso social da narrativa.

No lançamento original em França, a obra foi destacada pela crítica especializada pela sua abordagem política madura e pela forma como alia thriller policial a comentário social. A imprensa sublinhou a capacidade de Férey em transformar conflitos geopolíticos complexos em narrativas humanas intensas. A colaboração entre Férey e Rouge foi particularmente elogiada pela coerência entre texto e imagem, consolidando o álbum como uma das adaptações mais ambiciosas do universo literário do autor para a banda desenhada.

A edição da Arte de Autor reforça a aposta da editora em banda desenhada de forte dimensão literária e política, trazendo aos leitores portugueses uma obra que dialoga diretamente com a atualidade internacional. Mais do que um thriller, Sangoma é um espelho de um país onde a História não passou — apenas mudou de forma.

Sangoma – Os Condenados da Cidade do Cabo, Caryl Férey e Corentin Rouge, Arte de Autor, 152 pp., cor, capa dura, 33€ 

25 de fevereiro de 2026

O Verão em Que Hikaru Morreu #4

Um mistério inexplicável, uma amizade inesperada. O quarto volume de O Verão em Que Hikaru Morreu aprofunda a tensão psicológica e o terror subtil que tornaram esta série numa das mais inquietantes da actualidade.

Publicado pela primeira vez no Japão em 2023 pela editora Kadokawa Corporation, sob o título original Hikaru ga Shinda Natsu, este volume dá continuidade à perturbadora jornada de Yoshiki — agora cada vez mais consciente de que o “Hikaru” que regressou da montanha não é o amigo que outrora conheceu. Confrontado com essa realidade dolorosa, Yoshiki toma uma decisão inesperada: permanecer ao lado dele. Apesar do medo e da dúvida, entre os dois nasce uma ligação estranha e ambígua, quase como se a amizade tivesse renascido sob uma nova e inquietante forma. No entanto, a verdadeira identidade desta entidade que assumiu o lugar de Hikaru continua envolta em mistério — um enigma que nem o próprio “Hikaru” parece compreender totalmente.

A investigação conduz os rapazes até à biblioteca local, onde, entre arquivos antigos e lendas esquecidas, descobrem referências perturbadoras sobre acontecimentos misteriosos na região. Um nome surge das sombras do passado — o de uma entidade tão enigmática quanto ameaçadora. Cada pista aproxima-os da verdade, mas também intensifica a sensação de que forças incompreensíveis estão em movimento.

Neste volume, o terror não se impõe apenas através do sobrenatural, mas sobretudo pela atmosfera sufocante e pela fragilidade das relações humanas. À medida que Yoshiki explora o passado, percebe que tudo à sua volta pode mudar de forma imprevisível — e que aquele verão, marcado pela perda e pelo desconhecido, jamais se repetirá. Com uma narrativa delicada e ao mesmo tempo perturbadora, o quarto volume confirma O Verão em Que Hikaru Morreu como uma obra que transcende o horror convencional, explorando a amizade, a identidade e o medo do que nos é familiar… mas já não é humano.

O Verão em Que Hikaru Morreu, Mokumokuren, Editorial Presença, 200 pp., p&b, capa mole, 11,90€

O meu casamento feliz #5

Misturando cenários deslumbrantes com uma história profundamente emocional, o quinto volume de O Meu Casamento Feliz confirma por que razão esta série continua a conquistar leitores em todo o mundo. Entre tradição, poderes sobrenaturais e um romance delicado, a narrativa atinge aqui um dos seus momentos mais intensos.

Tudo o que Miyo queria era um pouco de felicidade… mas o destino reserva-lhe muito mais.

Neste volume, Miyo descobre finalmente que herdou o raro dom do enigmático clã Usuba — um segredo cuidadosamente protegido e praticamente desconhecido fora da família. Confrontada com a verdade sobre as suas origens, é levada para junto dos Usuba, que insistem que permaneça com eles para aprender a controlar o poder extraordinário que carrega dentro de si. Enquanto pesadelos perturbadores e uma crescente debilidade a assolam, Miyo enfrenta um dilema crucial: aceitar o seu dom e o peso que ele implica — ou arriscar-se a ser consumida por ele. Ao mesmo tempo, Kiyoka vê-se sob pressão crescente, determinado a protegê-la e a lutar pelo futuro que ambos desejam construir.

Este é um volume carregado de revelações, conflitos internos e crescimento emocional. A relação entre Miyo e Kiyoka é posta à prova num cenário onde segredos familiares e responsabilidades sobrenaturais ameaçam separá-los. Será o amor suficiente para ultrapassar as sombras do passado?

Adaptado do romance original e já com anime disponível na Netflix, O Meu Casamento Feliz continua a afirmar-se como uma das histórias românticas mais envolventes da atualidade no universo manga.

O meu casamento feliz #5, Akumi Agitogi Tsukiho Tsukioka e Rito Kohsaka, Editorial Presença, 240 pp., p&b, capa mole, 10,90€

Jujutsu Kaisen #18 – Febre

O 18º volume da série de Gege Akutami marca mais um passo intenso rumo ao caos total provocado pelo Jogo da Extinção, um dos arcos mais ambiciosos e cruéis da série.

Durante a sua suspensão da Escola Técnica de Jujutsu, o imprevisível Hakari Kinji, aluno do terceiro ano, dedica-se a organizar lutas clandestinas, movidas por apostas e regras próprias. É neste submundo que Yuji Itadori decide entrar, disposto a arriscar tudo para conquistar a ajuda de Hakari na tentativa de pacificar o jogo mortal que ameaça mergulhar o Japão num banho de sangue.

Enquanto Itadori negoceia diretamente com Hakari, Megumi Fushiguro infiltra-se no local para apoiar a missão — apenas para ser travado pela técnica amaldiçoada de outro aluno do terceiro ano, aliado de Hakari, revelando que os perigos vão muito além do esperado. As alianças são frágeis, as regras mudam a cada momento e a violência atinge novos patamares.

Este volume aprofunda não só a brutalidade do Jogo da Extinção, como também o carisma e a complexidade de Hakari, uma das personagens mais aguardadas pelos leitores, trazendo combates estratégicos, tensão constante e reviravoltas típicas do melhor Jujutsu Kaisen.

Os capítulos reunidos neste volume foram originalmente publicados no Japão na revista Weekly Shōnen Jump, da Shueisha, ao longo de 2021, tendo sido compilados em volume encadernado (tankōbon) no final desse mesmo ano. 

Um volume essencial para quem acompanha a série e um ponto de viragem que eleva ainda mais a aposta narrativa e emocional criada por Gege Akutami.

Jujutsu Kaisen #18 – Febre, Gege Akutami, Devir, 192 pp., p&b, capa mole, 9,99€

Oshi No Ko – Volume 6

O sexto volume de Oshi No Ko, com argumento de Aka Akasaka e ilustração de Mengo Yokoyari, marca um novo ponto de viragem na série ao aprofundar os bastidores do mundo do entretenimento japonês — desta vez, através do teatro 2,5D.

Publicado originalmente no Japão a 19 de Abril de 2022, pela Shueisha, este volume dá continuidade ao arco da peça teatral 2,5D, que se aproxima rapidamente da sua estreia. No chamado “quinto acto”, a tensão criativa atinge o auge quando a autora do mangá original dentro da narrativa, Abiko Samejima, rejeita a primeira versão do texto teatral. O impasse é ultrapassado apenas após um intenso processo de negociação com o dramaturgo GOA, culminando numa nova versão do guião que finalmente obtém a sua aprovação.

A obra reflecte, com o realismo já característico da série, os conflitos entre criadores, adaptações artísticas e expectativas do público. A célebre citação presente no volume — “Um ator por quem ninguém dava nada, quando de repente começa a fazer coisas incríveis, conquista toda a gente, não é?” — resume bem um dos temas centrais do livro: o reconhecimento conquistado através do talento e da persistência.

Desde a sua publicação inicial, Oshi No Ko consolidou-se como uma das séries mais relevantes do mangá contemporâneo, combinando drama, crítica social e uma visão crua da indústria do entretenimento. O volume 6 reforça essa posição, preparando o terreno para desenvolvimentos decisivos tanto para a peça 2,5D quanto para as personagens envolvidas.

Oshi No Ko #6, Aka Akasaka e Mengo Yokoyari, Devir, 192 pp., p&b, capa mole, 9,99

24 de fevereiro de 2026

O Deus Selvagem — A fúria, a poesia e o instinto numa obra maior da BD francófona

A Ala dos Livros lança a edição especial de O Deus Selvagem, uma das suas mais recentes apostas na banda desenhada. A obra é da autoria de Fabien Vehlmann (argumento) e Roger (desenho) e será publicada numa edição a preto e branco, que inclui um dossiê de extras a cores, com esboços e conteúdos adicionais.

O livro chega às livrarias a 24 de Fevereiro. A edição foi recentemente apresentada num evento “BD à Lupa”, na FNAC de Alfragide, onde foi elogiada pela qualidade gráfica, característica das publicações da Ala dos Livros.

Quando Fabien Vehlmann se junta ao talento gráfico arrebatador de Roger, o resultado só poderia ser uma obra intensa, física e emocionalmente avassaladora. Le Dieu-Fauve é um desses livros raros que conciliam espectáculo visual, densidade temática e ambição literária — um verdadeiro marco da banda desenhada francófona contemporânea.

Situada numa era longínqua, evocando o tempo mítico do Dilúvio, a narrativa acompanha um jovem macaco órfão que procura afirmar-se no seio do seu clã adotivo. O destino, porém, arrasta-o para a barbárie humana: após o massacre do seu povo, é capturado e transformado num “Deus-Fera”, um guerreiro sagrado moldado para combater nas arenas do Império.

Mas esta não é apenas uma história de sobrevivência. É um romance gráfico sobre identidade, violência, dominação e vingança, onde se esbatem as fronteiras entre homem e animal. Vehlmann constrói uma parábola poderosa sobre civilização e brutalidade, enquanto Roger dá corpo a esse universo com pranchas vibrantes, de um dinamismo quase sensorial.

O leitor sente o calor sufocante, o pó, o sangue e o silêncio tenso antes do combate. Cada página pulsa com energia.

Le Dieu-Fauve foi amplamente saudado pela crítica e integrou seleções oficiais de prestigiados festivais francófonos, destacando-se a Selecção Oficial do Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême.

A obra consolidou-se como uma das mais marcantes do seu ano editorial, reforçando a reputação dos seus autores.

Fabien Vehlmann é um dos nomes mais respeitados da escrita em banda desenhada contemporânea. Ao longo da sua carreira, foi distinguido com vários prémios importantes, entre os quais o Prémio René Goscinny (atribuído a argumentistas de excelência). A sua escrita combina profundidade psicológica, ritmo narrativo e uma capacidade rara de alternar entre o intimista e o épico.

Roger impõe-se em Le Dieu-Fauve com um trabalho gráfico arrebatador. O seu traço detalhado e orgânico capta tanto a violência crua como momentos de silêncio contemplativo. A construção anatómica das personagens e o domínio da composição reforçam o impacto cinematográfico da obra.

O artista tem sido amplamente reconhecido pelo virtuosismo do seu desenho, sendo regularmente destacado pela crítica especializada e pelos jurados de festivais europeus.

O Deus Selvagem, Roger e Fabien Vehlmann, Ala dos Livros, 128 a preto e branco (incluindo dossier de extras a cores), capa dura, 35€