13 de abril de 2026

Runas: Uma História de Mil Faces

A literatura fantástica continua a ser um dos géneros mais cativantes para leitores de todas as idades, especialmente quando alia aventura, emoção e reflexão. Runas: Uma História de Mil Faces, de Carlos Sánchez, publicado pela Nuvem de Letras, é um exemplo claro dessa combinação, oferecendo uma narrativa envolvente que transporta o leitor para um universo mágico repleto de desafios e descobertas.

A história centra-se em Chiri e Dai, duas crianças órfãs que vivem num orfanato junto a uma floresta aparentemente comum. No entanto, tudo muda quando descobrem um portal escondido que as leva até Puddin, um reino misterioso onde o fantástico e o sombrio coexistem. Este novo mundo revela-se muito mais do que um simples cenário mágico. É um espaço onde cada decisão tem peso, onde o perigo espreita a cada passo e onde os protagonistas são forçados a crescer rapidamente.

Puddin é habitado por uma grande diversidade de criaturas — desde bruxas e bardos até ogres e feiticeiros — que enriquecem a narrativa e contribuem para a construção de um universo vivo e imprevisível. No entanto, este reino encontra-se sob a ameaça constante de uma força sombria: o temível Rei Sombrio. Esta figura representa mais do que um simples vilão. Simboliza o desequilíbrio, o medo e a escuridão que se infiltram tanto no mundo exterior como no interior das personagens.

Ao longo da aventura, Chiri e Dai cruzam-se com personagens muito diferentes entre si, formando alianças inesperadas. Estas relações tornam-se essenciais para a sua sobrevivência e para o desenrolar da história.

Carlos Sánchez é um ilustrador, designer e autor ligado à literatura juvenil fantástica, conhecido pela sua capacidade de combinar narrativa envolvente com uma forte componente visual. Natural de Barcelona, desenvolveu desde cedo interesse pelo desenho e pela banda desenhada, área que viria a marcar profundamente o seu percurso criativo. Com formação em Design e especialização em ilustração, Sánchez construiu uma identidade artística assente na criação de universos ricos em detalhe e imaginação. O seu trabalho destaca-se pela forma como funde imagem e texto, proporcionando experiências de leitura dinâmicas e visualmente apelativas.

Base de dados

Runas: Uma História de Mil Faces, Carlos Sánchez, Nuvem de Letras, 168 pp., capa mole, cor, 14,95€

Amore – Amor… à italiana

Amore – Amor… à italiana” é um convite irresistível a mergulhar na intensidade, no humor e na poesia do amor vivido à flor da pele — como só os italianos parecem saber fazer. Nesta obra, o consagrado argumentista Zidrou une forças com o traço subtil e expressivo de David Merveille para nos oferecer uma colectânea de histórias que capturam o amor em todas as suas formas.

Entre praças banhadas pelo sol, cafés onde o aroma do café se mistura com conversas animadas e ruelas onde ecoam vozes familiares, “Amore” constrói um retrato vibrante e profundamente humano da vida quotidiana em Itália. Mas não se trata apenas de cenários pitorescos — cada história revela encontros inesperados, desencontros dolorosos, paixões súbitas e afetos duradouros, sempre com um olhar simultaneamente terno e irónico.

Zidrou, conhecido pela sua sensibilidade narrativa, explora o amor sem idealizações excessivas. Aqui, amar é um gesto vivido — impulsivo, imperfeito, por vezes até contraditório. Como sugere o tom provocador da própria obra, o amor não é apenas para ser lido, mas experimentado. Já David Merveille complementa esta abordagem com ilustrações elegantes e atmosféricas, onde cada traço reforça emoções subtis e momentos fugazes.

Amore – Amor… à italiana, Zidrou e David Merveille, Arte de Autor/A Seita, 128 pp., cor, capa dura, 18€

12 de abril de 2026

Lucky Luke: Um mergulho nas origens do mito

A revista Les Cahiers de la BD lançou recentemente um número hors-série inteiramente dedicado a uma das figuras mais icónicas da BD franco-belga: Lucky Luke. Sob o título Les dessous des cartes (1946–1954), esta edição especial convida os leitores a regressar às origens do “cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra” e a descobrir os bastidores criativos dos seus primeiros anos.

Criado por Morris em 1946, Lucky Luke nasceu nas páginas da revista Spirou, num contexto de renovação da BD europeia do pós-guerra. Este hors-série concentra-se precisamente nesse período inaugural, entre 1946 e 1954, quando a série ainda procurava o seu tom definitivo e a sua identidade gráfica.

A publicação analisa as primeiras histórias, evidenciando as influências do cinema western americano, da animação e do humor slapstick. Mostra também como o traço de Morris evoluiu rapidamente, passando de um estilo ainda algo rígido para a fluidez e expressividade que mais tarde se tornariam a sua marca registada.

Embora muitos leitores associem Lucky Luke à parceria com René Goscinny, este número especial foca-se no período anterior à entrada do célebre argumentista. Aqui encontramos um herói mais solitário, com narrativas menos estruturadas, mas já repletas de invenção visual e sentido de ritmo.

O dossier destaca como, mesmo antes da colaboração com Goscinny, Morris já experimentava gags visuais e situações absurdas que viriam a definir o humor da série. Ao mesmo tempo, observa-se a construção progressiva de elementos icónicos do universo Lucky Luke.

Um dos grandes atractivos deste hors-série é o acesso a materiais de arquivo: esboços, pranchas originais, capas e ilustrações pouco conhecidas. Estes documentos permitem compreender melhor o processo criativo de Morris e o contexto editorial da época. Além disso, especialistas em banda desenhada contribuem com ensaios que situam Lucky Luke na história da BD europeia, discutindo a sua importância cultural e a forma como reinterpretou os códigos do western para um público europeu.

Este número especial de Les Cahiers de la BD não é apenas uma homenagem nostálgica. É também uma obra de referência que ilumina um momento-chave da história da banda desenhada. Para fãs de longa data, oferece novas perspectivas sobre um clássico incontornável; para novos leitores, funciona como porta de entrada para compreender a génese de uma série lendária.

Les Cahiers de la BD Hors-Serie #15, Lucky Luke: Les dessous des cartes (1946–1954), 120 pp., cor, capa dura, 19,90€

Chainsaw Man #15

O 15.º volume de Chainsaw Man, manga de Tatsuki Fujimoto, dá continuidade a uma das fases mais intensas da segunda parte da obra, aprofundando o tom psicológico e introduzindo uma nova ameaça de grande escala narrativa.

Publicado originalmente no Japão pela Shueisha e serializado na plataforma digital Shōnen Jump+, Chainsaw Man regressa neste volume com foco na personagem Asa Mitaka e na crescente complexidade da sua relação com Yoru, o Demónio da Guerra.

No centro deste volume está a introdução do Demónio da Queda, uma entidade descrita como um dos terrores primordiais — conceitos que, no universo da série, representam medos universais e profundamente enraizados na psique humana. A sua presença marca uma escalada significativa na narrativa, não apenas pela ameaça física, mas sobretudo pelo impacto psicológico. Através da exploração das memórias e traumas das personagens, o Demónio da Queda expõe fragilidades internas, levando Asa a confrontar-se com experiências do passado que abalam a sua capacidade de confiar em Yoru. Este conflito interno torna-se um dos eixos centrais do volume.

Conhecida pela abordagem pouco convencional ao género shōnen, a obra de Fujimoto continua a destacar-se pela combinação de acção violenta com reflexão emocional. Neste volume, essa tendência acentua-se: o horror deixa de ser apenas visual ou físico, passando a operar sobretudo no plano psicológico. A ideia de “queda” surge aqui como metáfora para o fracasso humano — personagens que, muitas vezes sem consciência, caminham para a sua própria destruição. Esse percurso é representado de forma quase alegórica, culminando num cenário descrito como um “banquete do inferno”, onde as vítimas são consumidas pelas consequências dos seus próprios traumas.

Chainsaw Man #15, Devir, Tatsuki Fujimoto, 200 pp., p&b, capa mole, 9,99€

11 de abril de 2026

O Jardim, Paris

Na efervescente Paris da década de 1920, onde a arte, a liberdade e a transgressão se cruzam em cada esquina, nasce O Jardim, Paris, a deslumbrante novela gráfica de Gaëlle Geniller. Esta obra transporta-nos para o coração de um cabaré singular, onde identidade, sonho e pertença florescem como num verdadeiro jardim humano.

O Jardim” é mais do que um simples cabaré — é um refúgio. Gerido por uma mulher forte e carismática, este espaço acolhe artistas que adoptam nomes de flores e vivem como uma família escolhida. É neste ambiente caloroso e vibrante que conhecemos Rose, um jovem de 19 anos que cresceu entre bastidores, luzes e música. Embora seja rapaz, Rose partilha o mesmo sonho das suas companheiras: subir ao palco e dançar.

A narrativa acompanha a jornada de afirmação de Rose, que desafia convenções sociais e expectativas de género numa época ainda marcada por fortes normas. A sua ascensão a principal atracção do cabaré não é apenas uma conquista artística, mas também um poderoso gesto de liberdade e autenticidade. Através dele, a obra questiona identidades rígidas e celebra a diversidade com sensibilidade e delicadeza.

Visualmente, O Jardim, Paris é um verdadeiro espectáculo. O traço de Gaëlle Geniller destaca-se pela elegância, fluidez e riqueza cromática, evocando tanto a estética vibrante dos cabarés parisienses como a intimidade dos bastidores. Cada página é cuidadosamente composta, transformando a leitura numa experiência quase coreográfica. Mais do que uma história sobre dança, esta é uma ode à auto-expressão, à aceitação e ao poder transformador da arte. O Jardim, Paris convida o leitor a entrar num mundo onde as fronteiras se esbatem e onde cada indivíduo pode, finalmente, florescer à sua maneira.

Gaëlle Geniller é uma das vozes mais promissoras da nova geração da banda desenhada francófona, destacando-se pela sensibilidade com que aborda temas como identidade, diferença e auto-expressão.

Nascida em 1996, em Saint-Priest, no departamento do Ródano, revelou desde cedo uma forte inclinação para a criação artística. Ainda durante a escola primária, já desenvolvia as suas próprias histórias em banda desenhada, que partilhava com amigos, dando sinais precoces do seu talento narrativo e visual. Com formação técnica em animação, iniciou o seu percurso profissional num estúdio da área, experiência que contribuiu para o desenvolvimento do seu olhar cinematográfico e da fluidez do seu traço. No entanto, seria na banda desenhada que encontraria o espaço ideal para afirmar a sua voz autoral.

A sua estreia deu-se em 2019 com Les Fleurs de grand frère, publicado pela Delcourt. Esta obra, destinada ao público mais jovem, conquistou rapidamente a atenção da crítica e dos leitores, marcando o início de um percurso promissor. Em 2021, Geniller consolida o seu lugar no panorama da BD contemporânea com Le Jardin, Paris, uma narrativa ambientada na década de 1920, onde a autora aprofunda a sua exploração das questões ligadas à identidade e à aceitação, revelando uma abordagem delicada, poética e visualmente marcante.

Com um estilo elegante e uma forte componente emocional, Gaëlle Geniller afirma-se como uma autora a acompanhar de perto, capaz de transformar histórias íntimas em experiências universais através da arte da banda desenhada.

O Jardim de Gaëlle Geniller, que ganhou o prémio Melhor ilustração no Festival Lucca 2022.

O Jardim, Paris, Gaëlle Geniller, Arte de Autor, 224 pp., cor, capa dura, 28,50€

O Fantasma da Ópera

O Fantasma da Ópera, clássico intemporal de Gaston Leroux, ganha uma nova vida numa adaptação em novela gráfica lançada pela Arte de Autor. Pelas mãos dos irmãos Paul Brizzi e Gaëtan Brizzi, esta obra revisita o mistério e o romantismo sombrio que têm fascinado gerações.

Ambientada na icónica Ópera Garnier, em plena Paris do século XIX, a narrativa mergulha o leitor num ambiente onde o real e o sobrenatural se confundem. Eventos inexplicáveis começam a assombrar o teatro: um lustre que cai tragicamente durante um espectáculo, mortes suspeitas nos bastidores e rumores persistentes sobre uma figura enigmática — o temido Fantasma da Ópera. Mais do que uma simples lenda, a presença de Erik, o homem por detrás do mito, revela-se tanto aterradora quanto profundamente humana.

No centro da história está o triângulo emocional entre Christine Daaé, a jovem cantora em ascensão, Raoul de Chagny, o visconde apaixonado, e o próprio Fantasma, cuja voz misteriosa ecoa como um sussurro vindo das sombras. A tensão entre amor, obsessão e identidade conduz a narrativa, mantendo o leitor preso até à última página.

Os irmãos Gaëtan Brizzi e Paul Brizzi são duas figuras incontornáveis do universo da animação e da banda desenhada contemporânea. Gémeos, nascidos em 1951, dividem a sua vida entre França e Estados Unidos, construindo uma carreira multi-facetada como realizadores, pintores, ilustradores e autores.

O seu talento começou a ganhar destaque com várias curtas-metragens de animação, entre as quais se destaca Fracture, nomeada para os prestigiados Prémios César em 1977. Este reconhecimento abriu portas a uma colaboração rara: foram dos poucos criadores franceses a trabalhar com a Walt Disney Animation Studios. No universo Disney, deixaram a sua marca em projectos emblemáticos como O Corcunda de Notre-Dame e Fantasia 2000, onde realizaram sequências memoráveis, incluindo O Pássaro de Fogo, amplamente elogiada pela sua força visual e narrativa.

Mais recentemente, os Brizzi têm vindo a afirmar-se no campo da banda desenhada e da ilustração literária. Entre 2015 e 2020, adaptaram obras de autores como Louis-Ferdinand Céline, Boris Vian e Honoré de Balzac, revelando uma abordagem visual sofisticada e profundamente autoral. Em 2023, surpreenderam com uma interpretação singular de A Divina Comédia, mais concretamente O Inferno, numa forma híbrida entre ilustração e banda desenhada, onde o poder das imagens assume protagonismo absoluto. Este projeto deu origem a uma colecção que prosseguiu com Dom Quixote de la Mancha, mantendo a mesma linguagem estética inovadora. Nesse mesmo ano, exploraram também o universo gótico e fantástico de Edgar Allan Poe, com a publicação de dois livros ilustrados baseados nos seus Contos Extraordinários.

Esta edição da Arte de Autor e d' A Seita aposta numa estética cuidada, onde cada prancha funciona como um quadro, reforçando a dimensão sensorial da obra. Mais do que uma adaptação, esta novela gráfica é uma reinterpretação artística que respeita o espírito do original, ao mesmo tempo que o torna acessível a novos leitores.

Com esta publicação, O Fantasma da Ópera reafirma-se como uma narrativa universal, capaz de atravessar épocas e formatos. Entre o terror e a beleza, a nova obra promete conquistar tanto fãs do romance clássico como apreciadores de banda desenhada de autor.

O Fantasma da Ópera, Paul Brizzi e Gaëtan Brizzi, Arte de Autor/A Seita, 168 pp., p&b, capa dura, 29€

10 de abril de 2026

Mulheres de Papel – O Papel das Mulheres na Banda Desenhada Portuguesa


Com curadoria nacional, a mostra propõe um olhar abrangente sobre a produção feminina contemporânea na banda desenhada portuguesa, reunindo obras de 16 autoras: Alice Prestes, Amanda Baeza, Bárbara Lopes, Filipa Beleza, Inês Garcia, Joana Afonso, Joana Mosi, Joana Rosa, Kachisou, Margarida Madeira, Marta Teives, Patrícia Costa, Raquel Costa, Rita Alfaiate, Sofia Neto e Susa Monteiro.

A exposição distingue-se pela forte aposta em originais, privilegiando o contacto directo com o processo artístico em detrimento de reproduções. A complementar esta abordagem, haverá ainda uma componente audiovisual que revela os bastidores criativos de cada autora, oferecendo ao público uma perspectiva mais íntima e detalhada sobre a construção da banda desenhada.

Integrada na programação do festival, “Mulheres de Papel” dialoga com outras exposições dedicadas a universos icónicos como Naruto e Peanuts, bem como com a obra Don Vega, do autor francês Pierre Alary, que marcará presença no evento.