quarta-feira, 10 de junho de 2026

“Lunáticos”: a epopeia lunar que antecedeu a era espacial chega à banda desenhada portuguesa

A editora A Seita acaba de lançar Lunáticos, uma impressionante novela gráfica dos autores polacos Adam Fyda e Marek Ospalski, baseada em No Globo de Prata, a obra-prima do escritor Jerzy Żuławski, um dos grandes pioneiros da ficção científica europeia.

A história transporta-nos para 1913, quando a primeira expedição humana à Lua parte da Terra. Cinco aventureiros embarcam numa viagem sem precedentes em direção ao lado oculto do satélite, convencidos de que ali existe uma atmosfera capaz de sustentar vida. Porém, pouco depois da partida, o contacto é perdido. O que encontraram? Conseguiram sobreviver? E que destino os aguardava naquele mundo desconhecido?

Mais do que uma aventura espacial, Lunáticos é uma reflexão sobre a condição humana. Entre a exploração do desconhecido e a luta pela sobrevivência, a narrativa aborda temas universais como a morte, o amor, a saudade e a esperança, revelando uma dimensão profundamente filosófica e emocional.

Formado na Academia de Belas Artes de Wrocław, Fyda construiu uma carreira como designer gráfico, ilustrador e director de arte antes de se dedicar à banda desenhada. Depois de obras inspiradas em autores como H. P. Lovecraft e Arthur Machen, o artista regressa agora à literatura clássica para dar nova vida a um dos textos fundadores da ficção científica polaca. O argumento conta com a colaboração de Marek Ospalski, bibliotecário e apaixonado por literatura, que contribui para preservar o espírito da obra original.

O resultado é uma banda desenhada visualmente ambiciosa, que combina o fascínio da exploração espacial com uma atmosfera melancólica e contemplativa. As páginas de Fyda evocam simultaneamente o imaginário científico do início do século XX e a sensação de mistério que continua a envolver a Lua mais de um século depois.

Publicada originalmente na Polónia pela Timof Comics e já editada em França, Lunáticos chega agora aos leitores portugueses através da colecção Bursztyn/Âmbar, reforçando a aposta da A Seita na divulgação de autores e obras de referência da banda desenhada da Europa Central e de Leste.

Lunáticos, Adam Fyda e Marek Ospalski, A Seita, cor, capa dura

terça-feira, 9 de junho de 2026

O Mercenário – Tomo 14: O Último Dia

Derradeiro capítulo da obra-prima criada por Vicente Segrelles, que encerra uma das mais marcantes sagas de fantasia da banda desenhada europeia. Publicado em Portugal pela  Ala dos Livros, este volume final oferece aos leitores a conclusão há muito aguardada de uma aventura que atravessou mais de 35 anos de história editorial.  

Diferente dos álbuns anteriores, O Último Dia é apresentado em formato de prosa ilustrada, acompanhada por 24 magníficas imagens de página inteira pintadas por Segrelles. A narrativa revela finalmente o destino de Claust, a figura que durante toda a série representou a ambição e a tirania, bem como o futuro do misterioso País das Nuvens Permanentes e dos habitantes do Mosteiro da Cratera.  

Mais do que um simples epílogo, este volume funciona como uma despedida emotiva de um universo que conquistou gerações de leitores através da sua combinação única de fantasia, aventura, ficção científica e arte pictórica de excepcional qualidade. Segrelles fecha os principais fios narrativos da série, oferecendo uma conclusão coerente e carregada de simbolismo para as personagens que acompanharam os leitores ao longo de treze álbuns.  

Como complemento, a edição inclui ainda a história curta A Evidência, uma homenagem às origens de O Mercenário e ao percurso criativo do autor, permitindo regressar por breves momentos ao formato clássico da banda desenhada que tornou a série um marco incontornável da BD europeia.  

O Mercenário #14: O Último Dia, Vicente Segrelles, Ala dos Livros, 64 pp., cor, capa dura, 23,90€

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Entre Elas

A Nuvem de Letras publica hoje uma nova obra de banda desenhada juvenil que promete conquistar leitores pela sensibilidade com que aborda a amizade, o crescimento e as mudanças inevitáveis da adolescência. Da autoria de Pauline Spira, esta narrativa acompanha duas melhores amigas numa experiência que acabará por transformar a forma como se veem a si próprias — e uma à outra.

A história centra-se em Júlia e Mariana, amigas inseparáveis desde sempre, que viajam até um castelo, em Inglaterra, para participar num estágio de inglês de duas semanas. O cenário parece perfeito para uma aventura inesquecível, mas a estadia depressa revela desafios inesperados. Enquanto Júlia tenta lidar com o luto pela perda da avó e com dificuldades de integração no grupo, Mariana aproxima-se de um conjunto de raparigas mais velhas, desejosa de encontrar o seu lugar e viver novas experiências. Entre cumplicidades, conflitos, silêncios e mal-entendidos, a amizade entre as duas começa a ser posta à prova.

Com delicadeza e autenticidade, Pauline Spira constrói uma história sobre o crescimento, os afectos e a descoberta de que amadurecer implica, muitas vezes, aceitar mudanças e aprender a lidar com sentimentos contraditórios. O livro explora temas universais como a amizade, a perda, a necessidade de pertença e os desafios emocionais da adolescência, tornando-se particularmente próximo de leitores jovens que se reconhecem nestas transições.

O reconhecimento crítico não tardou: a obra foi selecionada para o Prix Ligue de l’Enseignement no prestigiado Festival BD Boum de 2025, uma distinção que sublinha a relevância da proposta no panorama da banda desenhada juvenil contemporânea. Esta selecção reforça a atenção que o trabalho de Pauline Spira tem vindo a conquistar pela sua sensibilidade narrativa e pela capacidade de retratar emoções juvenis de forma genuína.

Pauline Spira é autora e ilustradora francesa de banda desenhada e literatura juvenil. O seu trabalho distingue-se pela atenção às emoções e às relações interpessoais, sobretudo nas idades de transição entre a infância e a adolescência. Com um traço expressivo e uma abordagem intimista, Spira tem vindo a afirmar-se no panorama da BD juvenil francófona através de histórias centradas no crescimento pessoal, na amizade e nos desafios emocionais dos jovens leitores. Nesta nova obra, confirma a capacidade de abordar temas delicados com empatia, humor e grande sensibilidade narrativa.

Entre descobertas, desilusões e momentos de cumplicidade, esta é uma leitura sobre amizades que mudam sem necessariamente desaparecerem — e sobre como crescer significa também aprender a redefinir os laços que julgávamos inabaláveis. Uma proposta promissora para jovens leitores, mas também para todos os que reconhecem nas amizades da adolescência algumas das memórias mais marcantes da vida.

Entre Elas, Pauline Spira, Nuvem de Letras, 160 pp., cor, capa mole, 14,95€

domingo, 7 de junho de 2026

Bedeteca promove oficina de escrita criativa e guionismo para Banda Desenhada


A Bedeteca vai acolher a oficina “BD ao Quadrado – Escrita² (Escrita ao Quadrado)”, uma formação dedicada à iniciação ao argumento e ao guionismo para Banda Desenhada. A iniciativa será orientada pelo reconhecido argumentista e guionista Nuno Duarte, profissional com vasta experiência em diferentes áreas da escrita criativa.

Esta oficina dirige-se a todos os interessados em desenvolver competências na construção de narrativas para Banda Desenhada, proporcionando uma abordagem prática ao processo de criação de argumentos, estruturação de histórias e desenvolvimento de linguagem narrativa específica para BD.

Ao longo da formação, os participantes terão a oportunidade de explorar técnicas fundamentais do guionismo, experimentando exercícios orientados e recebendo acompanhamento directo de um profissional da área, num ambiente de aprendizagem intensiva e criativa.

A participação na oficina está limitada a 12 participantes, garantindo um acompanhamento próximo e personalizado. O custo de inscrição é de 25 euros. Os interessados podem garantir a sua vaga através de inscrição por correio eletrónico, enviando a sua candidatura para: bedeteca@gmail.com

Lucky Luke visto por…: A Longa Marcha de Lucky Luke, de Matthieu Bonhomme

Integrado na prestigiada colecção “Lucky Luke visto por…”, A Longa Marcha de Lucky Luke representa uma das mais interessantes revisitações contemporâneas do célebre cowboy criado por Morris. Nesta obra, o autor francês Matthieu Bonhomme apropria-se do universo clássico da personagem para construir uma narrativa mais madura, realista e introspectiva, sem perder o espírito aventureiro que sempre caracterizou Lucky Luke.

Nesta história, Lucky Luke é contratado por Mr. Cramp, um poderoso industrial da “Cramp Company”, para encontrar o seu sobrinho desaparecido, que teria sido raptado quando era criança por uma tribo indígena. Luke consegue localizar o rapaz, que agora já é um jovem indígena chamado Nuage-Rouge, adotado pelo chefe da tribo.

No entanto, rapidamente descobre que a situação não é o que parecia: Mr. Cramp não quer apenas “recuperar” o sobrinho, mas sim eliminá-lo, porque o jovem é na verdade o herdeiro legítimo da empresa e um obstáculo aos planos de controlo total da companhia. Percebendo o perigo, Lucky Luke decide proteger o rapaz e fugir com ele.

A partir daí, começa uma verdadeira longa marcha através do território selvagem, com a dupla a atravessar florestas geladas, regiões hostis e a ser perseguida por capangas, os irmãos Dalton, enviados por Cramp. A história transforma-se numa fuga contínua, onde Lucky Luke tem de proteger o jovem enquanto tenta sobreviver aos perigos naturais e humanos do caminho.

Matthieu Bonhomme afasta-se, por vezes e, deliberadamente, do tom humorístico dominante nos álbuns clássicos escritos por René Goscinny. Embora mantenha alguns momentos de leveza, a narrativa privilegia uma abordagem mais realista e cinematográfica do Oeste. O autor apresenta um Lucky Luke menos caricatural e mais humano, um homem marcado pela experiência, pela independência e pela consciência de que o seu destino é continuar sempre em movimento.

Graficamente, o álbum é impressionante. O traço elegante e expressivo de Bonhomme destaca-se pela atenção aos cenários, à luz e às paisagens do Oeste americano. A narrativa visual revela uma influência evidente do western clássico, tanto do cinema como da banda desenhada europeia. Um dos aspetos mais interessantes da obra é a forma como o autor preserva a essência da personagem. Lucky Luke continua a ser o herói solitário, justo e habilidoso que os leitores conhecem, mas surge aqui enriquecido por uma maior profundidade psicológica. O mito do “homem que dispara mais depressa do que a própria sombra” é reinterpretado sem ser desconstruído, permitindo uma leitura simultaneamente nostálgica e renovadora.

A Longa Marcha de Lucky Luke demonstra o potencial da coleção “Lucky Luke visto por…” para explorar novas perspetivas sobre uma figura clássica da banda desenhada franco-belga. Matthieu Bonhomme presta homenagem ao legado de Morris e Goscinny, ao mesmo tempo que oferece uma obra autónoma, sofisticada e visualmente deslumbrante. O resultado é um western moderno que alia aventura, reflexão e grande qualidade artística, capaz de conquistar tanto os admiradores históricos de Lucky Luke como novos leitores.

A complementar o volume, A Seita apresenta um caderno gráfico com esboços do autor.

Lucky Luke visto por…: A Longa Marcha de Lucky Luke, Matthieu Bonhomme, A Seita, 88 pp., cor, capa dura

Enki Bilal, itinéraire gráfico de um visionário: o novo hors-série dos Cahiers de la BD

A revista Les Cahiers de la BD dedica o seu mais recente hors-série a um dos nomes mais influentes da banda desenhada europeia: Enki Bilal. Intitulado Enki Bilal – Itinéraire graphique d’un artiste engagé, o volume propõe uma exploração aprofundada da obra e da trajectória de um criador cuja influência ultrapassa largamente os limites da nona arte. O número foi lançado este mês e integra a prestigiada colecção de hors-séries da revista, dedicada a autores e obras fundamentais da história da BD.

Desde os anos 1970, Bilal construiu uma obra singular, marcada por universos distópicos, reflexão política e uma estética imediatamente reconhecível. Nascido em Belgrado e radicado em França desde a infância, o autor transformou as suas experiências pessoais e a sua visão crítica do mundo em narrativas que conjugam ficção científica, memória histórica e questionamento filosófico. Obras como a Trilogia Nikopol, Partie de chasse ou, mais recentemente, a série BUG, consolidaram-no como uma das vozes mais originais da BD contemporânea.

O hors-série dos Cahiers de la BD procura justamente compreender essa evolução artística. Segundo a apresentação editorial, o volume reúne dossiês temáticos, entrevistas exclusivas, análises críticas e uma vasta iconografia composta por documentos de arquivo, pranchas emblemáticas e ilustrações raras. O objectivo é acompanhar a transformação do traço de Bilal, desde os desenhos mais clássicos das primeiras décadas até às experiências digitais que caracterizam parte da sua produção recente. 

Um dos aspetos mais interessantes da publicação é a forma como enquadra Bilal não apenas como autor de banda desenhada, mas como artista multidisciplinar. O hors-série aborda igualmente o seu trabalho como pintor e cineasta, destacando a coerência temática entre as diferentes áreas da sua criação. A melancolia, a fragmentação da memória, os conflitos geopolíticos e a relação entre tecnologia e humanidade surgem como elementos recorrentes de uma obra que permanece profundamente atual. 

Ao longo das últimas décadas, Bilal tornou-se uma referência incontornável para várias gerações de leitores e criadores. Em comunidades de leitores de banda desenhada, continua a ser frequentemente citado ao lado de autores como Moebius ou Alejandro Jodorowsky quando se fala das grandes obras de ficção científica da BD europeia.

Les Cahiers de la BD HS #15: Enki Bilal - Itinérarire graphique d'un artiste passionné, 128 pp., cor, capa dura, 19,90€

sábado, 6 de junho de 2026

O Deserto dos Tártaros: a espera transformada em banda desenhada

A adaptação para banda desenhada de O Deserto dos Tártaros, realizada por Pasquale Frisenda e Michele Medda, transporta para o universo gráfico um dos romances mais marcantes de Dino Buzzati. Publicada originalmente em Itália, esta versão preserva a essência filosófica e existencial da obra, ao mesmo tempo que explora as potencialidades narrativas e visuais da BD.

A história acompanha Giovanni Drogo, um jovem oficial que é destacado para a remota Fortaleza Bastiani, situada na fronteira de um vasto deserto. Convencido de que a sua permanência ali será breve, Drogo sonha com uma carreira militar gloriosa. Contudo, os dias transformam-se em meses, os meses em anos, e a expectativa de um acontecimento extraordinário — a possível chegada dos misteriosos tártaros — passa a dominar a sua existência. A fortaleza torna-se assim um símbolo da condição humana, marcada pela espera, pela esperança e pela passagem inexorável do tempo.

O argumento de Michele Medda demonstra grande fidelidade ao romance de Buzzati. Em vez de simplificar a narrativa, procura preservar a atmosfera melancólica e a reflexão sobre o destino humano. A adaptação concentra-se na evolução psicológica de Drogo, mostrando como a expectativa de uma oportunidade futura acaba por consumir o presente e moldar toda a sua vida.

O trabalho gráfico de Pasquale Frisenda constitui um dos maiores méritos da obra. O desenhador recria a Fortaleza Bastiani como um espaço simultaneamente majestoso e opressivo, cercado por um deserto quase metafísico. As paisagens amplas, os horizontes vazios e a monumentalidade da arquitetura reforçam a sensação de isolamento e de suspensão temporal que caracteriza o romance. A expressividade das personagens e o cuidado com a composição das páginas contribuem para transmitir emoções que, na obra literária, emergem sobretudo através da introspeção. A banda desenhada destaca-se também pela sua capacidade de transformar em imagens os temas centrais de Buzzati: a solidão, a passagem do tempo, a ilusão da glória e a inevitabilidade da morte. O deserto deixa de ser apenas um cenário geográfico para se tornar uma representação visual do vazio existencial e das expectativas que orientam, e por vezes limitam, a vida humana.

Mais do que uma simples adaptação, O Deserto dos Tártaros em BD revela-se uma interpretação artística respeitosa e ambiciosa da obra original. Frisenda e Medda conseguem manter intacta a profundidade filosófica do romance, oferecendo simultaneamente uma experiência visual rica e envolvente. O resultado é uma leitura que poderá interessar tanto aos admiradores de Dino Buzzati como aos leitores de banda desenhada que procuram obras de grande densidade literária e reflexiva.

A presente edição d' A Seita apresenta um extra de esboços de Frisenda, acompanhado de "A cor das sombras", um texto de Gianmaria Contro

O deserto dos tártaros, Michele Medda e Pasquale Frisenda, A Seita, 184 pp., p&b, capa dura