Baseada num caso verídico que abalou o país no início dos anos 2000, a novela gráfica acompanha a história de Saeed Hanaei, conhecido pela imprensa como “a aranha de Mashhad”, responsável pelo assassinato de 16 mulheres — maioritariamente prostitutas ou toxicodependentes — na cidade sagrada de Mashhad. Hanaei justificava os crimes como uma missão moral e religiosa, acreditando estar a “purificar” a sociedade. O caso tornou-se particularmente perturbador não apenas pela violência dos actos, mas também pelo apoio que parte da população demonstrou ao assassino após a sua detenção, revelando as tensões entre fanatismo religioso, marginalização social e justiça.
Mais do que uma reconstituição criminal, A Aranha de Mashhad afirma-se como uma investigação sobre os mecanismos de exclusão numa sociedade profundamente marcada pelo conservadorismo. Combinando entrevistas reais, elementos documentais e dramatização gráfica, Neyestani constrói um retrato multifacetado que não se limita ao olhar do assassino, dando igualmente voz às vítimas, às suas famílias, às autoridades e ao contexto cultural da cidade de Mashhad, um dos centros religiosos mais conservadores do Irão.
O lançamento deste volume inaugura uma nova série da colecção de novelas gráficas com uma obra exigente e politicamente relevante, confirmando a aposta do Público e da Levoir em títulos que cruzam qualidade artística, reportagem e reflexão histórica. Ao mesmo tempo, reforça a presença de Mana Neyestani no catálogo português, um autor cuja obra continua a oferecer um olhar raro e incisivo sobre um Irão muitas vezes desconhecido do grande público.







.jpg)