sexta-feira, 15 de maio de 2026

Kagurabachi #2

O segundo volume de Kagurabachi, obra de Takeru Hokazono, marca um ponto de viragem decisivo na construção da narrativa e na escalada emocional da história, sobretudo com a estreia de uma das figuras mais marcantes da série até agora: Sojo.

Neste volume, a introdução de Sojo não serve apenas como entrada de um novo antagonista, mas como um espelho distorcido dos ideais ligados às espadas enfeitiçadas. Durante o confronto, Sojo revela uma admiração profunda por Kunishige, o lendário criador dessas lâminas e pai de Chihiro. No entanto, essa admiração não se traduz em reverência moral: pelo contrário, ele interpreta o legado de Kunishige de forma radicalmente oposta, defendendo a convicção de que essas espadas nasceram para ceifar vidas.

Essa divergência de interpretação torna-se o núcleo temático do volume. De um lado, Chihiro carrega o peso emocional e ético da herança do pai; do outro, Sojo encarna uma leitura distorcida e brutal do mesmo legado. Ambos reconhecem a grandeza de Kunishige, mas seguem caminhos incompatíveis, quase como reflexos quebrados de uma mesma origem.

É também neste volume que se intensifica a transformação interna de Chihiro. Diante da crueldade de Sojo e da sua visão fria sobre a vida e a morte, o protagonista começa a forjar o seu próprio instinto assassino — não como simples reacção, mas como uma evolução inevitável imposta pelo mundo violento em que foi lançado. A narrativa sugere que essa mudança não é apenas física ou estratégica, mas profundamente psicológica.

A estreia de Sojo, portanto, não funciona apenas como apresentação de um antagonista poderoso, mas como catalisador narrativo. Ele força Chihiro a confrontar o verdadeiro peso das espadas enfeitiçadas e o legado do seu pai, abrindo espaço para um conflito que é tanto ideológico quanto sangrento.

No conjunto, o segundo volume consolida Kagurabachi como uma obra que equilibra acção intensa com um debate moral sobre violência, herança e propósito — estabelecendo desde cedo que cada lâmina tem não apenas um poder, mas uma filosofia por trás.

Kagurabachi #2, Takeru Hokazono, Devir, 208 pp., p&b, capa mole, 9,99€

Clube de BD - FNAC Colombo

 


Batman: Cavaleiro Branco — quando o Joker se torna o salvador de Gotham

A nova colecção DC Pocket, da Devir, propõe recuperar algumas das histórias mais marcantes da DC Comics num formato compacto e acessível. Entre os títulos escolhidos encontra-se Batman: Cavaleiro Branco, uma obra singular de Sean Murphy que desafia uma das certezas mais antigas do universo Batman: e se o Joker deixasse de ser o vilão?

A premissa parece saída de um pesadelo ao contrário. Depois de anos mergulhado na insanidade, violência e caos, o Joker é submetido a um tratamento revolucionário que o cura da sua psicose. Recuperando a identidade de Jack Napier, o antigo Palhaço do Crime apresenta-se perante Gotham como um homem renovado, lúcido e determinado a corrigir os erros da cidade — incluindo aqueles provocados pelo próprio Batman.

Mas Murphy não se limita a contar uma história de redenção. Cavaleiro Branco constrói um mundo em que os papéis tradicionais parecem inverter-se: enquanto Jack Napier surge como voz racional e reformista, o Batman é retratado como uma figura obcecada, cada vez mais incapaz de distinguir justiça de destruição. A questão central instala-se rapidamente: terá o Cavaleiro das Trevas ido longe demais?

Ao longo da narrativa, Jack Napier transforma-se numa inesperada figura política, candidatando-se a vereador e apresentando soluções concretas para os problemas estruturais de Gotham. O combate ao crime deixa de ser apenas uma questão de mascarados nas ruas e passa a envolver desigualdade social, corrupção institucional e a destruição colateral causada pelas batalhas entre Batman e os seus inimigos.

É precisamente aqui que Batman: Cavaleiro Branco se distingue de outras histórias do universo DC. Em vez de apresentar um simples confronto entre herói e vilão, Sean Murphy questiona o próprio sistema de Gotham e o papel do Batman dentro dele. Será Bruce Wayne realmente o protector da cidade, ou tornou-se parte do problema? Ao mesmo tempo, permanece sempre uma dúvida desconfortável: poderá alguém como o Joker mudar verdadeiramente? Ou estará Jack Napier apenas a vestir uma nova máscara?

Visualmente, Cavaleiro Branco é tão forte quanto o seu conceito. Sean Murphy assume tanto o argumento como a arte, criando uma Gotham dinâmica, detalhada e profundamente cinematográfica. O traço energético e expressivo transmite velocidade, tensão e impacto, sobretudo nas sequências de acção, sem nunca perder o foco emocional das personagens.

Desde a sua publicação original, Batman: Cavaleiro Branco conquistou um lugar especial entre os leitores de banda desenhada, tornando-se um dos mais elogiados universos alternativos do Batman dos últimos anos. O sucesso da obra deu origem a várias sequelas e expandiu aquilo que hoje é conhecido como o “Murphyverse”.

Porque, no fim, Batman: Cavaleiro Branco coloca uma pergunta difícil de ignorar: e se o verdadeiro perigo para Gotham não fosse o Joker?

Batman: Cavaleiro Branco (colecção DC Pocket), Devir, 232 pp., cor, capa mole, 10€

quinta-feira, 14 de maio de 2026

JOKER: a descida ao submundo de Gotham no primeiro volume da colecção DC Pocket

A colecção DC Pocket, que a Devir prepara para lançar em Portugal, estreia-se com um dos retratos mais perturbadores do maior vilão da DC: Joker, da dupla criativa Brian Azzarello e Lee Bermejo. Publicado originalmente em 2008, este romance gráfico tornou-se uma das interpretações mais influentes e controversas do Palhaço do Crime, afastando-se da visão tradicional do supervilão para apresentar algo muito mais cru, violento e inquietante.  

À primeira vista, pode parecer apenas mais uma história centrada no Joker. Mas Joker é, na realidade, um thriller criminal sombrio, construído como uma viagem ao coração apodrecido de Gotham — um lugar onde a violência, o medo e a ambição caminham lado a lado.

A história começa quando o Joker é misteriosamente libertado do Asilo Arkham. Durante a sua ausência, os equilíbrios do crime em Gotham mudaram e vários rivais aproveitaram para ocupar território e influência. O Joker regressa para reclamar aquilo que considera seu, desencadeando uma espiral de vingança, brutalidade e caos.  Mas o grande trunfo do livro está na perspectiva escolhida por Azzarello: a narrativa não é contada pelo próprio Joker, nem por Batman, mas por Jonny Frost, um pequeno criminoso de Gotham que acaba por se tornar motorista e cúmplice ocasional do vilão. É através dos olhos deste homem comum — simultaneamente fascinado e aterrorizado — que o leitor observa a verdadeira natureza do Joker.  

Embora Batman esteja presente, JOKER não é propriamente uma história do Cavaleiro das Trevas. O foco está no submundo de Gotham e nos seus jogadores — figuras como o Pinguim, Two-Face, Killer Croc ou Enigma aparecem como peças de um ecossistema criminoso em guerra, onde alianças são frágeis e a sobrevivência depende da brutalidade.  O tom aproxima-se mais de um filme de gangsters urbano do que de uma aventura clássica de super-heróis. Há ecos de cinema noir, thrillers criminais modernos e até da interpretação mais realista e anárquica do Joker popularizada no final dos anos 2000. Não por acaso, muitos leitores apontam semelhanças atmosféricas com a era pós-The Dark Knight, embora a obra siga um caminho próprio.  

Bermejo opta por um estilo quase fotográfico, hiper-realista e detalhado, afastando-se da estética colorida e exagerada típica dos comics de super-heróis. O Joker surge com cicatrizes, maquilhagem imperfeita e um visual quase tangível, mais próximo de um criminoso de carne e osso do que de uma caricatura extravagante. Gotham é suja, húmida e decadente — uma cidade onde cada rua parece esconder violência iminente.  

Em Portugal, a edição da Devir integrará a nova colecção DC Pocket, num formato compacto e acessível, pensado para tornar histórias essenciais da DC mais fáceis de descobrir. Com cerca de 132 páginas em capa mole, JOKER surge como uma escolha particularmente forte para inaugurar a linha: uma obra curta, intensa e visualmente impressionante, ideal tanto para leitores veteranos como para quem quer entrar no universo DC por caminhos menos convencionais.  

Joker (colecção DC Pocket), Brian Azzarello e Lee Bermejo, Devir, 132 pp., cor, capa mole, 10€

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Ginseng Roots: memória, trabalho e identidade na BD de Craig Thompson

Ginseng Roots é uma narrativa autobiográfica de Craig Thompson centrada nas experiências do autor durante a juventude no estado do Wisconsin, nos Estados Unidos.

A obra acompanha o período em que Craig Thompson e os irmãos trabalhavam na colheita de ginseng durante o Verão. A partir dessa experiência, o livro aborda o cultivo e o comércio desta planta, relacionando elementos da história familiar com o contexto económico associado à produção de ginseng.

Ao longo da narrativa são incluídas referências à circulação internacional do ginseng e ao seu valor comercial em diferentes períodos históricos. O autor relaciona igualmente o trabalho agrícola com episódios da sua infância e adolescência.

Craig Thompson utiliza o formato autobiográfico e documental para desenvolver a narrativa, combinando memórias pessoais com informação histórica ligada ao comércio e cultivo do ginseng.

O livro foi publicado após vários anos de desenvolvimento e integra-se no conjunto de obras autobiográficas do autor, entre as quais Blankets. já publicado em Portugal pela Devir.

Ginseng Roots, Craig Thompson, ASA, 448 pp., bicolor, capa dura, 33,90€

Tribunal da UE trava uso da marca “Obélix” em produtos ligados a armas de fogo

O Tribunal Geral da União Europeia decidiu impedir a utilização da marca “Obélix” por um empresário polaco que pretendia comercializar produtos relacionados com armas de fogo, munições e explosivos. A decisão surge após um recurso apresentado pela editora francesa responsável pela icónica colecção de banda desenhada Astérix e Obélix.

No centro da disputa esteve o registo da marca nominativa “Obelix”, inicialmente autorizado pelo Instituto da Propriedade Intelectual da União Europeia (EUIPO). O empresário polaco pretendia utilizar o nome para identificar produtos ligados ao setor do armamento, uma decisão que acabou por gerar contestação por parte da editora francesa Les Éditions Albert René.

A empresa, detentora dos direitos da famosa série de banda desenhada, argumentou que a utilização do nome de uma das suas personagens mais emblemáticas poderia prejudicar a reputação e o prestígio associados ao universo de Astérix e Obélix. Para a editora, associar “Obélix” a armas e explosivos poderia comprometer a imagem construída ao longo de décadas em torno da personagem.

Num comunicado divulgado após a decisão, o Tribunal Geral considerou que a avaliação inicial do EUIPO se baseou numa análise “incompleta e errada”. Os juízes europeus defenderam que o nome “Obélix”, embora inserido na marca conjunta Astérix e Obélix, é reconhecido pelo público de forma autónoma e individualizada, podendo, por isso, beneficiar de protecção própria e de um prestígio independente.

Esta interpretação foi determinante para a decisão final, ao reconhecer que o uso do nome em produtos associados a armamento poderia explorar ou até prejudicar a notoriedade conquistada pela personagem no imaginário popular europeu.

Criada em 1959 pelos autores franceses René Goscinny e Albert Uderzo, Astérix e Obélix tornou-se uma das séries de banda desenhada mais populares do mundo. As histórias, ambientadas numa aldeia gaulesa que resiste à ocupação romana liderada por Júlio César, conquistaram gerações de leitores e transformaram as personagens em verdadeiros ícones da cultura popular.

A decisão do Tribunal Geral reforça também a importância da proteção das marcas reconhecidas no espaço europeu, sobretudo quando estão em causa nomes com forte valor cultural e comercial.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Michel Vaillant. Corridas Lendárias: A Alma dos Pilotos

Michel Vaillant. Corridas Lendárias: A Alma dos Pilotos, de Denis Lapière e Vincent Dutreuil, regressa ao universo criado por Jean Graton através de uma história situada no Grande Prémio do Mónaco de 1971.

A narrativa decorre nos dias que antecedem a corrida e acompanha as dificuldades da equipa Vaillante, confrontada com problemas mecânicos após um acidente de Michel Vaillant no circuito de Jarama. O episódio condiciona a preparação para a prova e influencia o estado do piloto antes dos treinos no Mónaco.

Ao mesmo tempo, a história acompanha um cidadão norte-americano ferido em Marselha, numa linha narrativa que se cruza posteriormente com os acontecimentos ligados à corrida.

O álbum centra-se não apenas na competição automobilística, mas também na dimensão pessoal de Michel Vaillant, mostrando as consequências físicas e psicológicas associadas às corridas e à pressão do automobilismo profissional.

O desenho de Vincent Dutreuil recria os circuitos, os carros e o ambiente do Mónaco do início da década de 1970, mantendo a ligação visual ao universo clássico da série. A componente histórica do desporto automóvel ocupa igualmente um lugar importante ao longo da obra.

Este volume integra a coleção “Corridas Lendárias”, dedicada a episódios inspirados em provas e momentos marcantes da história da Fórmula 1 e do automobilismo europeu.

Michel Vaillant. Corridas Lendárias: A Alma dos Pilotos, Denis Lapière e Vincent Dutreuil, ASA, 64 pp., cor, capa dura, 18,50€