24 de janeiro de 2026

História Alegre de Portugal em BD: aprender a rir da nossa História

Há muitas formas de conhecer a História de Portugal, mas poucas são tão eficazes — e tão prazerosas — como História Alegre de Portugal em BD. Nesta obra incontornável, o rigor histórico cruza-se com o humor, a narrativa leve e a expressividade da banda desenhada, criando um livro que continua actual décadas depois da sua primeira edição.

Com ilustrações de Artur Correia (1932–2018) e texto adaptado da obra de Manuel Pinheiro Chagas, este título já vendeu mais de vinte mil exemplares e conheceu várias edições, sinal claro de que continua a conquistar novos leitores. Editado pela Bertrand, é um livro que atravessa gerações, mantendo intacta a sua frescura e capacidade de cativar.

A narrativa é construída em torno de um enquadramento simples e eficaz. João, um antigo mestre-escola, decide contar a História de Portugal a um grupo de habitantes da sua terra, Agualva, ao longo de dez noites. A partir desse pretexto, o leitor é conduzido numa viagem que começa antes da independência nacional e termina no reinado de D. Luís.

Reis, batalhas, intrigas, descobertas e episódios menos conhecidos surgem aqui tratados com ironia, clareza e um humor subtil que nunca desrespeita os factos históricos. O resultado é uma sucessão de episódios vivos e memoráveis, que convidam tanto ao riso como à reflexão.

A obra original de Manuel Pinheiro Chagas, escritor e político português do século XIX, ganha nova vida nesta adaptação para banda desenhada. Longe de ser uma simples transposição, trata-se de uma verdadeira recriação visual, que respeita o espírito do texto e o torna acessível a leitores de todas as idades.

O humor desempenha aqui um papel central: aproxima o leitor da História, desmonta solenidades excessivas e mostra que o passado pode ser contado com leveza sem perder profundidade.

O traço inconfundível de Artur Correia é uma das grandes forças deste livro. Nascido em Lisboa em 1932, foi um dos mais importantes autores de banda desenhada portugueses, com uma carreira marcada pela versatilidade e pela criatividade. Colaborou com publicações emblemáticas como Cavaleiro Andante, Pisca-Pisca, Fungagá da Bicharada ou A Fagulha, deixando uma marca profunda na BD destinada ao público jovem.

Na Bertrand Editora, assinou obras fundamentais como História Alegre de Portugal, Heróis da História de Portugal e a memorável adaptação de O Romance da Raposa, de Aquilino Ribeiro, mais tarde convertida em animação no seu próprio estúdio.


A partir de 1965, Artur Correia destacou-se também no cinema de animação, conquistando mais de uma dezena de prémios nacionais e internacionais. O reconhecimento no Festival de Cinema de Annecy foi decisivo para a criação do seu estúdio, em 1973. Até ao fim da vida, manteve-se fiel às duas grandes paixões que definiram o seu percurso: a animação e a banda desenhada.

Num tempo em que se discute a melhor forma de ensinar História, História Alegre de Portugal em BD continua a ser um exemplo luminoso. Divertida, pedagógica e visualmente marcante, esta obra prova que o conhecimento não tem de ser pesado para ser sério.

Talvez seja essa a razão pela qual continua a ser reeditada e lida: porque transforma o passado num prazer presente. Um clássico da banda desenhada portuguesa que permanece, merecidamente, sempre actual.

História Alegre de Portugal em BD, Artur Correia, Bertrand Editora, 256 pp., capa mole, cor, 19,90€

22 de janeiro de 2026

Elas #1: Miúda nova

Chega agora ao mercado português o primeiro volume de Elas, série de banda desenhada juvenil que já conquistou mais de um milhão de leitores a nível internacional e que promete marcar uma nova geração de leitores com uma história envolvente, emotiva e profundamente atual. Publicada originalmente em francês sob o título Elles, a obra estreia-se em Portugal com o volume Miúda Nova, abrindo as portas a um universo onde o mistério, a identidade e a aceitação caminham lado a lado.

No centro da narrativa está Ella, uma adolescente que parece encaixar perfeitamente no retrato clássico da “rapariga nova” na escola. Inteligente, espirituosa e carismática, integra-se rapidamente, faz amigos e aparenta ter uma vida normal. Mas essa normalidade é apenas a superfície de uma realidade muito mais complexa.

Ella convive, dentro de si, com cinco personalidades distintas, cada uma com a sua própria identidade, temperamento e até cor de cabelo. Nem sempre cooperantes, estas “outras Elas” tornam o quotidiano da protagonista um verdadeiro desafio, criando tensão constante em torno da possibilidade de o seu segredo ser descoberto. A série explora assim, de forma acessível ao público jovem, temas como a construção da identidade, a convivência com a diferença, a saúde mental e a aceitação de quem somos — mesmo quando isso não se enquadra nos padrões esperados.

A escrita está a cargo de Kid Toussaint, pseudónimo de Thierry Toussaint, um dos nomes mais respeitados da banda desenhada francófona contemporânea. Escritor e tradutor belga, Toussaint é uma figura central do histórico jornal Spirou e da editora Dupuis, tendo assinado diversos sucessos ao longo da sua carreira. O autor é conhecido pela sua capacidade de abordar temas complexos com sensibilidade, humor e clareza, tornando-os acessíveis a leitores jovens sem nunca os simplificar em excesso.

Na vertente visual, Aveline Stokart assume um papel fundamental. O seu traço expressivo e dinâmico dá vida às múltiplas facetas de Ella, distinguindo visualmente cada personalidade e reforçando o impacto emocional da narrativa. A ilustradora, que já colaborou com vários projectos de destaque na BD europeia, consegue equilibrar leveza e intensidade, criando páginas vibrantes que dialogam perfeitamente com o texto. Não é por acaso que Kid Toussaint já colaborou anteriormente com artistas de renome como Miss Prickly, cocriadora de A Incrível Adele, reforçando o prestígio criativo associado à série.

Elas #1: Miúda nova, Kid Toussaint e Aveline Stokart, Bertrand Editora, 96 pp., cor, capa mole, 15,50€ 

20 de janeiro de 2026

“Tamém Digo! – Somos Todos Emigrantes”: um livro ilustrado que dá rosto à emigração portuguesa

A Iguana abre o ano editorial com um lançamento marcado pela memória, pela ternura e pela justiça histórica. Tamém Digo! – Somos Todos Emigrantes, de Jorge Pinto, com ilustrações de Julia da Costa, chega hoje às livrarias e propõe um olhar íntimo e colectivo sobre a emigração portuguesa, através da história de uma mulher comum — e, por isso mesmo, extraordinária: a Avó Carmo.

O livro parte de uma declaração simples e profundamente afectiva: “Ando há muitos anos para vos falar da minha avó.” A partir daí, Jorge Pinto — deputado da Assembleia da República e neto — constrói uma narrativa biográfica que ultrapassa o âmbito familiar para se tornar espelho de milhares de histórias semelhantes. Maria do Carmo nasceu numa aldeia do Norte de Portugal, cresceu entre privações, emigrou para França nos anos 1960 e, como tantos outros, viveu entre a promessa do regresso e a dureza do quotidiano longe de casa.

Entre o testemunho pessoal e a memória colectiva, Tamém Digo! retrata uma época decisiva da história contemporânea portuguesa: a emigração em massa, as casas deixadas a meio, os filhos criados entre dois países, os afectos suspensos e os regressos muitas vezes adiados. A escrita de Jorge Pinto é honesta, próxima e contida, recusando o dramatismo fácil para dar lugar a uma emoção que nasce do reconhecimento — o reconhecimento de vidas que raramente entraram nos livros de História.

As ilustrações de Julia da Costa acrescentam uma camada sensível e poética ao texto. Com traço delicado e expressivo, acompanham a narrativa sem a sobrepor, ampliando o silêncio, o trabalho árduo e a dignidade destas vidas anónimas. O resultado é um livro ilustrado que dialoga com leitores de diferentes gerações, capaz de tocar quem viveu a emigração e quem dela apenas herdou as memórias.

Mais do que uma biografia, Tamém Digo! – Somos Todos Emigrantes é uma homenagem às mães e avós que trabalharam até à exaustão, que sonharam pouco mas sentiram muito, e que sustentaram famílias inteiras com o seu esforço invisível. É também um lembrete da urgência de preservar a memória colectiva, sobretudo quando ela pertence aos que nunca tiveram voz pública.

Neste lançamento, a Iguana apresenta um livro que não só celebra a força da memória, como reafirma uma ideia simples e poderosa: é nas vidas anónimas que bate o verdadeiro coração de um povo.\

Tamém Digo! – Somos Todos Emigrantes, Julia da Costa e Jorge Pinto, Iguana, 128 pp., cor, capa dura, 19,95€

19 de janeiro de 2026

O Gosto pelo Cloro

O Gosto do Cloro é uma obra com um poder de encantar silencioso. O autor Bastien Vivès mergulha-nos nas águas tranquilas de uma piscina, mas é ali, naquele espaço aparentemente pacífico, que se desenrola uma das histórias de sedução mais delicadas e inquietantes que o mundo dos quadradinhos já viu.

Originalmente publicado em 2008, o livro narra o encontro entre dois jovens (cujo nome nunca é revelado), que se cruzam na piscina de uma forma simples, mas carregada de simbolismo. Ele nada por recomendação médica, tentando melhorar a sua saúde; ela, uma antiga campeã de natação, um pouco misteriosa e reservada, vai ajudá-lo a aperfeiçoar a sua técnica. No entanto, entre as braçadas e o toque da água, algo mais começa a nascer: uma relação subtil, onde o desejo e a sedução se misturam com a calma e a fluidez das águas.

A narrativa não é apenas sobre a técnica da natação, mas sobre os gestos, os olhares e os pequenos momentos de vulnerabilidade que se revelam entre os dois personagens. Vivès, através do seu estilo gráfico simples mas extremamente expressivo, consegue capturar a tensão emocional e a ambiguidade que existe entre eles. O desenrolar da história é pausado, quase como a própria sensação de flutuar na água, mantendo o leitor suspenso, imerso numa atmosfera de intimidade silenciosa e desejo não expresso.

A leveza da história contrasta com o que ela evoca. Ao longo da leitura, somos levados a questionar: o que acontece quando as emoções se misturam com os nossos corpos, como acontece na água? Como pode o simples contacto físico tornar-se algo mais profundo e inquietante? Este é um tema recorrente na obra de Vivès, que sabe exatamente como tornar simples momentos em experiências complexas.

Bastien Vivès é um autor com enorme notoriedade e, em Portugal, várias das suas obras foram publicadas. Além de O Gosto do Cloro, podemos encontrar Polina, Uma Irmã e dois álbuns hors-serie de Corto Maltese.

O Gosto do Cloro foi um marco na carreira de Vivès, recebendo diversos prémios e reconhecimento internacional. Entre os prémios que a obra recebeu, destacam-se:

Prix des Libraires (2009) – Um dos mais prestigiados prémios de banda desenhada em França;

Angoulême (2009) – A nomeação para o Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême é uma das maiores distinções que uma obra de banda desenhada pode alcançar.

O Gosto pelo Cloro, Bastien Vivés, 144 pp., cor, capa dura, 22€

18 de janeiro de 2026

Old Pa Anderson + Redenção: Hermann revisita o Oeste com maturidade e desencanto

A Arte de Autor lança este mês em Portugal o volume duplo Old Pa Anderson + Redenção, reunindo duas obras marcantes da fase mais madura de Hermann, em colaboração com o seu filho e argumentista habitual, Yves H.. Trata-se de uma edição que permite revisitar um western profundamente crepuscular, onde o mito da fronteira americana é desconstruído com brutal honestidade e um olhar profundamente humano.

Publicadas originalmente no final da década de 1990 e início dos anos 2000, estas histórias surgem num momento em que Hermann já se afastara definitivamente do western clássico de aventura que ajudara a popularizar com Comanche. Aqui, o Oeste é um espaço de desgaste moral, violência banalizada e personagens esmagadas pelo peso do tempo e das escolhas feitas.

Old Pa Anderson apresenta-nos uma figura central que se afasta deliberadamente do herói tradicional do género. Anderson é um velho colono, duro, autoritário e profundamente marcado por uma vida de sobrevivência num território hostil. A relação com os filhos é tensa, construída sobre ressentimentos, silêncio e violência latente.

Na altura do lançamento original, a crítica destacou a complexidade psicológica das personagens e a recusa de qualquer romantização do Oeste. Old Pa Anderson foi frequentemente descrito como um retrato implacável da figura patriarcal, onde a autoridade se confunde com tirania e onde a família surge como mais um campo de batalha.

Graficamente, Hermann apresenta aqui um desenho mais rugoso e expressivo, com cenários áridos que refletem o vazio emocional das personagens. A paisagem deixa de ser mero pano de fundo para se tornar parte integrante do drama.

Redenção funciona como prolongamento temático e emocional da primeira história, aprofundando as consequências da violência e da herança moral deixada por Anderson. Se o primeiro volume é marcado pelo conflito, o segundo mergulha na culpa, no remorso e na impossibilidade de verdadeira redenção.

Aquando da sua publicação original, muitos críticos sublinharam o tom quase trágico da narrativa, aproximando-a mais do drama psicológico do que do western tradicional. Yves H. constrói um argumento contido, onde os silêncios são tão importantes quanto os diálogos, e onde cada ato de violência deixa marcas irreversíveis.


A crítica da época reconheceu em Redenção uma obra dura, desconfortável, mas profundamente coerente, destacando a maturidade da dupla Hermann/Yves H. e a sua capacidade de usar o western como veículo para uma reflexão universal sobre responsabilidade e herança moral.

O volume duplo agora publicado pela Arte de Autor permite ler estas duas histórias como um todo coeso, reforçando a ideia de que estamos perante um western de desconstrução, onde não há espaço para heroísmo fácil nem para finais conciliatórios.

Na altura do lançamento original, estas obras dividiram leitores mais nostálgicos, mas foram amplamente elogiadas pela crítica especializada, que viu nelas a afirmação definitiva de Hermann como um autor que recusava repetir fórmulas e que preferia arriscar narrativamente, mesmo à custa do conforto do leitor.

Com este lançamento, a Arte de Autor continua o seu trabalho de recuperação e valorização da obra de Hermann em Portugal, oferecendo ao público uma edição que sublinha a relevância contemporânea destas histórias. Old Pa Anderson + Redenção é um livro exigente, sombrio e profundamente humano — uma leitura incontornável para quem vê na banda desenhada não apenas entretenimento, mas também um espaço de reflexão sobre a condição humana.

Mais do que um western, esta é uma história sobre pais e filhos, sobre a violência herdada e sobre a difícil — e muitas vezes impossível — ideia de redenção.

Old Pa Anderson + Redenção, Hermann e Yves H., Arte de Autor, capa dura, cor

17 de janeiro de 2026

Tokyo Revengers - Ensaio de quadriculografia portuguesa

Ficha técnica:

Manga Shõnen, 
(Japão) Weekly Shōnen Magazine, 1 de março de 2017 – 16 de novembro de 2022 (31 volumes)
Ken Wakui

Estreia em Portugal: Distrito Manga, Julho de 2024

A história acompanha Takemichi Hanagaki, um jovem adulto cuja vida é marcada por fracassos e arrependimentos. Ao descobrir que Hinata Tachibana, a única namorada que teve no liceu, morreu num conflito envolvendo a violenta gangue Tokyo Manji (Toman), Takemichi é misteriosamente enviado 12 anos ao passado, para a época em que era estudante.

Percebendo que consegue regressar ao presente sempre que aperta a mão de Naoto, o irmão mais novo de Hinata, Takemichi decide usar esta capacidade para alterar o curso dos acontecimentos, tentando salvar Hinata e impedir que a Toman se transforme numa organização criminosa sem escrúpulos.

Ao infiltrar-se no mundo das gangues juvenis de Tóquio, Takemichi enfrenta lutas brutais, rivalidades internas e escolhas morais difíceis, enquanto descobre que pequenas mudanças no passado podem ter consequências devastadoras no futuro. No centro da narrativa estão temas como amizade, lealdade, redenção e o peso das decisões, que fazem de Tokyo Revengers muito mais do que uma simples história de delinquentes.

Ensaio de quadriculografia portuguesa:
  1. Tokyo Revengers #1 [2024]
  2. Tokyo Revengers #2 [2024]
  3. Tokyo Revengers #3 [2024]
  4. Tokyo Revengers #4 [2024]
  5. Tokyo Revengers #5 [2025]
  6. [2025]
  7. Tokyo Revengers #7 [2025]
  8. Tokyo Revengers #8 [2026]
[actualizado em 17.01.2025]