6 de março de 2026

Cartoon Xira regressa a Vila Franca de Xira com quase 220 cartoons e destaque para Maria Picassó

A cidade de Vila Franca de Xira volta a receber um dos mais relevantes eventos de humor gráfico em Portugal. A 27.ª edição da Cartoon Xira abre portas no próximo sábado, n’O Celeiro da Patriarcal, reunindo cerca de 220 cartoons de 110 artistas portugueses numa exposição que promete revisitar a actualidade através da sátira, da crítica social e do humor.

Com curadoria do cartoonista António Antunes, a mostra apresenta os “Cartoons do Ano 2025”, uma seleção que reflecte os acontecimentos mais marcantes do último ano através do olhar atento e irónico de alguns dos principais nomes do cartoon nacional. Entre os artistas presentes encontram-se André Carrilho, António Maia, Cristina Sampaio, Henrique Monteiro, João Fazenda, Nuno Saraiva, Pedro Ferreira, Pedro Silva, Rodrigo de Matos e Vasco Gargalo, entre muitos outros.

Como é habitual, a Cartoon Xira propõe uma viagem pela actualidade política, social e cultural, explorando o poder do desenho satírico enquanto forma de comentário e reflexão crítica sobre o mundo contemporâneo.

Além da exposição colectiva, esta edição conta com uma mostra dedicada à artista espanhola Maria Picassó (1983). Natural de Manresa, na Catalunha, Picassó tem formação em arquitectura e destaca-se pelo seu traço depurado e por uma abordagem contemporânea à caricatura.

Ao longo da sua carreira, conquistou reconhecimento internacional, incluindo a Medalha de Prata nos World Humour Awards (2022) e dois Prémios Bronze ÑH – Design de Imprensa na Península Ibérica (2015 e 2021). Em 2019, integrou também o júri do prestigiado World Press Cartoon.

Reconhecida a nível nacional e internacional, a Cartoon Xira tem-se afirmado como um espaço privilegiado para a divulgação do cartoon e da caricatura, reunindo artistas e públicos em torno do humor gráfico. A exposição oferece uma retrospectiva visual dos principais temas sociais, culturais e políticos da actualidade, reforçando o papel do cartoon como forma de intervenção artística e cívica.

A iniciativa, organizada pela autarquia de Vila Franca de Xira, decorre até 31 de Maio e tem entrada livre, sublinhando o compromisso do município com a promoção da cultura, da liberdade de expressão e do pensamento crítico.

Para os visitantes, será uma oportunidade de olhar para o mundo com ironia — e perceber como, muitas vezes, um simples desenho consegue dizer mais do que muitas palavras.

5 de março de 2026

Something is Killing the Children – Livro Dois: terror regressa às livrarias

A aclamada série de banda desenhada Something is Killing the Children continua a conquistar leitores em todo o mundo. Criada pelo argumentista James Tynion IV e ilustrada por Werther Dell’Edera, esta obra mistura horror, mistério e drama numa narrativa intensa que rapidamente se tornou uma das séries mais populares da editora norte-americana Boom! Studios.

Depois do sucesso do primeiro volume, os leitores podem agora continuar a acompanhar as aventuras de Erica Slaughter, a misteriosa caçadora de monstros que enfrenta criaturas responsáveis por terríveis mortes de crianças.

Desde a sua estreia em 2019 nos Estados Unidos, Something is Killing the Children tornou-se um verdadeiro fenómeno editorial. A série recebeu vários Prémios Eisner, incluindo distinções para melhor argumentista atribuídas a James Tynion IV em 2021, 2022 e 2023, bem como o prémio de Melhor Série Contínua em 2022. 

A história acompanha a jovem Erica Slaughter, enviada para pequenas cidades americanas onde crianças estão a desaparecer ou a morrer de forma inexplicável. Enquanto os adultos recusam acreditar nos relatos de monstros vindos das sombras, Erica sabe que essas criaturas existem — e está determinada a eliminá-las.

O Livro Dois continua a aprofundar o universo da série e o passado da protagonista. Nesta nova fase da narrativa, os leitores descobrem mais sobre a misteriosa Ordem de São Jorge, a organização secreta dedicada à caça de monstros, e o percurso que levou Erica a tornar-se uma das suas agentes. Este volume reúne arcos narrativos posteriores da série original e expande o mundo criado por Tynion IV, oferecendo mais acção, suspense e revelações sobre a protagonista.

Something is Killing the Children – Livro Dois, James Tynion IV e Werther Dell’Edera, Devir, 132 pp., cor, capa mole 18€




Kiki de Montparnasse — Biografia em banda desenhada de um ícone livre

Na história da arte do século XX, muitas mulheres ficaram eternizadas como musas — rostos, corpos e presenças que inspiraram artistas homens. Poucas, porém, foram reconhecidas como criadoras e protagonistas da sua própria narrativa. É precisamente essa reparação simbólica que Catel Muller e José-Louis Bocquet realizam em Kiki de Montparnasse, uma das mais marcantes biografias em banda desenhada das últimas décadas.

Publicada originalmente em 2007, a obra reconstrói a vida de Kiki de Montparnasse (Alice Prin), figura central da boémia parisiense dos anos 1920. Modelo, cantora, pintora, atriz e escritora, Kiki foi muito mais do que a célebre imagem captada por Man Ray em Le Violon d’Ingres. Foi um símbolo de liberdade feminina numa época de intensa efervescência artística.

Catel e Bocquet não optam por uma narrativa breve ou episódica. Pelo contrário, constroem um volume extenso, de fôlego quase romanesco, que acompanha Kiki desde a infância pobre até à consagração como “rainha de Montparnasse”. O traço elegante e expressivo de Catel — predominantemente a preto e branco — equilibra leveza e densidade histórica. A linha clara reforça a dimensão documental, mas nunca abdica da emoção. O argumento de Bocquet, por sua vez, articula rigor histórico e fluidez narrativa, evitando tanto a hagiografia como o sensacionalismo.

A obra recebeu o Prémio do Público no Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême em 2008, distinção que consolidou o seu estatuto no panorama europeu da BD.

Kiki de Montparnasse, Catel Muller e José-Louis Bocquet, Devir, 406 pp., p&b, capa dura, 22€

4 de março de 2026

“Bob de Moor – La ligne claire d’Hergé” – Uma homenagem definitiva a um mestre da banda desenhada

Bob de Moor – La ligne claire d’Hergé” é um livro monumental dedicado ao artista belga Bob de Moor, escrito pelo especialista em banda desenhada Gilles Ratier e publicado pela editora BD Must em finais de 2025.  Chegou-me hoje um exemplar numerado exclusivo dos Les Amis de Hergé.

Com 320 páginas em grande formato (cerca de 26,5 × 32 cm) e enriquecido com cerca de 600 ilustrações, incluindo desenhos raros, pranchas, fotografias inéditas e documentos de arquivo, este volume é considerado a biografia mais completa já editada sobre De Moor, tanto pelo seu rigor documental como pela qualidade visual.

Gilles Ratier é um jornalista e historiador da BD francês reconhecido pelo seu trabalho editorial e crítico no campo da banda desenhada. Antes desta obra, Ratier já tinha publicado biografias ilustradas de grandes figuras do meio, como Jean-Michel Charlier, o que lhe confere experiência e sensibilidade para abordar De Moor com profundidade. 

Organizado em 18 capítulos, o livro traça a trajetória humana e artística de Bob de Moor, desde os seus primeiros passos na revista Kuifje/Tintin até ao reconhecimento como um dos grandes mestres da ligne claire — o estilo de desenho caracterizado por linhas claras e precisas, sem hachuras extensivas e com forte equilíbrio entre formas e cores, cuja paternidade Hergé ajudou a definir. 

Entre os temas abordados, destacam-se:

A colaboração com Hergé e a sua importância nas aventuras de Tintin, onde De Moor foi assistente principal e elemento central nos Studios Hergé durante várias décadas.

O seu trabalho pessoal, com séries como Barelli, Cori, le Moussaillon, Monsieur Tric e Oncle Zigomar, que revelam a sua versatilidade criativa para além da obra herdada de Hergé.

As contribuições em outras séries de grande influência, como Lefranc ou Blake e Mortimer, confirmando o seu papel mais amplo no desenvolvimento da BD franco-belga. 

Memórias, fotografias e documentos inéditos da família e dos arquivos dos Studios Hergé, que permitem ao leitor ver e compreender melhor não só o artista mas também o ambiente e os métodos de trabalho da época.

Graças à colaboração com a família De Moor e ao acesso a importantes arquivos pessoais, Gilles Ratier fez mais do que documentar datas e obras: ele devolve voz a um artista fundamental, permitindo perceber a dimensão do seu trabalho e a sua contribuição essencial para uma das épocas mais ricas da história da BD. 

Bob de Moor – La ligne claire d’Hergé, Gilles Ratier, BD Must, 320 pp., cor, capa dura, 95€

2 de março de 2026

A Nossa Voz

A Nossa Voz é uma narrativa gráfica sensível e atual que dá continuidade ao universo iniciado em Um Coração, Dois Caminhos. Nesta obra, Nora Dåsnes volta a centrar-se na adolescência precoce, explorando com autenticidade as emoções, as dúvidas e as descobertas próprias dos 12 anos.

A história acompanha Bao, uma jovem determinada e atenta ao mundo que a rodeia. Juntamente com as suas melhores amigas, Tuva e Linnéa, decide organizar um protesto para defender uma floresta ameaçada. O gesto nasce de uma inquietação genuína: a percepção de que os adultos nem sempre escutam — ou valorizam — as preocupações dos mais novos.

Ao longo da narrativa, a autora coloca questões pertinentes:

Conseguirão os jovens fazer-se ouvir?

Os colegas, como Abdi e os restantes rapazes da escola, compreendem verdadeiramente a urgência da causa ambiental?

Como se constrói coragem para enfrentar a indiferença?

Mais do que uma história sobre ambiente, o livro é um retrato delicado da formação da identidade. Bao aprende que o activismo não é apenas erguer cartazes, mas também dialogar, persistir e aceitar que a mudança exige tempo e união. A amizade entre as três protagonistas funciona como alicerce emocional, mostrando que o crescimento é mais seguro quando partilhado.

A linguagem visual — característica das novelas gráficas — reforça a intensidade emocional da narrativa. As expressões das personagens, o uso da cor e a composição das páginas traduzem inseguranças, entusiasmo e frustração com grande proximidade, tornando a leitura acessível e envolvente.

Recomendada para leitores em idade pré-adolescente e juvenil, A Nossa Voz destaca-se como uma obra que incentiva à reflexão crítica e à participação activa na sociedade. É um livro que transmite uma mensagem clara: a idade não limita o impacto da nossa voz — quando falamos com convicção, podemos contribuir para transformar o mundo.

A Nossa Voz, Nora Dåsnes, Nuvem de Letras, 240 pp., cor, capa mole, 15,95€

27 de fevereiro de 2026

Boa Noite, Punpun #5

O quinto volume de Boa Noite, Punpun (Oyasumi Punpun), de Inio Asano, continua a explorar com crueza e sensibilidade os abismos emocionais do seu protagonista, numa das séries mais marcantes do mangá contemporâneo.

Publicado originalmente no Japão em 2010, pela editora Shogakukan, este volume coloca Punpun num momento de aparente estabilidade que rapidamente se revela frágil. Depois de reencontrar Sachi, Punpun acredita finalmente ter encontrado um lugar no mundo — alguém que lhe oferece a ilusão de normalidade e pertença. No entanto, um acidente inesperado afasta-os, empurrando-o novamente para o isolamento e para o desespero que têm marcado o seu percurso.

À medida que a sua vida actual se desmorona, Punpun vê-se obrigado a confrontar os próprios limites emocionais e a sensação persistente de fracasso. Ainda assim, no meio da escuridão, surgem indícios de mudança: sinais subtis de um novo mundo possível, menos opressivo, ainda que longe de ser plenamente luminoso.

Este volume destaca-se pelo equilíbrio entre desesperança e expectativa, reforçando a identidade única da obra de Inio Asano — uma narrativa profundamente humana, desconfortável e honesta, que recusa respostas fáceis. Boa Noite, PunpunVolume 5 confirma a maturidade da série e prepara o leitor para transformações decisivas na trajectória do protagonista.

Boa Noite, Punpun #5, Inio Asano, Devir, 432 pp., p&b, capa mole, 20€