19 de abril de 2026

“Um Feiticeiro de Terramar” ganha nova vida em romance gráfico pela Relógio d’Água

A obra incontornável da fantasia moderna, Um Feiticeiro de Terramar, de Ursula K. Le Guin, regressa agora às livrarias portuguesas numa nova forma: um romance gráfico que reinterpreta visualmente a jornada de Ged, o mais poderoso feiticeiro do arquipélago de Terramar.

Publicada pela Relógio d’Água, esta adaptação conta com argumento e ilustração de Fred Fordham, conhecido por transpor grandes clássicos da literatura para o formato de banda desenhada. O resultado é uma obra que mantém a essência filosófica e simbólica do original, ao mesmo tempo que a torna mais acessível a novos públicos.

Publicado originalmente em 1968, Um Feiticeiro de Terramar é o primeiro volume do ciclo Terramar e acompanha a juventude de Ged — outrora conhecido como Gavião —, cuja ambição e sede de conhecimento o levam a libertar uma força sombria que ameaça o equilíbrio do mundo. A narrativa acompanha o seu percurso de aprendizagem, redenção e autoconhecimento, temas centrais na obra de Le Guin

Na adaptação gráfica, Fred Fordham traduz esse universo denso e poético para uma linguagem visual marcada por paisagens amplas e um forte sentido cinematográfico. As ilustrações destacam-se pela atenção ao detalhe e pela construção atmosférica, captando tanto a grandiosidade do mundo de Terramar como o conflito interior do protagonista. Mais do que uma simples transposição, esta edição propõe uma nova leitura da obra, onde o ritmo visual e a composição gráfica reforçam o drama pessoal de Ged e a dimensão simbólica da história. A dureza do mundo, as leis da magia e o equilíbrio entre luz e sombra são explorados com um realismo que aproxima o leitor contemporâneo da narrativa clássica.

Com 288 páginas, esta versão em banda desenhada posiciona-se como uma porta de entrada para novos leitores, sem deixar de oferecer uma experiência enriquecedora para os fãs da saga. A publicação confirma também a relevância contínua da obra de Ursula K. Le Guin, frequentemente considerada uma das vozes mais influentes da literatura fantástica do século XX, e demonstra como os grandes clássicos continuam a reinventar-se através de novas linguagens e formatos.

Um Feiticeiro de Terramar, Fred Fordham, Relógio d'Água, 288 pp., cor, capa mole, 24€

18 de abril de 2026

Wild West #4: A lama e o sangue

O quarto volume da série Wild West, intitulado A Lama e o Sangue, marca a conclusão do segundo díptico desta saga de western criada por Thierry Gloris e ilustrada por Jacques Lamontagne. Publicado em Portugal pela Ala dos Livros, este álbum reforça a ambição da série: revisitar o mito do Velho Oeste com um olhar crítico, denso e historicamente consciente.  

Longe da visão romantizada do western clássico, A Lama e o Sangue mergulha num território moralmente ambíguo. A narrativa acompanha figuras lendárias como Wild Bill Hickok, Calamity Jane e Charlie Utter, que continuam a perseguição a um assassino misterioso cuja história pessoal — marcada por violência e trauma — reflete o próprio ambiente brutal do Oeste.  

Neste volume, o passado do antagonista ganha relevância: terá sido vítima de um ataque indígena em criança, perdendo os pais e sendo escalpelado. Este detalhe não serve apenas como elemento dramático, mas como chave temática — a violência não surge como exceção, mas como herança inevitável de um território em conflito permanente.  

Um dos elementos mais interessantes do álbum é a forma como integra acontecimentos e tensões históricas. A presença dos Buffalo Soldiers — soldados afro-americanos contratados para proteger a expansão ferroviária — introduz uma camada adicional de crítica social. A obra expõe a ironia de uma nação que, proclamando liberdade, instrumentaliza minorias oprimidas contra outras comunidades igualmente marginalizadas.  

A narrativa ganha ainda mais peso quando a construção da linha férrea leva à destruição de um cemitério sagrado indígena, desencadeando novas tensões. Este episódio sintetiza um dos temas centrais da série: o progresso como força violenta, que avança à custa da memória, da cultura e da dignidade humana.  

O trabalho gráfico de Lamontagne continua a ser um dos grandes trunfos da série. Com traço detalhado e uma paleta que privilegia tons terrosos e sombrios, o artista cria uma atmosfera opressiva que acompanha o tom da narrativa. A “lama” e o “sangue” do título não são apenas metáforas — estão presentes visualmente em cada página, reforçando a sensação de um mundo sujo, violento e sem redenção.

Enquanto quarto volume, A Lama e o Sangue funciona como desfecho direto dos acontecimentos iniciados no tomo anterior (Escalpes em Série). A estrutura em dípticos permite um desenvolvimento mais aprofundado das personagens e dos conflitos, culminando aqui numa resolução que privilegia o realismo e evita soluções simplistas.  

Wild West – A Lama e o Sangue confirma a série como uma das abordagens mais maduras do western contemporâneo em banda desenhada. Ao conjugar personagens históricas, rigor temático e uma visão crítica do mito americano, Gloris e Lamontagne constroem uma obra que desafia o leitor a confrontar a violência fundadora dos Estados Unidos.

Mais do que uma história de cowboys, este volume é um retrato cru de um mundo onde justiça e barbárie coexistem — e onde, muitas vezes, são indistinguíveis.

Wild West #4: A lama e o sangue, Jacques La Montagne e Thierry Gloris, Ala dos Livros, 48 pp., cor, capa dura, 17,50€

Casemate nº 200: Uma Edição de Memória, Criação e Actualidade

O número 200 da revista Casemate não se limita a assinalar um marco — celebra-o com uma edição rica, diversa e profundamente ligada à história e ao presente da banda desenhada.

Logo nas primeiras páginas, Casemate abre a sua “caixa de recordações”, convidando os leitores a revisitar momentos marcantes das suas duzentas edições. Este olhar retrospectivo sublinha o percurso da revista enquanto observadora privilegiada da evolução da 9.ª arte.

A edição destaca também criadores e obras que dialogam com o mundo actual. Pierre-Henry Gomont Harambat surge com uma abordagem sensível aos desafios do mundo agrícola, enquanto a habitual Journorama oferece uma panorâmica da actualidade da BD.

Nas páginas seguintes, L’Écho des Rézos compila o melhor das redes sociais, mostrando como a banda desenhada vive também no espaço digital.

Entre os destaques mais apetecíveis estão as antevisões de novas obras, acompanhadas de pranchas inéditas. Fabien Vehlmann e Jean-Baptiste Andreae apresentam La Cuisine des ogres, enquanto Geoffroy Delorme partilha a sua experiência singular em L’Homme-chevreuil.

Zep surpreende com Tourner la page, uma obra centrada na morte de um escritor célebre, e a equipa formada por Xavier Dorison, Thomas Delahaye e Jean-Baptiste Parnotte apresenta Cauchon, num registo intenso e provocador.

Como é tradição, a revista inclui uma selecção criteriosa de 24 álbuns a descobrir, seguida de um extenso guia com 262 lançamentos, festivais e exposições, tornando este número uma ferramenta essencial para acompanhar o panorama editorial.

A segunda metade da revista continua a destacar a diversidade criativa da BD contemporânea. Jordi Lafebre Brocal leva-nos à Langue des vipères, num século XV alternativo, enquanto Teresa Radice e Stefano Turconi exploram uma caça às bruxas na França de Richelieu. O clássico Frankenstein ganha nova vida pelas mãos de Sergio Sala, mostrando como as grandes histórias continuam a ser reinventadas.

Nas páginas finais, Dano apresenta um projecto invulgar ao convidar desconhecidos a posarem nus no seu atelier, enquanto Jessica Usdin reflecte sobre um retrato de Andy Warhol assinado por Alice Neel.

Com este número 200, Casemate reafirma-se como uma publicação essencial para quem acompanha a banda desenhada. Entre memória, crítica, descoberta e antecipação, esta edição especial é um verdadeiro retrato da vitalidade e diversidade da 9.ª arte contemporânea.

Casemate #200, avril 2025, 100 pp., cor, 9,80€

17 de abril de 2026

Gannibal #6

Desde a alvorada da Humanidade que o canibalismo nos acompanha, como uma sombra alternativa da civilização. E embora pareça ter desaparecido, muitos pensam que está apenas escondido e esquecido...
Daigo Agawa, polícia citadino, é destacado para Kuge, uma vila perdida nas montanhas, para onde vai viver com a esposa e a filha, em busca de uma vida calma numa comunidade acolhedora. Mas a morte de uma idosa levanta dúvidas sobre o que realmente se passa, e sobre o misterioso desaparecimento do seu predecessor na aldeia.

Acontecimentos estranhos e inesperados, um ambiente que banha numa atmosfera angustiante de exclusão permanente e de tensão que não dá descanso... Gannibal é uma série que anuncia as suas premissas terríveis logo de entrada. Em apenas dez páginas do volume inicial chegámos ao primeiro cadáver, e o nosso protagonista, Daiwo, foi ameaçado por um dos aldeões com uma caçadeira! O desenho de Masaaki Ninomiya ajuda a criar o suspense da série, com enquadramentos apertados e que oscilam entre caras desfiguradas pelo medo ou pela emoção em grande plano, e vistas mais amplas das montanhas cheias de um silêncio pesado. 

Neste sexto volume a narrativa avança, com mais mistérios, alguns resolvidos, outros que se vão adensando, tecendo uma tapeçaria cheia de terror e suspense, enquanto continuamos inexoráveis para o desenrolar final, agora que estamos a atingir o meio da saga. Daigo Agawa, aproxima-se cada vez mais do deslindar do mistério que circunda a vila de Kuge e a família Goto. Serão eles ou não canibais? Vamos finalmente conhecer o propósito das crianças desaparecidas e que descobrimos estarem presas numa cave? E que pensar do passado de Keisuke, membro da família Goto, cuja posição oscila entre os deveres familiares e os de justiça e da moral? Não percam mais esta peça do puzzle.

Originalmente publicado na revista de mangá seinen Weekly Manga Goraku, Gannibal foi adaptado para uma série de live-action na Disney+, já com duas temporadas, e o seu décimo volume foi nomeado para o Prémio de Melhor Série do festival de Angoulême de 2023.

Masaaki Ninomiya é um mangaká que vive em Tóquio. Apesar de uma carreira relativamente curta na indústria, já foi galardoado com vários prémios que o tornaram numa das estrelas em ascensão do mangá. A sua primeira série foi Chousou no Babel, em 2016, e em 2018 começou Gannibal, a série que conquistou os corações da crítica e do público, desde a sua estreia na célebre revista Weekly Manga Goraku. A série já atingiu o número extraordinário de mais de três milhões e meio de exemplares vendidos em todo o mundo. Ninomiya destaca-se pelo seu estilo artístico poderoso e incisivo, que retrata uma atmosfera tensa e personagens complexos, numa exploração profunda da psique humana.

Gannibal #6, Masaaki Ninomiya, A Seita, 192 pp., p&b, capa mole, 11,99€

Nevada #3: Blue Canyon

A série Nevada insere-se claramente no universo do western, ainda que o faça através de uma abordagem moderna e híbrida. Escrita por Fred Duval e Jean-Pierre Pécau, com ilustração de Colin Wilson, a série revisita os códigos clássicos do género — o herói solitário, a fronteira, a violência e a sobrevivência — ao mesmo tempo que os transporta para um contexto histórico menos convencional: o início da indústria cinematográfica americana.

Embora profundamente enraizada no imaginário do Velho Oeste, Nevada não se limita a recriar os cenários tradicionais de cowboys e duelos. A série propõe uma reflexão sobre o próprio mito do western, colocando o seu protagonista, Nevada Márquez, entre dois mundos: o da memória da conquista do Oeste e o da sua recriação ficcional em Hollywood. Este enquadramento é particularmente relevante dentro da evolução do género western na banda desenhada europeia, que nas últimas décadas tem procurado reinterpretar os seus códigos, afastando-se da visão clássica e heróica para explorar dimensões mais ambíguas, sombrias e até meta-narrativas.

O terceiro volume, Blue Canyon, aprofunda esta abordagem ao cruzar o western com o thriller e o universo do cinema nascente. A história parte de um incidente aparentemente banal: durante a rodagem de um filme, um actor morre, obrigando à sua substituição. Nevada é então encarregado de escoltar o novo protagonista até ao local de filmagem — uma missão que rapidamente se transforma numa travessia perigosa por territórios hostis. Este argumento retoma elementos clássicos do western — a viagem, o perigo constante, o confronto com territórios indígenas — mas introduz uma camada adicional: a tensão entre realidade e ficção. O Oeste já não é apenas vivido, é também encenado.

Nevada #3: Blue Canyon, Colin Wilson, Fred Duval e Jean-Pierre Pécau, A Seita, 56 pp., cor, capa dura, 18,99€

16 de abril de 2026

15 de abril de 2026

Coimbra BD 2026: O regresso do grande festival de banda desenhada a Coimbra



A cidade de Coimbra volta a afirmar-se como um dos principais polos da cultura visual em Portugal com o regresso do Coimbra BD 2026. O evento decorre entre os dias 24 e 26 de Abril, no emblemático Convento São Francisco, e promete uma edição mais ambiciosa, com programação alargada e novas áreas dedicadas à banda desenhada, ilustração e cultura pop.

Com mais de 60 autores e ilustradores, tanto nacionais como internacionais, esta edição reforça o papel de Coimbra como ponto de encontro criativo. Entre os convidados destacam-se nomes portugueses como Daniel Maia — responsável pelo cartaz —, André Carrilho, João Mascarenhas e Filipe Abranches, além de artistas internacionais como Marcello Quintanilha, Ángel de la Calle e Anna Poszepczyńska.

Segundo Margarida Mendes Silva, vereadora da cultura da Câmara Municipal de Coimbra, o festival tem vindo a consolidar-se como um espaço de criação, divulgação e partilha artística, promovendo o contacto direto entre o público e os criadores.

Uma das principais novidades deste ano é o aumento da área expositiva, com a inclusão da antiga igreja do Convento São Francisco. Este novo espaço será dedicado às editoras e às sessões de autógrafos, respondendo à crescente procura por parte de artistas e público. Outra aposta forte é a expansão da área de videojogos, com destaque para produções nacionais — especialmente de estúdios locais de Coimbra —, reforçando a ligação entre a banda desenhada e outras formas de narrativa visual.

O Coimbra BD 2026 apresenta uma programação diversificada, pensada para diferentes públicos e interesses. Entre as atividades previstas estão:

Exposições e lançamentos editoriais

Workshops e oficinas de desenho

Sessões de autógrafos com autores

Exibições de cinema

Concursos de cosplay (com selecção para o MCM London)

Área dedicada a jogos de tabuleiro

Os fãs de jogos poderão experimentar títulos como “Dungeons & Dragons”, “Lorcana Winterspell”, “Azul Duel” e “Scrabble”, com demonstrações, painéis e torneios.

O primeiro dia do festival será especialmente dedicado às escolas, com actividades pedagógicas como workshops, horas do conto e apresentações. A organização reforça assim a sua missão de estimular novos públicos e incentivar o talento emergente.

Depois de receber mais de 18 mil visitantes em 2025, a organização espera manter — ou superar — esse número em 2026. O investimento municipal ronda os 54 mil euros, refletindo a crescente importância do evento no panorama cultural.

O festival decorre entre as 10h00 e as 20h00 nos dias 24 e 25 de Abril, e até às 18h00 no dia 26. A entrada é gratuita, tornando este um evento acessível a todos os interessados.

Mais do que um festival, o Coimbra BD afirma-se como um verdadeiro ponto de encontro para criadores, fãs e curiosos. Ao cruzar diferentes linguagens artísticas — da ilustração ao gaming —, o evento reforça o seu papel como motor cultural e criativo, colocando Coimbra no mapa da banda desenhada a nível nacional e internacional.