Apaixonado pela obra desde a infância, vivida em contexto francófono no Canadá, Daniel Sasportes manteve ao longo de décadas uma ligação especial ao herói belga. Essa paixão ganhou nova expressão no início dos anos 2000, quando começou a construir uma vasta colecção dedicada a Tintin. A ideia de levar o personagem ao mirandês surgiu naturalmente: “Existem edições de Tintin em muitos dialectos. Sendo o mirandês a única língua reconhecida oficialmente em Portugal, fazia todo o sentido que também tivesse a sua versão”, explica.
Reconhecido oficialmente desde 1999, o mirandês é uma língua ibero-românica falada sobretudo no nordeste transmontano, na região de Miranda do Douro. Nos últimos anos, várias iniciativas culturais têm procurado valorizar e expandir o seu uso, incluindo traduções literárias. A chegada de Tintin representa agora um marco simbólico e cultural nesse percurso.
A tradução do álbum implicou desafios significativos, sobretudo devido aos jogos de palavras e referências culturais características da escrita de Hergé. O tradutor optou por adaptar expressões e trocadilhos ao contexto cultural mirandês, procurando manter intacto o humor e o ritmo narrativo da obra original.
A escolha de Os Charutos do Faraó não foi aleatória. Este álbum assinala a primeira aparição de Oliveira da Figueira, o único personagem português recorrente na série, o que reforça o simbolismo da edição.
Quanto ao futuro, Daniel Sasportes admite que o processo foi exigente, mas não descarta a continuidade do projecto. “Às vezes, o primeiro passo é o mais difícil”, afirma, deixando em aberto a possibilidade de novas aventuras de Tintin em mirandês.
Este lançamento constitui não só uma novidade no universo tintinófilo, mas também um contributo relevante para a valorização da diversidade linguística em Portugal.

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