“Ele não está mais connosco”, afirmou Shelly Miles, recordando que o autor se encontrava gravemente doente. Scott Adams tinha revelado em 2024 que sofria de cancro da próstata em estado avançado, já com metástases nos ossos. De acordo com a ex-mulher, o cartoonista morreu em casa, no norte da Califórnia, onde se encontrava a receber cuidados paliativos.
Scott Adams entrou para a história da banda desenhada em 1989, quando criou Dilbert, uma tira centrada num engenheiro de escritório socialmente desajeitado, reconhecível pela camisa branca de manga curta, gravata vermelha e preta e pela ausência de boca — uma opção gráfica que simbolizava, segundo o próprio autor, a falta de voz dos trabalhadores no mundo empresarial. A série rapidamente se tornou um fenómeno global, satirizando com humor mordaz a burocracia, a linguagem corporativa, os chefes incompetentes e a alienação no local de trabalho.
No auge da sua popularidade, Dilbert era publicada em cerca de dois mil jornais, em mais de 70 países e traduzida para 25 línguas. Em Portugal, a tira chegou às páginas do Diário de Notícias na década de 1990, tendo sido também editada em livro primeiro pela Editorial Notícias e, mais tarde, entre 2009 e 2011, pela Asa.
O reconhecimento profissional não tardou. Em 1997, Scott Adams recebeu o Prémio Reuben, atribuído pela National Cartoonists Society, um dos mais prestigiados galardões da área. No mesmo ano, Dilbert tornou-se a primeira personagem fictícia a integrar a lista da revista Time dos norte-americanos mais influentes. Na justificação, a revista escreveu:
“Estamos a torcer por ele, porque é o porta-voz das lições que acumulámos — mas temos muito medo de expressar — no nosso esforço para evitar o homicídio ‘cubicular’.”
O sucesso da personagem ultrapassou o papel. Dilbert chegou à televisão, numa série de animação exibida no final dos anos 1990, na qual o actor Daniel Stern — conhecido por interpretar um dos ladrões nos filmes Sozinho em Casa — dava voz à personagem principal. O universo Dilbert expandiu-se ainda a produtos de merchandising, jogos de computador e outros formatos, consolidando um verdadeiro “império” mediático.
Contudo, a carreira de Scott Adams ficou profundamente marcada nos últimos anos por sucessivas declarações polémicas. Em 2023, vários jornais norte-americanos deixaram de publicar Dilbert depois de o autor ter feito comentários racistas no seu podcast, referindo-se repetidamente a pessoas negras como um “grupo de ódio” e afirmando que não “ajudaria norte-americanos negros”. Apesar de mais tarde alegar que estava a ser hiperbólico, Adams manteve e defendeu publicamente as suas posições, o que acelerou o colapso da presença da tira nos meios tradicionais.
Após esse afastamento, Scott Adams relançou a banda desenhada diária sob o nome “Dilbert Reborn”, através da plataforma de vídeo Rumble, popular entre sectores conservadores e da extrema-direita. Criou também o podcast “Real Coffee”, onde comentava temas políticos, sociais e culturais, assumindo um discurso cada vez mais polarizador.
A morte de Scott Adams encerra uma carreira simultaneamente marcante e controversa. Para muitos leitores, Dilbert permanece como um retrato certeiro e intemporal das absurdidades da vida de escritório; para outros, a figura do seu criador tornou-se inseparável das posições que assumiu nos últimos anos. Entre o génio satírico e a polémica pública, Scott Adams deixa um legado complexo, mas incontornável, na história da banda desenhada contemporânea.


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