15 de janeiro de 2026

Revoir Comanche: memória, fantasma e herança de um western europeu

Em Revoir Comanche, Romain Renard não propõe uma continuação da série Comanche, criada por Greg e Hermann, mas antes uma reflexão madura e melancólica sobre aquilo que subsiste dos mitos quando o tempo os ultrapassa. O western clássico, feito de pó, violência e grandes espaços abertos, transforma-se aqui num western interior, dominado pela memória, pelo arrependimento e pela consciência do fim.

A narrativa decorre algures no coração da região selvagem da Califórnia, no início do século XX. Longe do Wyoming das antigas proezas, Cole Hupp vive isolado do mundo, aguardando serenamente a morte. Já não é apenas o pistoleiro errante, mas um homem gasto pelo tempo e pelas escolhas. Contudo, o passado recusa esquecê-lo. A chegada de Vivienne, uma jovem bibliotecária interessada em compreender as realidades do Velho Oeste, quebra a rotina solitária de Hupp. Ela conhece o seu verdadeiro nome: Red Dust, uma lenda gravada no pó e no sangue.

Vivienne traz consigo notícias inquietantes. O rancho Triple 6, cenário central da série original e espaço simbólico da resistência e da determinação de Comanche, deixou de responder. Esse silêncio pesa mais do que qualquer tiroteio. Para Red Dust, significa que aquilo que tentou deixar para trás — pessoas, lugares, decisões — exige agora um acerto final. O velho cowboy não tem alternativa senão regressar ao seu passado.

Na série de Greg e Hermann, Red Dust era a encarnação do pistoleiro solitário: eficaz, seco, sempre de passagem. A sua moralidade definia-se na acção e no confronto directo. Em Revoir Comanche, Romain Renard transforma essa figura numa presença imóvel, quase espectral, à espera do fim, cuja lenda já não coincide com o corpo envelhecido que a sustenta.

A viagem que Red Dust empreende é menos uma travessia geográfica do que uma viagem no tempo, povoada por fantasmas e erros irreparáveis. Antigos inimigos regressam, movidos por uma sede de vingança que demonstra que a violência nunca desaparece verdadeiramente: apenas permanece à espera.

Se Red Dust sempre foi o homem que parte, Comanche foi, desde o início, a que fica. Na série original, representava o enraizamento, a força de carácter e uma figura feminina de autoridade num universo predominantemente masculino. Em Revoir Comanche, Comanche surge sobretudo como ausência, mas uma ausência estruturante. Não é apenas uma personagem evocada, mas um horizonte moral e emocional que orienta todo o percurso de Red Dust.

A personagem de Vivienne desempenha um papel essencial nesta releitura. Enquanto bibliotecária, representa o olhar do presente sobre o passado, o desejo de compreender, catalogar e preservar aquilo que já não pode ser vivido. Através dela, Renard questiona o estatuto da lenda e da memória: o que se perde quando a vida se transforma em história? O que permanece quando os protagonistas desaparecem?

Vivienne não idolatra Red Dust; interroga-o. Não o julga; observa-o. É ela que força o confronto entre o homem real e o mito que o sobrevive.

Ao contrário do western clássico de Hermann, marcado por uma forte fisicalidade e por uma narrativa directa, Romain Renard adopta uma abordagem introspectiva, fragmentada e contemplativa. Revoir Comanche é uma obra sobre o peso do passado, sobre a impossibilidade do verdadeiro regresso e sobre a transformação dos heróis em vestígios.

No final, Red Dust prepara-se para um último reencontro com Comanche, não como a lenda do Wyoming, mas como um homem consciente das perdas e do arrependimento. O western deixa de ser um género de conquista para se tornar um género de luto e despedida.

Revoir Comanche, Romain Renard, ASA, 152 pp., cor, capa dura, 26,90€




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