15 de janeiro de 2026

A Odisseia em romance gráfico: o épico de Homero reinventado por Gareth Hinds

Poucas obras da literatura ocidental atravessaram os séculos com a vitalidade de A Odisseia, de Homero. Poema fundador, relato de aventura, reflexão sobre identidade, astúcia e sobrevivência, a viagem de Ulisses continua a ser revisitada, traduzida e reinterpretada em múltiplas linguagens artísticas. Em Janeiro, esse legado ganha uma nova expressão com a chegada às livrarias portuguesas da adaptação em romance gráfico assinada por Gareth Hinds, numa edição da Bertrand Editora.

Este lançamento, marcado para hoje, insere-se numa tendência crescente de reaproximação dos clássicos literários através da banda desenhada, mas destaca-se pela ambição estética e narrativa. Com mais de 200 páginas, A Odisseia de Gareth Hinds não é uma simples “versão ilustrada” do texto original: trata-se de uma recriação visual autónoma, onde a imagem assume frequentemente o protagonismo absoluto, dispensando palavras para transmitir tensão, emoção e grandeza épica.

Conhecido pelo seu trabalho consistente na adaptação de clássicos — como Beowulf, Macbeth ou The IliadGareth Hinds consolidou uma linguagem própria no romance gráfico literário. Em A Odisseia, o autor opta por uma representação deliberadamente não realista. Embora sustentada por investigação histórica, a obra afasta-se de uma reconstrução arqueológica rigorosa do mundo micénico, privilegiando antes uma estética que reforça o carácter mítico e intemporal da narrativa.

Essa escolha revela-se particularmente eficaz num texto onde deuses intervêm no destino dos homens, monstros habitam mares desconhecidos e a realidade se mistura constantemente com o fantástico. As cores, a composição das páginas e o ritmo visual acompanham as mudanças de tom da narrativa — da violência dos combates à melancolia da errância, da sedução das sereias ao regresso tenso e silencioso a Ítaca.

Uma das virtudes centrais desta adaptação reside no equilíbrio entre respeito pelo texto homérico e liberdade criativa. Hinds mantém os grandes episódios da epopeia — o Ciclope Polifemo, Circe, o Hades, as Sereias, Calipso, o massacre dos pretendentes — mas reorganiza e sintetiza o material narrativo de forma a funcionar plenamente no formato gráfico.

A fidelidade não é literal, mas conceptual: o romance gráfico preserva o espírito épico, o tema da astúcia como arma fundamental de Ulisses, a saudade de casa, a tensão entre destino e livre-arbítrio. Para novos leitores, esta versão funciona como porta de entrada acessível ao mito; para leitores já familiarizados com Homero, oferece uma leitura renovada, que convida a redescobrir a história através da força da imagem.

Antes de chegar ao mercado português, The Odyssey de Gareth Hinds foi publicada em vários países, integrando catálogos dedicados à adaptação de clássicos para públicos juvenis e adultos. Em contexto anglo-saxónico, a obra foi frequentemente elogiada pela clareza narrativa e pela capacidade de condensar um texto complexo sem o empobrecer.

A edição portuguesa da Bertrand Editora vem juntar-se a outras iniciativas editoriais que procuram aproximar a banda desenhada do cânone literário, colocando-a não como género menor, mas como linguagem artística capaz de dialogar com os grandes textos da tradição.

A Odisseia, Gareth Hinds, Bertrand Editora, 256 pp., cor, capa dura, 22.20€

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