20 de janeiro de 2026

“Tamém Digo! – Somos Todos Emigrantes”: um livro ilustrado que dá rosto à emigração portuguesa

A Iguana abre o ano editorial com um lançamento marcado pela memória, pela ternura e pela justiça histórica. Tamém Digo! – Somos Todos Emigrantes, de Jorge Pinto, com ilustrações de Julia da Costa, chega hoje às livrarias e propõe um olhar íntimo e colectivo sobre a emigração portuguesa, através da história de uma mulher comum — e, por isso mesmo, extraordinária: a Avó Carmo.

O livro parte de uma declaração simples e profundamente afectiva: “Ando há muitos anos para vos falar da minha avó.” A partir daí, Jorge Pinto — deputado da Assembleia da República e neto — constrói uma narrativa biográfica que ultrapassa o âmbito familiar para se tornar espelho de milhares de histórias semelhantes. Maria do Carmo nasceu numa aldeia do Norte de Portugal, cresceu entre privações, emigrou para França nos anos 1960 e, como tantos outros, viveu entre a promessa do regresso e a dureza do quotidiano longe de casa.

Entre o testemunho pessoal e a memória colectiva, Tamém Digo! retrata uma época decisiva da história contemporânea portuguesa: a emigração em massa, as casas deixadas a meio, os filhos criados entre dois países, os afectos suspensos e os regressos muitas vezes adiados. A escrita de Jorge Pinto é honesta, próxima e contida, recusando o dramatismo fácil para dar lugar a uma emoção que nasce do reconhecimento — o reconhecimento de vidas que raramente entraram nos livros de História.

As ilustrações de Julia da Costa acrescentam uma camada sensível e poética ao texto. Com traço delicado e expressivo, acompanham a narrativa sem a sobrepor, ampliando o silêncio, o trabalho árduo e a dignidade destas vidas anónimas. O resultado é um livro ilustrado que dialoga com leitores de diferentes gerações, capaz de tocar quem viveu a emigração e quem dela apenas herdou as memórias.

Mais do que uma biografia, Tamém Digo! – Somos Todos Emigrantes é uma homenagem às mães e avós que trabalharam até à exaustão, que sonharam pouco mas sentiram muito, e que sustentaram famílias inteiras com o seu esforço invisível. É também um lembrete da urgência de preservar a memória colectiva, sobretudo quando ela pertence aos que nunca tiveram voz pública.

Neste lançamento, a Iguana apresenta um livro que não só celebra a força da memória, como reafirma uma ideia simples e poderosa: é nas vidas anónimas que bate o verdadeiro coração de um povo.\

Tamém Digo! – Somos Todos Emigrantes, Julia da Costa e Jorge Pinto, Iguana, 128 pp., cor, capa dura, 19,95€

19 de janeiro de 2026

O Gosto pelo Cloro

O Gosto do Cloro é uma obra com um poder de encantar silencioso. O autor Bastien Vivès mergulha-nos nas águas tranquilas de uma piscina, mas é ali, naquele espaço aparentemente pacífico, que se desenrola uma das histórias de sedução mais delicadas e inquietantes que o mundo dos quadradinhos já viu.

Originalmente publicado em 2008, o livro narra o encontro entre dois jovens (cujo nome nunca é revelado), que se cruzam na piscina de uma forma simples, mas carregada de simbolismo. Ele nada por recomendação médica, tentando melhorar a sua saúde; ela, uma antiga campeã de natação, um pouco misteriosa e reservada, vai ajudá-lo a aperfeiçoar a sua técnica. No entanto, entre as braçadas e o toque da água, algo mais começa a nascer: uma relação subtil, onde o desejo e a sedução se misturam com a calma e a fluidez das águas.

A narrativa não é apenas sobre a técnica da natação, mas sobre os gestos, os olhares e os pequenos momentos de vulnerabilidade que se revelam entre os dois personagens. Vivès, através do seu estilo gráfico simples mas extremamente expressivo, consegue capturar a tensão emocional e a ambiguidade que existe entre eles. O desenrolar da história é pausado, quase como a própria sensação de flutuar na água, mantendo o leitor suspenso, imerso numa atmosfera de intimidade silenciosa e desejo não expresso.

A leveza da história contrasta com o que ela evoca. Ao longo da leitura, somos levados a questionar: o que acontece quando as emoções se misturam com os nossos corpos, como acontece na água? Como pode o simples contacto físico tornar-se algo mais profundo e inquietante? Este é um tema recorrente na obra de Vivès, que sabe exatamente como tornar simples momentos em experiências complexas.

Bastien Vivès é um autor com enorme notoriedade e, em Portugal, várias das suas obras foram publicadas. Além de O Gosto do Cloro, podemos encontrar Polina, Uma Irmã e dois álbuns hors-serie de Corto Maltese.

O Gosto do Cloro foi um marco na carreira de Vivès, recebendo diversos prémios e reconhecimento internacional. Entre os prémios que a obra recebeu, destacam-se:

Prix des Libraires (2009) – Um dos mais prestigiados prémios de banda desenhada em França;

Angoulême (2009) – A nomeação para o Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême é uma das maiores distinções que uma obra de banda desenhada pode alcançar.

O Gosto pelo Cloro, Bastien Vivés, 144 pp., cor, capa dura, 22€

18 de janeiro de 2026

Old Pa Anderson + Redenção: Hermann revisita o Oeste com maturidade e desencanto

A Arte de Autor lança este mês em Portugal o volume duplo Old Pa Anderson + Redenção, reunindo duas obras marcantes da fase mais madura de Hermann, em colaboração com o seu filho e argumentista habitual, Yves H.. Trata-se de uma edição que permite revisitar um western profundamente crepuscular, onde o mito da fronteira americana é desconstruído com brutal honestidade e um olhar profundamente humano.

Publicadas originalmente no final da década de 1990 e início dos anos 2000, estas histórias surgem num momento em que Hermann já se afastara definitivamente do western clássico de aventura que ajudara a popularizar com Comanche. Aqui, o Oeste é um espaço de desgaste moral, violência banalizada e personagens esmagadas pelo peso do tempo e das escolhas feitas.

Old Pa Anderson apresenta-nos uma figura central que se afasta deliberadamente do herói tradicional do género. Anderson é um velho colono, duro, autoritário e profundamente marcado por uma vida de sobrevivência num território hostil. A relação com os filhos é tensa, construída sobre ressentimentos, silêncio e violência latente.

Na altura do lançamento original, a crítica destacou a complexidade psicológica das personagens e a recusa de qualquer romantização do Oeste. Old Pa Anderson foi frequentemente descrito como um retrato implacável da figura patriarcal, onde a autoridade se confunde com tirania e onde a família surge como mais um campo de batalha.

Graficamente, Hermann apresenta aqui um desenho mais rugoso e expressivo, com cenários áridos que refletem o vazio emocional das personagens. A paisagem deixa de ser mero pano de fundo para se tornar parte integrante do drama.

Redenção funciona como prolongamento temático e emocional da primeira história, aprofundando as consequências da violência e da herança moral deixada por Anderson. Se o primeiro volume é marcado pelo conflito, o segundo mergulha na culpa, no remorso e na impossibilidade de verdadeira redenção.

Aquando da sua publicação original, muitos críticos sublinharam o tom quase trágico da narrativa, aproximando-a mais do drama psicológico do que do western tradicional. Yves H. constrói um argumento contido, onde os silêncios são tão importantes quanto os diálogos, e onde cada ato de violência deixa marcas irreversíveis.


A crítica da época reconheceu em Redenção uma obra dura, desconfortável, mas profundamente coerente, destacando a maturidade da dupla Hermann/Yves H. e a sua capacidade de usar o western como veículo para uma reflexão universal sobre responsabilidade e herança moral.

O volume duplo agora publicado pela Arte de Autor permite ler estas duas histórias como um todo coeso, reforçando a ideia de que estamos perante um western de desconstrução, onde não há espaço para heroísmo fácil nem para finais conciliatórios.

Na altura do lançamento original, estas obras dividiram leitores mais nostálgicos, mas foram amplamente elogiadas pela crítica especializada, que viu nelas a afirmação definitiva de Hermann como um autor que recusava repetir fórmulas e que preferia arriscar narrativamente, mesmo à custa do conforto do leitor.

Com este lançamento, a Arte de Autor continua o seu trabalho de recuperação e valorização da obra de Hermann em Portugal, oferecendo ao público uma edição que sublinha a relevância contemporânea destas histórias. Old Pa Anderson + Redenção é um livro exigente, sombrio e profundamente humano — uma leitura incontornável para quem vê na banda desenhada não apenas entretenimento, mas também um espaço de reflexão sobre a condição humana.

Mais do que um western, esta é uma história sobre pais e filhos, sobre a violência herdada e sobre a difícil — e muitas vezes impossível — ideia de redenção.

Old Pa Anderson + Redenção, Hermann e Yves H., Arte de Autor, capa dura, cor

17 de janeiro de 2026

Tokyo Revengers - Ensaio de quadriculografia portuguesa

Ficha técnica:

Manga Shõnen, 
(Japão) Weekly Shōnen Magazine, 1 de março de 2017 – 16 de novembro de 2022 (31 volumes)
Ken Wakui

Estreia em Portugal: Distrito Manga, Julho de 2024

A história acompanha Takemichi Hanagaki, um jovem adulto cuja vida é marcada por fracassos e arrependimentos. Ao descobrir que Hinata Tachibana, a única namorada que teve no liceu, morreu num conflito envolvendo a violenta gangue Tokyo Manji (Toman), Takemichi é misteriosamente enviado 12 anos ao passado, para a época em que era estudante.

Percebendo que consegue regressar ao presente sempre que aperta a mão de Naoto, o irmão mais novo de Hinata, Takemichi decide usar esta capacidade para alterar o curso dos acontecimentos, tentando salvar Hinata e impedir que a Toman se transforme numa organização criminosa sem escrúpulos.

Ao infiltrar-se no mundo das gangues juvenis de Tóquio, Takemichi enfrenta lutas brutais, rivalidades internas e escolhas morais difíceis, enquanto descobre que pequenas mudanças no passado podem ter consequências devastadoras no futuro. No centro da narrativa estão temas como amizade, lealdade, redenção e o peso das decisões, que fazem de Tokyo Revengers muito mais do que uma simples história de delinquentes.

Ensaio de quadriculografia portuguesa:
  1. Tokyo Revengers #1 [2024]
  2. Tokyo Revengers #2 [2024]
  3. Tokyo Revengers #3 [2024]
  4. Tokyo Revengers #4 [2024]
  5. Tokyo Revengers #5 [2025]
  6. [2025]
  7. Tokyo Revengers #7 [2025]
  8. Tokyo Revengers #8 [2026]
[actualizado em 17.01.2025]

Dino Attanasio (1925–2026): Adeus ao mestre da banda desenhada franco-belga

Morreu hoje Dino Attanasio, aos 100 anos, uma das figuras maiores da banda desenhada franco-belga e um autor fundamental para compreender a evolução da BD europeia no pós-guerra.

Nascido em Milão, em 1925, e radicado na Bélgica desde jovem, Attanasio foi um dos nomes associados à chamada Escola de Bruxelas, destacando-se pela elegância do traço, pela clareza narrativa e por uma versatilidade rara. Trabalhou com naturalidade tanto o humor como a aventura, deixando marca em revistas históricas como Spirou.

O seu nome ficará para sempre ligado a séries como Signor Spaghetti (com argumentos iniciais de René Goscinny) e Modeste et Pompon, mas a sua obra vai muito além de títulos específicos: Attanasio foi um desenhador de movimento, ritmo e humanidade, um verdadeiro artesão da narrativa gráfica.

A sua longeva carreira atravessou várias fases da banda desenhada europeia, e o seu trabalho continua a ser redescoberto por novas gerações de leitores e autores. Com a sua morte, desaparece mais um dos construtores silenciosos do meio — daqueles que não procuravam protagonismo, mas deixaram uma marca profunda e duradoura.

Ficam as páginas que desenhou, o prazer da leitura e a certeza de que a história da BD não se escreve sem o seu nome.

Fica aqui a quadriculografia portuguesa de Dino Attanasio.

Batman Grant Morrison - Livro 4

No quarto volume da fase de Grant Morrison em Batman, somos conduzidos a um dos momentos mais perturbadores e ambiciosos da longa história do Cavaleiro das Trevas. BATMAN R.I.P., originalmente publicado entre 2008 e 2009, reúne as histórias editadas nos números Batman #679 a #683, e representa uma verdadeira descida ao lado mais sombrio, fragmentado e psicológico da personagem.

A misteriosa organização Black Glove acredita finalmente ter conseguido o impossível: matar o Batman. Através de manipulação psicológica, traições cuidadosamente planeadas e um ataque directo à mente de Bruce Wayne, o plano parece resultar. A narrativa avança num território onde a fronteira entre realidade e delírio se torna cada vez mais difusa, arrastando o leitor para um pesadelo desconcertante, tão instável quanto a própria psique do herói.

Curiosamente, no meio do caos, apenas o Joker acredita que o Batman ainda está vivo. Esta inversão de papéis é uma das grandes forças do argumento de Morrison: o inimigo de sempre surge como o único capaz de compreender verdadeiramente a natureza do seu oposto. Afinal, se o Batman morresse, o próprio Joker deixaria de fazer sentido. Esta dinâmica acrescenta uma camada inesperada e fascinante à relação entre ambos.

Visualmente, o volume é marcante. O desenho de Tony Daniel e Lee Garbett acompanha o tom alucinatório da história, com uma paleta de cores vibrante e por vezes quase psicadélica, que reforça a sensação de desorientação mental e colapso interno. A arte não se limita a ilustrar a narrativa — participa activamente nela, ajudando a construir a atmosfera de paranóia e decadência.

Batman Grant Morrison - Livro 4, Grant Morrisson, Tony Daniel e Lee Garbett, Devir, 152 pp., cor, capa dura, 20€

“Ataque dos Titãs” celebra marco histórico com o lançamento do 10.º volume

Desde a sua estreia, Ataque dos Titãs (Shingeki no Kyojin) afirmou-se como um dos maiores fenómenos da história recente da manga. Criada por Hajime Isayama, a obra foi publicada originalmente no Japão em setembro de 2009, na revista Bessatsu Shōnen Magazine, da editora Kodansha, conquistando rapidamente leitores pela sua abordagem sombria, narrativa imprevisível e forte carga emocional. Ao longo dos anos, a série ultrapassou a impressionante marca dos 100 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, sendo ainda distinguida com 15 prémios internacionais, entre os quais o Prémio de Manga Kodansha, o Prémio Attilio Micheluzzi e o Prémio Harvey.

É neste contexto de enorme sucesso que chega agora o 10.º volume da colecção, sob o título “Fortaleza de Sangue”, um momento particularmente simbólico para fãs e coleccionadores. Este volume marca um ponto de viragem na narrativa, colocando a 104.ª divisão perante uma situação desesperada: com a Muralha Rose violada e privados de equipamento de combate, os soldados são obrigados a evacuar aldeias ameaçadas pela presença dos Titãs.

A tensão cresce quando o grupo procura abrigo no antigo Castelo de Utgard, na esperança de um breve descanso. No entanto, o que deveria ser um refúgio transforma-se num verdadeiro pesadelo quando, de forma totalmente inédita, os Titãs atacam durante a noite, um acontecimento sem precedentes que apanha todos de surpresa e aprofunda o mistério em torno da natureza destas criaturas.

Para além do impacto narrativo, esta edição comemorativa destaca-se também pelo seu conteúdo especial: inclui um marcador exclusivo, assinalando o lançamento do 10.º volume, com assinatura do autor, um detalhe pensado especialmente para os fãs mais dedicados e para os coleccionadores da série.

Mais de uma década após a sua publicação original, Ataque dos Titãs continua a provar a sua relevância cultural e literária, mantendo-se como uma obra incontornável da manga contemporânea. O lançamento de “Fortaleza de Sangue” não é apenas a celebração de mais um volume, mas também a confirmação do legado duradouro de uma história que redefiniu os limites do género.

Ataque dos Titãs, Hajime Isayama, Distrito Manga, 192 pp., p&b, capa mole, 10,95€

16 de janeiro de 2026

DEVIR arranca 2026 com Dan Da Dan e reforça aposta no mangá e na banda desenhada de autor

O primeiro trimestre de 2026 marca um momento particularmente significativo para a edição de banda desenhada em Portugal. A DEVIR, líder nacional no sector, inicia o ano com aquele que é apontado como o lançamento de mangá mais aguardado de 2026: Dan Da Dan, de Yukinobu Tatsu, que chega às livrarias portuguesas a 16 de Fevereiro.

Publicada originalmente no Japão pela Shueisha, Dan Da Dan tornou-se num curto espaço de tempo um fenómeno global, ultrapassando os 10 milhões de exemplares vendidos e conquistando leitores muito para além do circuito tradicional do mangá. A série destaca-se pela forma como cruza acção explosiva, humor irreverente, romance adolescente, ficção científica e elementos sobrenaturais, tudo filtrado por uma sensibilidade contemporânea profundamente ligada à cultura digital, às redes sociais e ao imaginário urbano actual.

A sua adaptação a anime, exibida internacionalmente, contribuiu para consolidar o estatuto da obra como um dos títulos mais relevantes do mangá da actualidade. A chegada da edição portuguesa insere-se num contexto de crescimento sustentado do género: a banda desenhada — incluindo o mangá — foi recentemente identificada como o terceiro género literário mais vendido em Portugal, reflectindo a consolidação de novos hábitos de leitura e o interesse crescente pela produção asiática.

Segundo a DEVIR, este lançamento representa não apenas a publicação de uma obra de sucesso, mas também um sinal da maturidade do mercado português, hoje capaz de acolher títulos contemporâneos em simultâneo com os grandes mercados internacionais.

Paralelamente ao reforço da sua linha de mangá, a DEVIR prossegue o trabalho de valorização da banda desenhada de autor com a conclusão da prestigiada Colecção Angoulême, através do lançamento de dois títulos fundamentais da BD europeia contemporânea.

O Gosto do Cloro, de Bastien Vivès, é uma obra originalmente publicada em França que se tornou um marco da narrativa gráfica intimista. Com um desenho minimalista e uma abordagem sensorial ao quotidiano, Vivès constrói uma história silenciosa sobre desejo, observação e adolescência, amplamente reconhecida pela crítica internacional e estudada em contextos académicos.

Kiki de Montparnasse, de Catel & Bocquet, recupera a figura icónica de Kiki, musa do meio artístico parisiense do início do século XX. Publicada originalmente em França, esta biografia gráfica combina rigor histórico com uma linguagem visual expressiva, afirmando-se como uma obra de referência na recuperação de figuras femininas centrais da história cultural europeia.

O primeiro trimestre de 2026 inclui ainda novas edições de séries amplamente reconhecidas pelo público, como Batman, reforçando a diversidade do catálogo da DEVIR, que continua a equilibrar títulos mainstream com propostas autorais e edições de referência.

Este conjunto de lançamentos confirma a estratégia editorial da DEVIR: apostar simultaneamente em fenómenos globais, como Dan Da Dan, e em obras consagradas, garantindo qualidade editorial, fidelidade às edições originais e uma oferta capaz de dialogar com diferentes públicos e gerações de leitores.

Para contextualizar este momento do mercado, a DEVIR disponibiliza a possibilidade de uma entrevista com Ana Lopes, editora da DEVIR, permitindo aprofundar o impacto de Dan Da Dan no panorama editorial português, bem como analisar a afirmação do mangá e da banda desenhada asiática junto de novos públicos.

Num período em que a leitura gráfica ganha cada vez mais espaço nas livrarias e nos hábitos culturais, os lançamentos da DEVIR para o início de 2026 confirmam que a banda desenhada — longe de ser um nicho — ocupa hoje um lugar central na edição literária em Portugal. 

Presença Comics anuncia Solo Leveling 16 para Janeiro de 2026

A Presença revelou os seus primeiros lançamentos de Janeiro de 2026, através da chancela Presença Comics, e entre as novidades destaca-se um dos títulos mais populares da banda desenhada asiática contemporânea: Solo Leveling – Volume 16, um álbum particularmente aguardado pelos leitores portugueses.

Este 16.º volume marca um momento decisivo na saga protagonizada por Seong Jinu, conduzindo a narrativa para o clímax de um arco fundamental da história. O caçador que começou como o mais fraco de todos enfrenta agora os monarcas mais poderosos, em confrontos que colocam à prova não apenas a sua força esmagadora, mas também a sua capacidade estratégica e o peso das decisões que carrega.

Determinando-se a assumir plenamente a responsabilidade de proteger a Humanidade e aqueles que lhe são próximos, Seong Jinu vê o seu exército de sombras crescer, espelhando a dimensão da guerra iminente. Os inimigos que enfrenta são capazes de aniquilar caçadores de topo, tornando cada batalha um exercício extremo de sobrevivência, onde um único erro pode significar a destruição total.

Este volume apresenta-se como o culminar inesquecível de um ciclo narrativo, combinando acção intensa, sacrifícios marcantes, dilemas emocionais e revelações surpreendentes. Embora um arco da saga chegue ao fim, a obra deixa claro que novos caminhos e desafios se abrem no horizonte, preparando o terreno para futuras aventuras.

Originalmente publicado na Coreia do Sul com o título 나 혼자만 레벨업 (Na Honjaman Lebel-eop), conhecido internacionalmente como Solo Leveling, este volume integra a adaptação em manhwa da web novel escrita por Chugong, com ilustrações de Jang Sung-rak (Dubu), do estúdio REDICE. A publicação inicial da série em formato de volume começou em 2018, tendo os volumes finais, incluindo o equivalente ao actual volume 16, sido editados ao longo de 2021, período em que a série atingiu o auge da sua popularidade mundial.

Com este lançamento, a Presença Comics continua a consolidar a presença de Solo Leveling no mercado português, oferecendo aos leitores uma edição cuidada de uma obra que se tornou um verdadeiro fenómeno global, cruzando manga, manhwa, animação e videojogos. Janeiro de 2026 promete, assim, começar em grande para os fãs da saga.

Solo Leveling #16, Dubu e Chegong, Presença, 272 pp, p&b, capa mole, 16,90€

One-Punch Man #23

No volume 23 de One-Punch Man, com argumento de ONE e ilustração de Yusuke Murata, a narrativa mergulha de cabeça na escalada de violência e tensão do arco da Associação dos Monstros, mantendo o leitor preso da primeira à última página.

Após conseguirem escapar por pouco à temível Princesa Supersádica, o Esquadrão Privado do Novoricon vê-se rapidamente confrontado com uma nova ameaça. Um Monstro de Nível Demoníaco surge perante Bushi Broca, dando início a uma batalha feroz, à qual se juntam Lairon e Okamaitachi. O combate é caótico, intenso e serve para mostrar o verdadeiro desespero de heróis que lutam muito acima da sua zona de conforto.

Em paralelo, o volume acompanha também o Samurai Atómico, que enfrenta um inimigo particularmente repugnante. Este confronto destaca não só a perícia absurda do herói com a espada, mas também o contraste entre a sua postura honrada e a natureza grotesca dos monstros que dominam este arco da história.

Como já é habitual, Yusuke Murata eleva o nível artístico a patamares impressionantes: páginas repletas de movimento, enquadramentos dinâmicos e um detalhe visual que torna cada golpe memorável. Mesmo sem Saitama no centro da acção, o volume nunca perde força, equilibrando drama, brutalidade e o humor característico da série.

One-Punch Man #23, One e Yusuke Murata, Devir, 204 pp., p&b, 9,99€

15 de janeiro de 2026

Convite | Anaïs Nin: Cinema e BD na Cinemateca – 19 de janeiro


Eis um convite para um final de tarde cultural na Cinemateca Portuguesa (Lisboa), no próximo dia 19 de Janeiro, num evento que propõe um diálogo entre banda desenhada e cinema, duas linguagens artísticas que se cruzam na forma como contam histórias, constroem imaginários e exploram a intimidade humana.

O encontro tem início às 18h00, com uma mesa-redonda sobre a obra Anaïs Nin – No Mar das Mentiras, que contará com a participação de Nuno Sena, sub-diretor da Cinemateca Portuguesa, Ana Lopes, editora da Devir, e Rui Alves de Sousa, jornalista da RTP, numa conversa sobre adaptação, criação e cruzamentos entre os dois universos.

Às 19h00, será exibido o filme Henry & June, de Philip Kaufman, onde a actriz portuguesa Maria de Medeiros interpreta Anaïs Nin. O filme transporta-nos para a Paris de 1931 e acompanha a intensa viagem de descoberta interior e erótica da escritora, a partir do encontro com Henry Miller. Em paralelo, a banda desenhada de Léonie Bischoff revisita livremente a sensualidade e a complexidade desta figura fascinante do século XX, inspirando-se na sua obra, nos diários e na correspondência com Miller.

Será um momento de conversa, cinema e reflexão — ideal para terminar o dia de forma inspiradora. Esperamos poder contar com a sua presença.

Nota: Em caso de interesse, será possível disponibilizar bilhetes para a sessão de cinema. Os bilhetes deverão ser levantados obrigatoriamente antes do início da mesa-redonda, às 18h00, na Cinemateca. No entanto, terá de ser confirmada a presença até ao amanhã, às 12h00. (bilhetes limitados).


As angústias amorosas da morte

Se há algo que Junji Ito sabe fazer como ninguém, é explorar os recantos mais sombrios da mente humana. Em As Angústias Amorosas dos Mortos, o mestre do horror traz-nos uma antologia de 10 histórias que mergulham nas profundezas da obsessão amorosa, mas com o toque único que só ele sabe imprimir, misturando o sobrenatural com o grotesco.

Originalmente publicado em 2019 no Japão, este volume é mais uma obra onde o autor utiliza o medo e a repulsa para explorar temas como a obsessão e a busca desesperada por um amor impossível. Ryusuke, o protagonista, regressa a uma cidade onde já viveu e começa a ouvir rumores inquietantes sobre suicídios ligados a estranhas Leituras na Encruzilhada. Estas leituras são feitas por um rapaz misterioso, vestido de preto, que revela o destino dos indivíduos que procuram saber sobre o seu futuro, levando-os a uma espiral de loucura e obsessão pelo seu amor.

A premissa é simples, mas assustadoramente eficaz. Os que recebem a leitura tornam-se obcecados pela ideia do objeto de seu amor de tal maneira que a linha entre a paixão e a autodestruição desaparece. O terror começa a crescer à medida que a história de Ryusuke se entrelaça com o mistério por trás deste rapaz de preto, que parece ter uma ligação direta com a tragédia que assola os habitantes da cidade.

Em cada uma das histórias que compõem As Angústias Amorosas dos Mortos, Ito dá uma nova reinterpretação ao conceito de “amor impossível”. Os cenários grotescos e os personagens desfigurados pelas suas próprias obsessões criam uma atmosfera insuportavelmente tensa, onde a linha entre o amor e a loucura é constantemente ultrapassada. O autor utiliza, como sempre, o seu estilo visual único, com figuras distorcidas e cenas de horror que capturam o leitor de maneira quase visceral.

O que torna este volume ainda mais impactante é a maneira como Ito mistura o sobrenatural com o humano, criando uma metáfora para as obsessões que todos nós podemos experimentar — mas que, no universo de Junji Ito, são levadas ao extremo. O amor aqui não é apenas uma emoção, mas uma força aterradora, capaz de destruir vidas e corações, fisicamente e psicologicamente.

As angústias amorosas da morte, Junji Ito, Devir, 406 pp., p&b, capa mole, 20€

As Sisters #1 – Irmãs à Força: humor, caos e cumplicidade entre irmãs

Chega às livrarias portuguesas As Sisters Vol. 1 – Irmãs à Força, o primeiro volume de uma das séries de banda desenhada juvenil mais populares da Europa, criada pelo argumentista Christophe Cazenove e pelo desenhador William Maury. Publicada em Portugal pela Bertrand Editora, esta obra marca a estreia nacional de uma colecção que conquistou milhões de leitores com o seu humor rápido, situações quotidianas e personagens irresistivelmente caóticas.

No centro da narrativa estão Wendy e Marina, duas irmãs que representam universos quase opostos. Wendy é uma pré-adolescente confiante, sociável e preocupada com amizades, moda e rapazes. Quer crescer, afirmar a sua independência e ter algum espaço só para si. Já Marina, a irmã mais nova, é energética, carente, imprevisível e absolutamente decidida a seguir Wendy para todo o lado — mesmo quando não é convidada.

Este choque permanente entre desejos, idades e personalidades é o motor da série. O que para Wendy é invasão de privacidade, para Marina é pura admiração e vontade de partilhar tudo com a irmã mais velha. O resultado é uma sucessão de conflitos, mal-entendidos e situações absurdas que espelham, com humor exagerado, a realidade de muitas famílias.

Cada página de As Sisters apresenta uma pequena história independente, com ritmo rápido e punchlines eficazes. Esta estrutura torna a leitura especialmente acessível ao público mais jovem, mas também apelativa para leitores adultos que reconhecem, com um sorriso cúmplice, muitas das situações retratadas. Entre ataques de choro dramáticos, discussões intensas que terminam em abraços apertados, planos mirabolantes que correm mal e momentos inesperados de ternura, a série consegue equilibrar com habilidade o humor físico, o diálogo afiado e a observação do quotidiano.

Criada em 2006, As Sisters tornou-se rapidamente um fenómeno editorial em França e noutros países europeus, contando actualmente com dezenas de volumes, adaptações para televisão em formato de animação e um público fiel que atravessa várias gerações. Parte desse sucesso deve-se à capacidade da dupla Cazenove e William em criar personagens expressivas, facilmente reconhecíveis e emocionalmente próximas dos leitores.

A edição portuguesa da Bertrand Editora traz finalmente As Sisters para o público nacional, preenchendo uma lacuna na oferta de banda desenhada humorística dirigida a leitores infantojuvenis. Irmãs à Força é uma leitura ideal para crianças e pré-adolescentes, mas também para pais, irmãos mais velhos e todos aqueles que conhecem bem as alegrias — e os desafios — de crescer em família.

Mais do que uma simples coleção de gags, As Sisters é um retrato divertido e caloroso da convivência entre irmãos, onde o conflito anda de mãos dadas com o afeto. Um primeiro volume que promete muitas gargalhadas… e que deixa clara a vontade de continuar a acompanhar as aventuras de Wendy e Marina nos próximos volumes.

As Sisters #1 – Irmãs à Força, Cazenove e William, Bertrand Editora, 96 pp., cor, capa mole, 12,20€

Presença Comics lança O Verão em Que Hikaru Morreu – Volume 3

A chancela Presença Comics continua a apostar em algumas das mais marcantes obras da manga contemporânea e prepara o lançamento de O Verão em Que Hikaru Morreu – Volume 3, dando seguimento a uma série que tem conquistado leitores pela sua atmosfera inquietante e pela forma subtil como cruza terror, mistério e drama emocional.

Neste terceiro volume, o súbito e inexplicável regresso do “Hikaru” à pequena vila deixa de passar despercebido. As desconfianças começam a multiplicar-se entre os habitantes, enquanto os espíritos do outro lado se mostram cada vez mais agitados. As pessoas sensíveis a estas presenças decidem, finalmente, agir, determinadas a descobrir a verdade que se esconde por detrás deste regresso impossível.

No centro da narrativa está, mais uma vez, Yoshiki, que continua a debater-se com a identidade do ser que usa o rosto do seu melhor amigo. A dor da perda mistura-se com o medo e a negação, à medida que se torna evidente que o “Hikaru” já não partilha a mesma visão da vida e da morte. A série reforça assim a ideia de que brincar com forças que não se compreendem tem sempre um preço, e que nem todas as feridas podem ser evitadas.

À medida que o mistério se adensa e forças invisíveis se aproximam, este volume conduz o leitor por uma viagem intensa, marcada por sentimentos de amizade, luto e escolhas irreversíveis, aprofundando o tom sombrio e emocional que distingue a obra desde o início.

Originalmente publicada no Japão com o título Hikaru ga Shinda Natsu (光が死んだ夏), a série é da autoria de Mokumokuren e começou a ser editada em 2021, através da Kadokawa. O terceiro volume da edição original japonesa foi lançado em 2022, consolidando a reputação da obra como um dos títulos mais elogiados da nova vaga de manga de terror psicológico.

Com a chegada de O Verão em Que Hikaru Morreu – Volume 3, a Presença Comics reforça o seu catálogo com uma série que se destaca pela escrita contida, pelo desconforto constante e pela forma como explora os limites entre o humano e o sobrenatural, prometendo continuar a surpreender — e inquietar — os leitores portugueses.

O Verão em Que Hikaru Morreu #3, Mokumokuren, Presença, 184 pp., p&b, capa mole, 11,90€

Escorpião Azul revela plano editorial para o primeiro semestre de 2026

A editora Escorpião Azul já definiu o seu plano editorial para o primeiro semestre de 2026, mantendo uma linha de edição criteriosa e apostada em obras com identidade forte, dirigidas a leitores exigentes e atentos à banda desenhada contemporânea. O programa anunciado para os primeiros seis meses do ano inclui três títulos confirmados, distribuídos entre Fevereiro e Maio, com a possibilidade de ainda surgir um quarto lançamento, caso as condições o permitam.

O arranque do semestre acontece em Fevereiro, com a publicação de HP, um livro que marca o primeiro lançamento do ano pela Escorpião Azul. Embora os detalhes sobre a obra sejam reservados para comunicação própria, a sua inclusão como título inaugural sublinha a intenção da editora de começar 2026 com uma proposta forte e distintiva.

Em Março, chega a 2.ª edição de O Jardim dos Espectros, uma obra que regressa ao catálogo após a boa recepção da edição original. Esta reedição permitirá não só responder à procura de leitores que não tiveram oportunidade de adquirir o livro anteriormente, como também reafirmar a importância do título dentro do percurso editorial da Escorpião Azul.

Já em Maio, está prevista a edição de Dark Peak, encerrando o semestre com uma novidade que promete reforçar a diversidade temática e estética do catálogo. Este lançamento confirma a estratégia da editora de espaçar as publicações ao longo do semestre, garantindo visibilidade e atenção a cada obra.

Para além destes três títulos, a Escorpião Azul admite a possibilidade de editar mais um livro ainda durante o primeiro semestre de 2026, dependendo da evolução do calendário e das condições de produção. Esta abertura deixa antever alguma flexibilidade editorial e a vontade de aproveitar oportunidades que possam surgir.

Com este plano para o início de 2026, a Escorpião Azul reafirma um posicionamento assente na qualidade, no cuidado editorial e na construção de um catálogo coeso, apostando tanto na continuidade de obras relevantes como em novas propostas. Um primeiro semestre contido em número de lançamentos, mas sólido na ambição e na identidade, que reforça a presença da editora no panorama da banda desenhada em Portugal.




Revoir Comanche: memória, fantasma e herança de um western europeu

Em Revoir Comanche, Romain Renard não propõe uma continuação da série Comanche, criada por Greg e Hermann, mas antes uma reflexão madura e melancólica sobre aquilo que subsiste dos mitos quando o tempo os ultrapassa. O western clássico, feito de pó, violência e grandes espaços abertos, transforma-se aqui num western interior, dominado pela memória, pelo arrependimento e pela consciência do fim.

A narrativa decorre algures no coração da região selvagem da Califórnia, no início do século XX. Longe do Wyoming das antigas proezas, Cole Hupp vive isolado do mundo, aguardando serenamente a morte. Já não é apenas o pistoleiro errante, mas um homem gasto pelo tempo e pelas escolhas. Contudo, o passado recusa esquecê-lo. A chegada de Vivienne, uma jovem bibliotecária interessada em compreender as realidades do Velho Oeste, quebra a rotina solitária de Hupp. Ela conhece o seu verdadeiro nome: Red Dust, uma lenda gravada no pó e no sangue.

Vivienne traz consigo notícias inquietantes. O rancho Triple 6, cenário central da série original e espaço simbólico da resistência e da determinação de Comanche, deixou de responder. Esse silêncio pesa mais do que qualquer tiroteio. Para Red Dust, significa que aquilo que tentou deixar para trás — pessoas, lugares, decisões — exige agora um acerto final. O velho cowboy não tem alternativa senão regressar ao seu passado.

Na série de Greg e Hermann, Red Dust era a encarnação do pistoleiro solitário: eficaz, seco, sempre de passagem. A sua moralidade definia-se na acção e no confronto directo. Em Revoir Comanche, Romain Renard transforma essa figura numa presença imóvel, quase espectral, à espera do fim, cuja lenda já não coincide com o corpo envelhecido que a sustenta.

A viagem que Red Dust empreende é menos uma travessia geográfica do que uma viagem no tempo, povoada por fantasmas e erros irreparáveis. Antigos inimigos regressam, movidos por uma sede de vingança que demonstra que a violência nunca desaparece verdadeiramente: apenas permanece à espera.

Se Red Dust sempre foi o homem que parte, Comanche foi, desde o início, a que fica. Na série original, representava o enraizamento, a força de carácter e uma figura feminina de autoridade num universo predominantemente masculino. Em Revoir Comanche, Comanche surge sobretudo como ausência, mas uma ausência estruturante. Não é apenas uma personagem evocada, mas um horizonte moral e emocional que orienta todo o percurso de Red Dust.

A personagem de Vivienne desempenha um papel essencial nesta releitura. Enquanto bibliotecária, representa o olhar do presente sobre o passado, o desejo de compreender, catalogar e preservar aquilo que já não pode ser vivido. Através dela, Renard questiona o estatuto da lenda e da memória: o que se perde quando a vida se transforma em história? O que permanece quando os protagonistas desaparecem?

Vivienne não idolatra Red Dust; interroga-o. Não o julga; observa-o. É ela que força o confronto entre o homem real e o mito que o sobrevive.

Ao contrário do western clássico de Hermann, marcado por uma forte fisicalidade e por uma narrativa directa, Romain Renard adopta uma abordagem introspectiva, fragmentada e contemplativa. Revoir Comanche é uma obra sobre o peso do passado, sobre a impossibilidade do verdadeiro regresso e sobre a transformação dos heróis em vestígios.

No final, Red Dust prepara-se para um último reencontro com Comanche, não como a lenda do Wyoming, mas como um homem consciente das perdas e do arrependimento. O western deixa de ser um género de conquista para se tornar um género de luto e despedida.

Revoir Comanche, Romain Renard, ASA, 152 pp., cor, capa dura, 26,90€

A Odisseia em romance gráfico: o épico de Homero reinventado por Gareth Hinds

Poucas obras da literatura ocidental atravessaram os séculos com a vitalidade de A Odisseia, de Homero. Poema fundador, relato de aventura, reflexão sobre identidade, astúcia e sobrevivência, a viagem de Ulisses continua a ser revisitada, traduzida e reinterpretada em múltiplas linguagens artísticas. Em Janeiro, esse legado ganha uma nova expressão com a chegada às livrarias portuguesas da adaptação em romance gráfico assinada por Gareth Hinds, numa edição da Bertrand Editora.

Este lançamento, marcado para hoje, insere-se numa tendência crescente de reaproximação dos clássicos literários através da banda desenhada, mas destaca-se pela ambição estética e narrativa. Com mais de 200 páginas, A Odisseia de Gareth Hinds não é uma simples “versão ilustrada” do texto original: trata-se de uma recriação visual autónoma, onde a imagem assume frequentemente o protagonismo absoluto, dispensando palavras para transmitir tensão, emoção e grandeza épica.

Conhecido pelo seu trabalho consistente na adaptação de clássicos — como Beowulf, Macbeth ou The IliadGareth Hinds consolidou uma linguagem própria no romance gráfico literário. Em A Odisseia, o autor opta por uma representação deliberadamente não realista. Embora sustentada por investigação histórica, a obra afasta-se de uma reconstrução arqueológica rigorosa do mundo micénico, privilegiando antes uma estética que reforça o carácter mítico e intemporal da narrativa.

Essa escolha revela-se particularmente eficaz num texto onde deuses intervêm no destino dos homens, monstros habitam mares desconhecidos e a realidade se mistura constantemente com o fantástico. As cores, a composição das páginas e o ritmo visual acompanham as mudanças de tom da narrativa — da violência dos combates à melancolia da errância, da sedução das sereias ao regresso tenso e silencioso a Ítaca.

Uma das virtudes centrais desta adaptação reside no equilíbrio entre respeito pelo texto homérico e liberdade criativa. Hinds mantém os grandes episódios da epopeia — o Ciclope Polifemo, Circe, o Hades, as Sereias, Calipso, o massacre dos pretendentes — mas reorganiza e sintetiza o material narrativo de forma a funcionar plenamente no formato gráfico.

A fidelidade não é literal, mas conceptual: o romance gráfico preserva o espírito épico, o tema da astúcia como arma fundamental de Ulisses, a saudade de casa, a tensão entre destino e livre-arbítrio. Para novos leitores, esta versão funciona como porta de entrada acessível ao mito; para leitores já familiarizados com Homero, oferece uma leitura renovada, que convida a redescobrir a história através da força da imagem.

Antes de chegar ao mercado português, The Odyssey de Gareth Hinds foi publicada em vários países, integrando catálogos dedicados à adaptação de clássicos para públicos juvenis e adultos. Em contexto anglo-saxónico, a obra foi frequentemente elogiada pela clareza narrativa e pela capacidade de condensar um texto complexo sem o empobrecer.

A edição portuguesa da Bertrand Editora vem juntar-se a outras iniciativas editoriais que procuram aproximar a banda desenhada do cânone literário, colocando-a não como género menor, mas como linguagem artística capaz de dialogar com os grandes textos da tradição.

A Odisseia, Gareth Hinds, Bertrand Editora, 256 pp., cor, capa dura, 22.20€

14 de janeiro de 2026

Ala dos Livros revela plano editorial de BD para 2026: clássicos, finais aguardados e novas surpresas

A Ala dos Livros prepara-se para 2026 com um plano editorial ambicioso e equilibrado, reafirmando a sua posição como uma das editoras de referência da banda desenhada em Portugal. Mantendo a linha que tem vindo a conquistar leitores nos últimos anos, o catálogo do próximo ano conjuga grandes autores internacionais, séries clássicas, criadores nacionais e novas vozes da BD europeia, num programa que aposta tanto na continuidade como na renovação.

Um dos grandes destaques do plano editorial para 2026 é a conclusão de três séries absolutamente icónicas da banda desenhada mundial: Blacksad, O Mercenário e Mattéo. Com estas publicações, a Ala dos Livros garante que estas obras ficarão integralmente disponíveis em Portugal, algo há muito desejado pelos leitores. Duas destas séries serão apresentadas em colecções especiais e únicas, pensadas para valorizar o objecto-livro e oferecer edições definitivas a quem acompanha estas narrativas desde o início — ou a quem as queira descobrir agora.

No caso de O Mercenário, série de fantasia épica criada por Vicente Segrelles, a editora demonstra também atenção ao seu fundo de catálogo e às necessidades dos leitores. Para permitir que novos leitores iniciem a série sem lacunas — e que os leitores de longa data completem as suas colecções — será feita a reedição do Tomo 10, “Gigantes”, actualmente esgotado. Esta reposição vem garantir a continuidade de uma das séries mais emblemáticas do catálogo da Ala dos Livros.

Outro regresso muito aguardado é o de Tales From Nevermore, obra de inspiração sombria e atmosférica assinada pelos autores portugueses Pedro N. e Manuel Monteiro. Esta reedição recupera um livro que se tornou difícil de encontrar e que é hoje reconhecido como uma das propostas mais marcantes da BD nacional recente, reforçando o compromisso da editora com os criadores portugueses.

Fiel à sua identidade editorial, a Ala dos Livros não se limita a concluir séries consagradas ou a recuperar títulos esgotados. O plano para 2026 inclui também uma aposta continuada em novas vozes da banda desenhada europeia, explorando tendências contemporâneas e propostas inovadoras que dialogam com um público cada vez mais atento à diversidade de estilos e narrativas.

E, como já é habitual, a editora deixa no ar a promessa de “grandes surpresas”, cuja revelação ficará para momentos posteriores. Esta estratégia, que tem marcado os últimos anos da Ala dos Livros, reforça a expectativa em torno de um catálogo que se constrói com coerência, risco calculado e uma clara visão cultural.

Com este plano editorial para 2026, a Ala dos Livros confirma a sua aposta numa banda desenhada exigente, plural e acessível, consolidando séries fundamentais, valorizando autores nacionais e mantendo a porta aberta à inovação. Um ano que se antevê especialmente relevante para os leitores de BD em Portugal.

Chega às livrarias “Pony Express”: a (re)edição 60 da ASA de uma aventura clássica de Lucky Luke

A editora ASA acaba de colocar nas livrarias Pony Express, uma reedição de uma das aventuras mais divertidas de Lucky Luke, agora integrada na colecção portuguesa com a numeração 60 — ainda que esta não corresponda à ordem da série original franco-belga. Trata-se de um regresso bem-vindo a um álbum que cruza humor, acção e história, numa abordagem típica da série criada por Morris.

Publicado originalmente em França em 1988, com o título Le Pony Express, este álbum surge já numa fase mais avançada da série, com argumento de Xavier Fauche e Jean Léturgie e desenho de Morris. A história inspira-se num episódio real do Velho Oeste americano: a criação do Pony Express, um serviço de correio rápido que funcionou entre 1860 e 1861, ligando St. Joseph, no Missouri, a Sacramento, na Califórnia, através de uma rede de estafetas a cavalo.

Na narrativa, o Pony Express nasce da necessidade urgente de garantir comunicações rápidas entre o Leste e o Oeste dos Estados Unidos, numa altura em que a expansão territorial tornava o correio tradicional demasiado lento. O desafio é simples de formular, mas quase impossível de cumprir: atravessar milhares de quilómetros em tempo recorde. É aqui que entra Lucky Luke, o cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra, chamado a garantir que o correio chega ao destino dentro do prazo estipulado.

Como não poderia deixar de ser, o caminho está longe de ser pacífico. Ao longo da aventura, Lucky Luke e os estafetas do Pony Express enfrentam sabotagens, emboscadas e ataques constantes, muitas vezes instigados pela concorrência ferroviária, que vê no novo serviço uma ameaça directa aos seus interesses. O resultado é uma sucessão de episódios cheios de ritmo, humor e engenho, onde a troca vertiginosa de cavalos e as perseguições são tão importantes quanto as habituais tiradas irónicas da série.

À semelhança de outros álbuns de Lucky Luke baseados em factos históricos, Pony Express inclui cameos e personagens inspiradas em figuras reais. Destaca-se a presença de William H. Russell, um dos fundadores históricos do verdadeiro Pony Express, aqui retratado de forma caricatural, como é tradição na série. Estes apontamentos reforçam o lado pedagógico da obra, sem nunca comprometer o tom leve e humorístico.

Esta reedição da ASA permite redescobrir um álbum que exemplifica bem a capacidade de Lucky Luke em transformar episódios marcantes da história americana em aventuras acessíveis a leitores de todas as idades. Com o seu equilíbrio entre rigor histórico, sátira e entretenimento, Pony Express confirma-se como mais uma peça essencial na longa galeria de clássicos do cowboy solitário — agora novamente disponível para novas gerações de leitores.

Lucky Luke #59: Pony Express, Morris, Xavier Fauche e Jean Léturgie, ASA, 48 pp., cor, capa dura, 11,90€

“A Bela Surpresa em Tons de Bege”: chega o 18.º álbum das Aventuras de Zé Leitão e Maria Cavalinho

Há uma nova aventura a caminho para encantar os leitores mais novos — e também os crescidos que acompanham a série desde o início. A Bela Surpresa em Tons de Bege é o 18.º volume da colecção As Aventuras de Zé Leitão e Maria Cavalinho, criada por Pedro Leitão e editada pela Gailivro, dando continuidade a um universo narrativo já bem conhecido pelo humor, imaginação e ternura que o caracterizam.

Como é tradição nesta colecção, o título integra uma cor, elemento identitário da série, e desta vez o destaque vai para o bege, uma escolha que desperta curiosidade e que ganha significado ao longo da história.

Nesta nova aventura, Zé Leitão, Maria Cavalinho e o filho Filipe estão tranquilamente a observar pássaros quando são surpreendidos por uma carta chegada por correio expresso aéreo, entregue nada mais nada menos do que pelo carteiro espacial. A mensagem traz um convite inesperado: Zezim e Mangaz convidam-nos a serem os convidados especiais terrestres da misteriosa Bela Surpresa em Tons de Bege.

O destino é o Cabo dos Penedos das Alianças, no planeta Ondax, para onde a família viajará através do espaço sideral no já emblemático Carro Encarnado. Pelo caminho, a narrativa abre espaço à memória e à celebração, com o trio a recordar histórias marcantes das aventuras passadas, reforçando o sentimento de continuidade e cumplicidade com os leitores habituais da série.

Um dos momentos centrais da viagem acontece no torneio de matrecos, onde o jovem Filipe enfrenta o lendário campeão Graciano Reinaldo, uma figura mítica deste jogo, conhecido por já ter derrotado nomes como Elesébio, Madarona, Ramório, Zadine, Missé, Lepé, entre muitos outros craques. Este episódio combina humor, tensão lúdica e espírito desportivo, valores recorrentes na obra de Pedro Leitão.

Mas o tempo não pára, e a família tem de chegar a Ondax antes que seja tarde demais. A grande questão permanece: que evento será esta Bela Surpresa em Tons de Bege, abençoada pela energia dos dois astros solares do planeta? A resposta guarda-se para o clímax de uma história que promete encontros improváveis, celebrações especiais e mais uma boa dose de imaginação sem limites.

Com A Bela Surpresa em Tons de Bege, Pedro Leitão volta a demonstrar a sua capacidade de criar narrativas acessíveis, criativas e cheias de camadas de leitura, ideais para crianças em fase de leitura autónoma, mas também para leitura partilhada em família. O 18.º álbum reforça a vitalidade de uma das colecções mais consistentes da literatura infantil portuguesa contemporânea, provando que, mesmo após muitas aventuras, ainda há sempre espaço para novas surpresas — desta vez, em tons de bege.

As Aventuras de Zé Leitão e Maria Cavalinho #18: A Bela Surpresa em Tons de Bege, Pedro Leitão, Gailivro, 9,90€

13 de janeiro de 2026

Morreu Scott Adams, criador de Dilbert, aos 68 anos

O cartoonista norte-americano Scott Adams, criador de Dilbert, uma das mais influentes e populares tiras de banda desenhada sobre o mundo corporativo, morreu aos 68 anos, foi hoje anunciado. A morte foi comunicada pela sua primeira ex-mulher, Shelly Miles, num directo nas contas de Scott Adams nas redes sociais, segundo noticiou a agência Associated Press.

Ele não está mais connosco”, afirmou Shelly Miles, recordando que o autor se encontrava gravemente doente. Scott Adams tinha revelado em 2024 que sofria de cancro da próstata em estado avançado, já com metástases nos ossos. De acordo com a ex-mulher, o cartoonista morreu em casa, no norte da Califórnia, onde se encontrava a receber cuidados paliativos.

Scott Adams entrou para a história da banda desenhada em 1989, quando criou Dilbert, uma tira centrada num engenheiro de escritório socialmente desajeitado, reconhecível pela camisa branca de manga curta, gravata vermelha e preta e pela ausência de boca — uma opção gráfica que simbolizava, segundo o próprio autor, a falta de voz dos trabalhadores no mundo empresarial. A série rapidamente se tornou um fenómeno global, satirizando com humor mordaz a burocracia, a linguagem corporativa, os chefes incompetentes e a alienação no local de trabalho.

No auge da sua popularidade, Dilbert era publicada em cerca de dois mil jornais, em mais de 70 países e traduzida para 25 línguas. Em Portugal, a tira chegou às páginas do Diário de Notícias na década de 1990, tendo sido também editada em livro primeiro pela Editorial Notícias e, mais tarde, entre 2009 e 2011, pela Asa.

O reconhecimento profissional não tardou. Em 1997, Scott Adams recebeu o Prémio Reuben, atribuído pela National Cartoonists Society, um dos mais prestigiados galardões da área. No mesmo ano, Dilbert tornou-se a primeira personagem fictícia a integrar a lista da revista Time dos norte-americanos mais influentes. Na justificação, a revista escreveu:

Estamos a torcer por ele, porque é o porta-voz das lições que acumulámos — mas temos muito medo de expressar — no nosso esforço para evitar o homicídio ‘cubicular’.”

O sucesso da personagem ultrapassou o papel. Dilbert chegou à televisão, numa série de animação exibida no final dos anos 1990, na qual o actor Daniel Stern — conhecido por interpretar um dos ladrões nos filmes Sozinho em Casa — dava voz à personagem principal. O universo Dilbert expandiu-se ainda a produtos de merchandising, jogos de computador e outros formatos, consolidando um verdadeiro “império” mediático.

Contudo, a carreira de Scott Adams ficou profundamente marcada nos últimos anos por sucessivas declarações polémicas. Em 2023, vários jornais norte-americanos deixaram de publicar Dilbert depois de o autor ter feito comentários racistas no seu podcast, referindo-se repetidamente a pessoas negras como um “grupo de ódio” e afirmando que não “ajudaria norte-americanos negros”. Apesar de mais tarde alegar que estava a ser hiperbólico, Adams manteve e defendeu publicamente as suas posições, o que acelerou o colapso da presença da tira nos meios tradicionais.

Após esse afastamento, Scott Adams relançou a banda desenhada diária sob o nome “Dilbert Reborn”, através da plataforma de vídeo Rumble, popular entre sectores conservadores e da extrema-direita. Criou também o podcast “Real Coffee”, onde comentava temas políticos, sociais e culturais, assumindo um discurso cada vez mais polarizador.

A morte de Scott Adams encerra uma carreira simultaneamente marcante e controversa. Para muitos leitores, Dilbert permanece como um retrato certeiro e intemporal das absurdidades da vida de escritório; para outros, a figura do seu criador tornou-se inseparável das posições que assumiu nos últimos anos. Entre o génio satírico e a polémica pública, Scott Adams deixa um legado complexo, mas incontornável, na história da banda desenhada contemporânea.

12 de janeiro de 2026

Tintin fala mirandês pela primeira vez em edição inédita

O célebre repórter criado por Hergé passa a falar português — mais precisamente, mirandês — numa iniciativa inédita que une a banda desenhada clássica à preservação do património linguístico. Os Charutos do Faraó é o primeiro álbum de As Aventuras de Tintin, traduzido para a língua mirandesa, num projecto impulsionado por Daniel Sasportes, admirador de longa data do universo de Tintin.

Apaixonado pela obra desde a infância, vivida em contexto francófono no Canadá, Daniel Sasportes manteve ao longo de décadas uma ligação especial ao herói belga. Essa paixão ganhou nova expressão no início dos anos 2000, quando começou a construir uma vasta colecção dedicada a Tintin. A ideia de levar o personagem ao mirandês surgiu naturalmente: “Existem edições de Tintin em muitos dialectos. Sendo o mirandês a única língua reconhecida oficialmente em Portugal, fazia todo o sentido que também tivesse a sua versão”, explica.

Reconhecido oficialmente desde 1999, o mirandês é uma língua ibero-românica falada sobretudo no nordeste transmontano, na região de Miranda do Douro. Nos últimos anos, várias iniciativas culturais têm procurado valorizar e expandir o seu uso, incluindo traduções literárias. A chegada de Tintin representa agora um marco simbólico e cultural nesse percurso.

A tradução do álbum implicou desafios significativos, sobretudo devido aos jogos de palavras e referências culturais características da escrita de Hergé. O tradutor optou por adaptar expressões e trocadilhos ao contexto cultural mirandês, procurando manter intacto o humor e o ritmo narrativo da obra original.

A escolha de Os Charutos do Faraó não foi aleatória. Este álbum assinala a primeira aparição de Oliveira da Figueira, o único personagem português recorrente na série, o que reforça o simbolismo da edição.

Quanto ao futuro, Daniel Sasportes admite que o processo foi exigente, mas não descarta a continuidade do projecto. “Às vezes, o primeiro passo é o mais difícil”, afirma, deixando em aberto a possibilidade de novas aventuras de Tintin em mirandês.

Este lançamento constitui não só uma novidade no universo tintinófilo, mas também um contributo relevante para a valorização da diversidade linguística em Portugal.

11 de janeiro de 2026

A 10.ª edição do catálogo Álbuns de e sobre Banda Desenhada e Cartoon editados em Portugal

Eis a 10.ª edição do catálogo Álbuns de e sobre Banda Desenhada e Cartoon editados em Portugal, uma obra que se deseja de referência incontornável para quem estuda, colecciona ou simplesmente gosta de banda desenhada e cartoon em Portugal.

Organizado por José Vítor Silva, administrador deste blogue, este catálogo constitui um levantamento exaustivo dos álbuns de banda desenhada e dos livros sobre BD e cartoon publicados por editoras portuguesas, cobrindo um arco temporal impressionante que vai de 1871 até 2024. Ao longo das suas sucessivas edições, o objectivo deste trabalho é afirmar-se como uma ferramenta  para a investigação e preservação da memória editorial da nona arte no nosso país.

Nesta 10.ª edição, o catálogo reúne 9 406 obras, devidamente organizadas e identificadas, permitindo uma consulta clara e sistemática. Importa sublinhar que não se trata de um guia de revistas ou fanzines, mas sim de um inventário dedicado exclusivamente ao formato livro/álbum, incluindo tanto obras de criação como publicações de carácter histórico, crítico ou documental sobre banda desenhada e cartoon.

Mais do que uma simples listagem, este catálogo reflecte décadas de edição, tendências editoriais, autores, traduções e iniciativas que marcaram o panorama português da BD. Pode ser, por isso, um instrumento valioso para investigadores, bibliotecários, estudantes, jornalistas culturais e coleccionadores, mas também para qualquer leitor curioso que queira perceber a real dimensão da produção editorial portuguesa nesta área.

A disponibilização do catálogo em formato digital e de forma gratuita reforça ainda mais o seu valor enquanto projecto de serviço público cultural, colocando ao alcance de todos uma base bibliográfica única no contexto nacional.

Num país onde a memória editorial nem sempre é devidamente preservada, a 10.ª edição de Álbuns de e sobre Banda Desenhada e Cartoon editados em Portugal afirma-se como um trabalho de rigor, persistência e paixão pela banda desenhada — e como um contributo essencial para o conhecimento e valorização da BD em Portugal.


8 de janeiro de 2026

Carlos Baptista Mendes (1937-2026)

Carlos Fernando da Silva Baptista Mendes (Luanda, 4 de Março de 1937 – Lisboa, Janeiro de 2026) foi um destacado desenhador português de banda desenhada, reconhecido sobretudo pelo seu contributo para a divulgação da História de Portugal através do desenho.

Nascido em Luanda, mudou-se ainda jovem para Lisboa, onde desenvolveu a sua formação artística e iniciou uma carreira que se estenderia por mais de cinco décadas. Estreou-se profissionalmente no final da década de 1950, colaborando com revistas emblemáticas da banda desenhada portuguesa, como Camarada, Cavaleiro Andante, O Falcão e Mundo de Aventuras.

Baptista Mendes destacou-se pela especialização em biografias ilustradas de figuras históricas, área em que se tornou uma referência incontornável. O seu traço claro e rigoroso, aliado a um cuidado documental notável, permitiu-lhe transformar episódios e personagens da história nacional em narrativas visuais acessíveis a várias gerações de leitores. Ao longo da sua carreira, manteve uma produção regular e coerente, contribuindo de forma decisiva para a valorização cultural e pedagógica da banda desenhada em Portugal. A sua obra permanece como um importante testemunho gráfico da memória histórica portuguesa.

O seu falecimento foi amplamente sentido no meio artístico e editorial, onde era reconhecido não apenas pelo talento, mas também pela dedicação e seriedade com que sempre encarou o seu trabalho.

Pode consultar aqui um ensaio de quadriculografia de Baptista Mendes.