8 de abril de 2026

Corto Maltese: O dia anterior

O regresso de Corto Maltese continua a afirmar-se como uma das reinvenções mais interessantes da banda desenhada europeia contemporânea. Em Corto Maltese – O Dia Anterior, com argumento de Martin Quenehen e desenho de Bastien Vivès, somos transportados para uma narrativa actual, onde os grandes temas do nosso tempo se cruzam com o espírito aventureiro clássico da personagem criada por Hugo Pratt.

A história começa em Sydney, onde Corto tenta ajudar Marcus, um velho amigo pirata preso numa espiral de autodestruição marcada pelo vício. Fiel à sua natureza errante, Corto opta por aquilo que melhor sabe fazer: fugir para a frente, lançando-se numa nova aventura. A oportunidade surge através de uma advogada que representa um grupo de activistas ambientais. Uma das suas integrantes foi detida nas ilhas Tuvalu e enfrenta a ameaça de extradição para a China — um destino que poderá significar o fim da sua liberdade.

É assim que se inicia uma viagem rumo ao Pacífico, a bordo de um hidroavião decadente pilotado por Marcus, numa missão que mistura resgate, redenção e denúncia. O cenário escolhido não é inocente: Tuvalu surge como símbolo das primeiras vítimas reais das alterações climáticas, com o aumento do nível do mar a ameaçar a própria existência destas ilhas.

Quenehen constrói um argumento que respeita o ADN de Corto — o aventureiro solitário, irónico e moralmente ambíguo — mas introduz uma camada contemporânea, onde temas como activismo, geopolítica e crise ambiental ganham protagonismo. Já Vivès oferece um traço moderno, depurado e expressivo, que pode dividir fãs mais puristas, mas que reforça o tom intimista e melancólico da narrativa.

O álbum destaca-se precisamente por esse equilíbrio entre tradição e renovação. Não se limita a revisitar o mito de Corto Maltese, antes procura colocá-lo no presente, confrontando-o com dilemas atuais e urgentes. A aventura mantém-se, mas agora carrega um peso mais real, mais político — e talvez por isso mais inquietante.

Corto Maltese – O Dia Anterior é, assim, uma leitura que vai além do escapismo habitual. É uma viagem que nos lembra que o espírito livre de Corto continua vivo, mas também que o mundo que ele percorre está em transformação — e nem sempre para melhor.

Corto Maltese: O dia anterior, Martin Quenehen e Bastien Vivès, Arte de Autor, 176 pp., p&b + caderno final a cores, capa dura, 27,95€






Sem comentários:

Enviar um comentário