21 de abril de 2026

Magriços

O lançamento de uma nova obra dedicada à campanha histórica de Portugal no Mundial de 1966 promete reacender a memória colectiva de um dos momentos mais marcantes do futebol nacional. Pela mão do autor Vasco Parracho, conhecido pelo seu trabalho na biografia em banda desenhada de Fernando Peyroteo, chega agora um livro que revisita a epopeia dos Magriços com um olhar simultaneamente artístico e documental.

A competição, realizada em Inglaterra, ficou gravada na história como o palco onde Portugal alcançou um extraordinário terceiro lugar — até hoje a melhor classificação nacional em Campeonatos do Mundo de Futebol. Liderada por figuras lendárias como Eusébio, a selecção conquistou o coração dos portugueses com exibições memoráveis, incluindo a célebre reviravolta frente à Coreia do Norte.

Nesta nova obra, Parracho transporta esse percurso para o universo da banda desenhada, oferecendo uma narrativa visual dinâmica que combina rigor histórico com expressividade artística. O seu “traço único” dá vida aos momentos-chave da competição, recriando jogos, emoções e episódios que marcaram gerações.

Um dos grandes destaques do livro é a colaboração de António Simões, um dos protagonistas de 1966. Através do seu testemunho directo, a obra ganha uma dimensão inédita, revelando pormenores de bastidores até agora desconhecidos do grande público. Histórias do balneário, curiosidades sobre o ambiente vivido durante o torneio e episódios menos mediáticos ajudam a construir um retrato mais íntimo e humano da equipa.

Mais do que uma simples homenagem, este lançamento surge como uma ponte entre gerações: permite aos mais novos descobrir a grandeza dos Magriços e oferece aos mais velhos uma viagem nostálgica a um tempo em que o futebol português conquistou o mundo.

O livro afirma-se, assim, como uma peça relevante não só para os amantes do futebol, mas também para apreciadores de banda desenhada e da história cultural portuguesa. Ao cruzar arte e memória, Vasco Parracho volta a demonstrar a capacidade da narrativa gráfica para preservar e reinventar momentos fundamentais da nossa identidade colectiva.

Magriços, Vasco Parracho, Primne Books, 64 pp., cor, capa dura, 19,90€

A Sombra das Luzes – Tomo 2: Rendas, Colares e Conchas

Depois do fulgurante arranque com O Burlão nas Índias, Alain Ayroles regressa com o segundo volume de A Sombra das Luzes, consolidando uma obra que se afirma como uma das mais refinadas bandas desenhadas históricas contemporâneas. Em Rendas, Colares e Conchas, o autor prossegue o seu elaborado jogo narrativo, inspirando-se na tradição epistolar de intrigas e manipulações, num claro eco de Ligações Perigosas, mas com uma identidade própria, mais aventureira e visualmente expansiva.

A narrativa acompanha o libertino Saint-Sauveur, uma figura tão fascinante quanto inquietante, cuja inteligência e ausência de escrúpulos o colocam no centro de uma teia de enganos e apostas perigosas. Desta vez, o cenário desloca-se para a Nova França, território exótico e imprevisível que serve de palco a novas reviravoltas. Acompanhado pelo iroquês Adario e por um criado de inclinações filosóficas, Saint-Sauveur vê-se confrontado com um mundo que desafia os seus preconceitos europeus.

Ayroles demonstra, mais uma vez, um domínio notável da escrita: o texto é sofisticado, irónico e repleto de subtilezas, construindo um constante jogo de expectativas no leitor. As maquinações do protagonista, inicialmente brilhantes, começam a escapar ao seu controlo, revelando o lado trágico de quem acredita poder manipular emoções impunemente. O autor não se limita a entreter — convida à reflexão sobre moralidade, colonialismo e a ilusão de superioridade cultural.

No plano visual, Guérineau eleva a obra com uma representação riquíssima do século XVIII. O contraste entre a elegância europeia — rendas e colares — e a rudeza natural das paisagens americanas — conchas, florestas, peles — é explorado com mestria. Cada página respira detalhe, desde os trajes até às expressões das personagens, reforçando a imersão num mundo simultaneamente belo e implacável.

Este segundo tomo intensifica o tom da série, conduzindo o leitor por um percurso onde a sedução dá lugar à sobrevivência e onde as certezas civilizacionais se desfazem. Saint-Sauveur, despido dos seus privilégios e confrontado com novas realidades, inicia uma transformação que promete ter consequências profundas no desfecho da trilogia.

Com Rendas, Colares e Conchas, A Sombra das Luzes afirma-se definitivamente como uma obra ambiciosa e elegante, onde argumento e arte se entrelaçam com rara harmonia. Resta agora aguardar o terceiro volume para descobrir até onde Ayroles levará este jogo de sombras, luzes e ilusões.

A Sombra das Luzes – Tomo 2: Rendas, Colares e Conchas, Alain Ayroles e Richard Guerineau, Ala dos Livros, 72 pp., cor, capa dura, 25€

20 de abril de 2026

Mãe e Peras

Mãe e Peras, a novela gráfica de Diana Rodrigues é uma leitura para mães reais que tantas vezes já pensaram: «Só Pode Estar a Gozar Comigo».

A novela gráfica Mãe e Peras, de Diana Rodrigues, criadora da página com o mesmo nome com mais de 500 mil seguidores, está nas livrarias a partir de 21 de Abril.

Com humor afiado, ternura desarmante e uma honestidade que nos faz suspirar, encontramos nestas páginas o lado menos filtrado da maternidade: as culpas, os falhanços épicos, os pequenos triunfos invisíveis e aquele amor gigante que compensa (quase) tudo.

Entre birras no corredor do supermercado, perguntas existenciais às três da manhã e a misteriosa arte de encontrar meias desaparecidas, há uma verdade universal que ninguém ousa dizer em voz alta: ser mãe custa. Custa tempo, sono, paciência… e, às vezes, custa mesmo dinheiro. 

Neste livro, Diana Rodrigues, a voz bem-disposta e mordaz por detrás da página Mãe e Peras, transforma o caos do quotidiano materno numa sequência de ilustrações e episódios onde o riso é a melhor estratégia de sobrevivência.

Porque ser mãe custa. Mas, felizmente, também rende gargalhadas, memórias e histórias que merecem ser contadas.

Diana Rodrigues nasceu na cidade de Castelo Branco, em 1989. É licenciada em Gestão e contabilista, mas é também a actriz, maquilhadora, editora, produtora e realizadora por trás do projecto @mae_e_ peras. O que começou como um desabafo visual sobre os desafios da maternidade rapidamente se transformou numa comunidade de mais de meio milhão de seguidores, onde Diana aplica a máxima de «rir para não chorar», ajudando outros pais a sobreviver ao caos do dia a dia através do humor.

Com a dualidade típica do seu signo de Gémeos, divide o seu tempo entre o rigor dos números e a paixão pelas remodelações, provando que é possível conciliar a estrutura de um balancete com a criatividade sem filtros das redes sociais. Reconhecida pela sua frontalidade e por ter sempre razão (confirmado pelo marido), Diana Rodrigues utiliza os seus guiões para desmistificar a parentalidade real, criando um espaço onde milhares de pais se revêem em cada situação partilhada.

Mãe e Peras, Diana Rodrigues, Oficina do Livro, 168 pp., cor, 19,90€

As Guerras de Lucas - Episódio II

A continuação da premiada série As Guerras de Lucas. Após a estreia do primeiro filme de Star Wars, o jovem George Lucas deixou de ser o sonhador excêntrico que ninguém levava a sério. Elevado ao sucesso de bilheteira e rico em milhões, detinha as chaves para decidir o seu futuro. Determinado a libertar-se de uma vez por todas da ditadura dos estúdios, fez a ousada aposta de arriscar tudo o que possuía para financiar sozinho o seu próximo filme. Uma decisão que teria consequências a longo prazo…

Com base no segundo filme da trilogia Star Wars, este volume conta a história esquecida da verdadeira provação que foi a produção de O Império Contra-Ataca. Drama, conflito e acidentes improváveis atormentaram as filmagens, quase fazendo esquecer os contratempos encontrados no primeiro filme... Uma descida ao inferno que por pouco não destruiu Lucas, mas que, no final, deu origem a um filme hoje considerado a obra-prima da saga. Uma novela gráfica envolvente, repleta de revelações, que nos convida e transporta também para a história da criação de Indiana Jones. Meticulosamente documentado, cheio de revelações e curiosidades, num estilo gráfico dinâmico e empolgante, este livro é essencial tanto para os fãs de Star Wars como para os entusiastas do cinema.

Publicado em Outubro de 2023, e com edições em mais de duas dezenas de países, o primeiro volume da série As Guerras de Lucas vendeu mais de 100. 000 exemplares em França e recebeu dois prestigiados prémios: o Prémio Prix BD Fnac France Inter 2024 e o Prémio Prix BD France Info et Reportage 2024. Fãs assumidos do universo de Star Wars, Laurent Hopman e Renaud Roche assinam uma obra notável que mais do que uma porta para os bastidores de uma das sagas mais importantes da história do cinema é, simultaneamente, uma história de perseverança e de superação que, mais uma vez, prende o leitor até… à última vinheta.

As Guerras de Lucas - Episódio II, Laurent Hopman e Renaud Roche, Ala dos Livros, 208 pp., cor, capa dura, 31€

19 de abril de 2026

“Um Feiticeiro de Terramar” ganha nova vida em romance gráfico pela Relógio d’Água

A obra incontornável da fantasia moderna, Um Feiticeiro de Terramar, de Ursula K. Le Guin, regressa agora às livrarias portuguesas numa nova forma: um romance gráfico que reinterpreta visualmente a jornada de Ged, o mais poderoso feiticeiro do arquipélago de Terramar.

Publicada pela Relógio d’Água, esta adaptação conta com argumento e ilustração de Fred Fordham, conhecido por transpor grandes clássicos da literatura para o formato de banda desenhada. O resultado é uma obra que mantém a essência filosófica e simbólica do original, ao mesmo tempo que a torna mais acessível a novos públicos.

Publicado originalmente em 1968, Um Feiticeiro de Terramar é o primeiro volume do ciclo Terramar e acompanha a juventude de Ged — outrora conhecido como Gavião —, cuja ambição e sede de conhecimento o levam a libertar uma força sombria que ameaça o equilíbrio do mundo. A narrativa acompanha o seu percurso de aprendizagem, redenção e autoconhecimento, temas centrais na obra de Le Guin

Na adaptação gráfica, Fred Fordham traduz esse universo denso e poético para uma linguagem visual marcada por paisagens amplas e um forte sentido cinematográfico. As ilustrações destacam-se pela atenção ao detalhe e pela construção atmosférica, captando tanto a grandiosidade do mundo de Terramar como o conflito interior do protagonista. Mais do que uma simples transposição, esta edição propõe uma nova leitura da obra, onde o ritmo visual e a composição gráfica reforçam o drama pessoal de Ged e a dimensão simbólica da história. A dureza do mundo, as leis da magia e o equilíbrio entre luz e sombra são explorados com um realismo que aproxima o leitor contemporâneo da narrativa clássica.

Com 288 páginas, esta versão em banda desenhada posiciona-se como uma porta de entrada para novos leitores, sem deixar de oferecer uma experiência enriquecedora para os fãs da saga. A publicação confirma também a relevância contínua da obra de Ursula K. Le Guin, frequentemente considerada uma das vozes mais influentes da literatura fantástica do século XX, e demonstra como os grandes clássicos continuam a reinventar-se através de novas linguagens e formatos.

Um Feiticeiro de Terramar, Fred Fordham, Relógio d'Água, 288 pp., cor, capa mole, 24€

18 de abril de 2026

Wild West #4: A lama e o sangue

O quarto volume da série Wild West, intitulado A Lama e o Sangue, marca a conclusão do segundo díptico desta saga de western criada por Thierry Gloris e ilustrada por Jacques Lamontagne. Publicado em Portugal pela Ala dos Livros, este álbum reforça a ambição da série: revisitar o mito do Velho Oeste com um olhar crítico, denso e historicamente consciente.  

Longe da visão romantizada do western clássico, A Lama e o Sangue mergulha num território moralmente ambíguo. A narrativa acompanha figuras lendárias como Wild Bill Hickok, Calamity Jane e Charlie Utter, que continuam a perseguição a um assassino misterioso cuja história pessoal — marcada por violência e trauma — reflete o próprio ambiente brutal do Oeste.  

Neste volume, o passado do antagonista ganha relevância: terá sido vítima de um ataque indígena em criança, perdendo os pais e sendo escalpelado. Este detalhe não serve apenas como elemento dramático, mas como chave temática — a violência não surge como exceção, mas como herança inevitável de um território em conflito permanente.  

Um dos elementos mais interessantes do álbum é a forma como integra acontecimentos e tensões históricas. A presença dos Buffalo Soldiers — soldados afro-americanos contratados para proteger a expansão ferroviária — introduz uma camada adicional de crítica social. A obra expõe a ironia de uma nação que, proclamando liberdade, instrumentaliza minorias oprimidas contra outras comunidades igualmente marginalizadas.  

A narrativa ganha ainda mais peso quando a construção da linha férrea leva à destruição de um cemitério sagrado indígena, desencadeando novas tensões. Este episódio sintetiza um dos temas centrais da série: o progresso como força violenta, que avança à custa da memória, da cultura e da dignidade humana.  

O trabalho gráfico de Lamontagne continua a ser um dos grandes trunfos da série. Com traço detalhado e uma paleta que privilegia tons terrosos e sombrios, o artista cria uma atmosfera opressiva que acompanha o tom da narrativa. A “lama” e o “sangue” do título não são apenas metáforas — estão presentes visualmente em cada página, reforçando a sensação de um mundo sujo, violento e sem redenção.

Enquanto quarto volume, A Lama e o Sangue funciona como desfecho direto dos acontecimentos iniciados no tomo anterior (Escalpes em Série). A estrutura em dípticos permite um desenvolvimento mais aprofundado das personagens e dos conflitos, culminando aqui numa resolução que privilegia o realismo e evita soluções simplistas.  

Wild West – A Lama e o Sangue confirma a série como uma das abordagens mais maduras do western contemporâneo em banda desenhada. Ao conjugar personagens históricas, rigor temático e uma visão crítica do mito americano, Gloris e Lamontagne constroem uma obra que desafia o leitor a confrontar a violência fundadora dos Estados Unidos.

Mais do que uma história de cowboys, este volume é um retrato cru de um mundo onde justiça e barbárie coexistem — e onde, muitas vezes, são indistinguíveis.

Wild West #4: A lama e o sangue, Jacques La Montagne e Thierry Gloris, Ala dos Livros, 48 pp., cor, capa dura, 17,50€

Casemate nº 200: Uma Edição de Memória, Criação e Actualidade

O número 200 da revista Casemate não se limita a assinalar um marco — celebra-o com uma edição rica, diversa e profundamente ligada à história e ao presente da banda desenhada.

Logo nas primeiras páginas, Casemate abre a sua “caixa de recordações”, convidando os leitores a revisitar momentos marcantes das suas duzentas edições. Este olhar retrospectivo sublinha o percurso da revista enquanto observadora privilegiada da evolução da 9.ª arte.

A edição destaca também criadores e obras que dialogam com o mundo actual. Pierre-Henry Gomont Harambat surge com uma abordagem sensível aos desafios do mundo agrícola, enquanto a habitual Journorama oferece uma panorâmica da actualidade da BD.

Nas páginas seguintes, L’Écho des Rézos compila o melhor das redes sociais, mostrando como a banda desenhada vive também no espaço digital.

Entre os destaques mais apetecíveis estão as antevisões de novas obras, acompanhadas de pranchas inéditas. Fabien Vehlmann e Jean-Baptiste Andreae apresentam La Cuisine des ogres, enquanto Geoffroy Delorme partilha a sua experiência singular em L’Homme-chevreuil.

Zep surpreende com Tourner la page, uma obra centrada na morte de um escritor célebre, e a equipa formada por Xavier Dorison, Thomas Delahaye e Jean-Baptiste Parnotte apresenta Cauchon, num registo intenso e provocador.

Como é tradição, a revista inclui uma selecção criteriosa de 24 álbuns a descobrir, seguida de um extenso guia com 262 lançamentos, festivais e exposições, tornando este número uma ferramenta essencial para acompanhar o panorama editorial.

A segunda metade da revista continua a destacar a diversidade criativa da BD contemporânea. Jordi Lafebre Brocal leva-nos à Langue des vipères, num século XV alternativo, enquanto Teresa Radice e Stefano Turconi exploram uma caça às bruxas na França de Richelieu. O clássico Frankenstein ganha nova vida pelas mãos de Sergio Sala, mostrando como as grandes histórias continuam a ser reinventadas.

Nas páginas finais, Dano apresenta um projecto invulgar ao convidar desconhecidos a posarem nus no seu atelier, enquanto Jessica Usdin reflecte sobre um retrato de Andy Warhol assinado por Alice Neel.

Com este número 200, Casemate reafirma-se como uma publicação essencial para quem acompanha a banda desenhada. Entre memória, crítica, descoberta e antecipação, esta edição especial é um verdadeiro retrato da vitalidade e diversidade da 9.ª arte contemporânea.

Casemate #200, avril 2025, 100 pp., cor, 9,80€

17 de abril de 2026

Gannibal #6

Desde a alvorada da Humanidade que o canibalismo nos acompanha, como uma sombra alternativa da civilização. E embora pareça ter desaparecido, muitos pensam que está apenas escondido e esquecido...
Daigo Agawa, polícia citadino, é destacado para Kuge, uma vila perdida nas montanhas, para onde vai viver com a esposa e a filha, em busca de uma vida calma numa comunidade acolhedora. Mas a morte de uma idosa levanta dúvidas sobre o que realmente se passa, e sobre o misterioso desaparecimento do seu predecessor na aldeia.

Acontecimentos estranhos e inesperados, um ambiente que banha numa atmosfera angustiante de exclusão permanente e de tensão que não dá descanso... Gannibal é uma série que anuncia as suas premissas terríveis logo de entrada. Em apenas dez páginas do volume inicial chegámos ao primeiro cadáver, e o nosso protagonista, Daiwo, foi ameaçado por um dos aldeões com uma caçadeira! O desenho de Masaaki Ninomiya ajuda a criar o suspense da série, com enquadramentos apertados e que oscilam entre caras desfiguradas pelo medo ou pela emoção em grande plano, e vistas mais amplas das montanhas cheias de um silêncio pesado. 

Neste sexto volume a narrativa avança, com mais mistérios, alguns resolvidos, outros que se vão adensando, tecendo uma tapeçaria cheia de terror e suspense, enquanto continuamos inexoráveis para o desenrolar final, agora que estamos a atingir o meio da saga. Daigo Agawa, aproxima-se cada vez mais do deslindar do mistério que circunda a vila de Kuge e a família Goto. Serão eles ou não canibais? Vamos finalmente conhecer o propósito das crianças desaparecidas e que descobrimos estarem presas numa cave? E que pensar do passado de Keisuke, membro da família Goto, cuja posição oscila entre os deveres familiares e os de justiça e da moral? Não percam mais esta peça do puzzle.

Originalmente publicado na revista de mangá seinen Weekly Manga Goraku, Gannibal foi adaptado para uma série de live-action na Disney+, já com duas temporadas, e o seu décimo volume foi nomeado para o Prémio de Melhor Série do festival de Angoulême de 2023.

Masaaki Ninomiya é um mangaká que vive em Tóquio. Apesar de uma carreira relativamente curta na indústria, já foi galardoado com vários prémios que o tornaram numa das estrelas em ascensão do mangá. A sua primeira série foi Chousou no Babel, em 2016, e em 2018 começou Gannibal, a série que conquistou os corações da crítica e do público, desde a sua estreia na célebre revista Weekly Manga Goraku. A série já atingiu o número extraordinário de mais de três milhões e meio de exemplares vendidos em todo o mundo. Ninomiya destaca-se pelo seu estilo artístico poderoso e incisivo, que retrata uma atmosfera tensa e personagens complexos, numa exploração profunda da psique humana.

Gannibal #6, Masaaki Ninomiya, A Seita, 192 pp., p&b, capa mole, 11,99€

Nevada #3: Blue Canyon

A série Nevada insere-se claramente no universo do western, ainda que o faça através de uma abordagem moderna e híbrida. Escrita por Fred Duval e Jean-Pierre Pécau, com ilustração de Colin Wilson, a série revisita os códigos clássicos do género — o herói solitário, a fronteira, a violência e a sobrevivência — ao mesmo tempo que os transporta para um contexto histórico menos convencional: o início da indústria cinematográfica americana.

Embora profundamente enraizada no imaginário do Velho Oeste, Nevada não se limita a recriar os cenários tradicionais de cowboys e duelos. A série propõe uma reflexão sobre o próprio mito do western, colocando o seu protagonista, Nevada Márquez, entre dois mundos: o da memória da conquista do Oeste e o da sua recriação ficcional em Hollywood. Este enquadramento é particularmente relevante dentro da evolução do género western na banda desenhada europeia, que nas últimas décadas tem procurado reinterpretar os seus códigos, afastando-se da visão clássica e heróica para explorar dimensões mais ambíguas, sombrias e até meta-narrativas.

O terceiro volume, Blue Canyon, aprofunda esta abordagem ao cruzar o western com o thriller e o universo do cinema nascente. A história parte de um incidente aparentemente banal: durante a rodagem de um filme, um actor morre, obrigando à sua substituição. Nevada é então encarregado de escoltar o novo protagonista até ao local de filmagem — uma missão que rapidamente se transforma numa travessia perigosa por territórios hostis. Este argumento retoma elementos clássicos do western — a viagem, o perigo constante, o confronto com territórios indígenas — mas introduz uma camada adicional: a tensão entre realidade e ficção. O Oeste já não é apenas vivido, é também encenado.

Nevada #3: Blue Canyon, Colin Wilson, Fred Duval e Jean-Pierre Pécau, A Seita, 56 pp., cor, capa dura, 18,99€

16 de abril de 2026

15 de abril de 2026

Coimbra BD 2026: O regresso do grande festival de banda desenhada a Coimbra



A cidade de Coimbra volta a afirmar-se como um dos principais polos da cultura visual em Portugal com o regresso do Coimbra BD 2026. O evento decorre entre os dias 24 e 26 de Abril, no emblemático Convento São Francisco, e promete uma edição mais ambiciosa, com programação alargada e novas áreas dedicadas à banda desenhada, ilustração e cultura pop.

Com mais de 60 autores e ilustradores, tanto nacionais como internacionais, esta edição reforça o papel de Coimbra como ponto de encontro criativo. Entre os convidados destacam-se nomes portugueses como Daniel Maia — responsável pelo cartaz —, André Carrilho, João Mascarenhas e Filipe Abranches, além de artistas internacionais como Marcello Quintanilha, Ángel de la Calle e Anna Poszepczyńska.

Segundo Margarida Mendes Silva, vereadora da cultura da Câmara Municipal de Coimbra, o festival tem vindo a consolidar-se como um espaço de criação, divulgação e partilha artística, promovendo o contacto direto entre o público e os criadores.

Uma das principais novidades deste ano é o aumento da área expositiva, com a inclusão da antiga igreja do Convento São Francisco. Este novo espaço será dedicado às editoras e às sessões de autógrafos, respondendo à crescente procura por parte de artistas e público. Outra aposta forte é a expansão da área de videojogos, com destaque para produções nacionais — especialmente de estúdios locais de Coimbra —, reforçando a ligação entre a banda desenhada e outras formas de narrativa visual.

O Coimbra BD 2026 apresenta uma programação diversificada, pensada para diferentes públicos e interesses. Entre as atividades previstas estão:

Exposições e lançamentos editoriais

Workshops e oficinas de desenho

Sessões de autógrafos com autores

Exibições de cinema

Concursos de cosplay (com selecção para o MCM London)

Área dedicada a jogos de tabuleiro

Os fãs de jogos poderão experimentar títulos como “Dungeons & Dragons”, “Lorcana Winterspell”, “Azul Duel” e “Scrabble”, com demonstrações, painéis e torneios.

O primeiro dia do festival será especialmente dedicado às escolas, com actividades pedagógicas como workshops, horas do conto e apresentações. A organização reforça assim a sua missão de estimular novos públicos e incentivar o talento emergente.

Depois de receber mais de 18 mil visitantes em 2025, a organização espera manter — ou superar — esse número em 2026. O investimento municipal ronda os 54 mil euros, refletindo a crescente importância do evento no panorama cultural.

O festival decorre entre as 10h00 e as 20h00 nos dias 24 e 25 de Abril, e até às 18h00 no dia 26. A entrada é gratuita, tornando este um evento acessível a todos os interessados.

Mais do que um festival, o Coimbra BD afirma-se como um verdadeiro ponto de encontro para criadores, fãs e curiosos. Ao cruzar diferentes linguagens artísticas — da ilustração ao gaming —, o evento reforça o seu papel como motor cultural e criativo, colocando Coimbra no mapa da banda desenhada a nível nacional e internacional.


Kagurabachi: o fenómeno que chega agora em português

A editora Devir publica o primeiro volume de Kagurabachi, uma das séries mais mediáticas da nova geração de mangá japonês. Criada por Takeru Hokazono, a obra destacou-se rapidamente pela forte adesão dos leitores e pela viralização nas redes sociais, tornando-se num dos casos mais invulgares de popularidade recente no setor.

A série estreou no Japão a 19 de Setembro de 2023 na revista Weekly Shōnen Jump, publicação da editora Shueisha, conhecida por lançar alguns dos títulos mais influentes do género shōnen. O primeiro volume encadernado foi editado no mercado japonês em Fevereiro de 2024, reunindo os capítulos iniciais da narrativa. Desde então, Kagurabachi tem sido distribuído internacionalmente, incluindo em formato digital através da plataforma Manga Plus, alargando rapidamente a sua base de leitores fora do Japão.

Apesar da sua curta duração, a série já ultrapassou os milhões de exemplares em circulação, um resultado pouco comum para títulos tão recentes. Este crescimento tem sido impulsionado sobretudo pelo impacto online e pela mobilização de comunidades de fãs, que ajudaram a consolidar a sua visibilidade global. Actualmente, Kagurabachi mantém-se em publicação e não tem conclusão anunciada, continuando a ser serializado na Weekly Shōnen Jump.

No plano crítico, a obra também começou a reunir reconhecimento. Entre as distinções alcançadas, destaca-se a vitória nos Next Manga Award de 2024, na categoria de melhor mangá impresso, além de nomeações para prémios relevantes da indústria japonesa.

O primeiro volume introduz a história de Chihiro Rokuhira, jovem que envereda por um percurso de vingança num universo marcado por espadas de poderes sobrenaturais e conflitos violentos. A narrativa combina elementos clássicos do shōnen com um tom mais sombrio, característica que tem contribuído para a sua recepção positiva.

Kagurabachi, Takeru Hokazono, Devir, 216 pp., p&b, capa mole, 9,99€

14 de abril de 2026

A Incrível Adele #16: Avó Jurássica — quando Adele enfrenta… a pré-história familiar

O 16.º volume de A Incrível Adele, intitulado Avó Jurássica (Jurassic Mamie), traz uma nova e divertida situação: Adele é deixada aos cuidados da sua avó, após os pais já não conseguirem lidar com o seu comportamento.

A convivência entre as duas gera um choque de gerações cheio de humor. Adele vê a avó como um verdadeiro “dinossauro”, com hábitos antiquados como comida saudável obrigatória e remédios caseiros estranhos. Isto dá origem a várias situações caóticas e engraçadas.

Apesar do tom leve, o livro aborda de forma subtil temas como as diferenças entre gerações e a importância da compreensão mútua. No final, mantém-se a essência da série: humor irreverente, criatividade e uma protagonista absolutamente inesquecível.

A Incrível Adele #16: Avó Jurássica,  Mr. Tan e Diane Le Feyer, Bertrand Editora, 80 pp., cor, capa mole, 12.20€

Exposição de Banda Desenhada homenageia Augusto Trigo na Feira do Livro de Moura

A cidade de Moura prepara-se para receber uma das iniciativas culturais mais marcantes da sua programação anual, com a realização da exposição de banda desenhada “O rigor e o detalhe”, dedicada ao artista Augusto Trigo. A mostra integra a 45.ª edição da Feira do Livro de Moura e estará patente entre os dias 15 e 26 de Abril, no Cine-Teatro Caridade.

A exposição propõe uma viagem pela obra de Augusto Trigo, destacando uma das suas principais características: o rigor técnico aliado a um impressionante nível de detalhe. Trata-se de uma oportunidade única para revisitar o trabalho de um dos nomes mais relevantes da banda desenhada portuguesa, permitindo também que novas gerações contactem com o seu legado artístico.

Um dos momentos mais significativos da carreira de Trigo remonta a 2009, quando, em parceria com o argumentista Jorge Magalhães, produziu seis pranchas para “Histórias de Mouras”, incluídas no álbum colectivo Salúquia: a Lenda de Moura em Banda Desenhada, editado pela Câmara Municipal de Moura. Este trabalho marcou a última colaboração da reconhecida dupla, deixando uma marca duradoura na BD nacional.

Para além da exposição, a programação inclui uma homenagem a Augusto Trigo, agendada para o dia 18 de Abril, às 18h00, no espaço da Feira do Livro. A sessão será seguida da apresentação dos fanzines “O menino que rabiscava paredes” e “Na pista de um sonho”, reforçando o espírito de celebração da criatividade e da narrativa gráfica.

Com esta iniciativa, a Câmara Municipal de Moura reafirma o seu compromisso com a promoção cultural e com a valorização da banda desenhada enquanto forma de expressão artística, proporcionando ao público uma experiência enriquecedora e inspiradora.



Os Filhos do Império – Volume 2: Amor, Rebeldia e Destino na Coreia Ocupada

A série de Os Filhos do Império regressa com o seu segundo volume, aprofundando o drama e a complexidade emocional das suas personagens num dos períodos mais conturbados da história da Ásia. Ambientada na Coreia da década de 1930, a obra continua a acompanhar os destinos entrelaçados de Arisa Jo e Jun Seomoon, dois jovens que enfrentam escolhas difíceis num mundo marcado pela opressão e pela mudança.

Para compreender plenamente esta história, é essencial enquadrá-la no período da ocupação japonesa da Coreia (1910–1945). Durante estas décadas, a península coreana esteve sob domínio do Império do Japão, que impôs políticas de assimilação cultural, repressão política e controlo social rigoroso.

Nos anos 1930, esse domínio tornou-se ainda mais severo. A crescente militarização do Japão e o clima de expansão imperial intensificaram a vigilância e a limitação das liberdades individuais. Foi também um período em que muitos coreanos se viram divididos entre resistência, adaptação ou colaboração — dilemas que ecoam diretamente nas escolhas das personagens desta obra.

Neste segundo volume, Arisa Jo encontra-se numa encruzilhada emocional. À medida que fragmentos do seu passado vêm à tona, a sua natureza rebelde leva-a a procurar refúgio em relações inesperadas, desafiando convenções e normas impostas pela sociedade e pelo regime. Por outro lado, Jun Seomoon inicia uma jornada interior marcada pela inquietação e pela procura de sentido. Essa busca conduz-lo progressivamente a ideias mais radicais, reflectindo o clima político da época, onde muitos jovens eram atraídos por movimentos de resistência ou ideologias transformadoras. O contraste entre os dois torna-se cada vez mais evidente: enquanto Arisa se move pela emoção e pela liberdade pessoal, Jun aproxima-se de um caminho mais ideológico e potencialmente perigoso.

A autora, Yudori, constrói uma história onde o aparentemente despreocupado esconde uma tragédia latente. Aos poucos, o leitor descobre que por detrás das atitudes leves ou impulsivas existe um peso emocional profundo, consequência direta das circunstâncias históricas.



O Verão em que Hikaru Morreu #5 – Entre o inquietante e o inevitável

O quinto volume de O Verão em que Hikaru Morreu, da autoria de Mokumokuren, publicado em Portugal pela Editorial Presença, continua a aprofundar uma das narrativas mais enigmáticas e emocionalmente perturbadoras do manga contemporâneo.

Desde o início da série que somos confrontados com uma premissa desconcertante: Hikaru não é, verdadeiramente, Hikaru — ou pelo menos já não é o mesmo. Neste novo volume, essa inquietação atinge um novo patamar. Yoshiki, dividido entre o medo e uma inexplicável necessidade de proximidade, permanece ao lado desta presença que ocupa o lugar do seu amigo. O que poderia ser apenas rejeição ou fuga transforma-se numa ligação ambígua, quase inevitável, onde o afecto e o terror coexistem.

Neste volume, a investigação conduzida por Yoshiki e pelo “novo” Hikaru ganha maior densidade. As pistas multiplicam-se, mas, em vez de esclarecerem, aprofundam o mistério. A aldeia onde vivem assume um papel cada vez mais central, quase como uma entidade viva, carregada de segredos antigos e silêncios cúmplices. Há uma sensação crescente de que tudo está interligado — o passado, as ausências, as presenças — e que algo maior se move nas margens da compreensão.

Visualmente, o manga mantém o seu registo atmosférico e subtilmente perturbador. Os silêncios, os olhares e os enquadramentos transmitem tanto quanto os diálogos, criando uma leitura imersiva onde o desconforto se instala de forma gradual, mas persistente.

Base de dados

O Verão em que Hikaru Morreu #5, Mokumokuren, Editorial Presença, 200 pp., p&b, capa mole, 11,90€

13 de abril de 2026

Runas: Uma História de Mil Faces

A literatura fantástica continua a ser um dos géneros mais cativantes para leitores de todas as idades, especialmente quando alia aventura, emoção e reflexão. Runas: Uma História de Mil Faces, de Carlos Sánchez, publicado pela Nuvem de Letras, é um exemplo claro dessa combinação, oferecendo uma narrativa envolvente que transporta o leitor para um universo mágico repleto de desafios e descobertas.

A história centra-se em Chiri e Dai, duas crianças órfãs que vivem num orfanato junto a uma floresta aparentemente comum. No entanto, tudo muda quando descobrem um portal escondido que as leva até Puddin, um reino misterioso onde o fantástico e o sombrio coexistem. Este novo mundo revela-se muito mais do que um simples cenário mágico. É um espaço onde cada decisão tem peso, onde o perigo espreita a cada passo e onde os protagonistas são forçados a crescer rapidamente.

Puddin é habitado por uma grande diversidade de criaturas — desde bruxas e bardos até ogres e feiticeiros — que enriquecem a narrativa e contribuem para a construção de um universo vivo e imprevisível. No entanto, este reino encontra-se sob a ameaça constante de uma força sombria: o temível Rei Sombrio. Esta figura representa mais do que um simples vilão. Simboliza o desequilíbrio, o medo e a escuridão que se infiltram tanto no mundo exterior como no interior das personagens.

Ao longo da aventura, Chiri e Dai cruzam-se com personagens muito diferentes entre si, formando alianças inesperadas. Estas relações tornam-se essenciais para a sua sobrevivência e para o desenrolar da história.

Carlos Sánchez é um ilustrador, designer e autor ligado à literatura juvenil fantástica, conhecido pela sua capacidade de combinar narrativa envolvente com uma forte componente visual. Natural de Barcelona, desenvolveu desde cedo interesse pelo desenho e pela banda desenhada, área que viria a marcar profundamente o seu percurso criativo. Com formação em Design e especialização em ilustração, Sánchez construiu uma identidade artística assente na criação de universos ricos em detalhe e imaginação. O seu trabalho destaca-se pela forma como funde imagem e texto, proporcionando experiências de leitura dinâmicas e visualmente apelativas.

Base de dados

Runas: Uma História de Mil Faces, Carlos Sánchez, Nuvem de Letras, 168 pp., capa mole, cor, 14,95€

Amore – Amor… à italiana

Amore – Amor… à italiana” é um convite irresistível a mergulhar na intensidade, no humor e na poesia do amor vivido à flor da pele — como só os italianos parecem saber fazer. Nesta obra, o consagrado argumentista Zidrou une forças com o traço subtil e expressivo de David Merveille para nos oferecer uma colectânea de histórias que capturam o amor em todas as suas formas.

Entre praças banhadas pelo sol, cafés onde o aroma do café se mistura com conversas animadas e ruelas onde ecoam vozes familiares, “Amore” constrói um retrato vibrante e profundamente humano da vida quotidiana em Itália. Mas não se trata apenas de cenários pitorescos — cada história revela encontros inesperados, desencontros dolorosos, paixões súbitas e afetos duradouros, sempre com um olhar simultaneamente terno e irónico.

Zidrou, conhecido pela sua sensibilidade narrativa, explora o amor sem idealizações excessivas. Aqui, amar é um gesto vivido — impulsivo, imperfeito, por vezes até contraditório. Como sugere o tom provocador da própria obra, o amor não é apenas para ser lido, mas experimentado. Já David Merveille complementa esta abordagem com ilustrações elegantes e atmosféricas, onde cada traço reforça emoções subtis e momentos fugazes.

Amore – Amor… à italiana, Zidrou e David Merveille, Arte de Autor/A Seita, 128 pp., cor, capa dura, 18€

12 de abril de 2026

Lucky Luke: Um mergulho nas origens do mito

A revista Les Cahiers de la BD lançou recentemente um número hors-série inteiramente dedicado a uma das figuras mais icónicas da BD franco-belga: Lucky Luke. Sob o título Les dessous des cartes (1946–1954), esta edição especial convida os leitores a regressar às origens do “cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra” e a descobrir os bastidores criativos dos seus primeiros anos.

Criado por Morris em 1946, Lucky Luke nasceu nas páginas da revista Spirou, num contexto de renovação da BD europeia do pós-guerra. Este hors-série concentra-se precisamente nesse período inaugural, entre 1946 e 1954, quando a série ainda procurava o seu tom definitivo e a sua identidade gráfica.

A publicação analisa as primeiras histórias, evidenciando as influências do cinema western americano, da animação e do humor slapstick. Mostra também como o traço de Morris evoluiu rapidamente, passando de um estilo ainda algo rígido para a fluidez e expressividade que mais tarde se tornariam a sua marca registada.

Embora muitos leitores associem Lucky Luke à parceria com René Goscinny, este número especial foca-se no período anterior à entrada do célebre argumentista. Aqui encontramos um herói mais solitário, com narrativas menos estruturadas, mas já repletas de invenção visual e sentido de ritmo.

O dossier destaca como, mesmo antes da colaboração com Goscinny, Morris já experimentava gags visuais e situações absurdas que viriam a definir o humor da série. Ao mesmo tempo, observa-se a construção progressiva de elementos icónicos do universo Lucky Luke.

Um dos grandes atractivos deste hors-série é o acesso a materiais de arquivo: esboços, pranchas originais, capas e ilustrações pouco conhecidas. Estes documentos permitem compreender melhor o processo criativo de Morris e o contexto editorial da época. Além disso, especialistas em banda desenhada contribuem com ensaios que situam Lucky Luke na história da BD europeia, discutindo a sua importância cultural e a forma como reinterpretou os códigos do western para um público europeu.

Este número especial de Les Cahiers de la BD não é apenas uma homenagem nostálgica. É também uma obra de referência que ilumina um momento-chave da história da banda desenhada. Para fãs de longa data, oferece novas perspectivas sobre um clássico incontornável; para novos leitores, funciona como porta de entrada para compreender a génese de uma série lendária.

Les Cahiers de la BD Hors-Serie #15, Lucky Luke: Les dessous des cartes (1946–1954), 120 pp., cor, capa dura, 19,90€

Chainsaw Man #15

O 15.º volume de Chainsaw Man, manga de Tatsuki Fujimoto, dá continuidade a uma das fases mais intensas da segunda parte da obra, aprofundando o tom psicológico e introduzindo uma nova ameaça de grande escala narrativa.

Publicado originalmente no Japão pela Shueisha e serializado na plataforma digital Shōnen Jump+, Chainsaw Man regressa neste volume com foco na personagem Asa Mitaka e na crescente complexidade da sua relação com Yoru, o Demónio da Guerra.

No centro deste volume está a introdução do Demónio da Queda, uma entidade descrita como um dos terrores primordiais — conceitos que, no universo da série, representam medos universais e profundamente enraizados na psique humana. A sua presença marca uma escalada significativa na narrativa, não apenas pela ameaça física, mas sobretudo pelo impacto psicológico. Através da exploração das memórias e traumas das personagens, o Demónio da Queda expõe fragilidades internas, levando Asa a confrontar-se com experiências do passado que abalam a sua capacidade de confiar em Yoru. Este conflito interno torna-se um dos eixos centrais do volume.

Conhecida pela abordagem pouco convencional ao género shōnen, a obra de Fujimoto continua a destacar-se pela combinação de acção violenta com reflexão emocional. Neste volume, essa tendência acentua-se: o horror deixa de ser apenas visual ou físico, passando a operar sobretudo no plano psicológico. A ideia de “queda” surge aqui como metáfora para o fracasso humano — personagens que, muitas vezes sem consciência, caminham para a sua própria destruição. Esse percurso é representado de forma quase alegórica, culminando num cenário descrito como um “banquete do inferno”, onde as vítimas são consumidas pelas consequências dos seus próprios traumas.

Chainsaw Man #15, Devir, Tatsuki Fujimoto, 200 pp., p&b, capa mole, 9,99€

11 de abril de 2026

O Jardim, Paris

Na efervescente Paris da década de 1920, onde a arte, a liberdade e a transgressão se cruzam em cada esquina, nasce O Jardim, Paris, a deslumbrante novela gráfica de Gaëlle Geniller. Esta obra transporta-nos para o coração de um cabaré singular, onde identidade, sonho e pertença florescem como num verdadeiro jardim humano.

O Jardim” é mais do que um simples cabaré — é um refúgio. Gerido por uma mulher forte e carismática, este espaço acolhe artistas que adoptam nomes de flores e vivem como uma família escolhida. É neste ambiente caloroso e vibrante que conhecemos Rose, um jovem de 19 anos que cresceu entre bastidores, luzes e música. Embora seja rapaz, Rose partilha o mesmo sonho das suas companheiras: subir ao palco e dançar.

A narrativa acompanha a jornada de afirmação de Rose, que desafia convenções sociais e expectativas de género numa época ainda marcada por fortes normas. A sua ascensão a principal atracção do cabaré não é apenas uma conquista artística, mas também um poderoso gesto de liberdade e autenticidade. Através dele, a obra questiona identidades rígidas e celebra a diversidade com sensibilidade e delicadeza.

Visualmente, O Jardim, Paris é um verdadeiro espectáculo. O traço de Gaëlle Geniller destaca-se pela elegância, fluidez e riqueza cromática, evocando tanto a estética vibrante dos cabarés parisienses como a intimidade dos bastidores. Cada página é cuidadosamente composta, transformando a leitura numa experiência quase coreográfica. Mais do que uma história sobre dança, esta é uma ode à auto-expressão, à aceitação e ao poder transformador da arte. O Jardim, Paris convida o leitor a entrar num mundo onde as fronteiras se esbatem e onde cada indivíduo pode, finalmente, florescer à sua maneira.

Gaëlle Geniller é uma das vozes mais promissoras da nova geração da banda desenhada francófona, destacando-se pela sensibilidade com que aborda temas como identidade, diferença e auto-expressão.

Nascida em 1996, em Saint-Priest, no departamento do Ródano, revelou desde cedo uma forte inclinação para a criação artística. Ainda durante a escola primária, já desenvolvia as suas próprias histórias em banda desenhada, que partilhava com amigos, dando sinais precoces do seu talento narrativo e visual. Com formação técnica em animação, iniciou o seu percurso profissional num estúdio da área, experiência que contribuiu para o desenvolvimento do seu olhar cinematográfico e da fluidez do seu traço. No entanto, seria na banda desenhada que encontraria o espaço ideal para afirmar a sua voz autoral.

A sua estreia deu-se em 2019 com Les Fleurs de grand frère, publicado pela Delcourt. Esta obra, destinada ao público mais jovem, conquistou rapidamente a atenção da crítica e dos leitores, marcando o início de um percurso promissor. Em 2021, Geniller consolida o seu lugar no panorama da BD contemporânea com Le Jardin, Paris, uma narrativa ambientada na década de 1920, onde a autora aprofunda a sua exploração das questões ligadas à identidade e à aceitação, revelando uma abordagem delicada, poética e visualmente marcante.

Com um estilo elegante e uma forte componente emocional, Gaëlle Geniller afirma-se como uma autora a acompanhar de perto, capaz de transformar histórias íntimas em experiências universais através da arte da banda desenhada.

O Jardim de Gaëlle Geniller, que ganhou o prémio Melhor ilustração no Festival Lucca 2022.

O Jardim, Paris, Gaëlle Geniller, Arte de Autor, 224 pp., cor, capa dura, 28,50€

O Fantasma da Ópera

O Fantasma da Ópera, clássico intemporal de Gaston Leroux, ganha uma nova vida numa adaptação em novela gráfica lançada pela Arte de Autor. Pelas mãos dos irmãos Paul Brizzi e Gaëtan Brizzi, esta obra revisita o mistério e o romantismo sombrio que têm fascinado gerações.

Ambientada na icónica Ópera Garnier, em plena Paris do século XIX, a narrativa mergulha o leitor num ambiente onde o real e o sobrenatural se confundem. Eventos inexplicáveis começam a assombrar o teatro: um lustre que cai tragicamente durante um espectáculo, mortes suspeitas nos bastidores e rumores persistentes sobre uma figura enigmática — o temido Fantasma da Ópera. Mais do que uma simples lenda, a presença de Erik, o homem por detrás do mito, revela-se tanto aterradora quanto profundamente humana.

No centro da história está o triângulo emocional entre Christine Daaé, a jovem cantora em ascensão, Raoul de Chagny, o visconde apaixonado, e o próprio Fantasma, cuja voz misteriosa ecoa como um sussurro vindo das sombras. A tensão entre amor, obsessão e identidade conduz a narrativa, mantendo o leitor preso até à última página.

Os irmãos Gaëtan Brizzi e Paul Brizzi são duas figuras incontornáveis do universo da animação e da banda desenhada contemporânea. Gémeos, nascidos em 1951, dividem a sua vida entre França e Estados Unidos, construindo uma carreira multi-facetada como realizadores, pintores, ilustradores e autores.

O seu talento começou a ganhar destaque com várias curtas-metragens de animação, entre as quais se destaca Fracture, nomeada para os prestigiados Prémios César em 1977. Este reconhecimento abriu portas a uma colaboração rara: foram dos poucos criadores franceses a trabalhar com a Walt Disney Animation Studios. No universo Disney, deixaram a sua marca em projectos emblemáticos como O Corcunda de Notre-Dame e Fantasia 2000, onde realizaram sequências memoráveis, incluindo O Pássaro de Fogo, amplamente elogiada pela sua força visual e narrativa.

Mais recentemente, os Brizzi têm vindo a afirmar-se no campo da banda desenhada e da ilustração literária. Entre 2015 e 2020, adaptaram obras de autores como Louis-Ferdinand Céline, Boris Vian e Honoré de Balzac, revelando uma abordagem visual sofisticada e profundamente autoral. Em 2023, surpreenderam com uma interpretação singular de A Divina Comédia, mais concretamente O Inferno, numa forma híbrida entre ilustração e banda desenhada, onde o poder das imagens assume protagonismo absoluto. Este projeto deu origem a uma colecção que prosseguiu com Dom Quixote de la Mancha, mantendo a mesma linguagem estética inovadora. Nesse mesmo ano, exploraram também o universo gótico e fantástico de Edgar Allan Poe, com a publicação de dois livros ilustrados baseados nos seus Contos Extraordinários.

Esta edição da Arte de Autor e d' A Seita aposta numa estética cuidada, onde cada prancha funciona como um quadro, reforçando a dimensão sensorial da obra. Mais do que uma adaptação, esta novela gráfica é uma reinterpretação artística que respeita o espírito do original, ao mesmo tempo que o torna acessível a novos leitores.

Com esta publicação, O Fantasma da Ópera reafirma-se como uma narrativa universal, capaz de atravessar épocas e formatos. Entre o terror e a beleza, a nova obra promete conquistar tanto fãs do romance clássico como apreciadores de banda desenhada de autor.

O Fantasma da Ópera, Paul Brizzi e Gaëtan Brizzi, Arte de Autor/A Seita, 168 pp., p&b, capa dura, 29€

10 de abril de 2026

Mulheres de Papel – O Papel das Mulheres na Banda Desenhada Portuguesa


Com curadoria nacional, a mostra propõe um olhar abrangente sobre a produção feminina contemporânea na banda desenhada portuguesa, reunindo obras de 16 autoras: Alice Prestes, Amanda Baeza, Bárbara Lopes, Filipa Beleza, Inês Garcia, Joana Afonso, Joana Mosi, Joana Rosa, Kachisou, Margarida Madeira, Marta Teives, Patrícia Costa, Raquel Costa, Rita Alfaiate, Sofia Neto e Susa Monteiro.

A exposição distingue-se pela forte aposta em originais, privilegiando o contacto directo com o processo artístico em detrimento de reproduções. A complementar esta abordagem, haverá ainda uma componente audiovisual que revela os bastidores criativos de cada autora, oferecendo ao público uma perspectiva mais íntima e detalhada sobre a construção da banda desenhada.

Integrada na programação do festival, “Mulheres de Papel” dialoga com outras exposições dedicadas a universos icónicos como Naruto e Peanuts, bem como com a obra Don Vega, do autor francês Pierre Alary, que marcará presença no evento.

Spy x Family #16

O 16.º volume de Spy x Family, manga de Tatsuya Endo, dá continuidade ao equilíbrio característico entre comédia, acção e intriga política que tem definido a série desde a sua estreia. Neste novo tomo, a narrativa avança em duas frentes distintas: a missão secreta de Loid Forger e o quotidiano escolar de Anya.

A obra é publicada originalmente no Japão pela Shueisha, com serialização digital através da plataforma Shōnen Jump+, onde se tem mantido como um dos títulos mais populares da atualidade.

No centro da componente mais política da narrativa, Loid — sob a identidade de psiquiatra — aproveita uma oportunidade para recolher informações durante um encontro com Melinda Desmond. A personagem, ligada diretamente a Donovan Desmond, figura-chave da operação em curso, torna-se aqui uma peça relevante para o avanço da missão. Este momento permite levantar novas pistas sobre o enigmático líder político, cuja influência continua a pairar como uma ameaça latente. Ainda que as revelações sejam parciais, reforçam o clima de tensão e espionagem que sustenta o arco principal da série.

Em paralelo, o volume acompanha o início de um novo semestre na Academia Eden, onde Anya se vê envolvida numa inesperada rivalidade de dimensão internacional. Este desenvolvimento introduz novos elementos de humor e conflito, mantendo o tom leve que contrasta com a narrativa mais densa centrada nos adultos. A personagem continua a ser um dos motores da popularidade da série, funcionando como ponto de ligação entre o quotidiano escolar e o universo mais amplo de espionagem e conspiração.

Spy x Family tem-se destacado pela capacidade de cruzar géneros distintos, combinando elementos de comédia familiar com temas de espionagem e crítica social. Neste volume 16, essa fórmula mantém-se eficaz, alternando entre momentos de tensão política e episódios de cariz mais leve. A dinâmica entre os membros da família Forger — cada um com segredos próprios — continua a ser central, contribuindo para a construção de uma narrativa multifacetada que apela a diferentes públicos.

Spy x Family #16, Tatsuya Endo, Devir, 212 pp., p&b, capa mole, 9,99€

9 de abril de 2026

La ligne claire d’Hergé, de Gilles Rattier, dedicada a Bob de Moor

Se há coisa que nunca me canso de cole cionar são monografias de autores de banda desenhada. Ao longo dos anos, fui construindo uma biblioteca que já conta com dezenas de volumes — alguns raros, outros mais acessíveis — mas todos fundamentais para compreender melhor os bastidores desta arte que tanto me fascina. Não são apenas livros: são portas de entrada para processos criativos, contextos históricos e, muitas vezes, para autores que ficam injustamente na sombra.

Foi precisamente essa sensação que tive ao receber a edição especial de La ligne claire d’Hergé, de Gilles Rattier, dedicada a Bob de Moor. Este é o tipo de obra que encaixa na perfeição na minha estante — e que justifica plenamente a obsessão por este género editorial.

Quem, como eu, acumula monografias, sabe que o maior prazer está em descobrir o que não é imediatamente visível nas pranchas publicadas. Neste caso, Rattier oferece-nos um mergulho profundo no papel de Bob de Moor dentro do universo de Hergé.

Durante muito tempo, De Moor foi visto como o “segundo homem”, o colaborador exemplar mas discreto. Esta monografia desmonta essa visão redutora e mostra-nos um autor completo, cuja importância vai muito além do estatuto de assistente.

Ao folhear este livro, fica claro que De Moor não era apenas um executante talentoso: era um verdadeiro guardião da estética da linha clara. A sua capacidade de replicar — e, subtilmente, expandir — o estilo de Hergé é impressionante. Para qualquer leitor interessado em Tintin, esta obra oferece uma perspectiva quase inédita: a de perceber como a consistência visual das aventuras foi, em grande parte, assegurada por uma equipa, com De Moor em destaque.

O título do livro levanta uma questão fascinante: a “linha clara” pertence apenas a Hergé? Rattier sugere que não. No contexto dos Studios Hergé, este estilo transforma-se numa linguagem colectiva, dominada por vários artistas — mas poucos com a mestria de De Moor. Este é, aliás, um dos aspectos que mais aprecio em monografias: a capacidade de questionar ideias feitas e de revelar zonas cinzentas na história da BD.

Do ponto de vista editorial, esta edição especial é exactamente aquilo que procuro: rica em documentação, generosa em imagens e cuidada na abordagem crítica. Não é apenas um livro para ler — é um livro para revisitar, comparar, estudar.

E é aqui que entra o lado mais pessoal: quando olho para a minha biblioteca, com dezenas de monografias alinhadas, sei que esta veio ocupar um lugar merecido. Não apenas por ser dedicada a um autor muitas vezes secundarizado, mas porque contribui para uma compreensão mais ampla de um dos movimentos mais importantes da banda desenhada europeia.

Bob de Moor: La ligne claire d’Hergé, Gilles Rattier, BD Must, 320 pp., cor, capa dura, 95€ (exemplar exclusivo para Les Amis d'Hergé)

Punk Comix – Banda Desenhada e Punk em Portugal

A Biblioteca Municipal das Caldas da Rainha recebe, no próximo dia 11 de abril, um conjunto de iniciativas dedicadas à banda desenhada, no âmbito do Leituras a Oeste – Encontro de Artes e Banda Desenhada Jorge Machado-Dias. O evento promete reunir público, investigadores e entusiastas desta forma de expressão artística, numa tarde dedicada à reflexão e divulgação da BD em Portugal.

A programação tem início às 15h00 com a inauguração da exposição “Punk Comix – Banda Desenhada e Punk em Portugal”, que ficará patente ao público até ao dia 7 de Maio. Com curadoria de Marcos Farrajota e Joana Pires, a mostra propõe uma leitura aprofundada da relação entre a cultura punk e a banda desenhada no contexto português.

A exposição destaca o caráter alternativo, independente e contestatário desta ligação, apresentando autores, publicações e movimentos que marcaram diferentes momentos desta interseção cultural. Ao longo do percurso expositivo, os visitantes poderão explorar a evolução de uma contracultura que encontrou na BD um meio privilegiado de expressão artística e intervenção.

Pelas 15h30, terá lugar uma sessão de conversa com o investigador e autor Pedro Moura, subordinada ao tema “Banda desenhada: Nem fácil, nem menor”. A iniciativa propõe uma reflexão sobre a complexidade da banda desenhada enquanto forma narrativa, abordando a sua percepção pública, os desafios que enfrenta e o seu posicionamento no panorama cultural contemporâneo.

Com entrada livre, esta iniciativa integra a programação do festival e reforça o papel da Biblioteca Municipal como espaço de promoção cultural e reflexão artística, convidando a comunidade a descobrir e debater o universo da banda desenhada em Portugal.

8 de abril de 2026

Corto Maltese: O dia anterior

O regresso de Corto Maltese continua a afirmar-se como uma das reinvenções mais interessantes da banda desenhada europeia contemporânea. Em Corto Maltese – O Dia Anterior, com argumento de Martin Quenehen e desenho de Bastien Vivès, somos transportados para uma narrativa actual, onde os grandes temas do nosso tempo se cruzam com o espírito aventureiro clássico da personagem criada por Hugo Pratt.

A história começa em Sydney, onde Corto tenta ajudar Marcus, um velho amigo pirata preso numa espiral de autodestruição marcada pelo vício. Fiel à sua natureza errante, Corto opta por aquilo que melhor sabe fazer: fugir para a frente, lançando-se numa nova aventura. A oportunidade surge através de uma advogada que representa um grupo de activistas ambientais. Uma das suas integrantes foi detida nas ilhas Tuvalu e enfrenta a ameaça de extradição para a China — um destino que poderá significar o fim da sua liberdade.

É assim que se inicia uma viagem rumo ao Pacífico, a bordo de um hidroavião decadente pilotado por Marcus, numa missão que mistura resgate, redenção e denúncia. O cenário escolhido não é inocente: Tuvalu surge como símbolo das primeiras vítimas reais das alterações climáticas, com o aumento do nível do mar a ameaçar a própria existência destas ilhas.

Quenehen constrói um argumento que respeita o ADN de Corto — o aventureiro solitário, irónico e moralmente ambíguo — mas introduz uma camada contemporânea, onde temas como activismo, geopolítica e crise ambiental ganham protagonismo. Já Vivès oferece um traço moderno, depurado e expressivo, que pode dividir fãs mais puristas, mas que reforça o tom intimista e melancólico da narrativa.

O álbum destaca-se precisamente por esse equilíbrio entre tradição e renovação. Não se limita a revisitar o mito de Corto Maltese, antes procura colocá-lo no presente, confrontando-o com dilemas atuais e urgentes. A aventura mantém-se, mas agora carrega um peso mais real, mais político — e talvez por isso mais inquietante.

Corto Maltese – O Dia Anterior é, assim, uma leitura que vai além do escapismo habitual. É uma viagem que nos lembra que o espírito livre de Corto continua vivo, mas também que o mundo que ele percorre está em transformação — e nem sempre para melhor.

Corto Maltese: O dia anterior, Martin Quenehen e Bastien Vivès, Arte de Autor, 176 pp., p&b + caderno final a cores, capa dura, 27,95€

Ilustra BD - 7ª edição

O Ilustra BD está de regresso ao Barreiro para a sua 7.ª edição, reafirmando-se como um dos principais encontros dedicados à banda desenhada e à ilustração em Portugal. Com uma programação diversificada, o evento reúne autores nacionais e internacionais, editores e público, promovendo um espaço de partilha, descoberta e celebração da narrativa gráfica.

Entre os destaques desta edição estão as exposições, que percorrem diferentes universos e estilos. Uma das mais emblemáticas é dedicada ao universo de Snoopy e da série Peanuts, criada por Charles M. Schulz, assinalando os 75 anos desta icónica personagem, numa parceria com a Penguin Random House.

A programação inclui também “Shhhh”, do ilustrador André da Loba, uma proposta sensorial inspirada no seu livro homónimo, especialmente pensada para o público escolar, convidando à exploração dos sons do quotidiano.

Outro ponto alto é “Zorro - o Herói Popular”, de Pierre Alary, uma exposição que revisita o mito de Zorro enquanto símbolo de justiça e resistência, em parceria com a Ala dos Livros.

A mostra “Mulheres de Papel”, com curadoria de Hugo Pinto, reúne o trabalho de 16 ilustradoras contemporâneas, propondo uma reflexão sobre o papel das mulheres na banda desenhada portuguesa.

Já os fãs de manga poderão embarcar no universo de Naruto, criado por Masashi Kishimoto, numa exposição que percorre o caminho do jovem ninja, com curadoria de Paulo Monteiro e parceria com a Devir.

Para além das exposições, o Ilustra BD mantém a aposta numa programação abrangente, com feira do livro, sessões de autógrafos, conversas com autores, oficinas e visitas guiadas, proporcionando uma experiência completa para públicos de todas as idades.

A identidade visual desta edição é assinada por Gualter Amaro, contribuindo para reforçar a imagem contemporânea e dinâmica do evento.

Com entrada aberta à criatividade e ao imaginário, o Ilustra BD volta assim a afirmar o Barreiro como um ponto de encontro essencial para todos os amantes da banda desenhada e da ilustração.



7 de abril de 2026

Batman - Grant Morrison #6

O sexto volume da colecção Batman por Grant Morrison, reúne algumas das histórias mais experimentais e sombrias da sua passagem pelo universo do Cavaleiro das Trevas. Com 188 páginas, este tomo compila material originalmente publicado pela DC Comics no final da década de 2000.

O volume inclui os números #8 a #10 da série Batman and Robin, originalmente editados entre 2009 e 2010. Estas histórias integram a fase em que Dick Grayson assume o manto de Batman, acompanhado por Damian Wayne como Robin, num período de transição marcante após os eventos de Final Crisis.

Entre os arcos narrativos presentes, destaca-se Blackest Knight, uma história que cruza elementos de horror com o universo gótico de Gotham, e The Return of Bruce Wayne, do qual faz parte o capítulo The Time and the Batman.

Em Blackest Knight, Batman e Batwoman enfrentam uma ameaça insólita: uma figura que assume a identidade do Cavaleiro das Trevas sob a forma de um morto-vivo. A história explora temas de identidade e legado, recorrentes na escrita de Morrison, ao mesmo tempo que introduz uma atmosfera de terror que se afasta do tom mais tradicional das histórias do herói. A presença de Batwoman reforça a dimensão mais sombria e de investigação do enredo, num confronto que coloca em causa a própria noção de quem — ou o que — pode ser Batman.

Já em The Time and the Batman, Morrison desenvolve uma das suas abordagens mais características: a manipulação do tempo como elemento narrativo. A história liga passado, presente e futuro de Bruce Wayne, construindo um puzzle complexo que envolve viagens temporais e pistas deixadas ao longo de diferentes épocas. Com a participação do Joker, o arco reforça a dimensão quase mítica do confronto entre herói e vilão, apresentando-o como um ciclo que transcende o tempo.

Além do argumento de Grant Morrison, o volume conta com arte de Andy Clarke, Ian Hannin e Scott Hanna. O trabalho visual acompanha a complexidade do argumento, alternando entre sequências de ação intensa e momentos mais abstratos, especialmente nas passagens de caráter temporal.

Batman - Grant Morrison #6, Andy Clarke, Ian Hannin, Scott Hanna e Grant Morrison, Devir, 188 pp., cor, capa dura, 20€