5 de março de 2026

Kiki de Montparnasse — Biografia em banda desenhada de um ícone livre

Na história da arte do século XX, muitas mulheres ficaram eternizadas como musas — rostos, corpos e presenças que inspiraram artistas homens. Poucas, porém, foram reconhecidas como criadoras e protagonistas da sua própria narrativa. É precisamente essa reparação simbólica que Catel Muller e José-Louis Bocquet realizam em Kiki de Montparnasse, uma das mais marcantes biografias em banda desenhada das últimas décadas.

Publicada originalmente em 2007, a obra reconstrói a vida de Kiki de Montparnasse (Alice Prin), figura central da boémia parisiense dos anos 1920. Modelo, cantora, pintora, atriz e escritora, Kiki foi muito mais do que a célebre imagem captada por Man Ray em Le Violon d’Ingres. Foi um símbolo de liberdade feminina numa época de intensa efervescência artística.

Catel e Bocquet não optam por uma narrativa breve ou episódica. Pelo contrário, constroem um volume extenso, de fôlego quase romanesco, que acompanha Kiki desde a infância pobre até à consagração como “rainha de Montparnasse”. O traço elegante e expressivo de Catel — predominantemente a preto e branco — equilibra leveza e densidade histórica. A linha clara reforça a dimensão documental, mas nunca abdica da emoção. O argumento de Bocquet, por sua vez, articula rigor histórico e fluidez narrativa, evitando tanto a hagiografia como o sensacionalismo.

A obra recebeu o Prémio do Público no Festival International de la Bande Dessinée d’Angoulême em 2008, distinção que consolidou o seu estatuto no panorama europeu da BD.

Kiki de Montparnasse, Catel Muller e José-Louis Bocquet, Devir, 406 pp., p&b, capa dura, 22€




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