31 de março de 2026

Final Cut de Charles Burns

Publicado originalmente em 2014 pela Pantheon Books, Final Cut encerra a trilogia iniciada com X’ed Out (2010) e continuada em The Hive (2012). Trata-se de um dos trabalhos mais densos e formalmente sofisticados de Charles Burns, autor incontornável da banda desenhada contemporânea.

A narrativa acompanha Brian, jovem artista e aspirante a cineasta que, desde a infância, filma pequenas histórias de ficção científica no quintal de casa. Anos depois, decide realizar um verdadeiro filme de terror em 8 mm numa cabana isolada, com os amigos Jimmy, Tina e Laurie — esta última, musa involuntária e objecto de uma paixão não correspondida.

A homenagem declarada é ao clássico Invasion of the Body Snatchers, referência maior da ficção científica paranóica dos anos 50. Contudo, à medida que a rodagem avança, o leitor percebe que o verdadeiro palco da acção não é a floresta, mas a mente fragmentada de Brian.

Burns constrói um jogo subtil entre realidade, fantasia e memória. A idealização de Laurie transforma-se numa narrativa paralela onde Brian assume o papel de salvador, confundindo desejo com ficção. O autor explora a forma como o impulso criativo pode tornar-se fuga — ou até distorção — do real.

Graficamente, Final Cut mantém o traço rigoroso e contrastado que celebrizou o autor. O preto profundo e os enquadramentos meticulosamente compostos evocam tanto o cinema clássico como a estranheza do surrealismo. Há uma cadência quase hipnótica nas sequências mudas, onde o silêncio pesa tanto quanto o diálogo.

No panorama da banda desenhada contemporânea, Final Cut afirma-se como uma obra madura, inquietante e profundamente autoral. Charles Burns confirma aqui o seu estatuto de mestre da forma, capaz de transformar obsessões pessoais numa experiência estética de rara intensidade.

Base de dados

Final Cut, Charles Burns, ASA, 224 pp., cor, capa mole, 29,90€

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