26 de fevereiro de 2026

Sangoma – Os Condenados da Cidade do Cabo: crime, memória e feridas abertas na África do Sul

Vinte anos após o fim do Apartheid, a África do Sul continua a viver com as suas cicatrizes expostas. O regime caiu oficialmente em 1994, com a eleição de Nelson Mandela, mas as desigualdades estruturais permanecem profundas. A propriedade da terra — concentrada historicamente nas mãos da minoria branca — continua a ser um dos temas mais fracturantes da sociedade sul-africana.

É neste cenário politicamente inflamável que surge Sangoma – Os Condenados da Cidade do Cabo, a nova obra publicada em Portugal pela Arte de Autor, com argumento de Caryl Férey e desenho de Corentin Rouge.

Sam, trabalhador negro, é encontrado morto nas terras da quinta Pienaar, propriedade dos seus patrões brancos. O caso é atribuído ao tenente Shane Shepperd, que rapidamente se confronta com um labirinto de silêncios, mentiras e tensões raciais latentes.

O que começa como uma investigação criminal transforma-se numa radiografia social. À medida que Shepperd interroga proprietários e trabalhadores, percebe que o homicídio não pode ser desligado do contexto mais vasto: o debate nacional sobre a reforma agrária.

No parlamento sul-africano, a redistribuição de terras — prometida como forma de corrigir as injustiças históricas do apartheid — reacende divisões profundas. Partidos radicais pressionam por expropriações sem indemnização, enquanto sectores conservadores temem o colapso económico. Este pano de fundo político não é decorativo: é o motor invisível que alimenta o conflito.

Sangoma não surge no vazio. A questão da terra na África do Sul é um tema real e altamente sensível. Após 1994, o governo implementou programas de restituição e redistribuição fundiária, mas o processo revelou-se lento e controverso. Dados oficiais mostram que, décadas depois do fim do regime segregacionista, uma parte significativa das terras agrícolas continua concentrada na minoria branca.

Caryl Férey é conhecido por trabalhar os seus thrillers a partir de contextos políticos reais — já o fizera na África do Sul com o romance Zulu. Aqui, volta a mergulhar nas contradições do país, explorando não apenas o legado do apartheid, mas também as frustrações do presente: corrupção, desigualdade económica e desconfiança institucional.

O título Sangoma remete para os curandeiros tradicionais sul-africanos, figuras espirituais que simbolizam ligação à terra e à memória ancestral — uma metáfora poderosa numa narrativa onde passado e presente se entrelaçam.

O traço de Corentin Rouge acrescenta densidade atmosférica à história. As paisagens sul-africanas — da Cidade do Cabo às zonas rurais — surgem simultaneamente belas e inquietantes. O contraste entre espaços abertos e interiores claustrofóbicos reforça a sensação de tensão constante. A arte serve o argumento com sobriedade e impacto, evitando caricaturas e optando por uma abordagem realista que amplifica o peso social da narrativa.

No lançamento original em França, a obra foi destacada pela crítica especializada pela sua abordagem política madura e pela forma como alia thriller policial a comentário social. A imprensa sublinhou a capacidade de Férey em transformar conflitos geopolíticos complexos em narrativas humanas intensas. A colaboração entre Férey e Rouge foi particularmente elogiada pela coerência entre texto e imagem, consolidando o álbum como uma das adaptações mais ambiciosas do universo literário do autor para a banda desenhada.

A edição da Arte de Autor reforça a aposta da editora em banda desenhada de forte dimensão literária e política, trazendo aos leitores portugueses uma obra que dialoga diretamente com a atualidade internacional. Mais do que um thriller, Sangoma é um espelho de um país onde a História não passou — apenas mudou de forma.

Sangoma – Os Condenados da Cidade do Cabo, Caryl Férey e Corentin Rouge, Arte de Autor, 152 pp., cor, capa dura, 33€ 



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