24 de fevereiro de 2026

O Nome da Rosa - Volume 2

No segundo volume de O Nome da Rosa em banda desenhada, Milo Manara aprofunda de forma notável a adaptação do célebre romance de Umberto Eco, conduzindo o leitor para o núcleo mais sombrio e intelectual da abadia. Se o primeiro volume estabelecia o cenário e o enigma, este segundo tomo mergulha plenamente nas suas tensões filosóficas, teológicas e políticas, onde o crime, o saber e o poder se cruzam de forma inevitável.

O traço de Manara revela aqui uma maturidade rara. A arquitectura monástica, os claustros, a biblioteca-labirinto e os espaços de clausura são representados com um rigor quase arqueológico, enquanto certas sequências assumem um carácter mais simbólico e introspectivo. O jogo de luz e sombra é essencial para criar uma atmosfera de permanente inquietação, e a composição das páginas acompanha o ritmo da investigação conduzida por Guilherme de Baskerville, sempre filtrada pelo olhar ainda ingénuo de Adso.

Longe de simplificar a obra original, Manara enfrenta o desafio de traduzir em imagens a densidade do romance de Umberto Eco. O segundo volume é particularmente rico nesse aspecto, pois concentra os grandes temas do livro: o conflito entre razão e dogma, o medo do riso, o controlo do conhecimento, a heresia e o poder da palavra escrita. A banda desenhada não se limita a ilustrar o texto, antes propõe uma leitura visual que respeita e amplifica a complexidade do original.

Umberto Eco, que sempre defendeu a banda desenhada como uma forma narrativa plenamente legítima, via nesta adaptação uma forma de devolver ao leitor a materialidade sensorial do seu romance: a pedra fria da abadia, o peso dos manuscritos, a tinta, o fogo, o silêncio e o terror. Neste segundo volume, essas dimensões ganham especial relevo, tornando visíveis ideias e tensões que no romance se desenvolvem sobretudo através do discurso.

Com a publicação deste tomo, finalmente acessível, completa-se uma adaptação ambiciosa e exemplar. O Nome da Rosa, na leitura gráfica de Milo Manara, é mais do que uma transposição de um clássico literário: é um diálogo entre dois grandes nomes da cultura italiana, entre palavra e imagem, que confirma tanto a actualidade do pensamento de Umberto Eco como a versatilidade de Manara num registo mais contido, rigoroso e profundamente narrativo.

O Nome da Rosa - Volume 2, Milo Manara, Gradiva, 72 pp., cor, capa dura, 24,50€


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