18 de abril de 2026

Wild West #4: A lama e o sangue

O quarto volume da série Wild West, intitulado A Lama e o Sangue, marca a conclusão do segundo díptico desta saga de western criada por Thierry Gloris e ilustrada por Jacques Lamontagne. Publicado em Portugal pela Ala dos Livros, este álbum reforça a ambição da série: revisitar o mito do Velho Oeste com um olhar crítico, denso e historicamente consciente.  

Longe da visão romantizada do western clássico, A Lama e o Sangue mergulha num território moralmente ambíguo. A narrativa acompanha figuras lendárias como Wild Bill Hickok, Calamity Jane e Charlie Utter, que continuam a perseguição a um assassino misterioso cuja história pessoal — marcada por violência e trauma — reflete o próprio ambiente brutal do Oeste.  

Neste volume, o passado do antagonista ganha relevância: terá sido vítima de um ataque indígena em criança, perdendo os pais e sendo escalpelado. Este detalhe não serve apenas como elemento dramático, mas como chave temática — a violência não surge como exceção, mas como herança inevitável de um território em conflito permanente.  

Um dos elementos mais interessantes do álbum é a forma como integra acontecimentos e tensões históricas. A presença dos Buffalo Soldiers — soldados afro-americanos contratados para proteger a expansão ferroviária — introduz uma camada adicional de crítica social. A obra expõe a ironia de uma nação que, proclamando liberdade, instrumentaliza minorias oprimidas contra outras comunidades igualmente marginalizadas.  

A narrativa ganha ainda mais peso quando a construção da linha férrea leva à destruição de um cemitério sagrado indígena, desencadeando novas tensões. Este episódio sintetiza um dos temas centrais da série: o progresso como força violenta, que avança à custa da memória, da cultura e da dignidade humana.  

O trabalho gráfico de Lamontagne continua a ser um dos grandes trunfos da série. Com traço detalhado e uma paleta que privilegia tons terrosos e sombrios, o artista cria uma atmosfera opressiva que acompanha o tom da narrativa. A “lama” e o “sangue” do título não são apenas metáforas — estão presentes visualmente em cada página, reforçando a sensação de um mundo sujo, violento e sem redenção.

Enquanto quarto volume, A Lama e o Sangue funciona como desfecho direto dos acontecimentos iniciados no tomo anterior (Escalpes em Série). A estrutura em dípticos permite um desenvolvimento mais aprofundado das personagens e dos conflitos, culminando aqui numa resolução que privilegia o realismo e evita soluções simplistas.  

Wild West – A Lama e o Sangue confirma a série como uma das abordagens mais maduras do western contemporâneo em banda desenhada. Ao conjugar personagens históricas, rigor temático e uma visão crítica do mito americano, Gloris e Lamontagne constroem uma obra que desafia o leitor a confrontar a violência fundadora dos Estados Unidos.

Mais do que uma história de cowboys, este volume é um retrato cru de um mundo onde justiça e barbárie coexistem — e onde, muitas vezes, são indistinguíveis.

Wild West #4: A lama e o sangue, Jacques La Montagne e Thierry Gloris, Ala dos Livros, 48 pp., cor, capa dura, 17,50€

Casemate nº 200: Uma Edição de Memória, Criação e Actualidade

O número 200 da revista Casemate não se limita a assinalar um marco — celebra-o com uma edição rica, diversa e profundamente ligada à história e ao presente da banda desenhada.

Logo nas primeiras páginas, Casemate abre a sua “caixa de recordações”, convidando os leitores a revisitar momentos marcantes das suas duzentas edições. Este olhar retrospectivo sublinha o percurso da revista enquanto observadora privilegiada da evolução da 9.ª arte.

A edição destaca também criadores e obras que dialogam com o mundo actual. Pierre-Henry Gomont Harambat surge com uma abordagem sensível aos desafios do mundo agrícola, enquanto a habitual Journorama oferece uma panorâmica da actualidade da BD.

Nas páginas seguintes, L’Écho des Rézos compila o melhor das redes sociais, mostrando como a banda desenhada vive também no espaço digital.

Entre os destaques mais apetecíveis estão as antevisões de novas obras, acompanhadas de pranchas inéditas. Fabien Vehlmann e Jean-Baptiste Andreae apresentam La Cuisine des ogres, enquanto Geoffroy Delorme partilha a sua experiência singular em L’Homme-chevreuil.

Zep surpreende com Tourner la page, uma obra centrada na morte de um escritor célebre, e a equipa formada por Xavier Dorison, Thomas Delahaye e Jean-Baptiste Parnotte apresenta Cauchon, num registo intenso e provocador.

Como é tradição, a revista inclui uma selecção criteriosa de 24 álbuns a descobrir, seguida de um extenso guia com 262 lançamentos, festivais e exposições, tornando este número uma ferramenta essencial para acompanhar o panorama editorial.

A segunda metade da revista continua a destacar a diversidade criativa da BD contemporânea. Jordi Lafebre Brocal leva-nos à Langue des vipères, num século XV alternativo, enquanto Teresa Radice e Stefano Turconi exploram uma caça às bruxas na França de Richelieu. O clássico Frankenstein ganha nova vida pelas mãos de Sergio Sala, mostrando como as grandes histórias continuam a ser reinventadas.

Nas páginas finais, Dano apresenta um projecto invulgar ao convidar desconhecidos a posarem nus no seu atelier, enquanto Jessica Usdin reflecte sobre um retrato de Andy Warhol assinado por Alice Neel.

Com este número 200, Casemate reafirma-se como uma publicação essencial para quem acompanha a banda desenhada. Entre memória, crítica, descoberta e antecipação, esta edição especial é um verdadeiro retrato da vitalidade e diversidade da 9.ª arte contemporânea.

Casemate #200, avril 2025, 100 pp., cor, 9,80€

17 de abril de 2026

Gannibal #6

Desde a alvorada da Humanidade que o canibalismo nos acompanha, como uma sombra alternativa da civilização. E embora pareça ter desaparecido, muitos pensam que está apenas escondido e esquecido...
Daigo Agawa, polícia citadino, é destacado para Kuge, uma vila perdida nas montanhas, para onde vai viver com a esposa e a filha, em busca de uma vida calma numa comunidade acolhedora. Mas a morte de uma idosa levanta dúvidas sobre o que realmente se passa, e sobre o misterioso desaparecimento do seu predecessor na aldeia.

Acontecimentos estranhos e inesperados, um ambiente que banha numa atmosfera angustiante de exclusão permanente e de tensão que não dá descanso... Gannibal é uma série que anuncia as suas premissas terríveis logo de entrada. Em apenas dez páginas do volume inicial chegámos ao primeiro cadáver, e o nosso protagonista, Daiwo, foi ameaçado por um dos aldeões com uma caçadeira! O desenho de Masaaki Ninomiya ajuda a criar o suspense da série, com enquadramentos apertados e que oscilam entre caras desfiguradas pelo medo ou pela emoção em grande plano, e vistas mais amplas das montanhas cheias de um silêncio pesado. 

Neste sexto volume a narrativa avança, com mais mistérios, alguns resolvidos, outros que se vão adensando, tecendo uma tapeçaria cheia de terror e suspense, enquanto continuamos inexoráveis para o desenrolar final, agora que estamos a atingir o meio da saga. Daigo Agawa, aproxima-se cada vez mais do deslindar do mistério que circunda a vila de Kuge e a família Goto. Serão eles ou não canibais? Vamos finalmente conhecer o propósito das crianças desaparecidas e que descobrimos estarem presas numa cave? E que pensar do passado de Keisuke, membro da família Goto, cuja posição oscila entre os deveres familiares e os de justiça e da moral? Não percam mais esta peça do puzzle.

Originalmente publicado na revista de mangá seinen Weekly Manga Goraku, Gannibal foi adaptado para uma série de live-action na Disney+, já com duas temporadas, e o seu décimo volume foi nomeado para o Prémio de Melhor Série do festival de Angoulême de 2023.

Masaaki Ninomiya é um mangaká que vive em Tóquio. Apesar de uma carreira relativamente curta na indústria, já foi galardoado com vários prémios que o tornaram numa das estrelas em ascensão do mangá. A sua primeira série foi Chousou no Babel, em 2016, e em 2018 começou Gannibal, a série que conquistou os corações da crítica e do público, desde a sua estreia na célebre revista Weekly Manga Goraku. A série já atingiu o número extraordinário de mais de três milhões e meio de exemplares vendidos em todo o mundo. Ninomiya destaca-se pelo seu estilo artístico poderoso e incisivo, que retrata uma atmosfera tensa e personagens complexos, numa exploração profunda da psique humana.

Gannibal #6, Masaaki Ninomiya, A Seita, 192 pp., p&b, capa mole, 11,99€

Nevada #3: Blue Canyon

A série Nevada insere-se claramente no universo do western, ainda que o faça através de uma abordagem moderna e híbrida. Escrita por Fred Duval e Jean-Pierre Pécau, com ilustração de Colin Wilson, a série revisita os códigos clássicos do género — o herói solitário, a fronteira, a violência e a sobrevivência — ao mesmo tempo que os transporta para um contexto histórico menos convencional: o início da indústria cinematográfica americana.

Embora profundamente enraizada no imaginário do Velho Oeste, Nevada não se limita a recriar os cenários tradicionais de cowboys e duelos. A série propõe uma reflexão sobre o próprio mito do western, colocando o seu protagonista, Nevada Márquez, entre dois mundos: o da memória da conquista do Oeste e o da sua recriação ficcional em Hollywood. Este enquadramento é particularmente relevante dentro da evolução do género western na banda desenhada europeia, que nas últimas décadas tem procurado reinterpretar os seus códigos, afastando-se da visão clássica e heróica para explorar dimensões mais ambíguas, sombrias e até meta-narrativas.

O terceiro volume, Blue Canyon, aprofunda esta abordagem ao cruzar o western com o thriller e o universo do cinema nascente. A história parte de um incidente aparentemente banal: durante a rodagem de um filme, um actor morre, obrigando à sua substituição. Nevada é então encarregado de escoltar o novo protagonista até ao local de filmagem — uma missão que rapidamente se transforma numa travessia perigosa por territórios hostis. Este argumento retoma elementos clássicos do western — a viagem, o perigo constante, o confronto com territórios indígenas — mas introduz uma camada adicional: a tensão entre realidade e ficção. O Oeste já não é apenas vivido, é também encenado.

Nevada #3: Blue Canyon, Colin Wilson, Fred Duval e Jean-Pierre Pécau, A Seita, 56 pp., cor, capa dura, 18,99€

16 de abril de 2026

15 de abril de 2026

Coimbra BD 2026: O regresso do grande festival de banda desenhada a Coimbra



A cidade de Coimbra volta a afirmar-se como um dos principais polos da cultura visual em Portugal com o regresso do Coimbra BD 2026. O evento decorre entre os dias 24 e 26 de Abril, no emblemático Convento São Francisco, e promete uma edição mais ambiciosa, com programação alargada e novas áreas dedicadas à banda desenhada, ilustração e cultura pop.

Com mais de 60 autores e ilustradores, tanto nacionais como internacionais, esta edição reforça o papel de Coimbra como ponto de encontro criativo. Entre os convidados destacam-se nomes portugueses como Daniel Maia — responsável pelo cartaz —, André Carrilho, João Mascarenhas e Filipe Abranches, além de artistas internacionais como Marcello Quintanilha, Ángel de la Calle e Anna Poszepczyńska.

Segundo Margarida Mendes Silva, vereadora da cultura da Câmara Municipal de Coimbra, o festival tem vindo a consolidar-se como um espaço de criação, divulgação e partilha artística, promovendo o contacto direto entre o público e os criadores.

Uma das principais novidades deste ano é o aumento da área expositiva, com a inclusão da antiga igreja do Convento São Francisco. Este novo espaço será dedicado às editoras e às sessões de autógrafos, respondendo à crescente procura por parte de artistas e público. Outra aposta forte é a expansão da área de videojogos, com destaque para produções nacionais — especialmente de estúdios locais de Coimbra —, reforçando a ligação entre a banda desenhada e outras formas de narrativa visual.

O Coimbra BD 2026 apresenta uma programação diversificada, pensada para diferentes públicos e interesses. Entre as atividades previstas estão:

Exposições e lançamentos editoriais

Workshops e oficinas de desenho

Sessões de autógrafos com autores

Exibições de cinema

Concursos de cosplay (com selecção para o MCM London)

Área dedicada a jogos de tabuleiro

Os fãs de jogos poderão experimentar títulos como “Dungeons & Dragons”, “Lorcana Winterspell”, “Azul Duel” e “Scrabble”, com demonstrações, painéis e torneios.

O primeiro dia do festival será especialmente dedicado às escolas, com actividades pedagógicas como workshops, horas do conto e apresentações. A organização reforça assim a sua missão de estimular novos públicos e incentivar o talento emergente.

Depois de receber mais de 18 mil visitantes em 2025, a organização espera manter — ou superar — esse número em 2026. O investimento municipal ronda os 54 mil euros, refletindo a crescente importância do evento no panorama cultural.

O festival decorre entre as 10h00 e as 20h00 nos dias 24 e 25 de Abril, e até às 18h00 no dia 26. A entrada é gratuita, tornando este um evento acessível a todos os interessados.

Mais do que um festival, o Coimbra BD afirma-se como um verdadeiro ponto de encontro para criadores, fãs e curiosos. Ao cruzar diferentes linguagens artísticas — da ilustração ao gaming —, o evento reforça o seu papel como motor cultural e criativo, colocando Coimbra no mapa da banda desenhada a nível nacional e internacional.


Kagurabachi: o fenómeno que chega agora em português

A editora Devir publica o primeiro volume de Kagurabachi, uma das séries mais mediáticas da nova geração de mangá japonês. Criada por Takeru Hokazono, a obra destacou-se rapidamente pela forte adesão dos leitores e pela viralização nas redes sociais, tornando-se num dos casos mais invulgares de popularidade recente no setor.

A série estreou no Japão a 19 de Setembro de 2023 na revista Weekly Shōnen Jump, publicação da editora Shueisha, conhecida por lançar alguns dos títulos mais influentes do género shōnen. O primeiro volume encadernado foi editado no mercado japonês em Fevereiro de 2024, reunindo os capítulos iniciais da narrativa. Desde então, Kagurabachi tem sido distribuído internacionalmente, incluindo em formato digital através da plataforma Manga Plus, alargando rapidamente a sua base de leitores fora do Japão.

Apesar da sua curta duração, a série já ultrapassou os milhões de exemplares em circulação, um resultado pouco comum para títulos tão recentes. Este crescimento tem sido impulsionado sobretudo pelo impacto online e pela mobilização de comunidades de fãs, que ajudaram a consolidar a sua visibilidade global. Actualmente, Kagurabachi mantém-se em publicação e não tem conclusão anunciada, continuando a ser serializado na Weekly Shōnen Jump.

No plano crítico, a obra também começou a reunir reconhecimento. Entre as distinções alcançadas, destaca-se a vitória nos Next Manga Award de 2024, na categoria de melhor mangá impresso, além de nomeações para prémios relevantes da indústria japonesa.

O primeiro volume introduz a história de Chihiro Rokuhira, jovem que envereda por um percurso de vingança num universo marcado por espadas de poderes sobrenaturais e conflitos violentos. A narrativa combina elementos clássicos do shōnen com um tom mais sombrio, característica que tem contribuído para a sua recepção positiva.

Kagurabachi, Takeru Hokazono, Devir, 216 pp., p&b, capa mole, 9,99€