6 de janeiro de 2026

Beja prepara o primeiro Museu de Banda Desenhada de Portugal

Beja volta a afirmar-se como um dos principais centros da banda desenhada em Portugal. A cidade alentejana vai acolher o primeiro Museu de Banda Desenhada (MBD) do país, um projecto há muito desejado que deverá abrir portas ao público em 2027, após um investimento global superior a 1,2 milhões de euros, com financiamento comunitário já garantido.

De acordo com a informação divulgada pela Câmara Municipal de Beja, o investimento total ascende a 1.274.027,69 euros, sendo comparticipado em 85% por fundos comunitários, através do programa Alentejo 2030. O museu resultará da reabilitação de um edifício devoluto no centro histórico da cidade, que será adaptado para acolher este novo equipamento cultural de dimensão inédita no panorama nacional.

Em declarações à agência Lusa, Paulo Monteiro — diretcor da Bedeteca de Beja, técnico da autarquia e também responsável pelo Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja — confirmou que a candidatura apresentada pela câmara foi aprovada em Outubro. Segundo o responsável, o calendário aponta para a abertura do concurso da obra em 2026 e para a inauguração do museu no ano seguinte.

Um dos aspectos mais relevantes do futuro MBD de Beja é o seu acervo, já considerado excepcional. O museu contará com um espólio que cobre um período que vai de meados do século XIX ao início do século XXI, permitindo uma visão abrangente da história da banda desenhada portuguesa.

No total, o acervo integra cerca de 1.500 pranchas originais de banda desenhada, além de centenas de fotografias, manuscritos, guiões e correspondência, pertencentes a quase uma centena de autores nacionais. Entre os nomes representados encontram-se figuras incontornáveis como Rafael Bordalo Pinheiro, Stuart de Carvalhais e Carlos Botelho, entre muitos outros.

Segundo Paulo Monteiro, este conjunto de materiais possibilita “uma panorâmica muito alargada sobre a história da banda desenhada portuguesa”, reforçando a importância patrimonial e artística da chamada 9.ª arte no contexto nacional.

O Museu de Banda Desenhada de Beja será muito mais do que um espaço expositivo. A infraestrutura integrará três salas de leitura, onde ficará instalada a actual Bedeteca de Beja, hoje sediada na Casa da Cultura. Estão igualmente previstas sete salas de exposição permanente, duas salas para exposições temporárias, uma sala dedicada a oficinas pedagógicas, uma ampla área com função de loja, gabinetes, arquivo, terraço e outras valências complementares.

Este conjunto de espaços permitirá ao museu funcionar como centro vivo de investigação, divulgação, criação e formação, dirigido tanto a públicos especializados como ao grande público.

Para Paulo Monteiro, este é também um passo essencial para o reconhecimento do valor histórico, artístico e cultural da banda desenhada, cuja origem remonta a cerca de 1850. “É muito importante que as pessoas no nosso país tenham noção do real valor deste património e da contribuição da banda desenhada para a história da arte portuguesa”, sublinha.

A criação do museu surge como consequência natural de um trabalho continuado desenvolvido em Beja ao longo das últimas décadas. Desde 2005 que a cidade acolhe uma das poucas bedetecas existentes em Portugal e recebe anualmente o Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja, um dos mais antigos e prestigiados do país.

A este ecossistema cultural junta-se ainda o colectivo Toupeira, activo há quase 25 anos, composto por mais de 30 autores que vivem da banda desenhada e da ilustração, reforçando a centralidade de Beja na criação contemporânea.

Com o Museu de Banda Desenhada, Beja dá um passo decisivo para consolidar esse legado, transformando-se num polo cultural de referência nacional e internacional e garantindo que a história e o futuro da 9.ª arte tenham, finalmente, uma casa própria em Portugal.

Casemate #197

Com capa de Milo Manara, já se encontra disponível o primeiro número da revista francesa Casemate deste ano novo de 2026. Eis o sumário do número:
P.4-9 Anne Goscinny entend son père, René, à travers les pages
P.10-12 Jeune et fauchée, un témoignage sans fard signé Dupré la Tour
P.14-16 Journorama, revue de presse de l’actu BD
P.18-19 L’Écho des Rézos, le meilleur de Facebook, X, Bluesky, Instagram…
P.22-25 Rodolphe et Griffo sous le déluge du cajoleur de nuages ! (+2 planches)
P.26-31 Kid Francis, l’émouvant destin d’un boxeur marseillais déporté (+4 planches)
P.32-37 Ollagnier et Le Pon racontent Madeleine Pauliac, autre résistante (+4 planches)
P.38-43 L’invisibilité, utile pour espionner lors de la guerre de Sept Ans (+4 planches)
P.44-49 Mikaël et Roulot, naufragés dans un petit village de femmes (+4 planches)
P.50-59 Manara met le feu aux poutres dans son adaptation du Nom de la rose (+4 planches)
P.60-69 Une sélection de 24 BD à découvrir en janvier
P.70-73 Agenda : les 270 sorties de janvier, les festivals et les expos
P.74-79 Lady Nazca consacra sa vie à l’étude des géoglyphes péruviens (+4 planches)
P.80-85 Tehem promène un esclavagiste en laisse dans Les Grandes Personnes (+4 planches)
P.86-91 Guérillero, journal d’un enfant parti rejoindre les FARC (+4 planches)
P.92-95 Howe, véritable couteau suisse des univers de Tolkien
P.96-97 Zuttion reluque les damnés de Bouguereau
P.98 Le courrier du mois à la loupe

Casemate #197, janvier 2026, 100 pp., 8€

5 de janeiro de 2026

“Rare Flavours”: a nova banda desenhada de Ram V e Filipe Andrade chega a Portugal

A banda desenhada Rare Flavours, assinada pelo argumentista indiano Ram V e pelo desenhador português Filipe Andrade, vai ser publicada em Portugal no final de maio, numa edição da Kingpin Books. A confirmação foi feita pelo editor Mário Freitas à agência Lusa, reforçando a crescente projecção internacional do trabalho de Filipe Andrade e a atenção do mercado português à banda desenhada de autor.

Publicada originalmente em 2024 pela norte-americana Boom! Studios, Rare Flavours surgiu primeiro em vários volumes, tendo sido posteriormente reunida num único tomo. Esta obra marca mais uma colaboração entre Ram V e Filipe Andrade, depois do aclamado sucesso de As muitas mortes de Laila Starr, que conquistou leitores e crítica um pouco por todo o mundo.

O protagonista de Rare Flavours é Rubin Baksh, um demónio carismático e inquietante que ambiciona tornar-se “o próximo Anthony Bourdain”. Para concretizar esse objectivo, convida Mo, um jovem aspirante a realizador, a acompanhá‑lo na realização de um documentário sobre comida indiana, sabores esquecidos e memórias afectivas ligadas à gastronomia.

Aquilo que começa como uma viagem culinária transforma‑se rapidamente numa procura tão espiritual quanto sórdida, onde a comida funciona como porta de entrada para uma reflexão mais profunda sobre a natureza humana, o desejo, a memória e a violência. Longe de ser apenas uma história sobre gastronomia, Rare Flavours utiliza o acto de comer como metáfora cultural, emocional e até moral.

Já em 2023, quando As muitas mortes de Laila Starr foi publicada em Portugal, Filipe Andrade revelava à Lusa que Rare Flavours iria muito além de uma simples narrativa sobre comida. “Não sendo um livro histórico, [é sobre] o que nos faz ser atraídos por comida. Não é só alimentarmo‑nos. É um livro completamente diferente”, explicava o autor, sublinhando a ambição temática e narrativa do projecto.

Essa complexidade tem sido reconhecida internacionalmente. Rare Flavours foi entretanto publicada também em França, Itália e Brasil, consolidando o seu estatuto como uma das obras de BD mais relevantes dos últimos anos no panorama independente.

Para além de Filipe Andrade, a edição internacional de Rare Flavours contou ainda com a participação dos artistas portugueses Inês Amaro e João Lemos, responsáveis pela adição de cor, contribuindo para a identidade visual rica e sensorial do livro. A edição portuguesa terá tradução de Mário Freitas, que optou por manter o título original, acrescentando‑lhe um subtítulo em português, ainda por definir. A publicação pela Kingpin Books reforça o catálogo da editora enquanto espaço de aposta consistente na banda desenhada contemporânea e de autor.

Em 2025, Filipe Andrade foi nomeado para os prémios norte‑americanos Eisner, os mais prestigiados da banda desenhada, depois de já ter sido anteriormente indicado com As muitas mortes de Laila Starr. Esta nomeação confirma o reconhecimento do seu trabalho a nível internacional e a relevância da colaboração com Ram V.

Com Rare Flavours, os autores aprofundam uma parceria criativa que cruza espiritualidade, crítica social e experimentação narrativa, oferecendo aos leitores portugueses uma obra intensa, provocadora e visualmente marcante, que promete ser um dos lançamentos mais interessantes do ano no panorama da banda desenhada em Portugal.


1 de janeiro de 2026

Panorama Editorial da Banda Desenhada em Portugal em 2025: Tendências, Desafios e Oportunidades

A análise das obras de e sobre banda desenhada lançadas em Portugal oferece um panorama detalhado sobre a produção e distribuição desse género no país, com base em dados atualizados sobre as 427 obras catalogadas, um número ligeiramente inferior às 441 publicadas no ano anterior. A análise será dividida em várias vertentes, incluindo a distribuição das obras por editoras, por temas, pelo número de páginas publicadas e pelos preços praticados, fornecendo uma visão abrangente das tendências e do panorama atual do setor.

O primeiro ponto de análise foca a distribuição das obras pelas editoras, com o objetivo de compreender quais são as editoras mais ativas na publicação de banda desenhada e como elas influenciam as escolhas de conteúdo e a diversidade do mercado. Além disso, será explorada a variedade temática das obras, revelando como os temas abordados nas publicações variam e quais se destacam em termos de popularidade ou inovação. A análise do número de páginas publicadas por obra permite entender o formato predominante no mercado e as preferências dos leitores, enquanto o estudo dos preços pode oferecer insights sobre o posicionamento comercial das editoras e as condições de acessibilidade para o público.

As obras lançadas em 2025 podem ser consultadas na base de dados deste blogue.



O mercado editorial de banda desenhada em Portugal tem experimentado uma crescente diversificação e um ligeiro aumento no valor das edições ao longo dos últimos anos. Em 2024, o valor total das edições atingiu 7.200,61€, com um preço médio por edição de 17,61€. Esse valor médio sugere um padrão de edições que, embora não sejam das mais acessíveis, mantêm-se dentro de um limite razoável para as edições de qualidade superior, como os álbuns e volumes encadernados.

O ranking das editoras que dominaram o cabaz de compras de BD no ano de 2024 foi liderado pela Devir, com um total de 899,45€, seguida de perto pela ASA com 791,31€, e a Ala dos Livros em terceiro, com 613,21€. A Devir manteve uma posição de destaque, o que reflete não só a popularidade dos seus lançamentos de mangas, mas também o seu forte apelo entre os leitores portugueses.

Já em 2025, o cenário mostra um leve crescimento no valor total das compras, que alcançou 7.118,53€, e uma ligeira redução no preço médio por edição, que passou para 16,67€. Esse ajuste no preço médio indica uma tentativa das editoras de se adaptarem ao mercado e de oferecerem um produto que combine qualidade com preços mais acessíveis para manter a competitividade no setor.

Quando se observa o desempenho das editoras em 2025, a Devir mantém-se na liderança, com um total de 1.354,63€ em lançamentos, mostrando um volume de vendas ainda considerável, embora um aumento moderado se possa notar em relação ao ano anterior. A ASA segue em segundo lugar com 799,35€, reflectindo a força contínua da BD franco-belga, enquanto a A Seita, somando a co-edição, apresenta uma marca de 548,66€. Este crescimento da A Seita aponta para uma crescente procura por edições alternativas e diferenciadas, que atraem um público mais específico.



Uma análise interessante sobre o preço por página das edições de BD em 2024 e 2025 revela uma tendência clara: as editoras de manga apresentam os custos mais baixos por página, uma característica que pode ser atribuída à economia de escala, ao tamanho reduzido das edições e, em grande parte, à impressão a preto e branco, que reduz os custos de produção.

Veja como se distribuem os preços por página das editoras mais relevantes do mercado:
A Seita: 0,14€/página, com um cabaz de compras de 548,60€ e 3.994 páginas publicadas.
ASA: 0,13€/página, com um cabaz de 794,35€ e 6.111 páginas publicadas.
Devir: 0,06€/página, com um cabaz de 1.354,63€ e um total impressionante de 24.325 páginas publicadas.
Distrito Manga: 0,06€/página, com 391,25€ em compras e 6.200 páginas publicadas.

Se compararmos os mangas, como os lançados pela Devir e pela Distrito Manga, vemos que ambas apresentam um custo de 0,06€/página, o que as coloca no topo da lista em termos de eficiência de custo. Isso pode ser atribuído ao fato de que as edições de manga, em sua maioria, possuem formato menor, menos cores (ou nenhuma), e estilo gráfico mais simples, o que facilita uma produção em maior escala e, consequentemente, reduz os custos unitários.

Por outro lado, editoras como a Ala dos Livros, com 0,23€/página, e Levoir, com 0,20€/página, têm valores mais elevados, o que pode reflectir em edições de maior qualidade gráfica, como a utilização de cores e papel de melhor qualidade, além de uma produção mais limitada.

O preço por página mais baixo nas editoras de manga pode ser explicado também pela sua produção em grande escala, uma prática comum no mercado de manga, que permite a impressão de grandes tiragens a um custo reduzido. Além disso, muitos dos títulos de manga são populares a nível mundial, o que gera uma maior procura e, consequentemente, mais negócios internacionais. Isso contribui para a redução dos preços, fazendo com que o produto seja acessível para um público mais amplo e, por sua vez, sustentando o ciclo de vendas e produção.

Embora as editoras de manga ofereçam preços mais acessíveis, as editoras de BD franco-belga ou de autor, como a ASA, A Seita e Levoir, apresentam preços mais altos por página, muitas vezes devido à qualidade superior da impressão ou ao tamanho das edições, que são, geralmente, mais robustas e com um número maior de páginas. Essas editoras optam por um público disposto a pagar um pouco mais por produtos de luxo ou edições especiais.

Essa disparidade no custo por página também reflete a diversificação do mercado de BD, que vai além de uma simples comparação de preço. Os leitores estão cada vez mais exigentes e, embora as edições de manga sejam acessíveis, há também um mercado robusto para edições de autor, coletâneas e obras de arte, que exigem uma produção mais cuidada e, consequentemente, mais cara.

O mercado editorial de BD em Portugal continua a ser marcado pela diversidade de preços e qualidades, e as editoras de manga, com seus custos por página mais baixos, têm um papel fundamental na popularização da BD. A Devir e a Distrito Manga são bons exemplos de como a economia de escala e a impressão em maior quantidade podem resultar em preços mais acessíveis, sem comprometer a qualidade do produto.

Por outro lado, editoras como a Ala dos Livros, Levoir e A Seita, com preços mais elevados por página, atendem a um público disposto a investir em edições especiais e mais detalhadas, que oferecem não apenas histórias de qualidade, mas também um acabamento premium.

Este equilíbrio entre preço, qualidade e volume de produção garante um mercado editorial de BD em Portugal mais dinâmico e acessível, com opções para todos os tipos de leitores, desde os mais exigentes até os que buscam algo mais acessível. O futuro da BD parece promissor, com cada vez mais alternativas para todos os gostos e orçamentos.



Ao olhar para a origem das obras publicadas, notamos uma clara predominância de três regiões principais: Ásia, Europa e EUA, com um pequeno espaço para outras origens, incluindo Portugal. Vamos analisar as quotas percentuais de cada uma dessas origens e o seu impacto no mercado editorial de BD em Portugal.

Ásia: O Domínio do Manga (41,8%)
A maior fatia da distribuição de obras publicadas em 2024 vem da Ásia. Esta predominância é facilmente explicada pelo enorme impacto do manga japonês, que continua a ser uma das principais forças no mercado de BD em Portugal. Séries como Dragon Ball, One Piece, Ataque dos Titãs, e muitas outros conquistaram uma base de fãs sólida, composta por um público jovem e crescente, que se interessa por histórias que misturam ação, fantasia e drama. O preço acessível das edições de manga, somado ao formato compacto e impressão em preto e branco, contribui para a popularidade dessa origem.

Além disso, as editoras de manga como a Devir e a Distrito Manga têm desempenhado um papel essencial na difusão dessas obras em Portugal, com grandes tiragens e uma abordagem focada no público juvenil. O apelo das histórias de manga é universal, e a globalização da cultura pop japonesa é um fenómeno que tem influenciado diretamente o consumo de BD no país.

Europa: A Tradição e Diversidade Europeia (36,6%)
A Europa ocupa o segundo lugar na origem das obras publicadas, com 128 obras e uma quota de 36,6%. A BD europeia, especialmente a franco-belga, continua a ser uma força dominante no mercado português. Obras como Astérix, Tintin, Blake e Mortimer e O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo continuam a ser best-sellers, tanto entre o público adulto como jovem.

As editoras como ASA, Levoir e Ala dos Livros têm uma forte presença com títulos de grande qualidade gráfica e narrativa, que atraem não só leitores portugueses, mas também colecionadores. A BD europeia oferece uma mistura de romance gráfico, aventura e realismo com uma profundidade que atrai tanto os entusiastas de longa data quanto novos leitores.

EUA: O Peso do Super-herói e das Narrativas Gráficas (12,5%)
Com 44 obras publicadas (aproximadamente 12,5% do total), os EUA representam uma parte importante da oferta de BD em Portugal. O mercado norte-americano é reconhecido principalmente pelo seu vasto portfólio de super-heróis (como as edições da Marvel e da DC Comics), mas também por suas narrativas gráficas inovadoras, que têm atraído leitores adultos. 

Outros: O Mercado Global e a Expansão da BD (12,2%)
Com 43 obras publicadas (aproximadamente 12,2%), as obras provenientes de outras partes do mundo, incluindo América Latina, África e Ásia fora do Japão, têm conquistado um espaço crescente no mercado português. Essas obras de autor muitas vezes apresentam perspectivas culturais e narrativas inovadoras, trazendo ao público português uma diversidade de experiências e estilos. 

Portugal: O Crescimento da Produção Nacional (5,6%)
Por fim, a produção de BD nacional continua a crescer, representando 69 obras publicadas, o que equivale a 5,6% do total. Embora ainda seja um segmento relativamente pequeno em comparação com as origens estrangeiras, a produção de BD em Portugal tem mostrado uma evolução positiva, com novas vozes a emergirem e a encontrar o seu público. Títulos de autores portugueses, muitas vezes com temas locais e contemporâneos, têm atraído a atenção de leitores e críticos, destacando-se no panorama da BD nacional. 

O mercado de BD em Portugal reflete uma realidade globalizada e diversificada, onde obras de diversas origens culturais se misturam para criar um panorama editorial vibrante. O manga japonês continua a ser o líder de vendas, mas a BD europeia mantém-se como um pilar fundamental, com títulos icónicos que continuam a cativar gerações. A produção nacional cresce aos poucos, enquanto as obras de outros países trazem novas perspectivas e enriquecem a oferta.

Essa diversidade, tanto em origem quanto em estilos, demonstra o apetite crescente do público português por novas experiências gráficas, e a BD continua a ser um espaço de inovação e experimentação. Com o mercado cada vez mais dinâmico e competitivo, espera-se que o futuro da BD em Portugal seja ainda mais plural, com mais obras internacionais e nacionais a conquistarem os leitores portugueses.

A banda desenhada (BD) em Portugal apresenta uma rica diversidade de géneros, refletindo a crescente variedade de interesses do público e a evolução do mercado editorial. Em 2025, a distribuição dos géneros das obras publicadas mostrou uma ampla gama de estilos e temáticas, desde os clássicos do infanto-juvenil até as mais modernas novelas gráficas e obras independentes.

Vamos analisar as quotas percentuais de cada género e perceber como o mercado da BD se diversifica em Portugal.

Infanto-juvenil: O Género de Maior Apelo (15,1%)
Com 50 obras publicadas, o género infanto-juvenil lidera o panorama editorial de BD em Portugal, representando 15,1% do total de publicações. Este género continua a ser um dos pilares fundamentais da BD no país, com uma oferta de histórias que cativam as novas gerações e incentivam a leitura entre os mais jovens. Obras com personagens e universos cativantes, como Adèle e Hooky, continuam a figurar no topo das vendas, mas também há uma crescente produção de BD com temas educativos, de amizade e aventura.

Manga: O Fenómeno em Ascensão (38,0%)
O manga continua a ser uma grande tendência, ocupando 126 obras publicadas e representando impressionantes 38% do total. Este género, originário do Japão, tem uma base de fãs jovem e entusiasta em Portugal, com títulos de grande sucesso como Dragon Ball, My Hero Academia, One Piece, e outros que têm conquistado uma legião de leitores fiéis. O preço acessível, o formato compacto e o apelo visual e narrativo do manga têm contribuído para o seu crescimento no mercado português. Editoras como a Devir e a Distrito Manga têm se destacado neste segmento, com títulos traduzidos que alcançam um público crescente e cada vez mais interessado.

Adaptação de Obra Literária: O Encontro Entre a Literatura e a Imagem (5,1%)
Com 17 obras publicadas, o género de adaptação de obra literária representa 5,1% das publicações. Este género tem visto um crescimento contínuo, com obras que trazem à BD clássicos da literatura ou romances contemporâneos, permitindo que os leitores explorem essas narrativas sob uma nova perspectiva visual. A adaptação de grandes clássicos, como O Corcunda de Notre Dame ou D. Quixote de La Mancha atraem tanto os amantes de literatura quanto os fãs de BD.

Humor: A Alegria da BD (6,9%)
O género de humor, com 23 obras publicadas (representando 6,9% do total), continua a ser um pilar tradicional da BD em Portugal. Títulos como Peanuts, Mafalda e Astérix têm conquistado um público amplo devido à sua combinação de humor leve, caracteres cativantes e comentários sociais bem humorados. A BD humorística continua a ser uma forma de entretenimento acessível e universal, capaz de cativar tanto jovens como adultos.

Novela Gráfica: O Crescimento das Narrativas Sérias e Artísticas (8,4%)
As novelas gráficas, com 28 obras publicadas (aproximadamente 8,4% do total), têm vindo a ganhar cada vez mais destaque no mercado português. Estas obras, que abordam temas mais sérios e complexos, são muitas vezes direcionadas a um público adulto, e a sua arte refinada e narrativas profundas têm atraído leitores em busca de histórias mais sofisticadas e de reflexão. Obras como Caderno Azul, Não eras tu quem eu esperava e Um oceano de amor são exemplos desse movimento crescente que eleva a BD a uma forma literária e artística de grande reconhecimento.

Biografia: O Poder das Histórias Reais (3,9%)
Com 13 obras publicadas, o género de biografia representa 3,9% do total. A BD biográfica é um género que tem vindo a crescer, especialmente com obras que contam a vida de figuras históricas ou artistas célebres, muitas vezes de forma acessível e emocionante. Este género permite ao público conhecer grandes histórias reais através de uma linguagem visual envolvente, como é o caso de Hitler, Nellie Bly, ou até mesmo biografias de figuras contemporâneas. A produção de BD de autor em Portugal também tem dado maior destaque a essas histórias.

Outros Géneros: A Diversidade do Mercado (32,4%)
Finalmente, temos a categoria Outros, com 108 obras publicadas, representando 32,4% do total. Esta grande variedade de géneros inclui desde aventura, western, ficção científica, até mesmo títulos mais experimentais e independentes. Géneros como o western (12 obras), ficção científica (9 obras) e aventura (12 obras) ainda têm uma presença significativa, mas, em comparação com os géneros mais populares, representam uma menor fatia do mercado. O género independente (18 obras) também tem ganhado relevância, refletindo a crescente produção de BD de autor e as obras alternativas que buscam novas formas de expressão.

O mercado de BD em Portugal continua a se diversificar, com múltiplos géneros a atrair diferentes públicos e interesses. O manga continua a ser o género dominante, com uma quota significativa de mercado, mas outros géneros, como o infanto-juvenil, a novela gráfica e o humor, também têm um papel crucial na construção do panorama editorial de BD. A adaptação de obras literárias e as biografias representam nichos interessantes que têm vindo a crescer, enquanto os géneros mais tradicionais, como o western e a ficção científica, mantêm-se com uma base fiel de leitores.

Esta variedade de géneros não só reflete a dinâmica do mercado, mas também a crescente democratização da BD, que se tornou um meio de expressão para todos os gostos e faixas etárias. Com a evolução constante do mercado e a crescente diversificação das ofertas editoriais, a BD em Portugal continua a conquistar leitores de todos os tipos e idades, e o futuro da banda desenhada no país promete ser cada vez mais vibrante e plural.

Em relação ao perfil do leitor de banda desenhada em Portugal, nota-se uma diversificação crescente no público. O consumidor português de BD não se limita a um único tipo de obra, mas abrange uma variedade de estilos, desde os mangas japoneses até à BD franco-belga e aos álbuns ilustrados de autor.

A base de fãs da BD clássica, como Astérix e Tintin, continua forte, composta por leitores mais velhos e por pais que transmitem esse gosto às gerações mais novas. No entanto, o público tem-se tornado mais jovem e mais eclético, com um interesse crescente por obras de autores independentes, como O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo, que apela a uma sensibilidade artística e emocional, e por títulos mais contemporâneos e alternativos, como os lançados por editoras como A Seita.

Além disso, as novas edições de mangas, lideradas por editoras como a Devir, continuam a captar a atenção de um público jovem, geralmente composto por leitores entre os 15 e 30 anos. A presença de colectâneas e edições de luxo tem atraído também o público colecionador, que valoriza tanto o conteúdo quanto a qualidade e apresentação das edições.

Outro factor importante é o crescimento das vendas online, que tornou a BD mais acessível a um público nacional que, em anos anteriores, talvez tivesse mais dificuldade em aceder a títulos específicos. A presença de lojas especializadas e plataformas de venda online tem sido crucial para o aumento da procura, sobretudo em períodos festivos e durante o lançamento de títulos aguardados.

O mercado de BD em Portugal continua a expandir e a evoluir, com um público cada vez mais diversificado e exigente. Editoras como a Devir, ASA e A Seita têm demonstrado grande capacidade de adaptação às necessidades dos leitores, com lançamentos estratégicos e uma variedade de títulos que vão de clássicos atemporais a obras inovadoras.

Ao longo de 2024 e 2025, observamos que o preço das edições se ajustou para se manter competitivo, sem comprometer a qualidade. A crescente presença de títulos de autor e de edições alternativas também mostra que a BD está a ganhar espaço como uma forma de arte apreciada por um público diverso, que vai muito além dos estereótipos do coleccionador tradicional.

Portanto, à medida que o mercado continua a crescer e a se diversificar, será fascinante observar como a BD em Portugal se adapta às novas tendências globais e ao interesse do público português. O futuro parece promissor para as editoras que souberem equilibrar qualidade, inovação e preço justo. O  2026 promete trazer novos desafios, mas também muitas oportunidades para um mercado que já está a se afirmar como um dos mais vibrantes e dinâmicos do setor editorial.

As minhas leituras de BD no mês de Dezembro de 2025

 





31 de dezembro de 2025

Feliz Ano de 2025

 






Top das Vendas de BD em Portugal - Semana 52


Posição

Semana

Anterior

Título

Desenhador

Nacionalidade

Editor

1

=

Astérix 41: Astérix na Lusitânia

Didier Conrad

França

ASA

2

=

Peanuts: O indispensável de Snoopy

Charles Schulz

EUA

Iguana

3

+1

O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo

Charlie MacKesky

Reino Unido

Iguana

4

-1

Blake e Mortimer 31: A ameaça Atlante

Peter Van Dongen

Holanda

ASA

5

+2

Toda a Mafalda

Quino

Argentina

Iguana

6

+2

Dakota 1880

Brüno

Alemanha

A Seita

7

-2

Dragon Ball - Volume 5

Akira Toriyama

Japão

Devir

8

+1

As aventuras de Tintin - Integral 1

Hergé

Bélgica

ASA

9

novo

Astérix:  40: O lírio branco

Didier Conrad

França

ASA

10

novo

Blake e Mortimer: A dupla exposição

Laurent Durieux

França

ASA


O último Top 10 de vendas de banda desenhada em Portugal trouxe algumas surpresas, mas também confirmou a força dos clássicos que continuam a conquistar leitores de todas as idades.

Astérix e Peanuts mantêm-se no topo

Não é surpresa ver Astérix na Lusitânia e O indispensável de Snoopy a manterem-se firmemente no 1.º e 2.º lugares. Estes títulos continuam a provar que a popularidade de Astérix e Snoopy não conhece fronteiras nem gerações.

Subidas que chamam a atenção

A grande novidade da semana foi a ascensão de O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo, que sobe do 4.º para o 3.º lugar, ultrapassando Blake e Mortimer: A ameaça Atlante, que cai para 4.º. Outra subida notável é Toda a Mafalda, que ganha duas posições, chegando ao 5.º lugar. Estes movimentos revelam uma crescente procura por obras de autor e clássicos introspectivos que conquistam leitores através da sensibilidade das suas histórias e ilustrações.

Mudanças e novidades no top 10

Dois novos títulos entram nesta semana:
Astérix 40: O lírio branco – 9.º lugar
Blake e Mortimer: A dupla exposição – 10.º lugar

Ambos reforçam a liderança da BD franco-belga no mercado português, evidenciando a forte ligação dos leitores portugueses a estas obras clássicas. Em contrapartida, Nunca te esqueças, de Charlie MacKesky, saiu do top 10.

Mangás e diversidade de estilos

Embora títulos japoneses como Dragon Ball e One Piece continuem a figurar no top, registam-se pequenas descidas, reflectindo uma ligeira mudança de foco do público para obras europeias e de autor. Por outro lado, obras ilustradas mais contemplativas, como O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo e Dakota 1880, mostram que há espaço no mercado para narrativas sensíveis e visuais diferenciados.

O final do ano confirma que os clássicos nunca saem de moda, enquanto novas obras ou títulos menos convencionais conseguem conquistar espaço graças à qualidade artística e à originalidade das histórias. O Top BD desta semana é uma mistura equilibrada de tradição e inovação, mostrando a diversidade e vitalidade do mercado português de banda desenhada.