terça-feira, 3 de novembro de 2026

Grande Pequeno Homem

O que significa ser “um grande homem”?

Stanislas Rétif, complexado pela sua pequena altura, gostava de ser muito maior. Gostava de ser grande. Mas uma estranha maldição vai transformá-lo numa espécie de boneco, um homenzinho com poucos centímetros de altura. Vai começar então para ele uma tremenda epopeia em miniatura, onde serão as acções, e não o tamanho, que farão dele um grande homem.

Com o seu metro e cinquenta e sete, Stanislas é o empregado tímido de uma sapataria parisiense, daqueles que ficam na cave a arrumar caixas enquanto os outros brilham na loja. Adora as mulheres, mas a timidez impede-o de se aproximar delas. Um dia, ao acariciar o seu par de botas preferido, pede um desejo: tornar-se um grande homem. A magia sai-lhe ao contrário, e Stanislas vê-se reduzido ao tamanho de um polegar, num mundo em que um gato, uma agulha ou uma aranha passam a ser perigos mortais. E é assim, minúsculo, que vai parar a casa de Fleur, uma jovem florista, por quem se apaixona... e por quem terá de mostrar de que é feito.

Depois do sucesso de Pele de Homem (mais de 200 000 exemplares vendidos em França, e também editado pel’A Seita), Zanzim regressa, agora a solo, com um maravilhoso romance gráfico, terno, divertido, melancólico e profundamente humanista. Numa Paris retro estilo anos 1960, elegante e pop, desenhada com um traço redondo e malicioso e cores suaves, e com piscadelas de olho ao cinema de Truffaut e aos velhos filmes de ficção científica em que os heróis encolhem, Grande Pequeno Homem lembra-nos que a grandeza está menos nos gestos heróicos do que nas pequenas atenções de todos os dias. A obra foi finalista do Prémio de BD Fnac France Inter 2025.

Uma fábula para rir, sonhar e ficar de coração apertado: venham descobrir o maior dos pequenos heróis!

Zanzim, cujo nome verdadeiro é Frédéric Leutelier, é um autor e ilustrador de banda desenhada nascido em 1972. Desenvolveu uma paixão pelo desenho desde muito jovem, e estudou na École régionale des beaux-arts de Angers. Em 2002 publicou Les Yeux Verts, em colaboração com o escritor Hubert, obra que marcou o início de uma longa e profícua parceria entre os dois. Em 2020 lançaram Pele de Homem, uma fábula sobre género e identidade passada no Renascimento, finalista do Prémio de BD Fnac France Inter 2021 e vencedora de vários prémios, um sucesso estrondoso mas com sabor agridoce, já que o argumentista não viveria para ver a fama da sua obra. Zanzim é conhecido pelo seu estilo gráfico único, que mistura traços delicados com riqueza de detalhes, e pela capacidade de combinar humor, poesia e crítica social.

Grande Pequeno Homem, Zanzim, A Seita, 136 pp., cor, capa dura, 26€

segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Lucky Luke: 80 anos de aventuras num hors-série do Le Figaro

O homem que dispara mais depressa do que a própria sombra celebra 80 anos, e o Le Figaro assinala a ocasião com um hors-série dedicado ao cowboy criado por Morris em 1946. Uma oportunidade para revisitar um dos grandes clássicos da banda desenhada europeia e reencontrar as personagens que tornaram o seu Oeste tão singular.

Apresentado com o título «Lucky Luke, un chevalier errant du Far West – 80 ans», este número percorre a trajectória de Morris e de René Goscinny, cuja colaboração, iniciada em 1955, marcou profundamente a série. O humor, a paródia dos westerns e a galeria de figuras inesquecíveis fizeram de Lucky Luke uma leitura partilhada por sucessivas gerações.

Jolly Jumper, os irmãos Dalton, Rantanplan e Calamity Jane acompanham esta viagem pela história do herói. O conteúdo anunciado inclui um olhar sobre 80 álbuns, uma entrevista com Anne Goscinny e pranchas inéditas, passando também pelas aventuras assinadas por Achdé e Jul. Há ainda espaço para recordar as transformações da personagem, incluindo a célebre substituição do cigarro por uma erva ao canto da boca, em 1983.

Oitenta anos depois, permanece o fascínio por este justiceiro de poucas palavras, sempre pronto a repor a ordem e a partir de novo. Para os leitores portugueses que cresceram com os seus álbuns, este especial promete ser um reencontro com muitas horas de leitura — e um convite para voltar à estante.

Le Figaro Hors-série — Lucky Luke, un chevalier errant du Far West – 80 ans

Edição em francês • Preço em Portugal: 14,20 €.

domingo, 1 de novembro de 2026

O Julgamento dos Famintos: os esquecidos do sonho americano

O Oeste americano está a desaparecer, mas o progresso não oferece um lugar a todos. É neste cenário que se desenrola O Julgamento dos Famintos, a primeira obra de banda desenhada de Jolan Thomas, publicada em Portugal por A Seita, em outubro de 2026.

No final do século XIX, os Estados Unidos atravessam profundas transformações. O mundo dos caçadores de peles e dos cowboys perde terreno perante uma sociedade que avança para a modernidade. Will, Sheld e John encontram-se entre aqueles que ficaram para trás. Unidos por motivações diferentes, envolvem-se num assalto que termina tragicamente e os leva a julgamento. A narrativa coloca então em discussão a responsabilidade dos acusados e a da sociedade que os marginalizou.

Através das convenções do western, Jolan Thomas aborda a exclusão, o desespero e os conflitos sociais associados à transformação económica. O tribunal torna-se, assim, um espaço para interrogar a distância entre a promessa de prosperidade e a experiência de quem perdeu os seus meios de subsistência.

O desenho acompanha esse universo com um traço denso e expressivo, próximo da gravura, e uma atenção particular aos jogos de luz. Ligado a Bordéus, Jolan Thomas estudou artes gráficas e ilustração na escola Brassart entre 2018 e 2022. Entre as suas principais influências encontram-se Norman Lindsay, Julie Rocheleau e Thierry Ségur.

Publicado originalmente em França pela R Éditions, com o título Le Procès des Affamés, o álbum chegou às livrarias francesas em 15 de Janeiro de 2026. A edição portuguesa apresenta 96 páginas, em capa dura, com PVP de 22,00 €. Um western de dimensão social que convida a olhar para os destinos humanos escondidos nas grandes narrativas do progresso.

sábado, 31 de outubro de 2026

Entradas na minha biblioteca de BD no mês de Outubro de 2026

 



O Último Blaki: o tempo passa, o quotidiano fica

A colecção Bursztyn / Âmbar, que A Seita dedica à banda desenhada polaca, recebe mais um título: O Último Blaki, de Mateusz Skutnik. Apresentado no Amadora BD, o livro contou com a presença do autor no primeiro fim de semana do festival.

Passaram dez anos desde a aventura anterior. As pessoas envelheceram, o mundo mudou e as circunstâncias são outras. Blaki, porém, continua igual a si próprio: uma figura de aparência próxima de um gnomo, mas com inquietações muito humanas, que observa os pequenos absurdos da vida com ironia, melancolia e uma curiosidade quase filosófica.

Rodar duas vezes a chave na fechadura, esquecer o guarda-chuva ou ver passar os comboios são pontos de partida para falar de assuntos maiores: a vida adulta, a paternidade e a passagem do tempo. Entre o humor e a tristeza, com uma dimensão parcialmente autobiográfica, Skutnik procura também a alegria discreta que se esconde nas rotinas.

Criado na Polónia há cerca de vinte anos, Blaki ocupa um lugar importante no percurso do autor. O quarto volume da série recebeu, em 2014, o prémio da Associação Polaca de Banda Desenhada para a Melhor Banda Desenhada Polaca, no festival Komiksowa Warszawa. Este novo regresso foi nomeado para o prémio de Melhor Banda Desenhada Polaca no Festival Internacional de BD e Jogos de Łódź, em 2025, e é considerado pelo próprio Skutnik o álbum mais importante da sua carreira.

Mateusz Skutnik escreve e desenha banda desenhada há mais de três décadas. Formado em Arquitetura pela Universidade Tecnológica de Gdańsk, construiu um percurso que atravessa a narrativa gráfica e os videojogos. Entre as suas séries encontram-se Revolutions e Blaki, sendo também o criador dos jogos Submachine. A cidade de Gdańsk esteve na origem de um dos seus projetos digitais: um jogo desenvolvido a partir de fotografias de recantos e espaços escondidos da cidade, distinguido com o prémio Sztorm Roku, em 2009.

Agora a cores, numa paleta suave que acompanha o tom agridoce das histórias, O Último Blaki pode ser lido sem conhecer os volumes anteriores. Uma porta de entrada no universo de Skutnik e na banda desenhada polaca, através de uma personagem que, apesar da sua aparência singular, nos fala de experiências muito próximas das nossas.

O último Blaki, Mateusz Skutnik, A Seita, 68 pp., capa dura, 17€

terça-feira, 27 de outubro de 2026

«O Novo Recruta»: entre o trabalho e o desejo

Há relações profissionais que depressa ultrapassam os limites do escritório. É nesse terreno, entre sentimentos por revelar e uma atração difícil de disfarçar, que se desenrola O Novo Recruta, de Moscareto, com arte de Zec.

O primeiro volume chega às livrarias portuguesas a 2 de Novembro de 2026, pela Distrito Manga, trazendo um romance BL (Boys’ Love) a cores, destinado a leitores mais maduros.

No centro da história estão um estagiário sem experiência e o seu supervisor. A proximidade no trabalho abre espaço a uma relação em que a química, o desejo e a tensão emocional se cruzam com as exigências da vida profissional. Entre os dois, nem tudo o que se sente pode ser dito — e manter as aparências torna-se cada vez mais complicado.

Associado ao fenómeno que deu origem ao K-drama The New Employee, este lançamento convida os leitores a descobrir uma história em que o maior desafio do novo emprego poderá estar bem mais perto do que a secretária ao lado.

O Novo Recruta, Volume 1, Moscareto e Zec, Distrito Manga, 288 pp, cor, capa mole, 19,95€


domingo, 25 de outubro de 2026

«Domingos»: as memórias de um pai, os domingos de uma vida

Há domingos que parecem iguais a tantos outros. Um almoço em família, uma conversa, um jogo de futebol, uma gargalhada. Só mais tarde percebemos quanto ficou guardado nesses pequenos momentos.

É desse território íntimo que nasce Domingos, de Sidney Gusman, com desenho de Jefferson Costa, que chega aos leitores portugueses pela Ala dos Livros. Uma narrativa autobiográfica em que o conhecido jornalista e editor brasileiro partilha as memórias do pai, Domingos, e dos domingos que viveram juntos.

«Chamo-me Sidney Domingos Gusman. Domingos é o nome do meu pai. Ele nasceu num domingo. E num domingo partiu. E esta é a história sobre domingos que ambos partilhámos.»

Entre encontros e despedidas, alegrias e dificuldades, o livro acompanha uma relação familiar que se transforma com o passar dos anos. Os domingos tornam-se o fio condutor de uma história sobre afeto, perda e memória, mas também sobre aquilo que transmitimos uns aos outros, por vezes sem nos apercebermos.

Os autores

Sidney Gusman, nascido em São Paulo em 1966, é jornalista, editor e uma figura de referência na divulgação da banda desenhada brasileira. Escreve sobre o tema desde 1990, é editor-chefe do Universo HQ e esteve ligado a projectos como a colecção Graphic MSP, que propôs novas leituras das personagens de Mauricio de Sousa. Domingos assinala a sua estreia numa obra de banda desenhada autoral.

Jefferson Costa, nascido em São Paulo em 1979, é desenhador e ilustrador. Entre os seus trabalhos destacam-se La Dansarina, Roseira, Medalha, Engenho e Outras Histórias e Jeremias — Pele, com argumento de Rafael Calça, distinguido com o Prémio Jabuti em 2019.

Domingos, Sidney Gusman e Jefferson Costa, Ala dos Livros, 208 pp., cor, capa dura, 31€