12 de abril de 2026

Lucky Luke: Um mergulho nas origens do mito

A revista Les Cahiers de la BD lançou recentemente um número hors-série inteiramente dedicado a uma das figuras mais icónicas da BD franco-belga: Lucky Luke. Sob o título Les dessous des cartes (1946–1954), esta edição especial convida os leitores a regressar às origens do “cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra” e a descobrir os bastidores criativos dos seus primeiros anos.

Criado por Morris em 1946, Lucky Luke nasceu nas páginas da revista Spirou, num contexto de renovação da BD europeia do pós-guerra. Este hors-série concentra-se precisamente nesse período inaugural, entre 1946 e 1954, quando a série ainda procurava o seu tom definitivo e a sua identidade gráfica.

A publicação analisa as primeiras histórias, evidenciando as influências do cinema western americano, da animação e do humor slapstick. Mostra também como o traço de Morris evoluiu rapidamente, passando de um estilo ainda algo rígido para a fluidez e expressividade que mais tarde se tornariam a sua marca registada.

Embora muitos leitores associem Lucky Luke à parceria com René Goscinny, este número especial foca-se no período anterior à entrada do célebre argumentista. Aqui encontramos um herói mais solitário, com narrativas menos estruturadas, mas já repletas de invenção visual e sentido de ritmo.

O dossier destaca como, mesmo antes da colaboração com Goscinny, Morris já experimentava gags visuais e situações absurdas que viriam a definir o humor da série. Ao mesmo tempo, observa-se a construção progressiva de elementos icónicos do universo Lucky Luke.

Um dos grandes atractivos deste hors-série é o acesso a materiais de arquivo: esboços, pranchas originais, capas e ilustrações pouco conhecidas. Estes documentos permitem compreender melhor o processo criativo de Morris e o contexto editorial da época. Além disso, especialistas em banda desenhada contribuem com ensaios que situam Lucky Luke na história da BD europeia, discutindo a sua importância cultural e a forma como reinterpretou os códigos do western para um público europeu.

Este número especial de Les Cahiers de la BD não é apenas uma homenagem nostálgica. É também uma obra de referência que ilumina um momento-chave da história da banda desenhada. Para fãs de longa data, oferece novas perspectivas sobre um clássico incontornável; para novos leitores, funciona como porta de entrada para compreender a génese de uma série lendária.

Les Cahiers de la BD Hors-Serie #15, Lucky Luke: Les dessous des cartes (1946–1954), 120 pp., cor, capa dura, 19,90€

Chainsaw Man #15

O 15.º volume de Chainsaw Man, manga de Tatsuki Fujimoto, dá continuidade a uma das fases mais intensas da segunda parte da obra, aprofundando o tom psicológico e introduzindo uma nova ameaça de grande escala narrativa.

Publicado originalmente no Japão pela Shueisha e serializado na plataforma digital Shōnen Jump+, Chainsaw Man regressa neste volume com foco na personagem Asa Mitaka e na crescente complexidade da sua relação com Yoru, o Demónio da Guerra.

No centro deste volume está a introdução do Demónio da Queda, uma entidade descrita como um dos terrores primordiais — conceitos que, no universo da série, representam medos universais e profundamente enraizados na psique humana. A sua presença marca uma escalada significativa na narrativa, não apenas pela ameaça física, mas sobretudo pelo impacto psicológico. Através da exploração das memórias e traumas das personagens, o Demónio da Queda expõe fragilidades internas, levando Asa a confrontar-se com experiências do passado que abalam a sua capacidade de confiar em Yoru. Este conflito interno torna-se um dos eixos centrais do volume.

Conhecida pela abordagem pouco convencional ao género shōnen, a obra de Fujimoto continua a destacar-se pela combinação de acção violenta com reflexão emocional. Neste volume, essa tendência acentua-se: o horror deixa de ser apenas visual ou físico, passando a operar sobretudo no plano psicológico. A ideia de “queda” surge aqui como metáfora para o fracasso humano — personagens que, muitas vezes sem consciência, caminham para a sua própria destruição. Esse percurso é representado de forma quase alegórica, culminando num cenário descrito como um “banquete do inferno”, onde as vítimas são consumidas pelas consequências dos seus próprios traumas.

Chainsaw Man #15, Devir, Tatsuki Fujimoto, 200 pp., p&b, capa mole, 9,99€

11 de abril de 2026

O Jardim, Paris

Na efervescente Paris da década de 1920, onde a arte, a liberdade e a transgressão se cruzam em cada esquina, nasce O Jardim, Paris, a deslumbrante novela gráfica de Gaëlle Geniller. Esta obra transporta-nos para o coração de um cabaré singular, onde identidade, sonho e pertença florescem como num verdadeiro jardim humano.

O Jardim” é mais do que um simples cabaré — é um refúgio. Gerido por uma mulher forte e carismática, este espaço acolhe artistas que adoptam nomes de flores e vivem como uma família escolhida. É neste ambiente caloroso e vibrante que conhecemos Rose, um jovem de 19 anos que cresceu entre bastidores, luzes e música. Embora seja rapaz, Rose partilha o mesmo sonho das suas companheiras: subir ao palco e dançar.

A narrativa acompanha a jornada de afirmação de Rose, que desafia convenções sociais e expectativas de género numa época ainda marcada por fortes normas. A sua ascensão a principal atracção do cabaré não é apenas uma conquista artística, mas também um poderoso gesto de liberdade e autenticidade. Através dele, a obra questiona identidades rígidas e celebra a diversidade com sensibilidade e delicadeza.

Visualmente, O Jardim, Paris é um verdadeiro espectáculo. O traço de Gaëlle Geniller destaca-se pela elegância, fluidez e riqueza cromática, evocando tanto a estética vibrante dos cabarés parisienses como a intimidade dos bastidores. Cada página é cuidadosamente composta, transformando a leitura numa experiência quase coreográfica. Mais do que uma história sobre dança, esta é uma ode à auto-expressão, à aceitação e ao poder transformador da arte. O Jardim, Paris convida o leitor a entrar num mundo onde as fronteiras se esbatem e onde cada indivíduo pode, finalmente, florescer à sua maneira.

Gaëlle Geniller é uma das vozes mais promissoras da nova geração da banda desenhada francófona, destacando-se pela sensibilidade com que aborda temas como identidade, diferença e auto-expressão.

Nascida em 1996, em Saint-Priest, no departamento do Ródano, revelou desde cedo uma forte inclinação para a criação artística. Ainda durante a escola primária, já desenvolvia as suas próprias histórias em banda desenhada, que partilhava com amigos, dando sinais precoces do seu talento narrativo e visual. Com formação técnica em animação, iniciou o seu percurso profissional num estúdio da área, experiência que contribuiu para o desenvolvimento do seu olhar cinematográfico e da fluidez do seu traço. No entanto, seria na banda desenhada que encontraria o espaço ideal para afirmar a sua voz autoral.

A sua estreia deu-se em 2019 com Les Fleurs de grand frère, publicado pela Delcourt. Esta obra, destinada ao público mais jovem, conquistou rapidamente a atenção da crítica e dos leitores, marcando o início de um percurso promissor. Em 2021, Geniller consolida o seu lugar no panorama da BD contemporânea com Le Jardin, Paris, uma narrativa ambientada na década de 1920, onde a autora aprofunda a sua exploração das questões ligadas à identidade e à aceitação, revelando uma abordagem delicada, poética e visualmente marcante.

Com um estilo elegante e uma forte componente emocional, Gaëlle Geniller afirma-se como uma autora a acompanhar de perto, capaz de transformar histórias íntimas em experiências universais através da arte da banda desenhada.

O Jardim de Gaëlle Geniller, que ganhou o prémio Melhor ilustração no Festival Lucca 2022.

O Jardim, Paris, Gaëlle Geniller, Arte de Autor, 224 pp., cor, capa dura, 28,50€

O Fantasma da Ópera

O Fantasma da Ópera, clássico intemporal de Gaston Leroux, ganha uma nova vida numa adaptação em novela gráfica lançada pela Arte de Autor. Pelas mãos dos irmãos Paul Brizzi e Gaëtan Brizzi, esta obra revisita o mistério e o romantismo sombrio que têm fascinado gerações.

Ambientada na icónica Ópera Garnier, em plena Paris do século XIX, a narrativa mergulha o leitor num ambiente onde o real e o sobrenatural se confundem. Eventos inexplicáveis começam a assombrar o teatro: um lustre que cai tragicamente durante um espectáculo, mortes suspeitas nos bastidores e rumores persistentes sobre uma figura enigmática — o temido Fantasma da Ópera. Mais do que uma simples lenda, a presença de Erik, o homem por detrás do mito, revela-se tanto aterradora quanto profundamente humana.

No centro da história está o triângulo emocional entre Christine Daaé, a jovem cantora em ascensão, Raoul de Chagny, o visconde apaixonado, e o próprio Fantasma, cuja voz misteriosa ecoa como um sussurro vindo das sombras. A tensão entre amor, obsessão e identidade conduz a narrativa, mantendo o leitor preso até à última página.

Os irmãos Gaëtan Brizzi e Paul Brizzi são duas figuras incontornáveis do universo da animação e da banda desenhada contemporânea. Gémeos, nascidos em 1951, dividem a sua vida entre França e Estados Unidos, construindo uma carreira multi-facetada como realizadores, pintores, ilustradores e autores.

O seu talento começou a ganhar destaque com várias curtas-metragens de animação, entre as quais se destaca Fracture, nomeada para os prestigiados Prémios César em 1977. Este reconhecimento abriu portas a uma colaboração rara: foram dos poucos criadores franceses a trabalhar com a Walt Disney Animation Studios. No universo Disney, deixaram a sua marca em projectos emblemáticos como O Corcunda de Notre-Dame e Fantasia 2000, onde realizaram sequências memoráveis, incluindo O Pássaro de Fogo, amplamente elogiada pela sua força visual e narrativa.

Mais recentemente, os Brizzi têm vindo a afirmar-se no campo da banda desenhada e da ilustração literária. Entre 2015 e 2020, adaptaram obras de autores como Louis-Ferdinand Céline, Boris Vian e Honoré de Balzac, revelando uma abordagem visual sofisticada e profundamente autoral. Em 2023, surpreenderam com uma interpretação singular de A Divina Comédia, mais concretamente O Inferno, numa forma híbrida entre ilustração e banda desenhada, onde o poder das imagens assume protagonismo absoluto. Este projeto deu origem a uma colecção que prosseguiu com Dom Quixote de la Mancha, mantendo a mesma linguagem estética inovadora. Nesse mesmo ano, exploraram também o universo gótico e fantástico de Edgar Allan Poe, com a publicação de dois livros ilustrados baseados nos seus Contos Extraordinários.

Esta edição da Arte de Autor e d' A Seita aposta numa estética cuidada, onde cada prancha funciona como um quadro, reforçando a dimensão sensorial da obra. Mais do que uma adaptação, esta novela gráfica é uma reinterpretação artística que respeita o espírito do original, ao mesmo tempo que o torna acessível a novos leitores.

Com esta publicação, O Fantasma da Ópera reafirma-se como uma narrativa universal, capaz de atravessar épocas e formatos. Entre o terror e a beleza, a nova obra promete conquistar tanto fãs do romance clássico como apreciadores de banda desenhada de autor.

O Fantasma da Ópera, Paul Brizzi e Gaëtan Brizzi, Arte de Autor/A Seita, 168 pp., p&b, capa dura, 29€

10 de abril de 2026

Mulheres de Papel – O Papel das Mulheres na Banda Desenhada Portuguesa


Com curadoria nacional, a mostra propõe um olhar abrangente sobre a produção feminina contemporânea na banda desenhada portuguesa, reunindo obras de 16 autoras: Alice Prestes, Amanda Baeza, Bárbara Lopes, Filipa Beleza, Inês Garcia, Joana Afonso, Joana Mosi, Joana Rosa, Kachisou, Margarida Madeira, Marta Teives, Patrícia Costa, Raquel Costa, Rita Alfaiate, Sofia Neto e Susa Monteiro.

A exposição distingue-se pela forte aposta em originais, privilegiando o contacto directo com o processo artístico em detrimento de reproduções. A complementar esta abordagem, haverá ainda uma componente audiovisual que revela os bastidores criativos de cada autora, oferecendo ao público uma perspectiva mais íntima e detalhada sobre a construção da banda desenhada.

Integrada na programação do festival, “Mulheres de Papel” dialoga com outras exposições dedicadas a universos icónicos como Naruto e Peanuts, bem como com a obra Don Vega, do autor francês Pierre Alary, que marcará presença no evento.

Spy x Family #16

O 16.º volume de Spy x Family, manga de Tatsuya Endo, dá continuidade ao equilíbrio característico entre comédia, acção e intriga política que tem definido a série desde a sua estreia. Neste novo tomo, a narrativa avança em duas frentes distintas: a missão secreta de Loid Forger e o quotidiano escolar de Anya.

A obra é publicada originalmente no Japão pela Shueisha, com serialização digital através da plataforma Shōnen Jump+, onde se tem mantido como um dos títulos mais populares da atualidade.

No centro da componente mais política da narrativa, Loid — sob a identidade de psiquiatra — aproveita uma oportunidade para recolher informações durante um encontro com Melinda Desmond. A personagem, ligada diretamente a Donovan Desmond, figura-chave da operação em curso, torna-se aqui uma peça relevante para o avanço da missão. Este momento permite levantar novas pistas sobre o enigmático líder político, cuja influência continua a pairar como uma ameaça latente. Ainda que as revelações sejam parciais, reforçam o clima de tensão e espionagem que sustenta o arco principal da série.

Em paralelo, o volume acompanha o início de um novo semestre na Academia Eden, onde Anya se vê envolvida numa inesperada rivalidade de dimensão internacional. Este desenvolvimento introduz novos elementos de humor e conflito, mantendo o tom leve que contrasta com a narrativa mais densa centrada nos adultos. A personagem continua a ser um dos motores da popularidade da série, funcionando como ponto de ligação entre o quotidiano escolar e o universo mais amplo de espionagem e conspiração.

Spy x Family tem-se destacado pela capacidade de cruzar géneros distintos, combinando elementos de comédia familiar com temas de espionagem e crítica social. Neste volume 16, essa fórmula mantém-se eficaz, alternando entre momentos de tensão política e episódios de cariz mais leve. A dinâmica entre os membros da família Forger — cada um com segredos próprios — continua a ser central, contribuindo para a construção de uma narrativa multifacetada que apela a diferentes públicos.

Spy x Family #16, Tatsuya Endo, Devir, 212 pp., p&b, capa mole, 9,99€

9 de abril de 2026

La ligne claire d’Hergé, de Gilles Rattier, dedicada a Bob de Moor

Se há coisa que nunca me canso de cole cionar são monografias de autores de banda desenhada. Ao longo dos anos, fui construindo uma biblioteca que já conta com dezenas de volumes — alguns raros, outros mais acessíveis — mas todos fundamentais para compreender melhor os bastidores desta arte que tanto me fascina. Não são apenas livros: são portas de entrada para processos criativos, contextos históricos e, muitas vezes, para autores que ficam injustamente na sombra.

Foi precisamente essa sensação que tive ao receber a edição especial de La ligne claire d’Hergé, de Gilles Rattier, dedicada a Bob de Moor. Este é o tipo de obra que encaixa na perfeição na minha estante — e que justifica plenamente a obsessão por este género editorial.

Quem, como eu, acumula monografias, sabe que o maior prazer está em descobrir o que não é imediatamente visível nas pranchas publicadas. Neste caso, Rattier oferece-nos um mergulho profundo no papel de Bob de Moor dentro do universo de Hergé.

Durante muito tempo, De Moor foi visto como o “segundo homem”, o colaborador exemplar mas discreto. Esta monografia desmonta essa visão redutora e mostra-nos um autor completo, cuja importância vai muito além do estatuto de assistente.

Ao folhear este livro, fica claro que De Moor não era apenas um executante talentoso: era um verdadeiro guardião da estética da linha clara. A sua capacidade de replicar — e, subtilmente, expandir — o estilo de Hergé é impressionante. Para qualquer leitor interessado em Tintin, esta obra oferece uma perspectiva quase inédita: a de perceber como a consistência visual das aventuras foi, em grande parte, assegurada por uma equipa, com De Moor em destaque.

O título do livro levanta uma questão fascinante: a “linha clara” pertence apenas a Hergé? Rattier sugere que não. No contexto dos Studios Hergé, este estilo transforma-se numa linguagem colectiva, dominada por vários artistas — mas poucos com a mestria de De Moor. Este é, aliás, um dos aspectos que mais aprecio em monografias: a capacidade de questionar ideias feitas e de revelar zonas cinzentas na história da BD.

Do ponto de vista editorial, esta edição especial é exactamente aquilo que procuro: rica em documentação, generosa em imagens e cuidada na abordagem crítica. Não é apenas um livro para ler — é um livro para revisitar, comparar, estudar.

E é aqui que entra o lado mais pessoal: quando olho para a minha biblioteca, com dezenas de monografias alinhadas, sei que esta veio ocupar um lugar merecido. Não apenas por ser dedicada a um autor muitas vezes secundarizado, mas porque contribui para uma compreensão mais ampla de um dos movimentos mais importantes da banda desenhada europeia.

Bob de Moor: La ligne claire d’Hergé, Gilles Rattier, BD Must, 320 pp., cor, capa dura, 95€ (exemplar exclusivo para Les Amis d'Hergé)