20 de janeiro de 2026

“Tamém Digo! – Somos Todos Emigrantes”: um livro ilustrado que dá rosto à emigração portuguesa

A Iguana abre o ano editorial com um lançamento marcado pela memória, pela ternura e pela justiça histórica. Tamém Digo! – Somos Todos Emigrantes, de Jorge Pinto, com ilustrações de Julia da Costa, chega hoje às livrarias e propõe um olhar íntimo e colectivo sobre a emigração portuguesa, através da história de uma mulher comum — e, por isso mesmo, extraordinária: a Avó Carmo.

O livro parte de uma declaração simples e profundamente afectiva: “Ando há muitos anos para vos falar da minha avó.” A partir daí, Jorge Pinto — deputado da Assembleia da República e neto — constrói uma narrativa biográfica que ultrapassa o âmbito familiar para se tornar espelho de milhares de histórias semelhantes. Maria do Carmo nasceu numa aldeia do Norte de Portugal, cresceu entre privações, emigrou para França nos anos 1960 e, como tantos outros, viveu entre a promessa do regresso e a dureza do quotidiano longe de casa.

Entre o testemunho pessoal e a memória colectiva, Tamém Digo! retrata uma época decisiva da história contemporânea portuguesa: a emigração em massa, as casas deixadas a meio, os filhos criados entre dois países, os afectos suspensos e os regressos muitas vezes adiados. A escrita de Jorge Pinto é honesta, próxima e contida, recusando o dramatismo fácil para dar lugar a uma emoção que nasce do reconhecimento — o reconhecimento de vidas que raramente entraram nos livros de História.

As ilustrações de Julia da Costa acrescentam uma camada sensível e poética ao texto. Com traço delicado e expressivo, acompanham a narrativa sem a sobrepor, ampliando o silêncio, o trabalho árduo e a dignidade destas vidas anónimas. O resultado é um livro ilustrado que dialoga com leitores de diferentes gerações, capaz de tocar quem viveu a emigração e quem dela apenas herdou as memórias.

Mais do que uma biografia, Tamém Digo! – Somos Todos Emigrantes é uma homenagem às mães e avós que trabalharam até à exaustão, que sonharam pouco mas sentiram muito, e que sustentaram famílias inteiras com o seu esforço invisível. É também um lembrete da urgência de preservar a memória colectiva, sobretudo quando ela pertence aos que nunca tiveram voz pública.

Neste lançamento, a Iguana apresenta um livro que não só celebra a força da memória, como reafirma uma ideia simples e poderosa: é nas vidas anónimas que bate o verdadeiro coração de um povo.\

Tamém Digo! – Somos Todos Emigrantes, Julia da Costa e Jorge Pinto, Iguana, 128 pp., cor, capa dura, 19,95€

19 de janeiro de 2026

O Gosto pelo Cloro

O Gosto do Cloro é uma obra com um poder de encantar silencioso. O autor Bastien Vivès mergulha-nos nas águas tranquilas de uma piscina, mas é ali, naquele espaço aparentemente pacífico, que se desenrola uma das histórias de sedução mais delicadas e inquietantes que o mundo dos quadradinhos já viu.

Originalmente publicado em 2008, o livro narra o encontro entre dois jovens (cujo nome nunca é revelado), que se cruzam na piscina de uma forma simples, mas carregada de simbolismo. Ele nada por recomendação médica, tentando melhorar a sua saúde; ela, uma antiga campeã de natação, um pouco misteriosa e reservada, vai ajudá-lo a aperfeiçoar a sua técnica. No entanto, entre as braçadas e o toque da água, algo mais começa a nascer: uma relação subtil, onde o desejo e a sedução se misturam com a calma e a fluidez das águas.

A narrativa não é apenas sobre a técnica da natação, mas sobre os gestos, os olhares e os pequenos momentos de vulnerabilidade que se revelam entre os dois personagens. Vivès, através do seu estilo gráfico simples mas extremamente expressivo, consegue capturar a tensão emocional e a ambiguidade que existe entre eles. O desenrolar da história é pausado, quase como a própria sensação de flutuar na água, mantendo o leitor suspenso, imerso numa atmosfera de intimidade silenciosa e desejo não expresso.

A leveza da história contrasta com o que ela evoca. Ao longo da leitura, somos levados a questionar: o que acontece quando as emoções se misturam com os nossos corpos, como acontece na água? Como pode o simples contacto físico tornar-se algo mais profundo e inquietante? Este é um tema recorrente na obra de Vivès, que sabe exatamente como tornar simples momentos em experiências complexas.

Bastien Vivès é um autor com enorme notoriedade e, em Portugal, várias das suas obras foram publicadas. Além de O Gosto do Cloro, podemos encontrar Polina, Uma Irmã e dois álbuns hors-serie de Corto Maltese.

O Gosto do Cloro foi um marco na carreira de Vivès, recebendo diversos prémios e reconhecimento internacional. Entre os prémios que a obra recebeu, destacam-se:

Prix des Libraires (2009) – Um dos mais prestigiados prémios de banda desenhada em França;

Angoulême (2009) – A nomeação para o Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême é uma das maiores distinções que uma obra de banda desenhada pode alcançar.

O Gosto pelo Cloro, Bastien Vivés, 144 pp., cor, capa dura, 22€

18 de janeiro de 2026

Old Pa Anderson + Redenção: Hermann revisita o Oeste com maturidade e desencanto

A Arte de Autor lança este mês em Portugal o volume duplo Old Pa Anderson + Redenção, reunindo duas obras marcantes da fase mais madura de Hermann, em colaboração com o seu filho e argumentista habitual, Yves H.. Trata-se de uma edição que permite revisitar um western profundamente crepuscular, onde o mito da fronteira americana é desconstruído com brutal honestidade e um olhar profundamente humano.

Publicadas originalmente no final da década de 1990 e início dos anos 2000, estas histórias surgem num momento em que Hermann já se afastara definitivamente do western clássico de aventura que ajudara a popularizar com Comanche. Aqui, o Oeste é um espaço de desgaste moral, violência banalizada e personagens esmagadas pelo peso do tempo e das escolhas feitas.

Old Pa Anderson apresenta-nos uma figura central que se afasta deliberadamente do herói tradicional do género. Anderson é um velho colono, duro, autoritário e profundamente marcado por uma vida de sobrevivência num território hostil. A relação com os filhos é tensa, construída sobre ressentimentos, silêncio e violência latente.

Na altura do lançamento original, a crítica destacou a complexidade psicológica das personagens e a recusa de qualquer romantização do Oeste. Old Pa Anderson foi frequentemente descrito como um retrato implacável da figura patriarcal, onde a autoridade se confunde com tirania e onde a família surge como mais um campo de batalha.

Graficamente, Hermann apresenta aqui um desenho mais rugoso e expressivo, com cenários áridos que refletem o vazio emocional das personagens. A paisagem deixa de ser mero pano de fundo para se tornar parte integrante do drama.

Redenção funciona como prolongamento temático e emocional da primeira história, aprofundando as consequências da violência e da herança moral deixada por Anderson. Se o primeiro volume é marcado pelo conflito, o segundo mergulha na culpa, no remorso e na impossibilidade de verdadeira redenção.

Aquando da sua publicação original, muitos críticos sublinharam o tom quase trágico da narrativa, aproximando-a mais do drama psicológico do que do western tradicional. Yves H. constrói um argumento contido, onde os silêncios são tão importantes quanto os diálogos, e onde cada ato de violência deixa marcas irreversíveis.


A crítica da época reconheceu em Redenção uma obra dura, desconfortável, mas profundamente coerente, destacando a maturidade da dupla Hermann/Yves H. e a sua capacidade de usar o western como veículo para uma reflexão universal sobre responsabilidade e herança moral.

O volume duplo agora publicado pela Arte de Autor permite ler estas duas histórias como um todo coeso, reforçando a ideia de que estamos perante um western de desconstrução, onde não há espaço para heroísmo fácil nem para finais conciliatórios.

Na altura do lançamento original, estas obras dividiram leitores mais nostálgicos, mas foram amplamente elogiadas pela crítica especializada, que viu nelas a afirmação definitiva de Hermann como um autor que recusava repetir fórmulas e que preferia arriscar narrativamente, mesmo à custa do conforto do leitor.

Com este lançamento, a Arte de Autor continua o seu trabalho de recuperação e valorização da obra de Hermann em Portugal, oferecendo ao público uma edição que sublinha a relevância contemporânea destas histórias. Old Pa Anderson + Redenção é um livro exigente, sombrio e profundamente humano — uma leitura incontornável para quem vê na banda desenhada não apenas entretenimento, mas também um espaço de reflexão sobre a condição humana.

Mais do que um western, esta é uma história sobre pais e filhos, sobre a violência herdada e sobre a difícil — e muitas vezes impossível — ideia de redenção.

Old Pa Anderson + Redenção, Hermann e Yves H., Arte de Autor, capa dura, cor

17 de janeiro de 2026

Tokyo Revengers - Ensaio de quadriculografia portuguesa

Ficha técnica:

Manga Shõnen, 
(Japão) Weekly Shōnen Magazine, 1 de março de 2017 – 16 de novembro de 2022 (31 volumes)
Ken Wakui

Estreia em Portugal: Distrito Manga, Julho de 2024

A história acompanha Takemichi Hanagaki, um jovem adulto cuja vida é marcada por fracassos e arrependimentos. Ao descobrir que Hinata Tachibana, a única namorada que teve no liceu, morreu num conflito envolvendo a violenta gangue Tokyo Manji (Toman), Takemichi é misteriosamente enviado 12 anos ao passado, para a época em que era estudante.

Percebendo que consegue regressar ao presente sempre que aperta a mão de Naoto, o irmão mais novo de Hinata, Takemichi decide usar esta capacidade para alterar o curso dos acontecimentos, tentando salvar Hinata e impedir que a Toman se transforme numa organização criminosa sem escrúpulos.

Ao infiltrar-se no mundo das gangues juvenis de Tóquio, Takemichi enfrenta lutas brutais, rivalidades internas e escolhas morais difíceis, enquanto descobre que pequenas mudanças no passado podem ter consequências devastadoras no futuro. No centro da narrativa estão temas como amizade, lealdade, redenção e o peso das decisões, que fazem de Tokyo Revengers muito mais do que uma simples história de delinquentes.

Ensaio de quadriculografia portuguesa:
  1. Tokyo Revengers #1 [2024]
  2. Tokyo Revengers #2 [2024]
  3. Tokyo Revengers #3 [2024]
  4. Tokyo Revengers #4 [2024]
  5. Tokyo Revengers #5 [2025]
  6. [2025]
  7. Tokyo Revengers #7 [2025]
  8. Tokyo Revengers #8 [2026]
[actualizado em 17.01.2025]

Dino Attanasio (1925–2026): Adeus ao mestre da banda desenhada franco-belga

Morreu hoje Dino Attanasio, aos 100 anos, uma das figuras maiores da banda desenhada franco-belga e um autor fundamental para compreender a evolução da BD europeia no pós-guerra.

Nascido em Milão, em 1925, e radicado na Bélgica desde jovem, Attanasio foi um dos nomes associados à chamada Escola de Bruxelas, destacando-se pela elegância do traço, pela clareza narrativa e por uma versatilidade rara. Trabalhou com naturalidade tanto o humor como a aventura, deixando marca em revistas históricas como Spirou.

O seu nome ficará para sempre ligado a séries como Signor Spaghetti (com argumentos iniciais de René Goscinny) e Modeste et Pompon, mas a sua obra vai muito além de títulos específicos: Attanasio foi um desenhador de movimento, ritmo e humanidade, um verdadeiro artesão da narrativa gráfica.

A sua longeva carreira atravessou várias fases da banda desenhada europeia, e o seu trabalho continua a ser redescoberto por novas gerações de leitores e autores. Com a sua morte, desaparece mais um dos construtores silenciosos do meio — daqueles que não procuravam protagonismo, mas deixaram uma marca profunda e duradoura.

Ficam as páginas que desenhou, o prazer da leitura e a certeza de que a história da BD não se escreve sem o seu nome.

Fica aqui a quadriculografia portuguesa de Dino Attanasio.

Batman Grant Morrison - Livro 4

No quarto volume da fase de Grant Morrison em Batman, somos conduzidos a um dos momentos mais perturbadores e ambiciosos da longa história do Cavaleiro das Trevas. BATMAN R.I.P., originalmente publicado entre 2008 e 2009, reúne as histórias editadas nos números Batman #679 a #683, e representa uma verdadeira descida ao lado mais sombrio, fragmentado e psicológico da personagem.

A misteriosa organização Black Glove acredita finalmente ter conseguido o impossível: matar o Batman. Através de manipulação psicológica, traições cuidadosamente planeadas e um ataque directo à mente de Bruce Wayne, o plano parece resultar. A narrativa avança num território onde a fronteira entre realidade e delírio se torna cada vez mais difusa, arrastando o leitor para um pesadelo desconcertante, tão instável quanto a própria psique do herói.

Curiosamente, no meio do caos, apenas o Joker acredita que o Batman ainda está vivo. Esta inversão de papéis é uma das grandes forças do argumento de Morrison: o inimigo de sempre surge como o único capaz de compreender verdadeiramente a natureza do seu oposto. Afinal, se o Batman morresse, o próprio Joker deixaria de fazer sentido. Esta dinâmica acrescenta uma camada inesperada e fascinante à relação entre ambos.

Visualmente, o volume é marcante. O desenho de Tony Daniel e Lee Garbett acompanha o tom alucinatório da história, com uma paleta de cores vibrante e por vezes quase psicadélica, que reforça a sensação de desorientação mental e colapso interno. A arte não se limita a ilustrar a narrativa — participa activamente nela, ajudando a construir a atmosfera de paranóia e decadência.

Batman Grant Morrison - Livro 4, Grant Morrisson, Tony Daniel e Lee Garbett, Devir, 152 pp., cor, capa dura, 20€

“Ataque dos Titãs” celebra marco histórico com o lançamento do 10.º volume

Desde a sua estreia, Ataque dos Titãs (Shingeki no Kyojin) afirmou-se como um dos maiores fenómenos da história recente da manga. Criada por Hajime Isayama, a obra foi publicada originalmente no Japão em setembro de 2009, na revista Bessatsu Shōnen Magazine, da editora Kodansha, conquistando rapidamente leitores pela sua abordagem sombria, narrativa imprevisível e forte carga emocional. Ao longo dos anos, a série ultrapassou a impressionante marca dos 100 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo, sendo ainda distinguida com 15 prémios internacionais, entre os quais o Prémio de Manga Kodansha, o Prémio Attilio Micheluzzi e o Prémio Harvey.

É neste contexto de enorme sucesso que chega agora o 10.º volume da colecção, sob o título “Fortaleza de Sangue”, um momento particularmente simbólico para fãs e coleccionadores. Este volume marca um ponto de viragem na narrativa, colocando a 104.ª divisão perante uma situação desesperada: com a Muralha Rose violada e privados de equipamento de combate, os soldados são obrigados a evacuar aldeias ameaçadas pela presença dos Titãs.

A tensão cresce quando o grupo procura abrigo no antigo Castelo de Utgard, na esperança de um breve descanso. No entanto, o que deveria ser um refúgio transforma-se num verdadeiro pesadelo quando, de forma totalmente inédita, os Titãs atacam durante a noite, um acontecimento sem precedentes que apanha todos de surpresa e aprofunda o mistério em torno da natureza destas criaturas.

Para além do impacto narrativo, esta edição comemorativa destaca-se também pelo seu conteúdo especial: inclui um marcador exclusivo, assinalando o lançamento do 10.º volume, com assinatura do autor, um detalhe pensado especialmente para os fãs mais dedicados e para os coleccionadores da série.

Mais de uma década após a sua publicação original, Ataque dos Titãs continua a provar a sua relevância cultural e literária, mantendo-se como uma obra incontornável da manga contemporânea. O lançamento de “Fortaleza de Sangue” não é apenas a celebração de mais um volume, mas também a confirmação do legado duradouro de uma história que redefiniu os limites do género.

Ataque dos Titãs, Hajime Isayama, Distrito Manga, 192 pp., p&b, capa mole, 10,95€