terça-feira, 8 de setembro de 2026

ZITS regressa em setembro com Apocalipse


A Gradiva prepara para este mês uma nova edição portuguesa de Zits, a popular série de tiras humorísticas criada por Jerry Scott (argumento) e Jim Borgman (desenho).

Com o título Apocalipse Zits, o novo volume volta ao quotidiano de Jeremy Duncan e à eterna batalha entre adolescentes e adultos. Desta vez, a comparação é particularmente apropriada: adolescentes e zombies têm mais em comum do que seria desejável — movem-se lentamente, comunicam de forma nem sempre inteligível e parecem estar permanentemente com fome. Como resume provocatoriamente a edição: «Os zombies comem cérebros. Tás safo».

A Gradiva mantém assim a sua longa ligação à série, que publica em Portugal há mais de duas décadas. Entre os títulos anteriormente editados encontram-se E No Entanto Move-se, Dá-lhe Gás, Peace, Love & Wi-Fi e Zits em Concerto.

Apocalipse Zits, Jerry Scott e Jim Borgman, Gradiva, 208 pp., p&b, capa mole, 19€

Level up na estante: novidades Devir a caminho

A mangá, a banda desenhada e o romance gráfico já não são fenómenos de nicho. Conquistam novos leitores todos os dias e ocupam um lugar cada vez mais destacado nas tabelas de vendas, entre miúdos e graúdos.

É neste contexto que a DEVIR entra na rentrée com novas séries, edições especiais, grandes clássicos e algumas despedidas de títulos de culto, num calendário de lançamentos que se estende de setembro a novembro.

Entre os destaques está A Casa do Desertor, nova antologia do mestre do terror japonês Junji Ito; A Morte do Tetraz-Lira, romance gráfico de David Combet sobre identidade, relações familiares e os modelos tradicionais de masculinidade; e Ichi the Witch, de Osamu Nishi e Shiro Usazaki, uma das novas sensações da manga japonesa e vencedora dos Next Manga Awards 2025.

Há ainda regressos de peso, como O Longo Halloween, de Jeph Loeb e Tim Sale, V for Vendetta, de Alan Moore e David Lloyd, e novas incursões nos universos de Batman e Superman. A rentrée marca também o final de séries como Monster, Boa Noite, Punpun, Kenshin, o Samurai Errante e The Walking Dead.

Guy Delisle marcará presença na 37.ª edição da Amadora BD, que lhe dedica uma exposição centrada nos seus célebres livros de viagens — Pyongyang, Crónicas de Jerusalém, Crónicas da Birmânia e Shenzhen — obras que ajudaram a levar o seu trabalho muito para além do público tradicional da BD.

The Beatles em BD: a história dos Fab Four chega à banda desenhada pela ASA

Poucas bandas deixaram uma marca tão profunda na cultura popular como os Beatles. John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr precisaram de pouco mais de uma década para transformar a música popular, provocar um fenómeno social à escala mundial e deixar uma obra que continua a conquistar novas gerações. A partir de hoje nas livrarias, a ASA propõe uma forma diferente de revisitar essa história com a edição portuguesa de The Beatles em BD, com argumento de Gaet's e o desenho de vários autores.

A obra não se limita a recordar os discos ou os grandes êxitos. A narrativa acompanha o percurso do grupo desde os tempos dos Quarrymen, passando pela formação definitiva dos Beatles, pelas primeiras atuações, pela explosão da Beatlemania, pela conquista dos Estados Unidos e pela extraordinária evolução musical que os levou de simples ídolos juvenis a protagonistas de uma verdadeira revolução cultural. Foram apenas oito anos de carreira discográfica, mas bastaram para produzir doze álbuns originais e mais de 200 canções, num percurso em que os quatro músicos de Liverpool alteraram sucessivamente aquilo que se esperava de uma banda pop.

O livro acompanha naturalmente episódios fundamentais dessa trajectória: a ascensão fulgurante do grupo, as digressões marcadas por multidões de fãs, o abandono dos concertos, a crescente experimentação em estúdio e, finalmente, as tensões que conduziriam à separação.

The Beatles em BD não é uma biografia gráfica convencional. A proposta concebida por Gaet's e Stéphane Nappez combina sequências de banda desenhada com textos documentais e material ilustrado, permitindo contextualizar historicamente os acontecimentos narrados. É precisamente esta estrutura híbrida que distingue o álbum. Ao lado dos grandes momentos conhecidos por praticamente todos os admiradores dos Beatles surgem episódios e curiosidades menos divulgados, proporcionando uma leitura simultaneamente narrativa e documental. A própria apresentação portuguesa destaca essa intenção: permitir «descobri-los de outra forma», percorrendo a história do grupo dos Quarrymen até à separação.

A edição tem 232 páginas em capa dura, assumindo-se assim como um volume de dimensão considerável e destinado não apenas aos leitores habituais de banda desenhada, mas também aos amantes da música e, naturalmente, aos inúmeros admiradores dos Fab Four.

É difícil encontrar outra banda cuja evolução tenha sido tão rápida. Entre os primeiros êxitos de Please Please Me e a sofisticação de obras como Revolver, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, The Beatles ou Abbey Road decorreram apenas alguns anos. E talvez seja precisamente essa transformação que torna a história dos Beatles tão adequada à banda desenhada: quatro jovens de Liverpool passam dos pequenos clubes para os maiores palcos do mundo, tornam-se protagonistas de uma histeria coletiva sem precedentes e, quando poderiam simplesmente repetir a fórmula do sucesso, abandonam as digressões e transformam o estúdio de gravação num verdadeiro laboratório criativo. Depois chegam as divergências, os projectos individuais e uma separação que, em 1970, encerra uma história extraordinariamente curta quando comparada com a dimensão do legado deixado.

Existem milhares de livros dedicados aos Beatles. Biografias, estudos musicais, testemunhos, fotografias e análises minuciosas praticamente não deixaram um único dia da carreira do grupo por documentar. A originalidade desta edição está, portanto, menos na descoberta de uma história desconhecida do que na forma escolhida para voltar a contá-la.

A conjugação entre banda desenhada e documentação permite transformar episódios célebres em pequenas narrativas visuais e, ao mesmo tempo, fornecer ao leitor o contexto necessário para compreender como quatro músicos ingleses se tornaram um dos maiores fenómenos culturais do século XX.

Depois de várias apostas recentes em obras que aproximam a banda desenhada de outras manifestações culturais, a ASA acrescenta assim ao seu catálogo um título bastante diferente das séries franco-belgas que tradicionalmente constituem uma parte importante da sua edição de BD. A própria editora apresentou The Beatles em BD como uma das propostas mais «fora da caixa» do seu programa para o segundo semestre de 2026. Para quem gosta simultaneamente de banda desenhada e música, dificilmente poderia haver encontro mais apetecível.

The Beatles em BD, Gaet's e vários autores, ASA, 232 pp., cor, capa dura, 28,90€

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

SHI regressa pela Ala dos Livros: Zidrou e Homs levam-nos ao coração do «Grande Fedor» de Londres

A Ala dos Livros prossegue a publicação portuguesa de uma das mais interessantes séries da atual banda desenhada franco-belga. SHI, de Zidrou e Homs, regressa com o seu terceiro volume, dando continuidade à violenta luta de Jay e Kita contra as injustiças e a hipocrisia da sociedade vitoriana.

Depois dos acontecimentos que abalaram Londres, Jay e Kita são agora consideradas terroristas por uma burguesia que vê nas duas mulheres uma ameaça à ordem estabelecida. Mas aquilo que deveria significar o fim da sua luta acaba por produzir o efeito contrário. Graças às «Mães Furiosas», o movimento alastra pela cidade e o misterioso símbolo SHI nunca esteve tão presente nas ruas de Londres. Ao mesmo tempo, no presente, Apolline aproxima-se cada vez mais da verdade sobre a mãe biológica. Junto ao túmulo de Jay, começa finalmente a compreender a dimensão da vida que esta levou: uma existência marcada pela luta, pelo sofrimento e pela dedicação absoluta a uma causa. A descoberta coloca, porém, uma questão inevitável: estará Apolline preparada para suportar o peso dessa herança e assumir o legado de uma mãe que praticamente só conhece através da memória dos outros?

Jay aguarda na prisão o julgamento pelos trágicos acontecimentos de Trafalgar Square. Kita e Sensei procuram recuperar dos ferimentos, físicos e emocionais, enquanto uma nova ameaça se abate sobre a capital do Império Britânico. Uma vaga de calor sufocante faz baixar drasticamente as águas do Tamisa. O rio, transformado numa gigantesca cloaca a céu aberto, espalha pela cidade um odor insuportável e coloca Londres perante uma grave crise sanitária e o risco de novas epidemias. É o episódio que ficaria conhecido na História como The Great Stink — o Grande Fedor de Londres.

Zidrou volta assim a inserir as suas personagens ficcionais num acontecimento histórico real, ocorrido durante o verão de 1858 e decisivo para a modernização do sistema de saneamento londrino. A miséria das classes populares, as deficientes condições sanitárias e as enormes desigualdades sociais da Inglaterra vitoriana proporcionam um cenário particularmente adequado ao universo de SHI. E as Mães Furiosas não estão dispostas a permanecer quietas.

Enquanto Londres quase sufoca, continuam a preparar novos ataques, combatem o trabalho infantil e procuram desesperadamente a filha de Jay. Paralelamente, aproxima-se mais uma etapa do plano que atravessa toda a série: falta apenas a encarnação do quarto demónio para que a vingança contra o Império possa finalmente concretizar-se.

Desde o primeiro volume, SHI distingue-se pela forma como Zidrou combina aventura, drama histórico, fantástico e crítica social. Por detrás das conspirações, dos mistérios e dos elementos sobrenaturais encontramos questões bem concretas: exploração laboral, pobreza, desigualdade entre homens e mulheres, colonialismo, racismo e os privilégios de uma sociedade rigidamente hierarquizada.

E se o argumento de Zidrou constrói uma Inglaterra vitoriana particularmente sombria, Homs dá-lhe uma extraordinária presença visual. As ruas sobrelotadas, os interiores burgueses, as zonas miseráveis da cidade e, agora, uma Londres abrasada pelo calor e contaminada pelo Tamisa criam um ambiente simultaneamente grandioso e opressivo. O chamado Grande Fedor parece, aliás, feito à medida do seu desenho.

Com este lançamento, a Ala dos Livros dá continuidade a uma série que tem vindo a conquistar um lugar de destaque entre os leitores portugueses de BD franco-belga. O novo volume aprofunda simultaneamente as duas linhas temporais de SHI: a luta de Jay e Kita na Londres do século XIX e a descoberta, pelas gerações seguintes, das consequências dessa luta. E a revolta das Mães Furiosas está longe de ter terminado.

SHI – Volume 3: Tomos 5 e 6 (5 - Black Friday / 6 - O Grande Fedor), Zidrou e Homs, Ala dos Livros, 128 pp., cor, capa dura, 32  €


domingo, 6 de setembro de 2026

BLAST chega ao fim em Portugal: a Ala dos Livros publica o segundo e último integral da obra-prima de Manu Larcenet

Há obras que se leem e há outras que permanecem connosco muito depois de fecharmos a última página. Blast, de Manu Larcenet, pertence seguramente à segunda categoria. A Ala dos Livros publica agora o segundo e último volume integral, concluindo em português aquela que muitos consideram a obra-prima do autor de O Relatório de Brodeck e A Estrada.

Com este segundo volume encerra-se a perturbadora viagem de Polza Mancini, uma das personagens mais extraordinárias e desconcertantes criadas pela banda desenhada francesa contemporânea.

Polza continua sob custódia policial, interrogado na sequência da morte de uma jovem. Obeso, marginal, inteligente e profundamente perturbado, relata aos investigadores os acontecimentos que o conduziram até ali. Mas o seu depoimento está longe de constituir uma simples confissão. É uma descida aos lugares mais obscuros da memória e da mente de um homem que decidiu abandonar as convenções da sociedade para perseguir uma experiência quase impossível de explicar.

O Blast é aquele instante de iluminação que Polza procura obsessivamente: um momento em que a realidade parece dissolver-se e ele é transportado para outro estado de consciência, libertando-se, ainda que brevemente, do peso do corpo, da existência e do mundo. Para voltar a encontrá-lo, Polza afasta-se progressivamente da sociedade. Deambula, bebe, dorme ao relento, conhece outros excluídos e atravessa sucessivas experiências de degradação física e psicológica. Pelo caminho surgem hospitais psiquiátricos, pesadelos, alucinações, violência e recordações que tornam cada vez mais difícil distinguir a verdade da versão que ele próprio construiu.

Neste segundo integral, a viagem aproxima-se inevitavelmente do seu destino. As peças dispersas começam a encontrar o seu lugar e os acontecimentos que conduziram Polza à esquadra adquirem progressivamente outro significado. A verdade aproxima-se — mas não necessariamente da maneira que esperamos.

Larcenet abandona aqui grande parte dos códigos gráficos pelos quais se tornara conhecido e mergulha num universo predominantemente a preto e branco, carregado de manchas, sombras, texturas e silêncios. Os corpos têm peso. A lama parece colar-se às páginas. As florestas tornam-se simultaneamente refúgio e ameaça. Os rostos revelam uma humanidade que oscila permanentemente entre a ternura e a brutalidade. Estamos perante um Larcenet muito diferente daquele que muitos leitores conheceram através de obras mais humorísticas. É um autor disposto a explorar os limites da própria linguagem gráfica.

Originalmente, Blast foi publicado em França em quatro grandes álbuns, entre 2009 e 2014. A edição da Ala dos Livros reúne-os em dois volumes integrais, preservando a dimensão monumental de uma narrativa concebida para ser lida como um todo. Este segundo integral corresponde à segunda metade da obra e conduz a história até à sua conclusão definitiva.

BLAST – Volume Integral 2, Manu Larcenet, Ala dos Livros, 408 pp., p&b, capa dura, 49,90€

sábado, 5 de setembro de 2026

“Histórias à Sombra do Montado” regressa com quatro novas histórias em banda desenhada

O montado de sobro alentejano volta a servir de inspiração à banda desenhada na quarta edição de Histórias à Sombra do Montado, projeto promovido pela Ronha – Associação Cultural, que será apresentado publicamente este sábado, na Biblioteca Municipal José Saramago, em Odemira.

Criada em 2022, a iniciativa procura homenagear o montado não apenas enquanto ecossistema, mas também como elemento do território de Odemira e da cultura alentejana. Para isso, reúne escritores e artistas em torno de novas narrativas desenvolvidas a partir do contacto direto com a região.

A edição de 2026 apresenta quatro novas histórias, escritas por Ana Pessoa, Marta Oliveira, Rafael Dionísio e Ricardo Henriques, posteriormente adaptadas à linguagem da banda desenhada pelos ilustradores Alain Corbel, João Fazenda, Ostraliana e Susa Monteiro.

À semelhança das edições anteriores, escritores e artistas visitaram o concelho de Odemira e, organizados em duplas, partiram das suas próprias experiências e impressões para construir diferentes olhares sobre o montado e as comunidades que com ele convivem.

Segundo Hugo Tornelo, criador do projecto, Histórias à Sombra do Montado pretende homenagear este território através da BD, cruzando diferentes escritores e artistas e criando novas formas de representar uma paisagem profundamente ligada à identidade alentejana.

O projecto assume igualmente uma vertente de sensibilização ambiental. O montado de sobro constitui um dos ecossistemas mais característicos do Alentejo e, além da produção de cortiça, desempenha um importante papel na conservação da biodiversidade, na protecção dos solos e na preservação das paisagens rurais. O livro inclui, por isso, um conjunto de boas práticas para a regeneração do montado.

A edição deste ano terá uma tiragem de 4.000 exemplares, distribuídos gratuitamente por todo o concelho de Odemira. A partir de domingo, ficará também disponível para descarga no sítio oficial do projecto.

A apresentação realiza-se na Biblioteca Municipal José Saramago, em Odemira, com a presença de Alain Corbel, integrando as comemorações do 26.º aniversário da biblioteca. O lançamento ganha este ano um significado particular, coincidindo com a reabertura daquele equipamento cultural depois de cerca de um ano encerrado para obras.

Fonte: Lusa

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

dBD #202 – Setembro de 2026

Já se encontra disponível o n.º 202 da revista francesa dBD, correspondente a Setembro de 2026, com mais uma edição dedicada à atualidade e aos protagonistas da banda desenhada franco-belga e internacional.

A revista abre, como habitualmente, com as notícias da actualidade da BD, seguindo-se o grande destaque desta edição, dedicado a Deghani.

Entre os principais conteúdos encontra-se uma extensa abordagem ao percurso de Vittorio Giardino, um dos grandes nomes da banda desenhada italiana contemporânea, autor de obras como Sam Pezzo, Max Fridman e Jonas Fink.

Na rubrica Incontournable, a revista centra as atenções em Catherine Meurisse, autora francesa cuja obra cruza frequentemente autobiografia, literatura, arte e reflexão sobre a sociedade contemporânea.

A edição prossegue com um encontro entre Cyril Pedrosa e Taiyō Matsumoto, dois autores de universos gráficos muito distintos, mas igualmente marcantes na BD contemporânea.

Na secção L'Art de la couverture, o convidado é Mo/CDM, seguindo-se Manuele Fior (p. 72), numa abordagem dedicada à adaptação. O autor italiano é conhecido em Portugal por obras como Cinco Mil Quilómetros por Segundo e Entrevista.

O escritor e argumentista Caryl Férey ocupa a rubrica Best-seller, enquanto a vertente autobiográfica é representada por Sylvain Bordesoules.

Há ainda espaço para a nova geração, com Camille Broutin, e para uma incursão pela História através de Daniel Casanave, desenhador francês particularmente associado a adaptações literárias e obras de divulgação histórica.

dBD #202, septembre-octobre 2026, 132 pp., 13,40€