17 de março de 2026

Os Cabelos de Edith: memória, culpa e reconciliação na Paris do pós-guerra

Na Primavera de 1945, a Europa começava lentamente a despertar de um dos períodos mais sombrios da sua história. Em Paris, o histórico Hotel Lutetia foi transformado num centro de acolhimento para sobreviventes dos campos de concentração nazis que regressavam a casa após o fim da guerra. É neste cenário carregado de emoção e memória que se desenrola Os Cabelos de Édith, um romance gráfico sensível e profundamente humano.

A obra é assinada por Fabienne Blanchut e Catherine Locandro, com ilustrações do desenhador Dawid Cathelin (conhecido artisticamente como Dawid). O livro foi publicado originalmente em França em Setembro de 2025, pela editora Dargaud, e chega este mês a Portugal, numa edição da ASA.  

A história acompanha Louis, um estudante de 17 anos que, numa Paris recentemente libertada, divide o seu tempo entre os estudos para o exame final do liceu e pequenos trabalhos. Tudo muda quando decide tornar-se voluntário no centro de repatriamento instalado no Hotel Lutetia. Ali chegam diariamente homens e mulheres que sobreviveram ao horror dos campos de concentração. É nesse contexto que Louis conhece Edith, uma jovem que regressou de Auschwitz‑Birkenau. Marcada por memórias traumáticas, Edith vive presa a um silêncio pesado, incapaz de traduzir plenamente a experiência que viveu. Ainda assim, entre ela e Louis nasce um vínculo profundo, feito de gestos simples, respeito e uma tentativa sincera de compreender o sofrimento do outro.

Ao mesmo tempo, o jovem confronta-se com uma revelação devastadora sobre a sua própria família. Ao investigar o passado da guerra, Louis descobre que o pai trabalhou como motorista durante a ocupação e transportou judeus para o campo de internamento de Drancy Internment Camp, ponto de partida para deportações para os campos de extermínio. A descoberta provoca uma ruptura irreparável entre pai e filho, colocando Louis perante questões difíceis sobre culpa, responsabilidade e memória histórica.

Com uma narrativa delicada e emocionalmente poderosa, Os Cabelos de Edith aborda temas fundamentais da memória do Holocausto: a dificuldade de regressar à vida após o trauma, o silêncio das vítimas e o peso moral que a guerra deixou em toda uma geração. O desenho suave e expressivo de Dawid reforça essa dimensão humana, criando um contraste tocante entre a ternura das personagens e a violência do passado que as assombra. Mais do que um relato histórico, este romance gráfico é também uma reflexão sobre a necessidade de lembrar. Ao contar uma história íntima dentro da grande História, os autores prestam homenagem aos sobreviventes e recordam-nos que compreender o passado é essencial para evitar que o horror se repita.

Com a edição portuguesa da ASA, Os Cabelos de Edith afirma-se como uma das obras de banda desenhada histórica mais marcantes dos últimos anos, convidando leitores de todas as idades a refletirem sobre memória, responsabilidade e humanidade.

Os Cabelos de Edith, Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid, ASA, 168 pp., capa dura, 24,90€

Jujutsu Kaisen #19: 1.ª Colónia de Tóquio – A ira do Homem

O volume 19 de Jujutsu Kaisen, da autoria de Gege Akutami, mergulha ainda mais fundo no intenso arco narrativo do Jogo da Extinção, colocando Yuji Itadori e Megumi Fushiguro perante novos desafios e inimigos cada vez mais perigosos.

Determinados a alterar as regras do jogo mortal criado por Kenjaku, Itadori e Fushiguro partem em busca de Hiromi Higuruma, um poderoso participante que já acumulou 100 pontos — uma pontuação suficiente para introduzir novas regras no jogo. A esperança dos protagonistas é persuadi-lo a colaborar, criando condições que possam salvar mais participantes e alterar o rumo deste confronto sobrenatural.

Ao entrarem na 1.ª Colónia de Tóquio, uma das zonas onde decorre o Jogo da Extinção, os dois acabam por se separar, o que complica ainda mais a missão. Cada um terá de enfrentar adversários perigosos e tomar decisões difíceis enquanto tenta localizar Higuruma.

Em  A ira do Homem, este volume aprofunda a dimensão moral e psicológica do conflito, explorando temas como justiça, culpa e vingança. Hiromi Higuruma revela-se uma personagem complexa, cuja visão do mundo e do sistema de justiça coloca Itadori perante um dilema moral.

Entre combates espectaculares e momentos de tensão dramática, o volume 19 continua a expandir o universo de Jujutsu Kaisen, preparando o terreno para confrontos ainda mais decisivos dentro do Jogo da Extinção.

O volume 19 de Jujutsu Kaisen foi publicado originalmente no Japão a 4 de Abril de 2022, pela editora Shueisha, reunindo capítulos que haviam sido previamente serializados na revista Weekly Shōnen Jump, uma das publicações mais influentes do manga contemporâneo.

Jujutsu Kaisen #19: 1.ª Colónia de Tóquio – A ira do Homem, Gege Akutami, Devir, 208 pp., p&b, capa mole, 9,99€

16 de março de 2026

Dan Da Dan #2: monstros, espíritos e acção sem travões

Depois de um primeiro volume explosivo, Dan Da Dan de Yukinobu Tatsu, regressa com uma continuação ainda mais caótica, misturando terror sobrenatural, humor absurdo e batalhas frenéticas.

A história acompanha Okarun, um jovem obcecado por fenómenos paranormais, e Ayase Momo, uma estudante do secundário com poderes psíquicos. No final do primeiro volume, Okarun acaba amaldiçoado pela temível Velhota Turbo, um espírito lendário que habita num local assombrado. Para quebrar a maldição, os dois são forçados a aceitar um desafio insólito: jogar à apanhada contra o espírito. A única forma de sobreviver é fugir e vencer o desafio. No entanto, a tarefa complica-se quando surge um novo perigo pelo caminho: o espírito vingativo de um assassino preso à Terra, que assume a forma de um gigantesco caranguejo sobrenatural. Entre perseguições, confrontos e situações cada vez mais absurdas, Okarun e Momo terão de usar todas as suas capacidades — paranormais ou não — para escapar.

Neste segundo volume, Yukinobu Tatsu intensifica todos os elementos que tornaram a série popular: combates frenéticos contra criaturas sobrenaturais, aparições bizarras e monstros gigantes, uma narrativa rápida, cheia de humor inesperado e a dinâmica peculiar entre os dois protagonistas.

A mistura de romance juvenil, terror paranormal e acção desenfreada continua a ser uma das marcas distintivas da obra, mantendo o leitor constantemente surpreendido.

Dan Da Dan é uma série relativamente recente no universo do manga. A obra de Yukinobu Tatsu foi publicada pela primeira vez a 6 de Abril de 2021 na plataforma digital Shōnen Jump+, da editora japonesa Shueisha, conhecida por acolher títulos inovadores dentro do universo shōnen.

Com este segundo volume, Dan Da Dan confirma o seu tom imprevisível e caótico: uma corrida constante entre espíritos, monstros gigantes e emoções à flor da pele, onde o amor e o perigo parecem sempre andar lado a lado.

Dan Da Dan #2, Yukinobu Tatsu, Devir, 204 pp., p&b, capa mole, 9,99€

Elric de Melniboné regressa à banda desenhada – “O Trono de Rubi”

Entre as grandes figuras da fantasia heróica do século XX, poucas são tão singulares como Elric de Melniboné, o imperador albino criado por Michael Moorcock. Agora, esta personagem regressa à banda desenhada numa nova adaptação publicada em Portugal pela Arte de Autor, com o primeiro volume da série: O Trono de Rubi.

Criado em 1961 e rapidamente transformado numa figura de culto da literatura fantástica, Elric é tudo o que um herói tradicional não é. Frágil, doente e dependente de drogas e magia para sobreviver, o imperador de Melniboné governa um império antigo e decadente, herdeiro de poderes concedidos pelos deuses há milénios. Este contraste entre poder absoluto e fraqueza física dá origem a uma personagem profundamente trágica, marcada por dúvidas, ambiguidade moral e uma ligação inquietante aos Senhores do Caos.

Neste primeiro volume, O Trono de Rubi, acompanhamos um momento crítico do reinado de Elric. O seu primo Yyrkoon, ambicioso e implacável, despreza a fragilidade do imperador e pretende usurpar-lhe o trono. Quando surge a notícia de um iminente ataque de piratas às costas do império, Elric vê aí uma oportunidade para reafirmar a sua autoridade. No entanto, ao fazê-lo, revela não apenas a sua complexidade enquanto governante, mas também a sua ligação ao poderoso Senhor do Caos Arioch, entidade cujos desígnios permanecem envoltos em mistério.

A adaptação desta saga clássica assume aqui uma forma particularmente ambiciosa. Produzida por uma equipa criativa francesa, com ilustração de Didier Poli e Robin Recht, a série apresenta uma abordagem visual grandiosa, marcada por cenários sombrios, arquitetura fantástica e uma atmosfera gótica que combina perfeitamente com o universo criado por Moorcock.

A saga de Elric tem uma longa história de adaptações — desde romances e jogos de role-playing até videojogos e banda desenhada, incluindo a célebre interpretação de Philippe Druillet no final da década de 1960. Esta nova versão, no entanto, destaca-se pela ambição narrativa e pela qualidade gráfica, tendo recebido a aprovação entusiástica do próprio Moorcock.

Com O Trono de Rubi, a Arte de Autor inicia a publicação de uma série que promete trazer às livrarias portuguesas uma das mais icónicas sagas da fantasia. Épica, gótica e fascinante, esta adaptação devolve-nos um dos anti-heróis mais marcantes do género — uma personagem cuja grandeza reside precisamente nas suas contradições.

Para leitores de fantasia clássica, fãs de banda desenhada europeia ou simplesmente curiosos por descobrir uma das figuras mais influentes do género, este primeiro volume é um convite irresistível para entrar no mundo sombrio e majestoso de Elric de Melniboné.

Elric #1: O Trono de Rubi", Julien Blondel, Didier Poli, Robin Recht e Jean Bastide, Arte de Autor, 64 pp., cor, capa dura, 19,50€

15 de março de 2026

Qual é o problema com os beijos de cão? – Mais histórias irresistíveis do Snoopy

As aventuras do Snoopy parecem nunca ter fim — e ainda bem! No novo livro da colecção Peanuts da Nuvem de Letras, “Qual é o problema com os beijos de cão?”, somos novamente convidados a entrar no mundo divertido, caótico e surpreendentemente terno do cão mais famoso da banda desenhada.

Criado por Charles M. Schulz, o universo de Snoopy continua a encantar leitores de todas as idades. Desta vez, Snoopy vê a sua rotina (se é que ele tem alguma!) virar do avesso com a visita inesperada do seu irmão mais velho, Spike. Entre situações absurdas, momentos de ternura e muito humor, o nosso beagle preferido prova que a vida nunca é aborrecida quando se tem amigos por perto.

Como sempre, Snoopy não está sozinho. Ao seu lado estão o fiel Woodstock, a determinada Lucy van Pelt, o reflexivo Linus van Pelt e, claro, o eterno sonhador Charlie Brown — o “miúdo da cabeça redonda” que todos reconhecemos.

Ao longo das páginas, acompanhamos Snoopy em momentos tão inesperados quanto hilariantes: uma pata fracturada, cartas de rejeição particularmente cruéis, um irmão em fuga e até um momento complicado em Wimbledon. Mas, mesmo quando tudo parece correr mal, há sempre amizade, imaginação e um toque de humor para pôr as coisas no lugar.

Com a ajuda dos amigos, Snoopy consegue voltar a equilibrar a vida — e talvez até roubar um daqueles famosos beijos de cão, babados e cheios de carinho. Afinal, como o próprio Snoopy diria: qual é realmente o problema com os beijos de cão?

Este novo volume da colecção Peanuts é perfeito tanto para fãs antigos como para novos leitores que querem descobrir o charme intemporal destas personagens. Entre tiras clássicas e momentos inesquecíveis, o livro recorda-nos algo simples, mas essencial: mesmo nos dias mais complicados, a amizade e o humor podem fazer toda a diferença.

Se procura uma leitura leve, divertida e cheia de coração, “Qual é o problema com os beijos de cão?” é uma excelente companhia.

Qual é o problema com os beijos de cão?, Charles Schulz, Nuvem de Letras, 196 pp., cor, capa dura, 15,95€

13 de março de 2026

12 de março de 2026

Made in Abyss – Volume 4: Mais fundo no mistério do Abismo

O quarto volume de Made in Abyss leva-nos ainda mais fundo numa das histórias mais fascinantes e inquietantes da manga contemporânea. À medida que a narrativa avança, o Abismo revela novas camadas de perigo, beleza e mistério, colocando à prova a coragem dos seus jovens exploradores.

No centro da história continua a estar o Abismo, uma gigantesca cratera que mergulha nas profundezas da Terra e que esconde criaturas enigmáticas, relíquias de civilizações antigas e fenómenos que desafiam a compreensão humana. A sua origem permanece envolta em mistério, e cada nova camada explorada revela perigos ainda mais extremos. Ao longo dos anos, inúmeros exploradores tentaram desvendar os segredos deste lugar. Muitos desapareceram para sempre nas suas profundezas. Apenas os mais extraordinários conseguem sobreviver às descidas mais perigosas: os lendários Apitos Brancos, figuras quase míticas para os habitantes da superfície.

Neste volume, Rico e Reg continuam a sua arriscada descida pelo Abismo na esperança de encontrar a mãe de Rico. A jornada torna-se ainda mais intensa com a companhia de Nanachi, uma personagem tão adorável quanto misteriosa: um híbrido entre humano e animal que carrega consigo um passado sombrio e doloroso. A travessia leva-os por locais assustadores e fascinantes, como o temível Campo de Flores Proibido, um cenário tão belo quanto mortal. A tensão aumenta à medida que o grupo se aproxima da parte inferior da quinta camada do Abismo.

O destino deste volume é Ido Front, uma cidadela misteriosa que guarda segredos profundos sobre o funcionamento do Abismo. É aqui que os protagonistas conhecem Prushka, uma rapariga doce e curiosa, cuja vida está inevitavelmente ligada ao seu pai. Esse pai é ninguém menos que Bondrewd, um dos Apitos Brancos mais temidos e enigmáticos. A sua presença traz à narrativa um dos momentos mais intensos, perturbadores e emocionalmente devastadores de toda a série

Made in Abyss #4, AkihitoTsukushi, A Seita, 168 pp., p&b, capa mole, 9,99€