21 de abril de 2026

Magriços

O lançamento de uma nova obra dedicada à campanha histórica de Portugal no Mundial de 1966 promete reacender a memória colectiva de um dos momentos mais marcantes do futebol nacional. Pela mão do autor Vasco Parracho, conhecido pelo seu trabalho na biografia em banda desenhada de Fernando Peyroteo, chega agora um livro que revisita a epopeia dos Magriços com um olhar simultaneamente artístico e documental.

A competição, realizada em Inglaterra, ficou gravada na história como o palco onde Portugal alcançou um extraordinário terceiro lugar — até hoje a melhor classificação nacional em Campeonatos do Mundo de Futebol. Liderada por figuras lendárias como Eusébio, a selecção conquistou o coração dos portugueses com exibições memoráveis, incluindo a célebre reviravolta frente à Coreia do Norte.

Nesta nova obra, Parracho transporta esse percurso para o universo da banda desenhada, oferecendo uma narrativa visual dinâmica que combina rigor histórico com expressividade artística. O seu “traço único” dá vida aos momentos-chave da competição, recriando jogos, emoções e episódios que marcaram gerações.

Um dos grandes destaques do livro é a colaboração de António Simões, um dos protagonistas de 1966. Através do seu testemunho directo, a obra ganha uma dimensão inédita, revelando pormenores de bastidores até agora desconhecidos do grande público. Histórias do balneário, curiosidades sobre o ambiente vivido durante o torneio e episódios menos mediáticos ajudam a construir um retrato mais íntimo e humano da equipa.

Mais do que uma simples homenagem, este lançamento surge como uma ponte entre gerações: permite aos mais novos descobrir a grandeza dos Magriços e oferece aos mais velhos uma viagem nostálgica a um tempo em que o futebol português conquistou o mundo.

O livro afirma-se, assim, como uma peça relevante não só para os amantes do futebol, mas também para apreciadores de banda desenhada e da história cultural portuguesa. Ao cruzar arte e memória, Vasco Parracho volta a demonstrar a capacidade da narrativa gráfica para preservar e reinventar momentos fundamentais da nossa identidade colectiva.

Magriços, Vasco Parracho, Primne Books, 64 pp., cor, capa dura, 19,90€

A Sombra das Luzes – Tomo 2: Rendas, Colares e Conchas

Depois do fulgurante arranque com O Burlão nas Índias, Alain Ayroles regressa com o segundo volume de A Sombra das Luzes, consolidando uma obra que se afirma como uma das mais refinadas bandas desenhadas históricas contemporâneas. Em Rendas, Colares e Conchas, o autor prossegue o seu elaborado jogo narrativo, inspirando-se na tradição epistolar de intrigas e manipulações, num claro eco de Ligações Perigosas, mas com uma identidade própria, mais aventureira e visualmente expansiva.

A narrativa acompanha o libertino Saint-Sauveur, uma figura tão fascinante quanto inquietante, cuja inteligência e ausência de escrúpulos o colocam no centro de uma teia de enganos e apostas perigosas. Desta vez, o cenário desloca-se para a Nova França, território exótico e imprevisível que serve de palco a novas reviravoltas. Acompanhado pelo iroquês Adario e por um criado de inclinações filosóficas, Saint-Sauveur vê-se confrontado com um mundo que desafia os seus preconceitos europeus.

Ayroles demonstra, mais uma vez, um domínio notável da escrita: o texto é sofisticado, irónico e repleto de subtilezas, construindo um constante jogo de expectativas no leitor. As maquinações do protagonista, inicialmente brilhantes, começam a escapar ao seu controlo, revelando o lado trágico de quem acredita poder manipular emoções impunemente. O autor não se limita a entreter — convida à reflexão sobre moralidade, colonialismo e a ilusão de superioridade cultural.

No plano visual, Guérineau eleva a obra com uma representação riquíssima do século XVIII. O contraste entre a elegância europeia — rendas e colares — e a rudeza natural das paisagens americanas — conchas, florestas, peles — é explorado com mestria. Cada página respira detalhe, desde os trajes até às expressões das personagens, reforçando a imersão num mundo simultaneamente belo e implacável.

Este segundo tomo intensifica o tom da série, conduzindo o leitor por um percurso onde a sedução dá lugar à sobrevivência e onde as certezas civilizacionais se desfazem. Saint-Sauveur, despido dos seus privilégios e confrontado com novas realidades, inicia uma transformação que promete ter consequências profundas no desfecho da trilogia.

Com Rendas, Colares e Conchas, A Sombra das Luzes afirma-se definitivamente como uma obra ambiciosa e elegante, onde argumento e arte se entrelaçam com rara harmonia. Resta agora aguardar o terceiro volume para descobrir até onde Ayroles levará este jogo de sombras, luzes e ilusões.

A Sombra das Luzes – Tomo 2: Rendas, Colares e Conchas, Alain Ayroles e Richard Guerineau, Ala dos Livros, 72 pp., cor, capa dura, 25€

20 de abril de 2026

Mãe e Peras

Mãe e Peras, a novela gráfica de Diana Rodrigues é uma leitura para mães reais que tantas vezes já pensaram: «Só Pode Estar a Gozar Comigo».

A novela gráfica Mãe e Peras, de Diana Rodrigues, criadora da página com o mesmo nome com mais de 500 mil seguidores, está nas livrarias a partir de 21 de Abril.

Com humor afiado, ternura desarmante e uma honestidade que nos faz suspirar, encontramos nestas páginas o lado menos filtrado da maternidade: as culpas, os falhanços épicos, os pequenos triunfos invisíveis e aquele amor gigante que compensa (quase) tudo.

Entre birras no corredor do supermercado, perguntas existenciais às três da manhã e a misteriosa arte de encontrar meias desaparecidas, há uma verdade universal que ninguém ousa dizer em voz alta: ser mãe custa. Custa tempo, sono, paciência… e, às vezes, custa mesmo dinheiro. 

Neste livro, Diana Rodrigues, a voz bem-disposta e mordaz por detrás da página Mãe e Peras, transforma o caos do quotidiano materno numa sequência de ilustrações e episódios onde o riso é a melhor estratégia de sobrevivência.

Porque ser mãe custa. Mas, felizmente, também rende gargalhadas, memórias e histórias que merecem ser contadas.

Diana Rodrigues nasceu na cidade de Castelo Branco, em 1989. É licenciada em Gestão e contabilista, mas é também a actriz, maquilhadora, editora, produtora e realizadora por trás do projecto @mae_e_ peras. O que começou como um desabafo visual sobre os desafios da maternidade rapidamente se transformou numa comunidade de mais de meio milhão de seguidores, onde Diana aplica a máxima de «rir para não chorar», ajudando outros pais a sobreviver ao caos do dia a dia através do humor.

Com a dualidade típica do seu signo de Gémeos, divide o seu tempo entre o rigor dos números e a paixão pelas remodelações, provando que é possível conciliar a estrutura de um balancete com a criatividade sem filtros das redes sociais. Reconhecida pela sua frontalidade e por ter sempre razão (confirmado pelo marido), Diana Rodrigues utiliza os seus guiões para desmistificar a parentalidade real, criando um espaço onde milhares de pais se revêem em cada situação partilhada.

Mãe e Peras, Diana Rodrigues, Oficina do Livro, 168 pp., cor, 19,90€

As Guerras de Lucas - Episódio II

A continuação da premiada série As Guerras de Lucas. Após a estreia do primeiro filme de Star Wars, o jovem George Lucas deixou de ser o sonhador excêntrico que ninguém levava a sério. Elevado ao sucesso de bilheteira e rico em milhões, detinha as chaves para decidir o seu futuro. Determinado a libertar-se de uma vez por todas da ditadura dos estúdios, fez a ousada aposta de arriscar tudo o que possuía para financiar sozinho o seu próximo filme. Uma decisão que teria consequências a longo prazo…

Com base no segundo filme da trilogia Star Wars, este volume conta a história esquecida da verdadeira provação que foi a produção de O Império Contra-Ataca. Drama, conflito e acidentes improváveis atormentaram as filmagens, quase fazendo esquecer os contratempos encontrados no primeiro filme... Uma descida ao inferno que por pouco não destruiu Lucas, mas que, no final, deu origem a um filme hoje considerado a obra-prima da saga. Uma novela gráfica envolvente, repleta de revelações, que nos convida e transporta também para a história da criação de Indiana Jones. Meticulosamente documentado, cheio de revelações e curiosidades, num estilo gráfico dinâmico e empolgante, este livro é essencial tanto para os fãs de Star Wars como para os entusiastas do cinema.

Publicado em Outubro de 2023, e com edições em mais de duas dezenas de países, o primeiro volume da série As Guerras de Lucas vendeu mais de 100. 000 exemplares em França e recebeu dois prestigiados prémios: o Prémio Prix BD Fnac France Inter 2024 e o Prémio Prix BD France Info et Reportage 2024. Fãs assumidos do universo de Star Wars, Laurent Hopman e Renaud Roche assinam uma obra notável que mais do que uma porta para os bastidores de uma das sagas mais importantes da história do cinema é, simultaneamente, uma história de perseverança e de superação que, mais uma vez, prende o leitor até… à última vinheta.

As Guerras de Lucas - Episódio II, Laurent Hopman e Renaud Roche, Ala dos Livros, 208 pp., cor, capa dura, 31€

19 de abril de 2026

“Um Feiticeiro de Terramar” ganha nova vida em romance gráfico pela Relógio d’Água

A obra incontornável da fantasia moderna, Um Feiticeiro de Terramar, de Ursula K. Le Guin, regressa agora às livrarias portuguesas numa nova forma: um romance gráfico que reinterpreta visualmente a jornada de Ged, o mais poderoso feiticeiro do arquipélago de Terramar.

Publicada pela Relógio d’Água, esta adaptação conta com argumento e ilustração de Fred Fordham, conhecido por transpor grandes clássicos da literatura para o formato de banda desenhada. O resultado é uma obra que mantém a essência filosófica e simbólica do original, ao mesmo tempo que a torna mais acessível a novos públicos.

Publicado originalmente em 1968, Um Feiticeiro de Terramar é o primeiro volume do ciclo Terramar e acompanha a juventude de Ged — outrora conhecido como Gavião —, cuja ambição e sede de conhecimento o levam a libertar uma força sombria que ameaça o equilíbrio do mundo. A narrativa acompanha o seu percurso de aprendizagem, redenção e autoconhecimento, temas centrais na obra de Le Guin

Na adaptação gráfica, Fred Fordham traduz esse universo denso e poético para uma linguagem visual marcada por paisagens amplas e um forte sentido cinematográfico. As ilustrações destacam-se pela atenção ao detalhe e pela construção atmosférica, captando tanto a grandiosidade do mundo de Terramar como o conflito interior do protagonista. Mais do que uma simples transposição, esta edição propõe uma nova leitura da obra, onde o ritmo visual e a composição gráfica reforçam o drama pessoal de Ged e a dimensão simbólica da história. A dureza do mundo, as leis da magia e o equilíbrio entre luz e sombra são explorados com um realismo que aproxima o leitor contemporâneo da narrativa clássica.

Com 288 páginas, esta versão em banda desenhada posiciona-se como uma porta de entrada para novos leitores, sem deixar de oferecer uma experiência enriquecedora para os fãs da saga. A publicação confirma também a relevância contínua da obra de Ursula K. Le Guin, frequentemente considerada uma das vozes mais influentes da literatura fantástica do século XX, e demonstra como os grandes clássicos continuam a reinventar-se através de novas linguagens e formatos.

Um Feiticeiro de Terramar, Fred Fordham, Relógio d'Água, 288 pp., cor, capa mole, 24€

18 de abril de 2026

Wild West #4: A lama e o sangue

O quarto volume da série Wild West, intitulado A Lama e o Sangue, marca a conclusão do segundo díptico desta saga de western criada por Thierry Gloris e ilustrada por Jacques Lamontagne. Publicado em Portugal pela Ala dos Livros, este álbum reforça a ambição da série: revisitar o mito do Velho Oeste com um olhar crítico, denso e historicamente consciente.  

Longe da visão romantizada do western clássico, A Lama e o Sangue mergulha num território moralmente ambíguo. A narrativa acompanha figuras lendárias como Wild Bill Hickok, Calamity Jane e Charlie Utter, que continuam a perseguição a um assassino misterioso cuja história pessoal — marcada por violência e trauma — reflete o próprio ambiente brutal do Oeste.  

Neste volume, o passado do antagonista ganha relevância: terá sido vítima de um ataque indígena em criança, perdendo os pais e sendo escalpelado. Este detalhe não serve apenas como elemento dramático, mas como chave temática — a violência não surge como exceção, mas como herança inevitável de um território em conflito permanente.  

Um dos elementos mais interessantes do álbum é a forma como integra acontecimentos e tensões históricas. A presença dos Buffalo Soldiers — soldados afro-americanos contratados para proteger a expansão ferroviária — introduz uma camada adicional de crítica social. A obra expõe a ironia de uma nação que, proclamando liberdade, instrumentaliza minorias oprimidas contra outras comunidades igualmente marginalizadas.  

A narrativa ganha ainda mais peso quando a construção da linha férrea leva à destruição de um cemitério sagrado indígena, desencadeando novas tensões. Este episódio sintetiza um dos temas centrais da série: o progresso como força violenta, que avança à custa da memória, da cultura e da dignidade humana.  

O trabalho gráfico de Lamontagne continua a ser um dos grandes trunfos da série. Com traço detalhado e uma paleta que privilegia tons terrosos e sombrios, o artista cria uma atmosfera opressiva que acompanha o tom da narrativa. A “lama” e o “sangue” do título não são apenas metáforas — estão presentes visualmente em cada página, reforçando a sensação de um mundo sujo, violento e sem redenção.

Enquanto quarto volume, A Lama e o Sangue funciona como desfecho direto dos acontecimentos iniciados no tomo anterior (Escalpes em Série). A estrutura em dípticos permite um desenvolvimento mais aprofundado das personagens e dos conflitos, culminando aqui numa resolução que privilegia o realismo e evita soluções simplistas.  

Wild West – A Lama e o Sangue confirma a série como uma das abordagens mais maduras do western contemporâneo em banda desenhada. Ao conjugar personagens históricas, rigor temático e uma visão crítica do mito americano, Gloris e Lamontagne constroem uma obra que desafia o leitor a confrontar a violência fundadora dos Estados Unidos.

Mais do que uma história de cowboys, este volume é um retrato cru de um mundo onde justiça e barbárie coexistem — e onde, muitas vezes, são indistinguíveis.

Wild West #4: A lama e o sangue, Jacques La Montagne e Thierry Gloris, Ala dos Livros, 48 pp., cor, capa dura, 17,50€

Casemate nº 200: Uma Edição de Memória, Criação e Actualidade

O número 200 da revista Casemate não se limita a assinalar um marco — celebra-o com uma edição rica, diversa e profundamente ligada à história e ao presente da banda desenhada.

Logo nas primeiras páginas, Casemate abre a sua “caixa de recordações”, convidando os leitores a revisitar momentos marcantes das suas duzentas edições. Este olhar retrospectivo sublinha o percurso da revista enquanto observadora privilegiada da evolução da 9.ª arte.

A edição destaca também criadores e obras que dialogam com o mundo actual. Pierre-Henry Gomont Harambat surge com uma abordagem sensível aos desafios do mundo agrícola, enquanto a habitual Journorama oferece uma panorâmica da actualidade da BD.

Nas páginas seguintes, L’Écho des Rézos compila o melhor das redes sociais, mostrando como a banda desenhada vive também no espaço digital.

Entre os destaques mais apetecíveis estão as antevisões de novas obras, acompanhadas de pranchas inéditas. Fabien Vehlmann e Jean-Baptiste Andreae apresentam La Cuisine des ogres, enquanto Geoffroy Delorme partilha a sua experiência singular em L’Homme-chevreuil.

Zep surpreende com Tourner la page, uma obra centrada na morte de um escritor célebre, e a equipa formada por Xavier Dorison, Thomas Delahaye e Jean-Baptiste Parnotte apresenta Cauchon, num registo intenso e provocador.

Como é tradição, a revista inclui uma selecção criteriosa de 24 álbuns a descobrir, seguida de um extenso guia com 262 lançamentos, festivais e exposições, tornando este número uma ferramenta essencial para acompanhar o panorama editorial.

A segunda metade da revista continua a destacar a diversidade criativa da BD contemporânea. Jordi Lafebre Brocal leva-nos à Langue des vipères, num século XV alternativo, enquanto Teresa Radice e Stefano Turconi exploram uma caça às bruxas na França de Richelieu. O clássico Frankenstein ganha nova vida pelas mãos de Sergio Sala, mostrando como as grandes histórias continuam a ser reinventadas.

Nas páginas finais, Dano apresenta um projecto invulgar ao convidar desconhecidos a posarem nus no seu atelier, enquanto Jessica Usdin reflecte sobre um retrato de Andy Warhol assinado por Alice Neel.

Com este número 200, Casemate reafirma-se como uma publicação essencial para quem acompanha a banda desenhada. Entre memória, crítica, descoberta e antecipação, esta edição especial é um verdadeiro retrato da vitalidade e diversidade da 9.ª arte contemporânea.

Casemate #200, avril 2025, 100 pp., cor, 9,80€