14 de abril de 2026

Exposição de Banda Desenhada homenageia Augusto Trigo na Feira do Livro de Moura

A cidade de Moura prepara-se para receber uma das iniciativas culturais mais marcantes da sua programação anual, com a realização da exposição de banda desenhada “O rigor e o detalhe”, dedicada ao artista Augusto Trigo. A mostra integra a 45.ª edição da Feira do Livro de Moura e estará patente entre os dias 15 e 26 de Abril, no Cine-Teatro Caridade.

A exposição propõe uma viagem pela obra de Augusto Trigo, destacando uma das suas principais características: o rigor técnico aliado a um impressionante nível de detalhe. Trata-se de uma oportunidade única para revisitar o trabalho de um dos nomes mais relevantes da banda desenhada portuguesa, permitindo também que novas gerações contactem com o seu legado artístico.

Um dos momentos mais significativos da carreira de Trigo remonta a 2009, quando, em parceria com o argumentista Jorge Magalhães, produziu seis pranchas para “Histórias de Mouras”, incluídas no álbum colectivo Salúquia: a Lenda de Moura em Banda Desenhada, editado pela Câmara Municipal de Moura. Este trabalho marcou a última colaboração da reconhecida dupla, deixando uma marca duradoura na BD nacional.

Para além da exposição, a programação inclui uma homenagem a Augusto Trigo, agendada para o dia 18 de Abril, às 18h00, no espaço da Feira do Livro. A sessão será seguida da apresentação dos fanzines “O menino que rabiscava paredes” e “Na pista de um sonho”, reforçando o espírito de celebração da criatividade e da narrativa gráfica.

Com esta iniciativa, a Câmara Municipal de Moura reafirma o seu compromisso com a promoção cultural e com a valorização da banda desenhada enquanto forma de expressão artística, proporcionando ao público uma experiência enriquecedora e inspiradora.



Os Filhos do Império – Volume 2: Amor, Rebeldia e Destino na Coreia Ocupada

A série de Os Filhos do Império regressa com o seu segundo volume, aprofundando o drama e a complexidade emocional das suas personagens num dos períodos mais conturbados da história da Ásia. Ambientada na Coreia da década de 1930, a obra continua a acompanhar os destinos entrelaçados de Arisa Jo e Jun Seomoon, dois jovens que enfrentam escolhas difíceis num mundo marcado pela opressão e pela mudança.

Para compreender plenamente esta história, é essencial enquadrá-la no período da ocupação japonesa da Coreia (1910–1945). Durante estas décadas, a península coreana esteve sob domínio do Império do Japão, que impôs políticas de assimilação cultural, repressão política e controlo social rigoroso.

Nos anos 1930, esse domínio tornou-se ainda mais severo. A crescente militarização do Japão e o clima de expansão imperial intensificaram a vigilância e a limitação das liberdades individuais. Foi também um período em que muitos coreanos se viram divididos entre resistência, adaptação ou colaboração — dilemas que ecoam diretamente nas escolhas das personagens desta obra.

Neste segundo volume, Arisa Jo encontra-se numa encruzilhada emocional. À medida que fragmentos do seu passado vêm à tona, a sua natureza rebelde leva-a a procurar refúgio em relações inesperadas, desafiando convenções e normas impostas pela sociedade e pelo regime. Por outro lado, Jun Seomoon inicia uma jornada interior marcada pela inquietação e pela procura de sentido. Essa busca conduz-lo progressivamente a ideias mais radicais, reflectindo o clima político da época, onde muitos jovens eram atraídos por movimentos de resistência ou ideologias transformadoras. O contraste entre os dois torna-se cada vez mais evidente: enquanto Arisa se move pela emoção e pela liberdade pessoal, Jun aproxima-se de um caminho mais ideológico e potencialmente perigoso.

A autora, Yudori, constrói uma história onde o aparentemente despreocupado esconde uma tragédia latente. Aos poucos, o leitor descobre que por detrás das atitudes leves ou impulsivas existe um peso emocional profundo, consequência direta das circunstâncias históricas.



O Verão em que Hikaru Morreu #5 – Entre o inquietante e o inevitável

O quinto volume de O Verão em que Hikaru Morreu, da autoria de Mokumokuren, publicado em Portugal pela Editorial Presença, continua a aprofundar uma das narrativas mais enigmáticas e emocionalmente perturbadoras do manga contemporâneo.

Desde o início da série que somos confrontados com uma premissa desconcertante: Hikaru não é, verdadeiramente, Hikaru — ou pelo menos já não é o mesmo. Neste novo volume, essa inquietação atinge um novo patamar. Yoshiki, dividido entre o medo e uma inexplicável necessidade de proximidade, permanece ao lado desta presença que ocupa o lugar do seu amigo. O que poderia ser apenas rejeição ou fuga transforma-se numa ligação ambígua, quase inevitável, onde o afecto e o terror coexistem.

Neste volume, a investigação conduzida por Yoshiki e pelo “novo” Hikaru ganha maior densidade. As pistas multiplicam-se, mas, em vez de esclarecerem, aprofundam o mistério. A aldeia onde vivem assume um papel cada vez mais central, quase como uma entidade viva, carregada de segredos antigos e silêncios cúmplices. Há uma sensação crescente de que tudo está interligado — o passado, as ausências, as presenças — e que algo maior se move nas margens da compreensão.

Visualmente, o manga mantém o seu registo atmosférico e subtilmente perturbador. Os silêncios, os olhares e os enquadramentos transmitem tanto quanto os diálogos, criando uma leitura imersiva onde o desconforto se instala de forma gradual, mas persistente.

Base de dados

O Verão em que Hikaru Morreu #5, Mokumokuren, Editorial Presença, 200 pp., p&b, capa mole, 11,90€

13 de abril de 2026

Runas: Uma História de Mil Faces

A literatura fantástica continua a ser um dos géneros mais cativantes para leitores de todas as idades, especialmente quando alia aventura, emoção e reflexão. Runas: Uma História de Mil Faces, de Carlos Sánchez, publicado pela Nuvem de Letras, é um exemplo claro dessa combinação, oferecendo uma narrativa envolvente que transporta o leitor para um universo mágico repleto de desafios e descobertas.

A história centra-se em Chiri e Dai, duas crianças órfãs que vivem num orfanato junto a uma floresta aparentemente comum. No entanto, tudo muda quando descobrem um portal escondido que as leva até Puddin, um reino misterioso onde o fantástico e o sombrio coexistem. Este novo mundo revela-se muito mais do que um simples cenário mágico. É um espaço onde cada decisão tem peso, onde o perigo espreita a cada passo e onde os protagonistas são forçados a crescer rapidamente.

Puddin é habitado por uma grande diversidade de criaturas — desde bruxas e bardos até ogres e feiticeiros — que enriquecem a narrativa e contribuem para a construção de um universo vivo e imprevisível. No entanto, este reino encontra-se sob a ameaça constante de uma força sombria: o temível Rei Sombrio. Esta figura representa mais do que um simples vilão. Simboliza o desequilíbrio, o medo e a escuridão que se infiltram tanto no mundo exterior como no interior das personagens.

Ao longo da aventura, Chiri e Dai cruzam-se com personagens muito diferentes entre si, formando alianças inesperadas. Estas relações tornam-se essenciais para a sua sobrevivência e para o desenrolar da história.

Carlos Sánchez é um ilustrador, designer e autor ligado à literatura juvenil fantástica, conhecido pela sua capacidade de combinar narrativa envolvente com uma forte componente visual. Natural de Barcelona, desenvolveu desde cedo interesse pelo desenho e pela banda desenhada, área que viria a marcar profundamente o seu percurso criativo. Com formação em Design e especialização em ilustração, Sánchez construiu uma identidade artística assente na criação de universos ricos em detalhe e imaginação. O seu trabalho destaca-se pela forma como funde imagem e texto, proporcionando experiências de leitura dinâmicas e visualmente apelativas.

Base de dados

Runas: Uma História de Mil Faces, Carlos Sánchez, Nuvem de Letras, 168 pp., capa mole, cor, 14,95€

Amore – Amor… à italiana

Amore – Amor… à italiana” é um convite irresistível a mergulhar na intensidade, no humor e na poesia do amor vivido à flor da pele — como só os italianos parecem saber fazer. Nesta obra, o consagrado argumentista Zidrou une forças com o traço subtil e expressivo de David Merveille para nos oferecer uma colectânea de histórias que capturam o amor em todas as suas formas.

Entre praças banhadas pelo sol, cafés onde o aroma do café se mistura com conversas animadas e ruelas onde ecoam vozes familiares, “Amore” constrói um retrato vibrante e profundamente humano da vida quotidiana em Itália. Mas não se trata apenas de cenários pitorescos — cada história revela encontros inesperados, desencontros dolorosos, paixões súbitas e afetos duradouros, sempre com um olhar simultaneamente terno e irónico.

Zidrou, conhecido pela sua sensibilidade narrativa, explora o amor sem idealizações excessivas. Aqui, amar é um gesto vivido — impulsivo, imperfeito, por vezes até contraditório. Como sugere o tom provocador da própria obra, o amor não é apenas para ser lido, mas experimentado. Já David Merveille complementa esta abordagem com ilustrações elegantes e atmosféricas, onde cada traço reforça emoções subtis e momentos fugazes.

Amore – Amor… à italiana, Zidrou e David Merveille, Arte de Autor/A Seita, 128 pp., cor, capa dura, 18€

12 de abril de 2026

Lucky Luke: Um mergulho nas origens do mito

A revista Les Cahiers de la BD lançou recentemente um número hors-série inteiramente dedicado a uma das figuras mais icónicas da BD franco-belga: Lucky Luke. Sob o título Les dessous des cartes (1946–1954), esta edição especial convida os leitores a regressar às origens do “cowboy que dispara mais rápido do que a própria sombra” e a descobrir os bastidores criativos dos seus primeiros anos.

Criado por Morris em 1946, Lucky Luke nasceu nas páginas da revista Spirou, num contexto de renovação da BD europeia do pós-guerra. Este hors-série concentra-se precisamente nesse período inaugural, entre 1946 e 1954, quando a série ainda procurava o seu tom definitivo e a sua identidade gráfica.

A publicação analisa as primeiras histórias, evidenciando as influências do cinema western americano, da animação e do humor slapstick. Mostra também como o traço de Morris evoluiu rapidamente, passando de um estilo ainda algo rígido para a fluidez e expressividade que mais tarde se tornariam a sua marca registada.

Embora muitos leitores associem Lucky Luke à parceria com René Goscinny, este número especial foca-se no período anterior à entrada do célebre argumentista. Aqui encontramos um herói mais solitário, com narrativas menos estruturadas, mas já repletas de invenção visual e sentido de ritmo.

O dossier destaca como, mesmo antes da colaboração com Goscinny, Morris já experimentava gags visuais e situações absurdas que viriam a definir o humor da série. Ao mesmo tempo, observa-se a construção progressiva de elementos icónicos do universo Lucky Luke.

Um dos grandes atractivos deste hors-série é o acesso a materiais de arquivo: esboços, pranchas originais, capas e ilustrações pouco conhecidas. Estes documentos permitem compreender melhor o processo criativo de Morris e o contexto editorial da época. Além disso, especialistas em banda desenhada contribuem com ensaios que situam Lucky Luke na história da BD europeia, discutindo a sua importância cultural e a forma como reinterpretou os códigos do western para um público europeu.

Este número especial de Les Cahiers de la BD não é apenas uma homenagem nostálgica. É também uma obra de referência que ilumina um momento-chave da história da banda desenhada. Para fãs de longa data, oferece novas perspectivas sobre um clássico incontornável; para novos leitores, funciona como porta de entrada para compreender a génese de uma série lendária.

Les Cahiers de la BD Hors-Serie #15, Lucky Luke: Les dessous des cartes (1946–1954), 120 pp., cor, capa dura, 19,90€

Chainsaw Man #15

O 15.º volume de Chainsaw Man, manga de Tatsuki Fujimoto, dá continuidade a uma das fases mais intensas da segunda parte da obra, aprofundando o tom psicológico e introduzindo uma nova ameaça de grande escala narrativa.

Publicado originalmente no Japão pela Shueisha e serializado na plataforma digital Shōnen Jump+, Chainsaw Man regressa neste volume com foco na personagem Asa Mitaka e na crescente complexidade da sua relação com Yoru, o Demónio da Guerra.

No centro deste volume está a introdução do Demónio da Queda, uma entidade descrita como um dos terrores primordiais — conceitos que, no universo da série, representam medos universais e profundamente enraizados na psique humana. A sua presença marca uma escalada significativa na narrativa, não apenas pela ameaça física, mas sobretudo pelo impacto psicológico. Através da exploração das memórias e traumas das personagens, o Demónio da Queda expõe fragilidades internas, levando Asa a confrontar-se com experiências do passado que abalam a sua capacidade de confiar em Yoru. Este conflito interno torna-se um dos eixos centrais do volume.

Conhecida pela abordagem pouco convencional ao género shōnen, a obra de Fujimoto continua a destacar-se pela combinação de acção violenta com reflexão emocional. Neste volume, essa tendência acentua-se: o horror deixa de ser apenas visual ou físico, passando a operar sobretudo no plano psicológico. A ideia de “queda” surge aqui como metáfora para o fracasso humano — personagens que, muitas vezes sem consciência, caminham para a sua própria destruição. Esse percurso é representado de forma quase alegórica, culminando num cenário descrito como um “banquete do inferno”, onde as vítimas são consumidas pelas consequências dos seus próprios traumas.

Chainsaw Man #15, Devir, Tatsuki Fujimoto, 200 pp., p&b, capa mole, 9,99€