sexta-feira, 22 de maio de 2026

Novela Gráfica - IX série #1: A Aranha de Mashhad - Viagem a um Irão desconhecido

O arranque da IX série de Novelas Gráficas, fruto da parceria entre o jornal Público e a editora Levoir, faz-se com um regresso a um autor já conhecido dos leitores portugueses: Mana Neyestani. Depois de Uma Metamorfose Iraniana, obra autobiográfica em que relatava a prisão e perseguição sofridas no Irão após um cartoon ter sido interpretado pelas autoridades como ofensivo, o autor iraniano apresenta agora A Aranha de Mashhad, uma narrativa intensa inspirada em factos reais que mergulha nas contradições sociais, religiosas e morais do Irão contemporâneo.  

Baseada num caso verídico que abalou o país no início dos anos 2000, a novela gráfica acompanha a história de Saeed Hanaei, conhecido pela imprensa como “a aranha de Mashhad”, responsável pelo assassinato de 16 mulheres — maioritariamente prostitutas ou toxicodependentes — na cidade sagrada de Mashhad. Hanaei justificava os crimes como uma missão moral e religiosa, acreditando estar a “purificar” a sociedade. O caso tornou-se particularmente perturbador não apenas pela violência dos actos, mas também pelo apoio que parte da população demonstrou ao assassino após a sua detenção, revelando as tensões entre fanatismo religioso, marginalização social e justiça.  

Mais do que uma reconstituição criminal, A Aranha de Mashhad afirma-se como uma investigação sobre os mecanismos de exclusão numa sociedade profundamente marcada pelo conservadorismo. Combinando entrevistas reais, elementos documentais e dramatização gráfica, Neyestani constrói um retrato multifacetado que não se limita ao olhar do assassino, dando igualmente voz às vítimas, às suas famílias, às autoridades e ao contexto cultural da cidade de Mashhad, um dos centros religiosos mais conservadores do Irão.  

O lançamento deste volume inaugura uma nova série da colecção de novelas gráficas com uma obra exigente e politicamente relevante, confirmando a aposta do Público e da Levoir em títulos que cruzam qualidade artística, reportagem e reflexão histórica. Ao mesmo tempo, reforça a presença de Mana Neyestani no catálogo português, um autor cuja obra continua a oferecer um olhar raro e incisivo sobre um Irão muitas vezes desconhecido do grande público.  

Novela Gráfica - IX série #1: A Aranha de Mashhad - Viagem a um Irão desconhecido, Mana Neyestani, Público/Levoir, 172 pp., p&b, capa dura, 16,90€

quinta-feira, 21 de maio de 2026

As linhas que traçam o meu corpo

Uma obra autobiográfica sobre crescer no Irão enquanto mulher, sob um sistema de controlo e violência marcado pela desigualdade de género.

Em As Linhas que Traçam o Meu Corpo, Mansoureh Kamari revisita a infância e adolescência em Teerão, retratando as restrições impostas às mulheres desde cedo: proibições quotidianas, medo constante, assédio e a ausência de autonomia sobre o próprio corpo e destino. O livro aborda também a fuga da autora do Irão e o percurso de reconstrução da sua liberdade.

Com argumento e desenho da própria Mansoureh Kamari, esta novela gráfica cruza memória pessoal e testemunho social, oferecendo um retrato da condição feminina no Irão contemporâneo.

Mansoureh Kamari nasceu e cresceu em Teerão, no Irão, onde se formou em desenho industrial. Apaixonada pelo cinema de animação, mudou-se para França em 2011 e prosseguiu os estudos na escola Gobelins, em Paris. Desde 2015 trabalha como character designer para estúdios de animação em França e noutros países. As Linhas que Traçam o Meu Corpo é a sua estreia na banda desenhada. 

As Linhas que Traçam o Meu Corpo, Mansoureh Kamari, Arte de Autor, 200 pp., cor, capa dura, 25€

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Elric #4: A cidade que sonha

Perturbado pelas últimas palavras do Imperador Saxif de Aan, Elric inicia uma jornada até às ruínas de R’lin K’ren A’a, a cidade original dos melnibonéanos, em busca de respostas sobre a origem do seu povo e a possível pureza dos seus ancestrais antes da influência do Caos. No local, revelações ligadas às profecias e ao destino de Melniboné conduzem o protagonista a uma decisão inevitável: a destruição da Ilha dos Dragões poderá depender das suas próprias mãos.

Ao regressar ao coração de Imrryr, Elric enfrenta também questões pessoais ligadas a Cymoril, cuja relação permanece marcada pela sua partida.

O primeiro ciclo da saga de Elric chega ao fim neste quarto volume da adaptação em banda desenhada da obra criada por Michael Moorcock. Este volume tem o prefácio de Jean-Pierre Dionnet.

Elric #4: A cidade que sonha, Julien Blondel & Jean-Luc Cano e Julien Telo, Arte de Autor, 64 pp., cor, capa dura, 19,50€

Maia BD 2026

 





terça-feira, 19 de maio de 2026

Vizinhos

As paredes são finas, e as vidas unem-se por isso, em Vizinhos, temos quatro histórias em que o quotidiano revela o que não está logo à vista: a Solidão, a Violência, a Frustração, a Necessidade de Pertença, a Raiva ao que é Diferente.

Um homem faz do barulho de uma obra um campo de batalha onde o incómodo é outro. Um ex-presidiário regressa à vida em que toda a gente sabe que matou a mulher – e tenta descobrir se ainda é possível voltar a ser quem foi.

Duas velhas que já foram amigas vivem separadas por um andar, por muitos anos de silêncio e por vidas tão diferentes. Num condomínio, entre os assuntos mesquinhos do dia-a-dia, nasce um problema que é um bode expiatório.

Entre humor negro, ironia e humanidade, observam-se os laços e a necessidade de os atar, enquanto se mostra que a proximidade cria os problemas que a distância sabe manter ao longe.

Vizinhos, Nuno Saraiva e Ana Bárbara Pedrosa, ASA, cor, capa dura, 17,90€

Oshi no Ko #7

O volume 7 de Oshi no Ko, obra com argumento de Aka Akasaka e ilustração de Mengo Yokoyari, aprofunda de forma intensa o arco da adaptação teatral de Tokyo Blade, levando a narrativa a um dos seus pontos mais emocionais e competitivos até agora. Neste volume, o palco transforma-se num verdadeiro campo de batalha artístico, onde Kana Arima, antiga actriz infantil prodígio, e Akane Kurokawa, actual estrela da Companhia Lala Lai de Teatro, se enfrentam numa rivalidade carregada de técnica, emoção e orgulho pessoal, usando a actuação como forma de afirmação e confronto directo.

A adaptação da obra fictícia Tokyo Blade ganha finalmente vida em palco, servindo de catalisador para tensões antigas e novas ambições. Ao mesmo tempo, a história acompanha Aqua Hoshino numa fase decisiva do seu percurso como actor, onde o talento não é suficiente sem a coragem de enfrentar traumas profundamente enraizados. A sua jornada neste volume explora precisamente esse limite entre a interpretação e a realidade emocional, levantando a questão de até que ponto é possível transformar dor pessoal em arte genuína.

A série Oshi no Ko foi publicada pela primeira vez em Abril de 2020 na revista Weekly Young Jump, da editora Shueisha, e rapidamente se destacou pela forma como expõe os bastidores da indústria do entretenimento japonês com uma abordagem dramática e psicológica única. O volume 7, lançado originalmente no Japão em Julho de 2023, marca um ponto de viragem importante na narrativa, consolidando o arco teatral como um dos mais intensos da obra até ao momento e elevando ainda mais o conflito entre personagens que vivem para actuar, mas também para sobreviver aos seus próprios fantasmas.

Oshi no Ko #7, Aka Akasaka e Mengo Yokoyari, ASA, 194 pp., p&b, capa mole, 9,99€

Um quadrado de céu

Um Quadrado de Céu é uma obra de banda desenhada documental de Joana Afonso e Susana Moreira Marques centrada na memória dos presos políticos do Estado Novo, particularmente na experiência da prisão de Caxias. O livro parte de testemunhos reais de homens e mulheres que foram perseguidos, interrogados e encarcerados por oposição à ditadura, transformando essas memórias num objecto narrativo profundamente humano e político.  

O título remete para uma imagem poderosa: o “quadrado de céu” visível a partir das celas — uma pequena porção de liberdade observada por quem estava privado dela. A obra procura reconstruir não apenas os episódios de repressão, mas também o quotidiano do encarceramento: o isolamento, o medo, os interrogatórios, a solidariedade entre presos e as estratégias de resistência psicológica perante a violência do regime.  

Mais do que um simples livro sobre o passado, Um Quadrado de Céu funciona como reflexão sobre a fragilidade da democracia e da liberdade. Ao revisitar a prisão política de Caxias — um dos símbolos da repressão do Estado Novo e da actuação da PIDE — os autores convidam o leitor a pensar na facilidade com que direitos fundamentais podem ser postos em causa, sobretudo quando a memória colectiva começa a esbater-se.  

Visualmente, o trabalho de Joana Afonso tende a privilegiar uma narrativa emocional e intimista, onde os espaços fechados, os silêncios e as expressões das personagens têm um peso tão importante quanto os diálogos. Em vez de dramatização excessiva, há uma tentativa de proximidade com a experiência humana dos testemunhos, o que reforça o impacto do livro.  

Pelo tema e pela abordagem, é uma obra que pode interessar não apenas a leitores de BD, mas também a quem acompanha história contemporânea portuguesa, memória do antifascismo ou literatura testemunhal. Sobretudo numa altura em que as discussões sobre liberdade, censura e revisionismo histórico voltam a ganhar espaço, Um Quadrado de Céu parece querer lembrar algo essencial: a democracia não é garantida — é construída e defendida continuamente.

Um Quadrado de Céu, Susana Moreira Marques e Joana Afonso, Os Livros de Oeiras, 72 pp., cor, capa mole, 17€