10 de fevereiro de 2026

Um livro esquecido num banco: quando a leitura se torna encontro

Num tempo dominado por ecrãs, notificações e mensagens instantâneas, Um livro esquecido num banco, de Jim & Mig, surge como um gesto delicado de resistência poética ao fluxo digital. A obra, que chega às livrarias portuguesas pela ASA a 10 de Fevereiro, propõe algo simples e ao mesmo tempo profundamente humano: voltar a comunicar através do papel, da espera e do mistério.

A história começa de forma quase banal. Camélia está sentada num banco público quando repara num livro pousado ao seu lado, aparentemente esquecido. Ao abri-lo, descobre uma dedicatória inesperada: um convite para o levar, lê-lo e, depois, deixá-lo noutro banco, para que continue o seu percurso nas mãos de um novo leitor. Intrigada e divertida, Camélia aceita o jogo.

Mas o livro guarda um segredo. Ao folheá-lo em casa, ela percebe que algumas letras estão cuidadosamente assinaladas, formando uma mensagem escondida — uma espécie de chamada silenciosa à comunicação. Tocada por esse gesto anónimo e cansada da monotonia do seu quotidiano, Camélia decide responder da mesma forma: marca letras, constrói palavras, quase um desejo, e devolve o livro a um banco público, à espera de uma resposta.

É assim que se inicia uma correspondência “à livro aberto”, feita de fragmentos, pistas e silêncios partilhados, entre Camélia e um desconhecido. Uma troca que não depende de perfis, likes ou respostas imediatas, mas sim de atenção, tempo e sensibilidade.

Jim & Mig constroem aqui uma narrativa subtil e profundamente actual, apesar — ou precisamente por causa — da sua recusa em seguir os códigos da comunicação moderna. Um livro esquecido num banco fala de solidão urbana, do desejo de ligação e da magia dos encontros improváveis. Cada página convida o leitor a desacelerar, a observar os detalhes e a lembrar-se de que as histórias mais marcantes nem sempre começam com grandes acontecimentos, mas com pequenos gestos.

Visualmente e narrativamente delicado, o livro destaca-se também pelo seu conceito: o livro como objecto vivo, que circula, transporta vozes e cria laços entre pessoas que talvez nunca se encontrem, mas que se reconhecem nas palavras deixadas para trás.

Mais do que uma simples história de ficção, Um livro esquecido num banco é uma reflexão sensível sobre a forma como nos relacionamos, lemos e comunicamos. Um convite a redescobrir o prazer da leitura partilhada e a acreditar que, mesmo num mundo hiperconectado, ainda há espaço para o mistério, a espera e a poesia.

A partir de 10 de Fevereiro, este pequeno grande livro promete encontrar novos leitores — talvez num banco de jardim, talvez numa estante — e lembrar-nos de que, às vezes, basta abrir um livro para não estarmos tão sós.

Um livro esquecido num banco, Jim & Mig, ASA, cor, capa dura, 97 pp.

9 de fevereiro de 2026

Fanfulla: Hugo Pratt recuperado em Portugal numa obra rara e aventureira

A Colecção Obras de Pratt, da editora Ala dos Livros, continua a revelar facetas menos conhecidas de um dos maiores mestres da banda desenhada mundial. A mais recente novidade é Fanfulla, uma história de “capa-e-espada” assinada por Hugo Pratt, pouco conhecida do grande público, mas fundamental para compreender a sua evolução artística e narrativa.

Originalmente publicada no histórico semanário juvenil italiano Corriere dei Piccoli, Fanfulla nasce de uma fase muito específica da carreira de Pratt. O autor pretendia dar um novo rumo à banda desenhada nas páginas do jornal, afastando-se de fórmulas mais convencionais e apostando numa narrativa histórica mais madura, visualmente ousada e literariamente ambiciosa.

Com argumento de Mino Milani e desenho de Hugo Pratt, surgem assim as Aventuras de Fanfulla, protagonizadas por Bartolomeo Tito Alon, mais conhecido como Fanfulla da Lodi. A personagem inspira-se numa figura histórica real: um carismático aventureiro renascentista e destemido condottiere que participou nas guerras italianas do século XVI.

A narrativa arranca num momento marcante da História europeia: 6 de Maio de 1527, data do célebre Saque de Roma pelos lansquenetes ao serviço de Carlos V, comandados pelo general Georg von Frundsberg. Fanfulla surge integrado neste cenário brutal e caótico, servindo como fio condutor de uma história onde a ação, a intriga política e o retrato histórico se cruzam com a elegância gráfica típica de Pratt.

Publicada originalmente entre Outubro de 1967 e Fevereiro de 1968, a série estendeu-se por 45 pranchas, apresentadas num curioso jogo visual entre tricromia e bicromia, uma escolha estética que reforçava o dinamismo e o dramatismo da narrativa. Apesar da qualidade da obra e do prestígio dos seus autores, Fanfulla acabou por cair num relativo esquecimento ao longo das décadas, ofuscada por títulos mais populares de Pratt.

Essa lacuna começa agora a ser colmatada com esta edição portuguesa da Ala dos Livros, que recupera Fanfulla no seu formato “italiano” original, respeitando a estrutura e a identidade visual da publicação histórica. Trata-se não apenas de um resgate editorial, mas também de uma oportunidade para redescobrir uma obra que teve boa receção em Itália, integrou o movimento de renovação da BD italiana dos anos 60 e contribuiu para consolidar o nome de Hugo Pratt no panorama internacional.

Com Fanfulla, os leitores portugueses podem revisitar um período menos explorado da obra de Pratt, mas absolutamente essencial: aquele em que o autor experimentava linguagens, estilos e temas que mais tarde culminariam em personagens icónicas como Corto Maltese. Um lançamento que combina aventura, História e memória editorial — e que merece um lugar de destaque nas estantes dos amantes de banda desenhada.

Fanfulla, Mino Milani e Hugo Pratt, Ala dos Livros, 120 pp., cor, capa dura, 33€

4 de fevereiro de 2026

Vincent, de Barbara Stok: a vida e a fragilidade de um génio em novela gráfica

A Iguana lançou esta semana uma novela gráfica dedicada à vida de Vincent van Gogh, um dos artistas mais influentes — e simultaneamente mais incompreendidos — da história da arte. A obra tem autoria da ilustradora e argumentista holandesa Barbara Stok, conhecida pela sua abordagem sensível e intimista a figuras reais e temas existenciais.

O génio e a vida turbulenta de Van Gogh continuam a ser uma fonte inesgotável de inspiração para artistas, estudiosos e amantes de arte. Nesta belíssima novela gráfica, Barbara Stok escolhe focar-se num dos períodos mais intensos e decisivos da vida do pintor: a sua estadia em Arles, no sul de França.

É em Arles que Van Gogh se reencontra, ainda que por breves momentos, com a esperança. Encantado pelas paisagens bucólicas, pela luz vibrante da região e pelas cores do sul francês, o pintor encontra finalmente o ambiente que lhe permite criar algumas das obras que o tornariam imortal.

Este período é marcado por um renovado entusiasmo criativo e pelo sonho de fundar um ateliê de artistas, um espaço de partilha onde pudesse trabalhar lado a lado com outros pintores. Contudo, a fragilidade emocional que o acompanhou ao longo da vida volta a manifestar-se com intensidade crescente.

Os surtos da doença mental de que sofre tornam-se mais frequentes, conduzindo-o a episódios de profunda angústia e perda de controlo. A convivência com Paul Gauguin, inicialmente desejada e idealizada, acaba por agravar a instabilidade emocional de Van Gogh. Após uma discussão violenta entre ambos, ocorre o episódio mais célebre — e trágico — da sua biografia: Van Gogh corta parte da própria orelha, um gesto que simboliza o colapso dos seus sonhos e a ruptura definitiva daquele ideal artístico colectivo.

Barbara Stok evita o sensacionalismo e opta por uma abordagem contida, empática e profundamente humana. O seu estilo gráfico, reconhecível pelos traços expressivos, pela simplicidade formal e pelo uso de cores intensas, traduz com subtileza o estado emocional do pintor e a forma como este percepcionava o mundo à sua volta.

Mais do que uma biografia factual, esta novela gráfica é um retrato emocional de um homem em luta consigo próprio, dividido entre a beleza que via no mundo e a dor que carregava dentro de si.

Vincent van Gogh (1853–1890) produziu a maior parte da sua obra num curto espaço de tempo, criando mais de 800 pinturas num período inferior a uma década. Em vida, vendeu apenas um quadro, sendo o reconhecimento do seu génio essencialmente póstumo. Hoje, é considerado uma figura central da arte moderna, símbolo da relação complexa entre criação artística e sofrimento mental.

Barbara Stok, nascida nos Países Baixos, tem-se destacado no panorama europeu da banda desenhada por obras de carácter autobiográfico e biográfico, como Vincent, Rembrandt e The Coffee Maker. O seu trabalho é frequentemente elogiado pela capacidade de transformar vidas reais em narrativas intimistas, acessíveis e emocionalmente ressonantes.

Esta novela gráfica sobre Vincent van Gogh é, acima de tudo, uma reflexão sobre fragilidade, criação e solidão. Ao centrar-se no período de Arles, Barbara Stok oferece-nos um olhar contido mas poderoso sobre um momento decisivo na vida de um artista que mudou para sempre a história da arte.

Com esta edição, a Iguana traz ao público português uma obra que dialoga tanto com leitores de banda desenhada como com amantes de arte, confirmando a novela gráfica como um meio privilegiado para contar histórias humanas complexas e intemporais.

Vincent, Barbara Stok, Iguana, 144 pp., capa mole, cor, 19,95€

3 de fevereiro de 2026

O Meu Casamento Feliz chega ao volume 5

O Meu Casamento Feliz é mais uma daquelas séries que temos acompanhado com particular interesse. Em Fevereiro, chega às livrarias portuguesas o quinto volume desta obra que, desde o seu lançamento, tem vindo a conquistar leitores um pouco por todo o mundo — e também por cá. O livro já se encontra disponível em pré-venda, sinal claro da expectativa em torno deste novo capítulo.

Combinando cenários visualmente deslumbrantes, uma forte componente emocional e uma narrativa que cruza romance, drama familiar e fantasia sobrenatural, O Meu Casamento Feliz afirma-se como muito mais do que uma simples história de amor.

No centro da narrativa está Miyo Saimori, uma jovem marcada por uma infância de negligência emocional e abuso psicológico, num contexto familiar onde o valor pessoal é medido pela posse de dons sobrenaturais. Sem qualquer habilidade aparente, Miyo cresce acreditando que não tem lugar nem valor no mundo.

No quinto volume, a história entra numa fase decisiva: Miyo descobre finalmente que herdou um raro e poderoso dom do enigmático clã Usuba, um segredo cuidadosamente guardado ao longo de gerações. Este despertar não traz alívio imediato — pelo contrário, vem acompanhado de fragilidade física, pesadelos e uma profunda instabilidade emocional.

Os Usubas insistem para que Miyo permaneça com eles e aprenda a dominar o poder que traz dentro de si. Contudo, aceitar esse dom implica enfrentar traumas, medos e escolhas que podem redefinir o seu futuro.

Em paralelo, Kiyoka Kudou, cuja figura austera esconde um carácter profundamente íntegro, enfrenta pressões crescentes para proteger Miyo e garantir um futuro onde ambos possam finalmente ser felizes. A relação entre os dois continua a desenvolver-se de forma contida, mas emocionalmente intensa, sustentada pela confiança e pela aceitação mútua.

Este quinto volume é particularmente relevante por marcar um momento de revelação e crescimento. Os conflitos deixam de ser apenas externos e tornam-se cada vez mais interiores: identidade, auto-aceitação e responsabilidade ganham peso narrativo.

A pergunta central mantém-se: será o amor entre Miyo e Kiyoka suficiente para ultrapassar os segredos, as expectativas familiares e o peso de um poder que pode tanto salvar como destruir?

O Meu Casamento Feliz (Watashi no Shiawase na Kekkon) teve origem como light novel, escrita por Akumi Agitogi e ilustrada por Tsukiho Tsukioka, sendo publicada pela primeira vez no Japão em 2019. O sucesso foi quase imediato, destacando-se num género frequentemente saturado graças ao seu tom mais maduro e introspectivo.

A adaptação para manga, ilustrada por Rito Kohsaka, veio consolidar ainda mais a popularidade da obra, ampliando o seu alcance internacional. Posteriormente, a série conheceu uma adaptação em anime, estreada em 2023, que ajudou a projectar definitivamente a história para um público global.

Akumi Agitogi tem sido elogiada pela forma sensível como aborda temas como abuso emocional, auto-estima, trauma e reconstrução pessoal, enquanto Rito Kohsaka consegue traduzir visualmente essa carga emocional através de expressões subtis e uma composição elegante, reforçando o tom melancólico e esperançoso da narrativa.

O Meu Casamento Feliz distingue-se por subverter expectativas: não é apenas uma história romântica, nem apenas fantasia sobrenatural. É uma narrativa sobre aprender a reconhecer o próprio valor, sobre encontrar segurança num mundo hostil e sobre a lenta construção da felicidade.

Com este quinto volume, a série reafirma-se como uma das propostas mais interessantes do romance gráfico contemporâneo, capaz de emocionar sem recorrer a excessos e de abordar temas complexos com delicadeza e profundidade.

Um lançamento aguardado, e mais um passo firme numa história que continua a crescer em impacto e relevância.

O Meu Casamento Feliz #5, Akumi Agitogi, Rito Kohsaka e Tsukiho Tsukioka, Presença, 240 pp. p&b, capa mole, 10,90€ 

Clube das Princesas Amaldiçoadas – N.º 4

O Clube das Princesas Amaldiçoadas regressa com o seu quarto volume, aprofundando um universo que continua a reinventar os contos de fadas clássicos com inteligência, humor e um olhar contemporâneo. A partir de 3 de Fevereiro, a ASA traz aos leitores mais um capítulo desta série que prova que ser princesa está longe de significar viver num conto perfeito.

Neste novo volume, as protagonistas enfrentam desafios ainda mais complexos, tanto no plano mágico como emocional. As maldições que as unem não são apenas feitiços a quebrar, mas metáforas de inseguranças, medos e expectativas impostas — por outros e por elas próprias. Unidas pelo clube que criaram, estas princesas recusam aceitar passivamente o destino que lhes foi traçado.

Entre reviravoltas, momentos de cumplicidade e decisões difíceis, o volume n.º 4 explora temas como identidade, amizade, coragem e livre-arbítrio, mantendo o equilíbrio entre aventura e emoção que caracteriza a série. Cada personagem ganha maior profundidade, revelando fragilidades e forças que as tornam próximas do leitor, independentemente da idade.

Visualmente envolvente e narrativamente ágil, este volume do Clube das Princesas Amaldiçoadas continua a destacar-se pela forma como subverte os arquétipos tradicionais dos contos de fadas. Aqui, não há princesas à espera de salvação, mas sim jovens determinadas a escrever a sua própria história — mesmo quando tudo parece conspirar contra elas.

Este novo volume confirma o sucesso da colecção e reforça a sua mensagem central: as maldições podem marcar um início, mas não definem um fim. Uma leitura cativante para quem acompanha a série desde o início e uma excelente porta de entrada para novos leitores que procuram histórias de fantasia com significado, personalidade e espírito crítico.

A não perder, a partir de 3 de Fevereiro, nas livrarias.

Clube das Princesas Amaldiçoadas #4, LambCat, ASA, capa mole

2 de fevereiro de 2026

A Guerra de Troia: um clássico reinventado para leitores jovens

A colecção infantil da Nuvem de Letras recebe, a 2 de Fevereiro, uma nova e ambiciosa adaptação de um dos textos fundadores da cultura ocidental. A Guerra de Troia, com texto de Nicolás Schuff e ilustrações de Mariana Ruiz Johnson, propõe uma versão livre, acessível e literariamente cuidada da Ilíada de Homero, pensada para aproximar os leitores mais jovens de uma das epopeias mais célebres da História.

Narrada na primeira pessoa por Aquiles, herói central do conflito entre gregos e troianos, a obra revisita os dez anos da guerra que marcou o imaginário do mundo antigo e atravessou mais de três milénios de cultura. Deuses caprichosos, paixões extremas e feitos heróicos estruturam um relato onde surgem temas como o ciúme, a infidelidade, a inveja, a vingança, as profecias e o sacrifício. Todos estes elementos são aqui depurados e recontados com clareza narrativa, sem que se perca a força simbólica e emocional do mito original.

O texto de Nicolás Schuff, escritor argentino amplamente reconhecido pelo seu trabalho de adaptação de clássicos e mitos para o público infantil e juvenil, consegue um equilíbrio difícil: preservar o espírito épico da Ilíada ao mesmo tempo que a torna compreensível, envolvente e próxima dos leitores mais novos. A opção por uma voz narrativa íntima — a de Aquiles — humaniza o herói e transforma a grande guerra mítica numa experiência emocional e acessível, funcionando como uma verdadeira porta de entrada para a mitologia grega e para a literatura clássica.

A dimensão visual do livro é assegurada pelas ilustrações de Mariana Ruiz Johnson, ilustradora argentina de projecção internacional, distinguida com vários prémios no âmbito do livro infantil. As suas imagens, vibrantes em cor e movimento, acrescentam densidade e emoção à narrativa, exaltando o carácter fabuloso da história sem perder uma sensibilidade contemporânea. O resultado é um diálogo harmonioso entre texto e imagem, onde a grandiosidade épica convive com a intimidade emocional das personagens.

A Guerra de Troia foi originalmente publicada em espanhol e integra um projecto mais amplo de reinterpretação dos grandes mitos clássicos para o público jovem. Esta edição inaugura uma pequena série que terá continuidade com As Aventuras de Ulisses, dos mesmos autores, cuja publicação está prevista para Junho, permitindo acompanhar o ciclo troiano de forma coerente e progressiva.

A Guerra de Troia, Nicolás Schuf e vMariana Ruiz Johnson, Nuvem de Letras, 136 pp., cor, capa dura, 15,95€

The Ghost in the Shell – Livro 1.5: o capítulo “perdido” que encerra a edição portuguesa da série

Chega às livrarias no próximo dia 2 de Fevereiro o terceiro e último volume de The Ghost in the Shell, de Shirow Masamune, numa edição da Distrito Manga. Intitulado The Ghost in the Shell – Livro 1.5: Human-Error Processor, este lançamento vem encerrar a publicação integral da série em Portugal, com um cuidado editorial que merece destaque.

Apesar de ser o terceiro volume editado, Livro 1.5 insere-se cronologicamente entre o primeiro livro da série e Man-Machine Interface. Esta particularidade confere-lhe um estatuto especial dentro do universo da obra, funcionando como uma ponte narrativa e conceptual entre dois momentos distintos da visão de Masamune.

Um dos aspectos mais relevantes deste lançamento é a oferta de uma caixa arquivadora para toda a série, disponibilizada na compra deste último volume. Trata-se de uma oferta limitada ao stock existente, mas que revela uma atenção pouco comum ao público da banda desenhada em Portugal.

Sendo este um meio onde o leitor é, muitas vezes, também coleccionador, este tipo de iniciativa não só valoriza o produto como incentiva a aquisição da série completa. É um gesto simples, mas eficaz, que demonstra respeito pelo leitor e pela longevidade da obra. Um aplauso, portanto, à Distrito Manga por esta decisão editorial.

The Ghost in the Shell 1.5: Human-Error Processor reúne histórias criadas por Shirow Masamune após a conclusão do manga original, mas antes do desenvolvimento de The Ghost in the Shell 2. Durante anos, este material permaneceu relativamente secundário na bibliografia da série, apesar de enriquecer significativamente o seu universo.

Neste volume, o foco recai sobretudo sobre a acção policial e investigativa da Secção 9, afastando-se ligeiramente das reflexões mais abstractas e filosóficas que dominam outros momentos da obra. Ainda assim, continuam presentes os temas centrais da série: a relação entre homem e máquina, a identidade, a consciência e os limites éticos da tecnologia.

Num século XXI onde a distinção entre humano e artificial é cada vez mais difusa, os agentes da Secção 9 enfrentam cibercriminosos, hackers fantasmas, ciborgues assassinos, micromáquinas defeituosas e cadáveres controlados remotamente. O tom é mais directo e procedural, mas não menos inquietante.

Criado por Shirow Masamune em 1989, The Ghost in the Shell tornou-se rapidamente uma obra de referência da ficção científica em banda desenhada. Integrando elementos de cyberpunk, filosofia, política e ciência, o manga antecipou debates que hoje são centrais na sociedade contemporânea.

A série ganhou projecção internacional com a adaptação cinematográfica animada de Mamoru Oshii, em 1995, cuja influência se estendeu ao cinema ocidental e à cultura pop em geral. Mais tarde, Stand Alone Complex e outras séries animadas expandiram o universo, explorando com maior detalhe a vertente policial e política da Secção 9.

Human-Error Processor ocupa um lugar discreto mas fundamental neste percurso, ao mostrar o funcionamento quotidiano da Secção 9 e ao reforçar o carácter colectivo da unidade, para lá da figura icónica da Major Motoko Kusanagi.

Com a publicação de The Ghost in the Shell – Livro 1.5, a edição portuguesa da série fica finalmente completa. A inclusão da caixa arquivadora reforça a ideia de conjunto e sublinha o estatuto da obra enquanto clássico moderno da banda desenhada.

Mais do que um simples volume intermédio, Human-Error Processor é uma peça essencial para compreender a riqueza e diversidade do universo criado por Shirow Masamune. Um lançamento que merece a atenção de fãs antigos e novos leitores, e um exemplo de como edições cuidadas podem fazer a diferença num mercado pequeno, mas exigente.

The Ghost in the Shell – Livro 1.5, Shirow Masamune, Distrito Manga, 192 pp., p&b, capa mole, 30,45€

Duas Raparigas Nuas, de Luz

A ASA acaba de lançar Duas Raparigas Nuas, um romance gráfico histórico de grande fôlego assinado por Luz, que propõe uma abordagem original e profundamente perturbadora à História do século XX: contá-la através do percurso silencioso de uma obra de arte.

Tudo começa em 1919, numa floresta nos arredores de Berlim, quando o pintor expressionista Otto Mueller cria o quadro Duas Mulheres Nuas. A partir desse momento, a pintura deixa de ser apenas um objecto estético para se tornar uma testemunha muda do seu tempo, atravessando décadas marcadas por transformações políticas, sociais e culturais violentas.

Do atelier do artista às paredes do escritório do seu primeiro proprietário, Duas Raparigas Nuas acompanha a vida quotidiana de quem com ela convive. No entanto, esse percurso íntimo é rapidamente engolido pelas convulsões de um dos períodos mais sombrios da História europeia: a ascensão de Hitler ao poder, o anti-semitismo institucional, a perseguição à arte moderna, classificada como “degenerada” pelo regime nazi, a desapropriação de famílias judias, as exposições infamantes, as vendas forçadas e a destruição pelo fogo.

O quadro não age, não reage, não escolhe. É um actor passivo num mundo que lhe é exterior, mas é precisamente essa passividade que lhe confere uma força narrativa singular. Duas Raparigas Nuas sobrevive onde tantos falharam. Sobrevive às ideologias, à violência e ao esquecimento.

Fruto de uma investigação rigorosa conduzida por Luz, esta obra não se limita a reconstruir factos históricos. Pelo contrário, convida o leitor a uma reflexão profundamente actual sobre a fragilidade da liberdade artística e a necessidade constante de vigilância face a todas as formas de censura política e cultural.

Ao seguir o trajecto de uma pintura classificada como indesejável por um regime totalitário, o autor lembra-nos que a perseguição à arte é sempre um sintoma claro da perseguição ao pensamento livre. O passado narrado ecoa perigosamente no presente.

A importância e a qualidade de Duas Raparigas Nuas foram amplamente reconhecidas pela crítica internacional. A obra conquistou a Fauve d’Or 2025 — Melhor Álbum do Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême e o Grande Prémio da Crítica ACBD 2025

O autor Luz, nascido em 1972, na região de Indre-et-Loire, é uma figura central do desenho de imprensa e da banda desenhada francesa contemporânea. O seu percurso inclui colaborações marcantes com publicações como Grosse Bertha e Charlie Hebdo, onde desenvolveu um trabalho profundamente ligado à sátira, ao comentário político e cultural. Colaborador regular de revistas como Les Inrockuptibles, Magic e Fluide Glacial, Luz construiu uma obra plural, onde se cruzam o desenho, a crónica musical e a narrativa gráfica. A sua ligação intensa ao universo da música e ao circuito underground influencia decisivamente o seu estilo visual e a sua abordagem narrativa, sempre pessoal, crítica e inquieta.

Com Duas Raparigas Nuas, a ASA traz ao público português uma obra maior da banda desenhada contemporânea, que cruza História, arte e memória com uma inteligência rara. Um livro que não se limita a contar o passado, mas que nos obriga a olhar para o presente com maior atenção e responsabilidade.

Uma leitura exigente, perturbadora e absolutamente necessária.

Duas Raparigas Nuas, Luz, ASA, 200 pp., cor, capa dura, 32,90€

31 de janeiro de 2026

Entradas na minha bilioteca de BD no mês de Janeiro de 2026

 




 

Blue Exorcist – Volume 30: O Confronto Final Pelo Destino da Humanidade

O 30.º volume do aclamado manga Blue Exorcist (*青の祓魔師 — Ao no Ekusoshisuto), criado por Kazue Kato, dá mais um passo decisivo na narrativa épica desta saga de acção, fantasia e lutas sobrenaturais. A edição original foi publicada pela primeira vez no Japão a 4 de Janeiro de 2024 sob o selo Jump Comics, pela editora Shueisha.

Neste tomo, a batalha que tem consumido a série chega a um ponto crítico: embora Rin Okumura e os seus companheiros tenham conseguido destruir a forma física de Satanás, o Rei Demónio inicia um processo devastador, devorando a própria Terra em busca de um novo corpo para se reerguer. Antes de morrer, um sábio confia a Shiemi Moriyama a missão de selar Satanás, depositando nela uma responsabilidade esmagadora. Dividido e hesitante, o exército de selamento que deveria enfrentar a ameaça recua, indeciso sobre o que fazer perante o cataclismo iminente. 

É então que a voz de Shiemi ecoa com determinação, alcançando Rin e o resto dos exorcistas, reacendendo a chama de resistência nos corações dos seus aliados. À medida que a história se desenrola, o confronto final aproxima-se a passos largos, e o destino do mundo permanece numa balança frágil, cheia de incerteza e tensão. 

O volume 30 de Blue Exorcist intensifica a luta entre o bem e o mal como nunca antes, mostrando que mesmo quando tudo parece perdido, a coragem e a fé podem reacender a esperança. A obra continua a explorar temas de lealdade, sacrifício e a eterna batalha pela salvação da humanidade — num crescendo que prepara os leitores para os episódios finais desta jornada memorável.  

Blue Exorcist #30, Kazue Kato, Devir, 198 pp., p&b, capa mole, 9,99€

Kaiju Nº 8 – Volume 10: Hoshina Entra em Acção e o Conflito Alcança um Novo Patamar

O 10.º volume do fenómeno Kaiju Nº 8, criado por Naoya Matsumoto, eleva ainda mais o nível da acção e do drama nesta popular série shōnen. A versão japonesa deste volume foi publicada pela primeira vez no Japão a 5 de Agosto de 2023, continuando a saga que tem vindo a conquistar leitores em todo o mundo graças à sua mistura explosiva de combates épicos, criaturas colossais e personagens fascinantes.

Neste tomo, assistimos a Hoshina a vestir a poderosa “Numbers 10” para enfrentar um cataclismo sem precedentes. Pela primeira vez na história da série, um combatente entra em batalha com uma arma de Kaiju dotada de vontade própria, o que torna o confronto extremamente complexo e perigoso. Apesar das dificuldades, a perspicácia e o espírito de Hoshina permitem que a ofensiva seja lançada, abrindo caminho para momentos verdadeiramente intensos. Mas a acção não se restringe a Hoshina. Na zona de Oizumi, onde se encontra Kafka, a situação agrava-se dramaticamente com o aparecimento de seis Kaijus colossais que empurram o conflito para um novo patamar de perigo e urgência. Quando tudo parece perdido, surge uma ajuda inesperada que muda o rumo dos acontecimentos e reacende as esperanças de vitória. 

No coração deste volume está também a colisão decisiva dos planos do Kaiju N.º 9, cujas intenções ameaçam transformar o campo de batalha numa verdadeira tempestade de desafios para os nossos heróis. A combinação de estratégias imprevisíveis e inimigos formidáveis cria uma narrativa tensa, repleta de suspense e momentos que prendem o leitor até à última página. 

Kaiju Nº 8 #10, Naoya Matsumoto, Devir, 192 pp., p&b, capa mole, 9,99€

30 de janeiro de 2026

Frieren – Volume 7: A Jornada Continua Entre Encontros, Memórias e o Peso do Tempo

O 7.º volume de Frieren: Beyond Journey’s End (Sousou no Frieren), escrito por Kanehito Yamada e ilustrado por Tsukasa Abe, é mais um marco profundo na caminhada desta elfa maga que, após a derrota do Rei Demónio ao lado dos seus companheiros, segue uma viagem interior pelo verdadeiro significado da vida. Esta edição foi publicada pela primeira vez no Japão em 17 de Março de 2022 e reunida numa edição que inclui os capítulos 58 a 67 da série.

Ao longo do volume, Frieren prossegue a sua jornada rumo a Aureole depois de concluir o exigente exame de magia. Pelo caminho, o que mais se destaca não são apenas as paisagens e desafios, mas os encontros e despedidas que pontuam o trajecto. Cada nova personagem ou reencontro traz de volta não só rostos conhecidos, mas também as palavras, os afectos e as memórias dos heróis do passado — aqueles que partilharam grandes feitos e cujas vozes continuam a ecoar na mente de Frieren

Este volume aprofunda de forma sensível o lado emocional da narrativa. Aqui, não se trata apenas de aventuras ou combates mágicos: trata-se de explorar o “coração” daqueles que viveram muito e agora enfrentam o peso do tempo, da perda e da memória. Frieren, com a sua longevidade quase imortal, é confrontada com o facto de que o tempo dos seus companheiros foi sempre finito, e são esses momentos de lembrança — as despedidas, as conversas tardias, as reflexões silenciosas — que dão força e significado à sua caminhada. O 7.º volume reafirma que Frieren não é apenas um conto de fantasia tradicional: é uma obra que nos convida a refletir sobre a transitoriedade da vida, a emoção de recordar os que amámos e o desafio de honrar essas memórias enquanto se avança. É uma leitura recomendada tanto a fãs da série como a quem procura histórias que toquem verdadeiramente o coração.

Frieren #7, Kanehito Yamada e Tsukasa Abe, Devir, 188 pp., p&b, capa mole, 9,99€

Oshi no Ko – Vol. 5: Sucesso, Expectativas e Drama no Palco

O 5.º volume do aclamado mangá Oshi no Ko, escrito por Aka Akasaka e ilustrado por Mengo Yokoyari, continua a explorar com intensidade e sensibilidade as vidas dos gémeos Aqua e Ruby Hoshino no implacável mundo do entretenimento. Esta edição foi publicada pela primeira vez no Japão a 18 de Agosto de 2021, tornando-se rapidamente numa peça essencial para quem segue a série.

Neste tomo, acompanhamos Aqua e Ruby já a colher os frutos do seu esforço: ambos continuam a actuar com sucesso, solidificando as suas carreiras no meio artístico com performances que prendem a atenção dos fãs e dos críticos.  Ruby, em particular, vive um momento muito especial com o seu grupo, a renovada B-Komachi. Depois de um primeiro espectáculo cheio de energia e impacto, as expectativas em torno da banda só crescem, sinalizando que este pode ser o início de uma ascensão meteórica no universo idol. 

Por outro lado, Aqua vê surgir um projecto excitante e desafiador: a sua participação numa peça de teatro “2,5D” — um tipo de espectáculo que mistura actores reais com elementos estilísticos típicos dos mundos do manga e do anime. Este novo desafio promete ser mais do que uma simples actuação. Akane Kurokawa — que se tornou a “namorada” de Aqua durante um popular reality show — junta-se ao elenco, assim como Kana Arima, uma actriz que não esconde o quanto está apaixonada por ele. Esta conjunção de sentimentos, rivalidades e relações complicadas prepara o terreno para uma boa dose de confusão emocional e narrativa intensa dentro e fora do palco.

Oshi no Ko #5, Aka Akasaka e Mengo Yokoyari, Devir, 192 pp., p&b, capa mole, 10€

29 de janeiro de 2026

SHI - Livro 2

O volume 2 de Shi, de Zidrou e Homs, publicado em Portugal pela Ala dos Livros, reúne num único tomo os volumes 3 e 4 da edição francesa — Revenge! e Victoria. Esta opção editorial revela-se particularmente feliz, pois oferece uma leitura contínua e mais densa de um dos momentos centrais da série, em que as linhas narrativas previamente lançadas ganham um peso dramático acrescido e as personagens são empurradas para escolhas irreversíveis.

Ambientada numa Londres vitoriana suja, desigual e violenta, Shi continua a explorar a tensão entre opressão social, identidade e vingança. Em Revenge!, o tom torna-se mais sombrio e directo: a raiva acumulada transforma-se em acção, e a narrativa abandona qualquer ilusão de contenção moral. Já Victoria aprofunda as consequências dessa escalada, deslocando o foco para o impacto humano e político dos actos cometidos. Zidrou constrói personagens complexas, em permanente conflito entre sobrevivência e ética, recusando respostas fáceis e preferindo zonas cinzentas, onde a justiça raramente é pura.

O trabalho gráfico de Homs continua a ser um dos grandes trunfos da obra. O traço expressivo, aliado a uma composição dinâmica e a um uso muito eficaz da cor, reforça a atmosfera opressiva da cidade e a violência latente de cada cena. Londres surge quase como uma personagem autónoma: sufocante, cruel e indiferente. Este segundo volume confirma Shi como uma narrativa gráfica adulta, intensa e politicamente consciente, em que forma e conteúdo se articulam com notável coerência, deixando o leitor com a sensação de estar perante um projecto ambicioso e plenamente assumido.

Shi – Livro Dois, Josep Horms e Zidrou, Ala dos Livros, 128 pp., cor, capa dura, 32€

28 de janeiro de 2026

Crianças do Mar - Ensaio de quadriculografia portuguesa


Manga
Kaijū no Kodomo
(Japão), Monthly Ikki, 2005
Daisuke Igarashi 
Estreia em Portugal: Álbum Devir, Outubro de 2024

A obra acompanha Ruka, uma rapariga que, durante as férias de Verão, conhece dois irmãos misteriosos, Umi e Sora, criados em contacto íntimo com o oceano. A partir desse encontro, a narrativa mergulha numa história profundamente poética e simbólica, onde o mar, a vida, a humanidade e o cosmos se entrelaçam, explorando temas como a origem da existência, a ligação entre o ser humano e a natureza e o lugar do homem no universo.

Quadriculografia portuguesa:

[actualizado em 28.02.2026]


Crianças do Mar #4

O universo poético e enigmático de Crianças do Mar, de Daisuke Igarashi, continua a ganhar forma em português com o lançamento do quarto volume da série. A obra, considerada um dos mangás mais sensíveis e visualmente marcantes das últimas décadas, regressa agora às livrarias portuguesas pelas mãos da Editora Devir, que tem vindo a publicar a série de forma regular desde 2024.

Originalmente publicada no Japão entre 2007 e 2011, Crianças do Mar (Kaijū no Kodomo) é composta por cinco volumes e destacou-se desde cedo pela sua abordagem profundamente contemplativa da relação entre o ser humano, a natureza e o oceano. Longe das convenções mais comerciais do mangá, Daisuke Igarashi constrói uma narrativa densa, simbólica e visualmente deslumbrante, onde o mar surge não apenas como cenário, mas como força viva e espiritual.

A edição portuguesa do volume 4 tem lançamento previsto para finais de Janeiro de 2026, dando continuidade ao trabalho de tradução e publicação iniciado pela Devir em Outubro de 2024. Até ao momento, os três primeiros volumes já se encontram disponíveis, permitindo aos leitores acompanhar o percurso de Ruka Azumi, uma jovem que, durante um verão marcado por conflitos pessoais, se cruza com Umi e Sora, dois rapazes misteriosos com uma ligação inexplicável ao oceano e às suas criaturas.

No volume 4, a narrativa acelera e aproxima-se de um ponto de ruptura. O evento principal aproxima-se. A tensão sente-se desde as primeiras páginas: no iate, Anglade recebe o convite, enquanto Kanako e Dede partem em busca de Ruka e Umi. As peças começam finalmente a mover-se em direcção a um confronto inevitável, tanto no plano pessoal como no simbólico.

Este volume aprofunda também os conflitos do passado, levantando questões que ecoam ao longo de toda a obra. O que causou a divergência definitiva entre Jim e Anglade? Entre planos desencontrados e mudanças aceleradas no mar, a narrativa regressa à origem dessa fractura. Tudo começou há seis anos, na Antártida, num momento-chave que ajuda a compreender não só o afastamento entre as personagens, mas também o rumo inquietante que o oceano — e a própria humanidade — parece estar a tomar.

Acompanhando estes acontecimentos, Daisuke Igarashi mantém o seu traço fluido e expressivo, capaz de transmitir emoções, silêncio e grandiosidade natural com uma força rara. A leitura torna-se cada vez mais sensorial e abstrata, exigindo do leitor atenção e disponibilidade para mergulhar num ritmo próprio, distante das estruturas narrativas convencionais.

Com a publicação do quarto volume, Crianças do Mar entra numa fase decisiva e aproxima-se do seu desfecho. Para os leitores portugueses, este lançamento representa não só a continuação de uma história marcante, mas também a confirmação do compromisso da Devir em trazer obras autorais e exigentes para o mercado nacional. Mais do que um simples mangá, Crianças do Mar afirma-se como uma experiência literária e visual profunda, que convida à reflexão sobre a vida, o planeta e o lugar que ocupamos nele.

Crianças do Mar #4, Daisuke Igarashi, Devir, p&b, 192 pp., capa mole, 20€

27 de janeiro de 2026

O regresso de Calvin e Hobbes

A emblemática dupla Calvin & Hobbes — criação do norte-americano Bill Watterson que conquistou leitores em todo o mundo desde a sua estreia em tiras de jornal em 1985 — está de volta às livrarias portuguesas com uma novidade que vai entusiasmar fãs e novos leitores: a reedição de O Ataque dos Demónios da Neve, disponível em Portugal a partir de hoje pela Gradiva

Este volume, originalmente publicado em inglês nos Estados Unidos com o título Attack of the Deranged Mutant Killer Monster Snow Goons pela Andrews McMeel Publishing, surgiu pela primeira vez no mercado norte-americano no início da década de 1990 — em edições que datam de 1992 e que reuniam tiras publicadas entre Junho de 1990 e Abril de 1991. 

A colectânea apresenta algumas das mais divertidas aventuras de Calvin, um miúdo cheio de imaginação, e do seu amigo Hobbes, o tigre de peluche que ganha vida na sua imaginação. Neste volume, o mote são os “demónios da neve” — monstros de neve que se tornam terrivelmente (e hilariantemente) reais nas mãos de Calvin — além de outras peripécias como batalhas de bolas de neve, as desventuras no clube G.R.O.S.S. que exclui meninas, escapadas intergalácticas com o Spaceman Spiff e engenhocas como o Transmogrificador e o Duplicador

A série Calvin & Hobbes continua a encantar pela mistura de humor, filosofia e crítica subtil, traduzindo a magia e o caos da infância em cada página. Com esta reedição, fãs antigos e novos têm mais uma oportunidade de redescobrir ou conhecer este clássico incontornável da banda desenhada.  

Calvin e Hobbes: O Ataque dos Demónios da Neve, 128 pp., p&b, capa mole, 13,99€

24 de janeiro de 2026

História Alegre de Portugal em BD: aprender a rir da nossa História

Há muitas formas de conhecer a História de Portugal, mas poucas são tão eficazes — e tão prazerosas — como História Alegre de Portugal em BD. Nesta obra incontornável, o rigor histórico cruza-se com o humor, a narrativa leve e a expressividade da banda desenhada, criando um livro que continua actual décadas depois da sua primeira edição.

Com ilustrações de Artur Correia (1932–2018) e texto adaptado da obra de Manuel Pinheiro Chagas, este título já vendeu mais de vinte mil exemplares e conheceu várias edições, sinal claro de que continua a conquistar novos leitores. Editado pela Bertrand, é um livro que atravessa gerações, mantendo intacta a sua frescura e capacidade de cativar.

A narrativa é construída em torno de um enquadramento simples e eficaz. João, um antigo mestre-escola, decide contar a História de Portugal a um grupo de habitantes da sua terra, Agualva, ao longo de dez noites. A partir desse pretexto, o leitor é conduzido numa viagem que começa antes da independência nacional e termina no reinado de D. Luís.

Reis, batalhas, intrigas, descobertas e episódios menos conhecidos surgem aqui tratados com ironia, clareza e um humor subtil que nunca desrespeita os factos históricos. O resultado é uma sucessão de episódios vivos e memoráveis, que convidam tanto ao riso como à reflexão.

A obra original de Manuel Pinheiro Chagas, escritor e político português do século XIX, ganha nova vida nesta adaptação para banda desenhada. Longe de ser uma simples transposição, trata-se de uma verdadeira recriação visual, que respeita o espírito do texto e o torna acessível a leitores de todas as idades.

O humor desempenha aqui um papel central: aproxima o leitor da História, desmonta solenidades excessivas e mostra que o passado pode ser contado com leveza sem perder profundidade.

O traço inconfundível de Artur Correia é uma das grandes forças deste livro. Nascido em Lisboa em 1932, foi um dos mais importantes autores de banda desenhada portugueses, com uma carreira marcada pela versatilidade e pela criatividade. Colaborou com publicações emblemáticas como Cavaleiro Andante, Pisca-Pisca, Fungagá da Bicharada ou A Fagulha, deixando uma marca profunda na BD destinada ao público jovem.

Na Bertrand Editora, assinou obras fundamentais como História Alegre de Portugal, Heróis da História de Portugal e a memorável adaptação de O Romance da Raposa, de Aquilino Ribeiro, mais tarde convertida em animação no seu próprio estúdio.


A partir de 1965, Artur Correia destacou-se também no cinema de animação, conquistando mais de uma dezena de prémios nacionais e internacionais. O reconhecimento no Festival de Cinema de Annecy foi decisivo para a criação do seu estúdio, em 1973. Até ao fim da vida, manteve-se fiel às duas grandes paixões que definiram o seu percurso: a animação e a banda desenhada.

Num tempo em que se discute a melhor forma de ensinar História, História Alegre de Portugal em BD continua a ser um exemplo luminoso. Divertida, pedagógica e visualmente marcante, esta obra prova que o conhecimento não tem de ser pesado para ser sério.

Talvez seja essa a razão pela qual continua a ser reeditada e lida: porque transforma o passado num prazer presente. Um clássico da banda desenhada portuguesa que permanece, merecidamente, sempre actual.

História Alegre de Portugal em BD, Artur Correia, Bertrand Editora, 256 pp., capa mole, cor, 19,90€

22 de janeiro de 2026

Elas #1: Miúda nova

Chega agora ao mercado português o primeiro volume de Elas, série de banda desenhada juvenil que já conquistou mais de um milhão de leitores a nível internacional e que promete marcar uma nova geração de leitores com uma história envolvente, emotiva e profundamente atual. Publicada originalmente em francês sob o título Elles, a obra estreia-se em Portugal com o volume Miúda Nova, abrindo as portas a um universo onde o mistério, a identidade e a aceitação caminham lado a lado.

No centro da narrativa está Ella, uma adolescente que parece encaixar perfeitamente no retrato clássico da “rapariga nova” na escola. Inteligente, espirituosa e carismática, integra-se rapidamente, faz amigos e aparenta ter uma vida normal. Mas essa normalidade é apenas a superfície de uma realidade muito mais complexa.

Ella convive, dentro de si, com cinco personalidades distintas, cada uma com a sua própria identidade, temperamento e até cor de cabelo. Nem sempre cooperantes, estas “outras Elas” tornam o quotidiano da protagonista um verdadeiro desafio, criando tensão constante em torno da possibilidade de o seu segredo ser descoberto. A série explora assim, de forma acessível ao público jovem, temas como a construção da identidade, a convivência com a diferença, a saúde mental e a aceitação de quem somos — mesmo quando isso não se enquadra nos padrões esperados.

A escrita está a cargo de Kid Toussaint, pseudónimo de Thierry Toussaint, um dos nomes mais respeitados da banda desenhada francófona contemporânea. Escritor e tradutor belga, Toussaint é uma figura central do histórico jornal Spirou e da editora Dupuis, tendo assinado diversos sucessos ao longo da sua carreira. O autor é conhecido pela sua capacidade de abordar temas complexos com sensibilidade, humor e clareza, tornando-os acessíveis a leitores jovens sem nunca os simplificar em excesso.

Na vertente visual, Aveline Stokart assume um papel fundamental. O seu traço expressivo e dinâmico dá vida às múltiplas facetas de Ella, distinguindo visualmente cada personalidade e reforçando o impacto emocional da narrativa. A ilustradora, que já colaborou com vários projectos de destaque na BD europeia, consegue equilibrar leveza e intensidade, criando páginas vibrantes que dialogam perfeitamente com o texto. Não é por acaso que Kid Toussaint já colaborou anteriormente com artistas de renome como Miss Prickly, cocriadora de A Incrível Adele, reforçando o prestígio criativo associado à série.

Elas #1: Miúda nova, Kid Toussaint e Aveline Stokart, Bertrand Editora, 96 pp., cor, capa mole, 15,50€ 

19 de janeiro de 2026

O Gosto pelo Cloro

O Gosto do Cloro é uma obra com um poder de encantar silencioso. O autor Bastien Vivès mergulha-nos nas águas tranquilas de uma piscina, mas é ali, naquele espaço aparentemente pacífico, que se desenrola uma das histórias de sedução mais delicadas e inquietantes que o mundo dos quadradinhos já viu.

Originalmente publicado em 2008, o livro narra o encontro entre dois jovens (cujo nome nunca é revelado), que se cruzam na piscina de uma forma simples, mas carregada de simbolismo. Ele nada por recomendação médica, tentando melhorar a sua saúde; ela, uma antiga campeã de natação, um pouco misteriosa e reservada, vai ajudá-lo a aperfeiçoar a sua técnica. No entanto, entre as braçadas e o toque da água, algo mais começa a nascer: uma relação subtil, onde o desejo e a sedução se misturam com a calma e a fluidez das águas.

A narrativa não é apenas sobre a técnica da natação, mas sobre os gestos, os olhares e os pequenos momentos de vulnerabilidade que se revelam entre os dois personagens. Vivès, através do seu estilo gráfico simples mas extremamente expressivo, consegue capturar a tensão emocional e a ambiguidade que existe entre eles. O desenrolar da história é pausado, quase como a própria sensação de flutuar na água, mantendo o leitor suspenso, imerso numa atmosfera de intimidade silenciosa e desejo não expresso.

A leveza da história contrasta com o que ela evoca. Ao longo da leitura, somos levados a questionar: o que acontece quando as emoções se misturam com os nossos corpos, como acontece na água? Como pode o simples contacto físico tornar-se algo mais profundo e inquietante? Este é um tema recorrente na obra de Vivès, que sabe exatamente como tornar simples momentos em experiências complexas.

Bastien Vivès é um autor com enorme notoriedade e, em Portugal, várias das suas obras foram publicadas. Além de O Gosto do Cloro, podemos encontrar Polina, Uma Irmã e dois álbuns hors-serie de Corto Maltese.

O Gosto do Cloro foi um marco na carreira de Vivès, recebendo diversos prémios e reconhecimento internacional. Entre os prémios que a obra recebeu, destacam-se:

Prix des Libraires (2009) – Um dos mais prestigiados prémios de banda desenhada em França;

Angoulême (2009) – A nomeação para o Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême é uma das maiores distinções que uma obra de banda desenhada pode alcançar.

O Gosto pelo Cloro, Bastien Vivés, 144 pp., cor, capa dura, 22€