31 de dezembro de 2025
Top das Vendas de BD em Portugal - Semana 52
Posição | Semana Anterior | Título | Desenhador | Nacionalidade | Editor |
1 | = | Astérix 41: Astérix na Lusitânia | Didier Conrad | França | ASA |
2 | = | Peanuts: O indispensável de Snoopy | Charles Schulz | EUA | Iguana |
3 | +1 | O Menino, a Toupeira, a Raposa e o Cavalo | Charlie MacKesky | Reino Unido | Iguana |
4 | -1 | Blake e Mortimer 31: A ameaça Atlante | Peter Van Dongen | Holanda | ASA |
5 | +2 | Toda a Mafalda | Quino | Argentina | Iguana |
6 | +2 | Dakota 1880 | Brüno | Alemanha | A Seita |
7 | -2 | Dragon Ball - Volume 5 | Akira Toriyama | Japão | Devir |
8 | +1 | As aventuras de Tintin - Integral 1 | Hergé | Bélgica | ASA |
9 | novo | Astérix: 40: O lírio branco | Didier Conrad | França | ASA |
10 | novo | Blake e Mortimer: A dupla exposição | Laurent Durieux | França | ASA |
28 de dezembro de 2025
Palômbia: um país fictício demasiado real
Antes de entrarmos em El Diablo, o novo álbum de Alexis Nesme e Lewis Trondheim, convém regressar a um lugar que, apesar de inexistente nos mapas, é central no imaginário da série: a Palômbia.
Mais do que um simples cenário exótico, a Palômbia é um dispositivo narrativo e político, criado por André Franquin nos anos 1950, que continua a ser reutilizado, reinterpretado e atualizado por autores contemporâneos.
A Palômbia é um país fictício situado na América do Sul, caracterizado por uma selva tropical abundante, cidades precárias e contrastantes, uma instabilidade política crónica com sucessivos golpes de Estado, palco de ditadores caricaturais, mas inquietantemente plausíveis.
Desde a sua criação, a Palômbia funciona como uma síntese satírica das chamadas “repúblicas das bananas”, permitindo aos autores falar de autoritarismo, corrupção, populismo e ingerência estrangeira sem apontar directamente a um país real.
A Palômbia é também o território de origem do Marsupilami, criatura mítica da BD europeia.
Em El Diablo, Nesme e Trondheim regressam à Palômbia, antes do próprio país existir, não como homenagem nostálgica, mas como território narrativo plenamente funcional.
Ler El Diablo sem conhecer a Palômbia é possível. Agora podemos saber a origem do seu nome: José Palombo, o protagonista desta história.
27 de dezembro de 2025
O meu contributo para a preservação da História da Banda Desenhada em Portugal
Desde os meus 15 anos, a minha paixão pela banda desenhada e pelo seu percurso em Portugal levou-me a realizar um trabalho minucioso de catalogação de todas as publicações relevantes: desde revistas, jornais até ao formato álbum. O início foi em fichas de papel, mas com o advento dos primeiros PCs e o uso de ferramentas como o ACESS, a minha abordagem foi evoluindo para o que temos hoje: uma base de dados digital e acessível a todos.
Com o tempo, desenvolvi a minha base de dados e, através do blogue Bedeteca Portugal, tive a oportunidade de partilhar diversos ensaios de quadriculografia de séries, colecções e autores, contribuindo para um melhor entendimento da história e evolução da banda desenhada portuguesa. Essas análises estão todas disponíveis no blogue, e espero que continuem a servir como referência para todos os interessados na BD em Portugal.
Há cerca de seis anos, decidi dar um passo mais significativo e editar um catálogo em formato PDF, reunindo todos os álbuns de e sobre banda desenhada e cartoon publicados por editoras portuguesas. Este catálogo, que tenho vindo a atualizar anualmente, contém informações detalhadas sobre as obras publicadas, representando um grande esforço para documentar e preservar a memória desta arte no nosso país.
Hoje, sinto-me orgulhoso por poder disponibilizar online a minha base de dados de álbuns de banda desenhada. Com mais de nove mil obras já catalogadas, este é um recurso valioso que está agora ao alcance de todos. O objectivo desta base de dados é oferecer acesso aberto e gratuito a um vasto acervo de informações sobre a banda desenhada publicada em Portugal, permitindo a investigadores, coleccionadores e fãs da arte ter acesso fácil a dados preciosos.
Este é, sem dúvida, um projeto em constante evolução e atualização. A base de dados é atualizada quase diariamente, com novos álbuns a serem adicionados sempre que novas publicações chegam ao mercado. O trabalho nunca é estático e é com grande satisfação que vejo esta plataforma crescer com o tempo.
Além da catalogação dos álbuns, tenho em mente outro grande passo: em breve, pretendo colocar online uma base de dados dedicada às publicações de banda desenhada em revistas portuguesas. Este é um trabalho igualmente importante para completar o panorama da BD em Portugal, e irá proporcionar uma visão mais alargada das publicações regulares, séries e projectos que marcaram a história da banda desenhada no nosso país.
Embora me esforce para garantir que a base de dados seja o mais completa e precisa possível, admito que possam existir lapsos e omissões. Como é natural, devido à vasta quantidade de informação e à constante actualização de dados, algumas lacunas podem surgir. Contudo, espero continuar com a ajuda de todos os que consultam e partilham este trabalho poder ir corrigindo e aperfeiçoando as informações ao longo do tempo.
O objectivo é, em última análise, preservar a história da banda desenhada publicada em Portugal e dar a todos a possibilidade de aceder a este valioso património cultural. Portanto, se tiverem sugestões, correcções ou informações adicionais, ficarei muito grato pelo vosso contributo para tornar este projecto ainda mais completo.
Este trabalho não seria possível sem a vossa colaboração. Continuo a contar com a ajuda de todos para manter esta base de dados sempre actualizada e precisa. Obrigado a todos os que têm contribuído para que este projecto se tenha tornado uma referência na preservação da banda desenhada portuguesa.
Fico entusiasmado com as possibilidades que este projecto oferece e com o futuro da banda desenhada em Portugal, e espero que todos possam continuar a usufruir desta base de dados e que ela seja um recurso útil para todos os que se interessam pela história da BD no nosso país.
Acompanhem as actualizações, consultem a base de dados e, acima de tudo, continuem a partilhar este amor pela banda desenhada que nos une!
26 de dezembro de 2025
Top de venda de álbuns de Banda Desenhada em Portugal
Acompanhar as preferências dos leitores de banda desenhada em Portugal com bastante exatidão é tarefa a rondar a impossibilidade.
Mas consultando as tabelas de vendas de três das maiores cadeias de livrarias do país, podemos apresentar uma visão geral das obras de banda desenhada mais comercializadas. Este levantamento, embora não forneça uma certeza absoluta quanto ao número exato de vendas, oferece uma visão sobre os álbuns que estão a conquistar os corações dos leitores.
Através de um algoritmo que cruza dados de vendas de três grandes cadeias, conseguimos construir uma tabela semanal com os álbuns de banda desenhada mais vendidos. No entanto, é importante compreender algumas nuances do processo:
1. Quotas de mercado de cada cadeia: Cada uma das livrarias tem uma quota de mercado distinta, o que significa que a popularidade de um álbum pode variar dependendo da livraria.
2. Períodos de vendas: Como cada livraria pode ter diferentes períodos de apuração de vendas e disponibilização de álbuns, a tabela apresentada não reflete a totalidade do mercado, mas sim um retrato das preferências dos leitores daquelas livrarias específicas. Isso significa que, embora a tabela ofereça uma visão clara das tendências do momento, ela não cobre todos os lançamentos ou todas as vendas realizadas fora das três plataformas.
3. Obras disponibilizadas: A lista de álbuns incluída é limitada aos títulos disponibilizados por cada uma das livrarias no período da recolha dos dados. Ou seja, se um álbum não estiver em stock ou disponível para venda em alguma das plataformas, não entrará na contagem, o que influencia os resultados.
O objetivo deste levantamento não é apenas criar uma lista das vendas, mas entender as preferências dos leitores de banda desenhada em Portugal. Através da análise semanal, conseguimos identificar:
• Tendências de mercado: Quais são os álbuns que estão a ganhar mais destaque? Existem obras que estão constantemente a subir nas classificações ou que têm uma grande flutuação de popularidade?
• Preferências por género ou autor: Alguns autores ou estilos de BD podem ser mais populares em determinadas cadeias. Com isso, é possível perceber quais são os géneros ou autores mais procurados pelo público português.
• Impacto das novidades: O lançamento de novos álbuns pode causar um pico nas vendas, e com esta tabela conseguimos identificar rapidamente as novidades que estão a ser bem recebidas.
À medida que esta tabela se actualiza semanalmente, ela proporcionará aos leitores uma maneira de acompanhar o ritmo da BD no mercado português, ajudando a mapear o que está a conquistar os fãs da nona arte.
Dados a 26 de Dezembro de 2025
24 de dezembro de 2025
22 de dezembro de 2025
Nautilus #2: A herança do Capitão Nemo
Depois de um primeiro tomo marcadamente introdutório, A herança do Capitão Nemo mergulha de forma decidida nas consequências deixadas por uma das figuras mais enigmáticas da literatura de aventura. A acção retoma os fios narrativos lançados anteriormente e acompanha um conjunto de personagens que, directa ou indirectamente, se vêem envolvidas na disputa pelo legado científico, político e simbólico de Nemo.
A sua sombra aterrorizou os oceanos, e fez tremer nações inteiras durante anos. Génio científico, cego pela vontade de vingança e justiça, nunca quis ser conhecido de ninguém. Mas a posteridade gravou o seu nome: Nemo. Kimball, agente da coroa britânica, conseguiu libertar um Capitão Nemo já envelhecido, da longínqua fortaleza russa onde estava aprisionado. Agora, chegados ao esconderijo do Nautilus, terão de empreender uma perigosa viagem em busca dos documentos que podem inocentar Kim e impedir uma guerra generalizada… e terão de sobreviver a uma inimizade nascente entre ambos! O volume final desta dramática saga de acção, que reúne os tomos 2 e 3 da série francesa.
A narrativa deixa claro que o Nautilus não é apenas uma maravilha tecnológica, mas um símbolo carregado de significado, capaz de alterar equilíbrios de poder. As personagens são obrigadas a posicionar‑se, escolhendo entre a apropriação oportunista desse legado ou a tentativa de compreender e preservar o espírito que esteve na sua origem.
A série deixa assim de se limitar à evocação de Júlio Verne, dialogando activamente com o seu universo e reinterpretando‑o à luz de novos conflitos e personagens.
Nautilus #2: A herança do Capitão Nemo, Matthieu Mariolle e Guénaël Grabowski, Arte de Autor/A Seita, 120 pp., cor, capa dura, 26€
17 de dezembro de 2025
A Aventura do Bolo de Natal: Um clássico de Agatha Christie em Banda Desenhada
O conto original, publicado em meados do século XX, apresenta um Poirot convidado a passar o Natal numa propriedade campestre inglesa, onde uma reunião aparentemente festiva rapidamente se transforma num enigma repleto de pistas falsas, segredos de família e um ambiente de tensão contida. A adaptação de Taracido e Bottier preserva esta atmosfera, enriquecendo-a com um trabalho gráfico de grande apuro.
O traço de Alberto Taracido revela-se particularmente eficaz na recriação do ambiente tradicional inglês, com interiores acolhedores, paisagens invernosas e personagens que, embora caricaturadas de forma subtil, mantêm a elegância própria do universo Christie. As expressões, gestos e pequenos detalhes visuais ajudam a sublinhar aquilo que o texto apenas sugere, convidando o leitor a desempenhar o papel de detective ao lado de Poirot.
Já Isabelle Bottier, responsável pela adaptação do argumento, consegue equilibrar a fidelidade ao conto com a fluidez narrativa necessária à banda desenhada. A história mantém-se clara e envolvente, com um ritmo que alterna habilmente entre momentos de diálogo, introspecção e revelações típicas do método dedutivo do detective belga.
Esta versão em BD constitui não só uma porta de entrada acessível ao universo de Agatha Christie para leitores mais jovens, como também um objecto de interesse para fãs antigos que desejem redescobrir o conto sob uma nova perspectiva. A conjugação entre texto e imagem permite reviver o mistério natalício com frescura e dinamismo, sem perder a essência do original.
A Aventura do Bolo de Natal em banda desenhada é, portanto, uma homenagem bem conseguida a uma das histórias mais saborosas – em todos os sentidos – da Rainha do Crime, trazendo Hercule Poirot para perto de um público contemporâneo sem comprometer o charme clássico que tem encantado gerações.
A Aventura do Bolo de Natal, Alberto Taracido e Isabelle Bottier, Arte de Autor, 48 pp., cor, capa dura, 17,50€
14 de dezembro de 2025
Blast #1/2: Carcaça gorda
Blast começa com a figura de Polza, um homem que vive à margem da sociedade, um indivíduo marcado por uma violência interna que ele próprio não compreende totalmente. O enredo é uma mistura entre o relato da sua vida passada e a narrativa de um evento traumático, ao qual ele parece se submeter, por uma espécie de catarse, mas também por um impulso autodestrutivo.
A estrutura da história é não linear, alternando entre o presente de Polza, enquanto ele está numa espécie de prisão, e as suas memórias sobre o que o levou até ali, com destaque para as suas interações com outros personagens. A narrativa é fluída, mas ao mesmo tempo desorientadora, uma escolha deliberada que reflecte o próprio estado de espírito do protagonista.
Ao longo da obra, Larcenet constrói uma trama sobre um homem a tentar entender a sua própria identidade. Polza não é simplesmente um “anti-herói” ou um sujeito marcado pela violência, mas alguém que, através das suas experiências, tenta descobrir o que significa ser humano. A falta de controlo sobre as suas emoções e acções, as suas reacções brutais, e a constante luta para compreender o que está a acontecer consigo mesmo, fazem de Blast uma obra sobre a perda de controlo e a tentativa de reconstrução de um sentido, algo que muitos de nós provavelmente já vivemos em diferentes momentos.
A profundidade psicológica de Polza é um dos grandes trunfos da obra. Larcenet não oferece respostas fáceis, e é justamente nesse espaço de incerteza que Blast encontra a sua força narrativa. O leitor vê-se compelido a reflectir sobre a natureza da loucura, da alienação e da procura de um propósito em meio ao caos. O autor não poupa o leitor de cenas cruéis ou intensas, mas isso serve para criar uma sensação de urgência e desconforto, forçando o público a mergulhar cada vez mais fundo nas angústias do protagonista.
A arte de Blast é outro elemento essencial para a narrativa, e a sua influência sobre a experiência do leitor não pode ser subestimada. Larcenet, conhecido pelo seu estilo realista, usa a arte como um reflexo directo do estado psicológico de Polza. O traço é detalhado, mas ao mesmo tempo, há uma certa “rugosidade” e crueza que encaixa perfeitamente com a natureza desorganizada e violenta da história.
As cenas de acção, muitas vezes caóticas e brutais, são contrastadas com momentos de introspecção mais suaves, mas igualmente carregados de tensão emocional. Há uma ênfase nas expressões faciais e nas posturas corporais, que comunicam muito mais do que as palavras, tornando as reacções dos personagens e os silêncios mais impactantes. O uso do preto e branco adiciona uma sensação de opressão e mistério, o que eleva ainda mais o tom sombrio da história.
Blast #1 (de 2): Carcaça gorda, Manu Larcenet, Ala dos Livros, 408 pp., cor, capa dura, 49,90€
13 de dezembro de 2025
O Preço da Desonra #2: Crónicas de Kubidai
Japão, período Edo. Os clãs e os seus líderes disputam território e guerreiam por poder. No calor da batalha, guerreiros samurais evitam a morte a troco de quantias exorbitantes pagas aos seus executores. Ao longo de quatro novas histórias, voltamos à companhia de Hanshiro, o implacável cobrador de dívidas, que exige que se cumpram estas promissórias. Com um desenho magistral, Hirata volta a contar-nos como a glória e a honra, associadas aos códigos samurais, podem cair por terra ou elevarem-se aos extremos da ética e da moral, dependendo de quem os pratica. E Portugal, através d’A Seita, é apenas o segundo país no mundo a ver todas estas histórias num único volume.
Assim como Akira Kurosawa imortalizou as histórias de samurais no cinema, Hirata deu-lhes realismo e grandeza no mangá.
A Seita e a sua chancela de mangá, a Ikigai (生きがい), tem a honra de apresentar, pela segunda vez em português de Portugal, um dos maiores mangakás da história da arte de banda desenhada, Hiroshi Hirata. Trata-se de um (cada vez menos) ilustre desconhecido em terras lusas, com um peso na nona arte que iguala gigantes como Kazuo Koike e Goseki Kojima, os autores do seminal Lone Wolf & Cub, ou Sanpei Shirato, de Kamui-Den, e mesmo Katsuhiro Otomo, do conhecido Akira. A obra que vos trazemos é O Preço da Desonra: Crónicas de Kubidai, um verdadeiro tratado do que são histórias de samurais, que nada deve a outras artes e a outros mestres como Akira Kurosawa (Ran; Yojimbo). Remete-nos para um dos mais importantes momentos da história do Japão, o período Edo, alvo de tanta curiosidade, não só pelos próprios japoneses, como também pelo resto do mundo.
Samurais e ronins, e os poderosos chefes de clãs nobres e guerreiros do Japão da época do final das guerras, no início do século XVII, quando se inicia o período Edo, são algumas das imagens e nomes que mais ressoam em todos os entusiastas de literatura de guerra e de aventura. É neste ambiente que decorrem as quatro novas histórias deste Shin Kubidai Hikiukenin, O Preço da Desonra: Crónicas de Kubidai. Hirata voltou à personagem de Hanshiro em 1997, e em 1999 foi publicado o volume com (quase) todas estas novas histórias. Um dos capítulos não tinha sido incluído, e foi a editora Pipoca & Nanquim, do Brasil, quem primeiro publicou este regresso, num integral com as quatro crónicas. E A Seita adapta este volume ao nosso português de Portugal, a partir da tradução de Drik Sada. Este volume inclui as quatro novas histórias da personagem, que podem todas ser lidas independentemente umas das outras (e não é necessário ter lido o primeiro volume para apreciar esta segunda recolha de histórias).
Se a imaginação dos leitores se empolga com os feitos dos samurais, das batalhas e conflitos em que se regiam pelo bushido, a via do guerreiro, toda ela feita de honra e desprezo pela morte, o próprio título deste volume anuncia que as histórias aqui incluídas se afastam dessas premissas. Porque é dos traços opostos aos do bushido que estas histórias tratam: do medo de morrer, de promessas de dinheiro a troco de ter a vida salva, da vergonha e da desonra que isso acarreta para aqueles que assinaram no campo de batalha essas notas promissórias... mas também do outro lado do espelho. Daqueles que, ao ver este lado negro, brilham mais forte, num assomo de ética e moral.
É desse modo que Hanshiro, o cobrador de dívidas, funciona como um observador imparcial, mas sensível, da realidade da vida dos samurais num dos períodos mais conturbados da história do Japão.
Hiroshi Hirata nasceu em 1937, na cidade de Tóquio, e desde muito cedo se interessou pelo mundo dos mangás. Aos 21 anos publica a sua primeira história no género histórico, o jidaigeki, na revista Mazo. Começou assim uma longa carreira em que se notabilizou como um dos grandes mestres do estilo gekigá (dramas realistas e históricos), com histórias centradas nos samurais e no rígido código de honra que norteia as suas vidas. Alcançou grande notoriedade com a série Satsuma Gishiden, com um estilo comparável ao de outros mestres como Sanpei Shirato, Goseki Kojima, etc... O Preço da Desonra: Kubidai Hikiukenin, foi publicado originalmente de 1971 a 1973, e foi publicado em Portugal pel’A Seita numa edição definitiva que reúne as sete histórias clássicas de Hanshiro, um ronin cobrador de dívidas, agora seguida por este segundo volume, que inclui as quatro histórias posteriores.
Para além do reconhecimento que obteve como mangaká, Hirata era um calígrafo de grande renome, tendo criado a caligrafia do título do mangá Akira. Admirado por figuras como Yukio Mishima ou Jodorowsky, a sua obra acabaria por torná-lo num dos maiores dos expoentes do gekigá e influenciar gerações posteriores. Faleceu em 2021, aos 84 anos de idade.
A edição portuguesa conta ainda com dois posfácios, um pelo próprio Hiroshi Hirata, e outro por Pedro Bouça, entusiasta da BD e da cultura japonesa em geral e do mangá em particular, e inclui igualmente oito páginas a cores que Hirata coloriu usando pela primeira vez técnicas digitais de cores.
O Preço da Desonra #2: Crónicas de Kubidai, Hiroshi Hirata, A Seita, 360 páginas, p/b (8 pgs. a cores), capa mole, 23,99€
12 de dezembro de 2025
Canalha Borrada
São uma dezena de histórias, algumas pouco mais que episódios desopilantes ou apontamentos de mau gosto adolescente idiota, outras pequenas pérolas de narrativa que de algum modo poderíamos baptizar de “punk pseudo-rural sujo e feio”, e todas cómicas (embora às vezes nos façam chorar com pena dos desgraçados dos avós), e ilustradas com figuras e paisagens caricatas e muito divertidas!
O autor ofereceu por uma pequena e módica quantia cuecas borradas aos primeiros que compraram o livro no lançamento na Bedeteca do Porto, e achamos que isso diz tudo!!
Zé Lázaro Lourenço, nascido em 1999 em Santa Maria da Feira, trabalhou em várias áreas, fast food, professor do 1.º ciclo e até foi palhaço. Actualmente dedica-se à ilustração e banda desenhada. O seu trabalho foca-se, desde criança, numa estética punk e javarda. Frequenta o Mestrado de Ilustração, Edição e Impressão nas Belas Artes do Porto. Sofre de calvície e partiu os braços quatro vezes.
Canalha Borrada, A Seita/Turbina/Mundo Fantasma, 80 pp., p&b, capa mole, 12,99€
BUG - Livro 4: Enki Bilal e o mundo depois do colapso digital
Bilal usa esta premissa para criticar a nossa dependência tecnológica e mostrar como, sem o apoio invisível do digital, as estruturas sociais revelam fragilidades profundas. Kameron torna-se o símbolo de todas as tensões entre privacidade, poder e sobrevivência.
Visualmente, o autor mantém o seu estilo inconfundível: tons frios, rostos marcados, cenários degradados que reforçam o sentimento de um mundo à deriva. Cada prancha combina beleza e inquietação.
Este quarto volume não resolve o mistério do “bug”, mas intensifica-o. É um capítulo de transição que prepara o terreno para revelações futuras, consolidando BUG como uma das obras mais visionárias de Bilal nos últimos anos.
BUG - Livro 4, Enki Bilal, Arte de Autor, 80 pp., cor, capa dura, 23,50€
10 de dezembro de 2025
Duna - Livro 3
Com O Profeta, o romance gráfico consegue transportar o leitor directamente para o coração da trama, capturando as intricadas dinâmicas entre as facções do universo de Duna. O título faz referência à transformação de Paul Atreides de príncipe herdeiro para o messias esperado pelos Fremen, o povo do deserto. A sua figura é alçada ao estatuto de líder religioso, um “profeta” que não só guia os Fremen na sua luta pela sobrevivência, mas também começa a ser tomado pelo peso das suas próprias visões proféticas.
Neste volume, o ilustrador Raúl Allén e o argumentista Patricio Clarey continuam a trabalhar com mestria na construção visual do universo de Duna, mantendo a grandiosidade e o detalhe que caracterizam a obra original. As paisagens do deserto de Arrakis, o planeta desolado de dunas intermináveis, são magnificamente retratadas, assim como as intrincadas armaduras e trajes dos personagens, que se tornam uma extensão do seu poder e estatuto.
A arte reflecte com precisão o tom de tensão e mistério que perpassa toda a obra. O uso de cores quentes e sombrias evoca a vastidão implacável do deserto, ao mesmo tempo em que os momentos mais íntimos e psicológicos são abordados com uma paleta mais fria e opaca, reforçando o estado de agitação interna de Paul à medida que ele se depara com as realidades do seu poder e as dificuldades em equilibrar a sua humanidade com a sua crescente divindade.
O Profeta é um volume crucial da história, pois vai além da simples expansão do universo de Duna e aprofunda-se nas questões existenciais que dominam a vida de Paul. Ele já não é mais apenas um jovem príncipe, mas o Muad’Dib, a figura que, ao cumprir a sua missão, também desencadeia um futuro incerto e carregado de sacrifícios. A adaptação gráfica não só traduz a complexidade da obra literária, mas também a torna mais acessível e visualmente atraente, mantendo a essência da profundidade filosófica e política que Frank Herbert imprimiu à sua criação.
Essa obra obriga-nos a questionar até que ponto o poder, o carisma e a fé podem transformar uma pessoa — ou uma sociedade inteira — em algo além do que originalmente eram. Em O Profeta, as respostas que Paul procura parecem cada vez mais fugidias, com o universo de Duna a mostrar-se tão complexo quanto desafiador. E é isso que torna este volume, assim como os outros da adaptação gráfica, uma jornada irresistível para qualquer fã de ficção científica e banda desenhada.
Duna - Livro 3: O Profeta, Brian Herbert, Kevin J. Anderson, Raúl Allén e Patricia Martín, Relógio d'Água Editores, 204 pp., cor, capa mole, 22€
9 de dezembro de 2025
O Coração das Trevas - Adaptação em romance gráfico
Brahy emprega um traço detalhado e expressivo, capaz de transmitir tanto a grandiosidade ameaçadora da paisagem quanto o desgaste psicológico das personagens. A paleta de cores sombrias e os contrastes fortes reforçam a sensação de que o protagonista se afasta progressivamente da racionalidade europeia e se aproxima de um território onde as fronteiras entre civilização e barbárie se dissolvem. Assim, cada quadro funciona como uma extensão da prosa de Conrad, visualizando a névoa, a escuridão e o silêncio que compõem o cenário emocional da obra.
A figura de Kurtz, enigmática e quase mítica, ganha um impacto renovado quando traduzida em imagens. A sua presença — muitas vezes anunciada antes de aparecer — é construída graficamente de modo a acentuar a tensão e o mistério que rodeiam a sua figura. O encontro entre Marlow e Kurtz, momento crucial tanto no livro quanto no romance gráfico, adquire uma força dramática ampliada pela composição das páginas e pelo uso do espaço visual.
Joseph Conrad nasceu na Ucrânia a 3 de Dezembro de 1857, filho de pais polacos, exilados devido a atividades políticas. Conrad ficou órfão de pai aos onze anos, tendo sido deixado ao cuidado de um tio materno que exerceu grande influência sobre ele.
A partir de 1874, Conrad, então a viver em Marselha, iniciou a sua aprendizagem como marinheiro, tendo ingressado na Marinha Mercante Britânica e adoptado a nacionalidade inglesa em 1886.
Conrad era conhecido por dois aspectos contraditórios do seu carácter. Era ao mesmo tempo irritável e amável. Todos os que o conheceram afirmavam também que era um homem de grande ironia.
Usava monóculo, não gostava de poesia, excepto dos versos do seu amigo Arthur Symons e talvez de Keats. Detestava Dostoievski por ser russo e escrever romances que lhe pareciam confusos. Era um grande leitor, sendo Flaubert e Maupassant os seus autores favoritos.
Durantes muitos anos, Conrad atravessou dificuldades financeiras e sentiu a incompreensão dos críticos e a indiferença dos leitores. O livro que o tornou conhecido foi Chance, publicado em 1913. Nos dez anos que se seguiram tornou-se um dos mais reconhecidos autores de língua inglesa.
Conrad casou-se aos 38 anos, nunca deixando de oferecer um presente à sua mulher cada vez que acabava um dos seus livros. Morreu subitamente a 3 de Agosto de 1924, na sua casa em Kent, na Grã-Bretanha. Sentira-se mal no dia anterior, mas nada deixava adivinhar a iminência da morte.
Tinha sessenta e seis anos, e dele se disse que cumpriu três vidas, a de polaco, a de marinheiro e a de escritor.
O coração das trevas, Luc Brahy, Relógio d'Água, 108 pp., cor, capa mole, 20€










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