4 de abril de 2026

Blacksad #4: O inferno, o silêncio

O universo sombrio e estilizado de Blacksad regressa com o lançamento em Portugal do seu quarto volume, O Inferno, o Silêncio, originalmente publicado em 2005 e agora integrado na cuidada edição da Ala dos Livros. Esta edição distingue-se não só pela qualidade gráfica e editorial — com destaque para a elegante lombada em tecido — como também pela valorização de uma obra que se tornou, ao longo de 25 anos, uma referência incontornável da banda desenhada contemporânea.

Criada pelo argumentista Juan Díaz Canales e pelo desenhador Juanjo Guarnido, a série Blacksad transporta os leitores para uma América dos anos 1950, recriada com uma estética noir profundamente influenciada pelo romance policial clássico e pela literatura americana da época. O protagonista, John Blacksad, é um detective privado com a forma de um gato antropomórfico, figura icónica de um universo povoado por animais humanizados que espelham as complexidades e contradições da sociedade humana.

Neste quarto volume, a história leva-nos até Nova Orleães, em plena efervescência do Carnaval. É neste cenário vibrante e caótico que Blacksad é contratado por Faust, um produtor de jazz gravemente doente, para investigar o desaparecimento de Sebastian, um talentoso pianista e peça-chave da sua editora. O caso, aparentemente simples, rapidamente se adensa, revelando uma teia de segredos, manipulação e decadência, onde o vício e a ambição se entrelaçam perigosamente. À medida que a investigação avança, Blacksad percebe que nem tudo lhe foi contado. Ainda assim, movido pelo seu código moral e pela busca da verdade, mergulha cada vez mais fundo num caso que se revela não apenas complexo, mas também profundamente perturbador. O resultado é uma das histórias mais intensas e emocionalmente carregadas da série.

Visualmente, O Inferno, o Silêncio confirma o talento excecional de Juanjo Guarnido. Os seus desenhos, ricos em detalhe e expressividade, são complementados por uma paleta de cores sofisticada que reforça a atmosfera densa e melancólica da narrativa. Cada vinheta é cuidadosamente construída, oferecendo uma experiência visual que se aproxima da pintura. Combinando argumento sólido, personagens memoráveis e uma execução artística de excelência, este volume reafirma o estatuto de Blacksad como uma obra-prima da banda desenhada. 

A edição portuguesa surge, assim, como uma oportunidade imperdível para novos leitores e um objecto de colecção para os admiradores da série.

Blacksad #4: O inferno, o silêncio, Juan Díaz Canales e Juanjo Guarnido, Ala dos Livros, 104 pp., cor, capa dura, 29,90€

3 de abril de 2026

CPBD celebra 50 anos com um ambicioso plano de actividades para 2026

O ano de 2026 será marcante para o Clube Português de Banda Desenhada, que assinala meio século de existência dedicada à promoção, estudo e divulgação da banda desenhada em Portugal. Para celebrar esta data histórica, o CPBD preparou um conjunto diversificado de iniciativas culturais e editoriais, cuja concretização contará com o apoio solicitado à Câmara Municipal da Amadora (CMA), no valor de 7.000 euros.

As comemorações do cinquentenário serão acompanhadas por uma forte identidade visual, com todos os materiais promocionais e publicações a integrarem o logótipo da CMA, em associação com uma imagem especialmente criada para a efeméride: “CPBD – 50 ANOS”.

Entre as actividades previstas, destaca-se a publicação de quatro boletins do CPBD ao longo do ano, incluindo uma edição comemorativa que fará uma retrospectiva dos boletins publicados ao longo das últimas cinco décadas, sublinhando o percurso e o contributo do Clube para a cultura da banda desenhada em Portugal.

No domínio editorial, é previsto o lançamento de um importante catálogo ilustrado das revistas portuguesas de banda desenhada, abrangendo publicações desde 1921 até ao 25 de Abril de 1974. Esta obra, com cerca de 170 páginas já em fase final de revisão, constitui um trabalho de grande relevância histórica e documental. 

Outro destaque será a publicação de um estudo monográfico dedicado à 1ª série da revista Camarada, aprofundando o conhecimento sobre uma das publicações mais emblemáticas da história da banda desenhada portuguesa.

O ponto alto das comemorações será a sessão solene do Cinquentenário do CPBD, a realizar na sede do Clube ou em instalações da Câmara Municipal da Amadora. Este evento incluirá a inauguração de uma exposição dedicada à colecção completa dos boletins do CPBD, acompanhada por uma sessão de entrevistas a personalidades convidadas, que partilharão memórias sobre o papel da banda desenhada na sua formação cultural durante a infância e juventude.

No campo das exposições, estão também previstas mostras dedicadas a dois importantes nomes da banda desenhada nacional: Vítor Péon e Luís Louro, contribuindo para valorizar o trabalho de autores que marcaram diferentes gerações de leitores.

Por fim, o CPBD aposta na modernização da sua presença digital com a criação de um novo site institucional. Este projecto será desenvolvido em colaboração com estudantes de um curso técnico superior profissional (CTeSP) em Marketing Digital, no âmbito de estágios curriculares promovidos pela CMA, garantindo assim uma abordagem contemporânea e sustentável à comunicação do Clube.

Com este conjunto abrangente de iniciativas, o CPBD pretende não apenas celebrar os seus 50 anos de história, mas também reforçar o seu papel como agente cultural ativo, promovendo a banda desenhada junto de novos públicos e preservando a memória do seu rico património.

2 de abril de 2026

Clássicos da literatura portuguesa em BD vão sair em inglês, espanhol e polaco

A editora Levoir vai levar além-fronteiras a colecção de adaptações em banda desenhada de clássicos da literatura portuguesa, com edições previstas em inglês, espanhol e polaco. O primeiro título a ser publicado nestes mercados é Mensagem, de Fernando Pessoa, cuja versão em BD chega esta semana às livrarias em inglês e espanhol, enquanto a edição polaca será lançada pela editora independente Timoff.

A adaptação de Mensagem, com argumento de Pedro Vieira de Moura e ilustração de Susa Monteiro, marcou em 2024 o arranque da coleção “Clássicos da Literatura Portuguesa em BD”, desenvolvida pela Levoir em parceria com a RTP. Desde então, a colecção já ultrapassou uma dezena de volumes publicados.

A expansão internacional não se fica por este título. Na Polónia, estão já confirmadas edições de A Dama Pé-de-Cabra, de Alexandre Herculano, e Maria Moisés, de Camilo Castelo Branco, com lançamento previsto para maio. Seguem-se, nos meses de Junho e Julho, adaptações de Os Lusíadas, de Luís de Camões, A Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente, e O Crime do Padre Amaro, de Eça de Queiroz.

Em Espanha, além de Mensagem, a Levoir prepara a publicação de vários títulos da colecção, incluindo Os Maias e O Crime do Padre Amaro, ambos de Eça de Queiroz, Livro do Desassossego, novamente de Fernando Pessoa, e Os Lusíadas.

Paralelamente, a editora continua a desenvolver novas adaptações para esta colecção. Entre os próximos projetos estão A Cidade e as Serras, de Eça de Queiroz, A Confissão de Lúcio, de Mário de Sá-Carneiro, e Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, cujos detalhes de adaptação ainda não foram totalmente revelados.

Com esta aposta, a Levoir reforça a internacionalização da literatura portuguesa através da banda desenhada, tornando obras clássicas mais acessíveis a novos públicos e leitores em diferentes línguas.

1 de abril de 2026

Leituras de BD no mês de Março de 2026

 






Escolhidos 42 autores para receber bolsas de criação literária, BD e infantojuvenil

A atribuição das bolsas de criação literária de 2025 trouxe uma novidade relevante no panorama cultural português: a autonomização da Banda Desenhada (BD) enquanto área específica de apoio, com financiamento próprio e um conjunto dedicado de criadores selecionados.

Pela primeira vez, a BD deixou de estar incluída no programa geral de bolsas de criação literária, passando a integrar uma linha independente, ao lado da literatura infantil e juvenil. Esta mudança reflecte um reconhecimento crescente da BD enquanto forma artística autónoma, com linguagem, público e processos criativos próprios.

No total, foram atribuídas sete bolsas na área da banda desenhada, cada uma no valor de 15 mil euros, integradas num montante global de 270 mil euros que também contempla projetos infantojuvenis. Este apoio anual visa garantir condições para que os autores possam desenvolver os seus projetos com maior estabilidade e dedicação.

Entre os 114 projetos submetidos a concurso na área da BD, apenas sete foram selecionados, evidenciando a elevada competitividade do processo. Os bolseiros escolhidos são Marco Mendes, Ana Margarida Rocha da Silva Matos. Francisco Sousa Lobo, Júlia Barata, Alexandra Maria Lourenço Dias, Joana Morgado Simão e Carlos Baptista Moura Pinheiro.

A diversidade de percursos e estilos entre os selecionados sugere uma aposta em diferentes abordagens narrativas e visuais dentro da BD contemporânea portuguesa.

A criação desta linha específica de financiamento acompanha a evolução da banda desenhada em Portugal, que tem vindo a ganhar visibilidade tanto no mercado editorial como em circuitos internacionais. Autores portugueses têm marcado presença em festivais, exposições e publicações fora do país, consolidando uma cena criativa dinâmica.

Ao destacar a BD com um programa próprio, a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB) reconhece não só o crescimento do setor, mas também a necessidade de respostas mais ajustadas às suas especificidades, desde os tempos de produção até à experimentação gráfica.

O concurso contou com um total de 447 candidaturas nas duas áreas (BD e literatura infantojuvenil), sendo 114 na BD. A taxa de sucesso foi, portanto, bastante reduzida, o que reforça o carácter selectivo e meritocrático da atribuição das bolsas.

O júri responsável integrou o escritor e crítico de banda desenhada João Ramalho-Santos e a especialista em literatura infantil Dora Batalim SottoMayor, assegurando uma avaliação informada e especializada dos projetos apresentados.

Mais do que um apoio financeiro, estas bolsas representam um investimento estratégico no desenvolvimento da banda desenhada portuguesa. Ao permitir que autores se dediquem aos seus projectos durante um ano, contribuem para o surgimento de novas obras, a consolidação de carreiras e o enriquecimento do panorama cultural nacional.

Num contexto em que a BD continua a conquistar novos leitores e a explorar territórios híbridos entre literatura, artes visuais e narrativa gráfica, este tipo de incentivo público poderá revelar-se decisivo para o seu crescimento sustentado.

31 de março de 2026

Entradas na minha biblioteca de BD no mês de Março de 2026

 







Final Cut de Charles Burns

Publicado originalmente em 2014 pela Pantheon Books, Final Cut encerra a trilogia iniciada com X’ed Out (2010) e continuada em The Hive (2012). Trata-se de um dos trabalhos mais densos e formalmente sofisticados de Charles Burns, autor incontornável da banda desenhada contemporânea.

A narrativa acompanha Brian, jovem artista e aspirante a cineasta que, desde a infância, filma pequenas histórias de ficção científica no quintal de casa. Anos depois, decide realizar um verdadeiro filme de terror em 8 mm numa cabana isolada, com os amigos Jimmy, Tina e Laurie — esta última, musa involuntária e objecto de uma paixão não correspondida.

A homenagem declarada é ao clássico Invasion of the Body Snatchers, referência maior da ficção científica paranóica dos anos 50. Contudo, à medida que a rodagem avança, o leitor percebe que o verdadeiro palco da acção não é a floresta, mas a mente fragmentada de Brian.

Burns constrói um jogo subtil entre realidade, fantasia e memória. A idealização de Laurie transforma-se numa narrativa paralela onde Brian assume o papel de salvador, confundindo desejo com ficção. O autor explora a forma como o impulso criativo pode tornar-se fuga — ou até distorção — do real.

Graficamente, Final Cut mantém o traço rigoroso e contrastado que celebrizou o autor. O preto profundo e os enquadramentos meticulosamente compostos evocam tanto o cinema clássico como a estranheza do surrealismo. Há uma cadência quase hipnótica nas sequências mudas, onde o silêncio pesa tanto quanto o diálogo.

No panorama da banda desenhada contemporânea, Final Cut afirma-se como uma obra madura, inquietante e profundamente autoral. Charles Burns confirma aqui o seu estatuto de mestre da forma, capaz de transformar obsessões pessoais numa experiência estética de rara intensidade.

Base de dados

Final Cut, Charles Burns, ASA, 224 pp., cor, capa mole, 29,90€

30 de março de 2026

Carlota, Imperatriz – Uma narrativa intensa entre ambição, poder e desilusão

A obra Carlota, Imperatriz, de Fabien Nury e Matthieu Bonhomme, publicada em Portugal pela Ala dos Livros, apresenta-se como uma das mais marcantes novelas gráficas históricas dos últimos anos. Estruturada em dois volumes — cada um contendo dois tomos —, esta edição integral oferece ao leitor uma experiência completa e profundamente imersiva na vida de Charlotte da Bélgica, figura histórica tão fascinante quanto trágica.

Desde cedo, Charlotte foi moldada para a grandeza. Filha do rei Leopoldo I da Bélgica, o seu destino parecia inevitavelmente ligado a um casamento de prestígio. A união com o arquiduque Maximiliano da Áustria, irmão do imperador Francisco José, surge como a concretização desse desígnio. No entanto, aquilo que começou como um casamento promissor rapidamente se revela uma relação marcada por frustração, desencontro e ambições divergentes.

A narrativa ganha particular intensidade quando o casal aceita o trono do México, num contexto político extremamente instável e manipulado por interesses externos, nomeadamente pelo imperador francês Napoleão III. Ao chegarem a Veracruz, Charlotte e Maximiliano encontram um país profundamente fragilizado, longe da imagem idealizada que lhes fora apresentada. A resistência das elites locais, a instabilidade social e a fragilidade política do novo imperador criam um cenário de tensão permanente. É neste ambiente adverso que Charlotte emerge como uma figura central. Longe de ser apenas uma consorte passiva, a protagonista revela uma crescente determinação e complexidade psicológica. À medida que Maximiliano se mostra indeciso e incapaz de liderar, Charlotte assume um papel cada vez mais activo, tentando salvar um projecto imperial condenado desde o início. A sua trajectória transforma-se, assim, num percurso de afirmação pessoal, mas também de progressiva desilusão e colapso.

Do ponto de vista artístico, Matthieu Bonhomme apresenta um traço elegante e expressivo, capaz de transmitir tanto a grandiosidade dos cenários históricos como a intimidade emocional das personagens. Já o argumento de Fabien Nury destaca-se pela profundidade psicológica e pelo rigor histórico, equilibrando com mestria o drama pessoal e o contexto político. 

A obra, Carlota, Imperatriz foi amplamente elogiada pela crítica internacional, tendo recebido distinções importantes no circuito da banda desenhada europeia. Entre elas, destaca-se a sua nomeação e presença em selecções oficiais de festivais de prestígio, como o Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême, um dos mais relevantes a nível mundial. A obra foi também distinguida em prémios franceses de BD, reforçando o seu estatuto como uma referência contemporânea no género histórico.

Carlota, Imperatriz é muito mais do que uma simples recriação histórica. Trata-se de um retrato poderoso de uma mulher presa entre o dever e a ambição, num mundo dominado por jogos de poder implacáveis. Uma leitura envolvente, visualmente deslumbrante e emocionalmente intensa, que merece lugar de destaque em qualquer biblioteca dedicada à banda desenhada de qualidade.

Base de dados

Carlota, Imperatriz (Tomos 1 e 2), Matthieu Bonhomme e Fabien Nury, Ala dos Livros, 192 pp., cor, capa dura, 35€ 

Tokyo Revengers – Tomo 9

A intensa guerra entre gangues chega ao seu clímax neste volume de Tokyo Revengers,  aclamada série criada por Ken Wakui. Após uma batalha épica entre a Toman e a Valhalla, o desfecho traz consequências inesperadas — e ainda mais perigosas.

Com a vitória da Toman, Takemichi regressa ao futuro esperando que tudo tenha mudado para melhor. No entanto, a realidade revela-se mais sombria: agora numa posição de destaque dentro da organização, ele percebe rapidamente que algo está errado. A presença de antigos membros dos Black Dragons infiltrados na liderança cria um ambiente de tensão e instabilidade. E quando Kisaki volta a entrar em cena, novas revelações vêm à tona — especialmente através de Naoto — colocando em causa tudo aquilo que Takemichi acreditava saber.

Este nono volume marca uma transição importante na história, abrindo caminho para novos conflitos e aprofundando o lado mais psicológico e estratégico da obra. A narrativa intensifica-se, mostrando que, mesmo quando o passado é alterado, o futuro pode esconder ameaças ainda maiores.

O mangá Tokyo Revengers é publicado pela Kodansha e serializado na revista Weekly Shōnen Magazine desde 2017. O tomo 9 foi originalmente lançado no Japão a 16 de Novembro de 2018, integrando uma série que rapidamente se tornou um fenómeno global, combinando acção, viagem no tempo e drama juvenil.

Base de dados

Tokyo Revengers #9, Ken Wakui, Distrito Manga, 192 pp., p&b, capa mole, 10,95€

26 de março de 2026

A força intemporal de A História de Uma Serva: a nova vida de um clássico

Depois de uma primeira edição (em 2020) rapidamente esgotada, a Bertrand Editora traz agora uma nova oportunidade para mergulhar no universo perturbador de A História de Uma Serva, desta vez numa edição em capa mole e com uma abordagem renovada. Lançada hoje, 26 de Março, esta reedição da novela gráfica reafirma a relevância de uma obra que continua a ecoar com inquietante actualidade.

Baseado no icónico romance de Margaret Atwood, este formato ganha nova expressão através da adaptação visual de Renée Nault, que transforma a narrativa numa experiência gráfica intensa e imersiva. O resultado é uma obra que mantém toda a força do original, mas que dialoga com novos públicos e novas formas de leitura. Provocante, chocante e profundamente profético, A História de Uma Serva consolidou-se como um dos livros mais influentes da literatura contemporânea. A sua visão distópica, marcada por temas como o controlo sobre o corpo feminino, o autoritarismo e a perda de direitos, tornou-se não apenas relevante, mas essencial para compreender muitas das tensões do mundo atual.

Antes desta reedição da novela gráfica, a Bertrand já havia assinalado os 40 anos da obra original com uma edição especial comemorativa, que se destacou pela sua apresentação cuidada: nova capa, sprayed edges e um prefácio exclusivo de Alberto Manguel. Este conjunto de iniciativas editoriais demonstra não só o reconhecimento da importância da obra, como também o seu contínuo apelo junto dos leitores.

O impacto de A História de Uma Serva ultrapassou largamente as páginas do livro. A adaptação televisiva, criada por Bruce Miller e protagonizada por Elisabeth Moss, tornou-se um fenómeno global, conquistando audiências e crítica ao longo de seis temporadas. Entre os muitos reconhecimentos, destacam-se 15 prémios Emmy e o Globo de Ouro para Melhor Série Dramática em 2018 — prova clara da força narrativa e simbólica desta história.

Base de dados

A História de uma Serva, Renée Nault, Bertrand Editora, 240 pp., cor, capa mole, 20,90€

25 de março de 2026

Murena #13 – As Neronia: o fogo da retórica e da ambição

O décimo terceiro volume de Murena, intitulado As Neronia, marca mais um capítulo na monumental recriação da Roma imperial por Jean Dufaux. Com a série a entrar numa fase mais sombria e politicamente densa, este novo tomo mergulha na arena do poder, onde palavra e espectáculo se confundem sob o olhar imprevisível de Nero.

No centro deste volume surge Lúcio Crasso (L. Crassus), jovem cuja reputação não assenta em heranças nem em protecções, mas na força da sua própria eloquência. Ainda em idade precoce, Crasso conquista notoriedade através de uma acusação pública memorável — gesto audaz numa Roma onde a retórica é arma e escudo.

Dufaux sublinha o contraste: numa fase da vida em que muitos são apenas celebrados por promessas, Crasso já triunfa nos tribunais. A sua presença na corte revela ambição, mas também uma consciência aguda de que, no coração do Império, o verbo pode ser tão letal quanto a lâmina.

As “Neronia” referem-se aos jogos instituídos por Nero — competições artísticas e atléticas concebidas à imagem dos festivais gregos. Mais do que celebração cultural, estes jogos funcionam como instrumento político: distraem o povo, consolidam a imagem do imperador-artista e reforçam a teatralização do poder. Neste contexto, a tensão dramática intensifica-se. A Roma de Murena não é apenas cenário histórico; é um palco onde cada gesto tem peso simbólico. O espectáculo público ecoa as intrigas privadas, e a linha entre justiça e encenação torna-se perigosamente ténue.

Jean Dufaux mantém a sua marca: diálogos densos, quase teatrais, carregados de subtexto. A intriga avança menos pela acção física e mais pelo embate ideológico e moral. A juventude de Crasso serve de contraponto à decadência progressiva do regime de Nero, num jogo subtil entre idealismo e corrupção.

A série, que desde o início tem explorado as zonas de sombra do poder imperial, ganha aqui uma dimensão particularmente política. A retórica, a justiça e a manipulação mediática surgem como temas centrais — surpreendentemente actuais.

Este novo tomo não é apenas mais um capítulo: é uma afirmação da maturidade da série. Roma arde — não necessariamente em chamas, mas na febre da palavra, da e vaidade e do poder.

Base de dados

Murena #13: As Neronia, Jean Dufaux e Jeremy, ASA, 56 pp., cor, capa dura, 17,90€

Lançamento: Simone de Beauvoir – Quero Tudo da Vida

A vida e o pensamento de Simone de Beauvoir continuam a inspirar gerações — e agora ganham uma nova abordagem acessível e visual com o lançamento de Simone de Beauvoir – Quero Tudo da Vida, das autoras Julia Korbik e Julia Bernhard.

Desde muito jovem, numa época em que as mulheres eram privadas de direitos fundamentais como estudar, votar ou escolher livremente a sua profissão, Simone de Beauvoir destacou-se por desafiar convenções. Movida por uma curiosidade insaciável e por uma recusa firme em aceitar papéis impostos, embarcou numa jornada profundamente pessoal: a de construir a sua própria identidade.

Filósofa existencialista e autora da obra marcante O Segundo Sexo, Beauvoir revolucionou a forma como a sociedade encara o papel da mulher. O seu pensamento continua atual, influenciando debates sobre igualdade, liberdade e identidade.

Neste novo livro, Korbik e Bernhard oferecem um retrato multifacetado de Beauvoir — não apenas como intelectual, mas também como filha, amiga e mulher. A obra destaca-se pela sua abordagem visual apelativa, com ilustrações a cores que tornam a leitura mais dinâmica e envolvente, aproximando o público contemporâneo do legado da pensadora. Mais do que uma biografia tradicional, Quero Tudo da Vida convida o leitor a mergulhar nas questões que marcaram a vida de Beauvoir: a condição feminina, a sexualidade e a busca pela liberdade.

Num momento em que as questões de género e igualdade continuam no centro do debate público, esta obra surge como uma leitura relevante e inspiradora. Ao apresentar Simone de Beauvoir de forma acessível e visual, torna o seu pensamento mais próximo de leitores de todas as idades.

Simone de Beauvoir – Quero Tudo da Vida não é apenas uma homenagem — é um convite a pensar, questionar e, sobretudo, a viver com a mesma intensidade e liberdade que marcaram a vida desta pensadora extraordinária.

Base de dados

Simone de Beauvoir – Quero Tudo da Vida,  Julia Korbik e Julia Bernhard, Iguana, 224 pp., cor, capa dura, 21,95€

24 de março de 2026

Sétimo Homem e outros contos

Um homem desaparece entre andares. Um sapo gigante tenta salvar Tóquio. Uma jovem recebe a promessa de um desejo único.

Em Sétimo Homem e Outros Contos, o insólito instala-se no quotidiano com uma naturalidade desconcertante, dando forma a um universo onde o real e o fantástico coexistem sem fronteiras definidas.

Esta obra reúne nove narrativas ilustradas adaptadas a partir de contos de Haruki Murakami, sob a interpretação visual e narrativa de Jean-Christophe Deveney e PMGL. A edição original foi publicada em França, em 2023, com o título Le Septième Homme et autres récits, antes de chegar a outros mercados internacionais.

As histórias que compõem o volume foram inicialmente publicadas no Japão em formato literário, integrando várias colectâneas de Murakami ao longo das décadas. Nesta versão ilustrada, ganham nova dimensão estética, com um traço que reforça o lado onírico, melancólico e por vezes tragicómico tão característico do autor japonês. Entre desaparecimentos inexplicáveis, insónias obsessivas e criaturas improváveis que emergem no coração das grandes cidades, o livro recria esse espaço tão caro a Murakami: a fronteira onde o banal se funde com o extraordinário. O resultado é um cenário poético e ligeiramente barroco, onde o absurdo convive com emoções profundamente humanas como a solidão, o medo e o desejo.

Haruki Murakami é um dos mais reconhecidos escritores contemporâneos do Japão e uma figura central da literatura mundial. Nascido em 1949, em Quioto, destacou-se a partir da década de 1980 com romances que combinam realismo mágico, cultura pop, jazz, solidão urbana e elementos surrealistas. Autor de obras como Norwegian Wood, Kafka à Beira-Mar e 1Q84, Murakami construiu um estilo inconfundível, marcado por atmosferas enigmáticas, personagens introspectivas e acontecimentos inexplicáveis tratados com aparente normalidade. A sua escrita explora frequentemente temas como identidade, memória, perda e a permeabilidade entre mundos.

Base de dados

Sétimo Homem e outros contos, Jean-Christophe Deveney e PMGL, Casa das Letras, 424 pp., cor, capa mole, 31,90€

Coimbra BD


O regresso do Coimbra BD promete transformar a cidade de Coimbra num verdadeiro ponto de encontro para fãs de banda desenhada, cultura pop e criatividade contemporânea. Entre os dias 24 e 26 de Abril, o evento volta a ocupar o emblemático Convento São Francisco (CSF), desta vez com uma área expositiva ampliada e uma programação ainda mais diversificada.

A edição de 2026 destaca-se pela expansão do espaço, com a inclusão da Antiga Igreja do CSF, permitindo acolher mais exposições, atividades e visitantes. Organizado pela Câmara Municipal de Coimbra, o evento mantém a entrada gratuita, reforçando o seu compromisso com a acessibilidade e a promoção cultural.

O cartaz reúne nomes importantes da banda desenhada nacional e internacional. Entre os autores confirmados estão Daniel Maia, Luís Louro, Osvaldo Medina, Ricardo Cabral, João Mascarenhas, Filipe Abranches, André Carrilho, os irmãos Duarte e Henrique Gandum, e ainda o espanhol Ángel de la Calle.

Para além das sessões de autógrafos, os visitantes terão a oportunidade de conhecer de perto o trabalho destes artistas e descobrir novos talentos na área de Artists’ Alley, um espaço dedicado à criatividade independente.

O festival apresenta um conjunto de exposições que cruzam estilos e narrativas, como:

Butterfly Chronicles, de João Mascarenhas

Distopias e Metamorfoses: os Clássicos Ilustrados, de André Carrilho

Rattlesnake, de João Amaral

Kachisou: Entre a BD e Ilustração, da artista portuguesa Kachisou

A programação inclui ainda cinema, lançamentos editoriais, workshops e demonstrações de jogos, incluindo sessões de Dungeons & Dragons.

Uma das grandes novidades deste ano é o reforço do cosplay, com a realização — pela primeira vez em Portugal — de uma eliminatória do Cosplay Central Crown Championships. Esta competição irá selecionar o representante nacional para a final internacional em Londres, elevando o evento a um novo patamar no circuito global. Além disso, regressa o tradicional concurso de cosplay aberto ao público, bem como encontros com cosplayers convidados.

O Coimbra BD aposta numa programação inclusiva, com conteúdos dedicados a mangá, anime e K-Pop, bem como uma área de gaming com consolas, realidade virtual, PC gaming e retrogaming.

As famílias também encontram um espaço dedicado às crianças, com atividades como Horas do Conto, oficinas de pintura e desenho e workshops criativos.

Com horários alargados — das 10h00 às 20h00 nos dias 24 e 25, e até às 18h00 no dia 26 — o Coimbra BD 2026 afirma-se como um dos principais eventos culturais da região. A produção está a cargo da GuessTheChoice, sendo esperado o anúncio detalhado do programa completo em breve.

Se és fã de banda desenhada, ilustração ou cultura pop, este é um evento obrigatório na agenda de Abril.

“O Sr. Agricultor” — humor, simplicidade e humanidade no quotidiano

Publicado em 2026, O Sr. Agricultor, de Rohini Nilekani, com ilustrações de Angie & Upesh, é um livro infantil que reúne pequenas histórias em torno de uma personagem tão excêntrica quanto cativante: Sringeri Srinivas.

O protagonista é um agricultor de uma pequena aldeia, conhecido pelo seu ar rabugento e comportamento imprevisível — mas, paradoxalmente, muito querido por todos. As histórias acompanham episódios do seu quotidiano, marcados por situações simples que ganham contornos inesperados e humorísticos.

O livro insere-se num conjunto mais amplo de histórias protagonizadas pela mesma personagem, originalmente publicadas pela editora indiana Pratham Books.

Títulos como Too Many Bananas ou Annual Haircut Day exploram o mesmo universo, centrado no humor e em situações do quotidiano rural. 

Este contexto ajuda a perceber que O Sr. Agricultor não é apenas um livro isolado, mas parte de uma espécie de “ciclo” narrativo, onde a repetição da personagem reforça a identificação do jovem leitor.

Rohini Nilekani é uma filantropa, autora e ex-jornalista indiana. Reconhecida pelo seu impacto no sector social da Índia ao longo de décadas. Escreveu diversas obras, desde thrillers médicos a livros infantis populares.

Angie & Upesh são Angeline S. Pradhan e Upesh Pradhan, uma dupla de ilustradores e designers indianos, conhecidos pelo seu trabalho em ilustração. Mas não só, também são reconhecidos como autores de outras formas de artes manuais.

Para os interessados, a obra está disponível em https://linktr.ee/faeditora

O Sr. Agricultor, Rohini Nilekani e Angie & Upesh, FA, 44 pp., cor, capa mole, 17,90€ (e-book: 7,99€)

Há monstros debaixo da minha cama? — A imaginação sem limites de Calvin & Hobbes regressa às livrarias

As aventuras de Calvin e do seu inseparável tigre de peluche Hobbes continuam a conquistar leitores em todo o mundo. Publicadas pela primeira vez em Novembro de 1985, as tiras desta série tornaram-se um fenómeno internacional, traduzido em mais de quarenta línguas e com cerca de trinta milhões de exemplares vendidos. Agora, os leitores portugueses têm novamente a oportunidade de mergulhar neste universo com a reedição do livro “Há monstros debaixo da minha cama?”, lançada pela Gradiva.

O volume corresponde à edição original “Something Under the Bed Is Drooling”, publicada em 1988, e reúne um conjunto de tiras que acompanharam os primeiros anos de sucesso da série nos jornais. Nelas encontramos o humor inteligente, a imaginação exuberante e a visão irreverente do mundo que tornaram estas personagens tão queridas por várias gerações.

Calvin é um rapaz de seis anos com uma imaginação ilimitada. Num momento pode estar a lutar contra monstros escondidos debaixo da cama e, no instante seguinte, transforma-se num astronauta destemido ou num explorador intergaláctico. Ao seu lado está sempre Hobbes, o tigre de peluche que, aos olhos de Calvin, ganha vida própria e participa nas suas aventuras, partilhando reflexões inesperadamente profundas e comentários sarcásticos sobre o quotidiano.

A reedição de “Há monstros debaixo da minha cama?” surge como uma excelente oportunidade para novos leitores descobrirem o universo de Calvin & Hobbes e para os fãs de longa data revisitarem algumas das histórias mais memoráveis da dupla. Num tempo em que o humor rápido domina as redes sociais, estas tiras recordam-nos que a imaginação, a curiosidade e o espírito crítico continuam a ser ingredientes essenciais para olhar a realidade com outros olhos.

Mais do que simples banda desenhada, Calvin & Hobbes permanece um clássico intemporal que continua a fazer rir, pensar e sonhar.

Base de dados

Calvin & Hobbes: Há monstros debaixo da minha cama?. Bill Watterson, Gradiva, 128 pp., p&b, capa mole, 13,99€

23 de março de 2026

Hermann [1938-2026]

O desenhador belga Hermann Huppen, conhecido artisticamente apenas como “Hermann”, faleceu a 22 de Março de 2026, aos 87 anos, deixando uma das carreiras mais marcantes da banda desenhada europeia.

Hermann nasceu a 17 de Julho de 1938, em Malmedy, na Bélgica. Antes de se dedicar aos quadradinhos, formou-se em marcenaria e trabalhou como designer de interiores. Entrou no mundo da banda desenhada nos anos 1960, publicando as primeiras histórias na revista Spirou. O seu talento foi rapidamente reconhecido pelo argumentista Greg, com quem colaborou em várias séries iniciais. A partir do final da década de 1970, começou a escrever também os seus próprios argumentos, afirmando-se como autor completo. Desenvolveu um estilo realista, frequentemente sombrio, marcado por uma visão crítica da sociedade e da natureza humana.

Hermann construiu uma obra extensa e influente, com séries que se tornaram clássicos da banda desenhada franco-belga:

Jeremiah (desde 1979) – A sua obra mais famosa, uma série pós-apocalíptica que viria a ser adaptada para televisão.  

Bernard Prince (1969–1980) – Série de aventura marítima criada com Greg.

Comanche (1972–1983) – Um western de referência na BD europeia. 

Jugurtha (1975–1977) – Série histórica ambientada na Antiguidade. 

As Torres de Bois-Maury (desde 1983) – Saga medieval mais introspectiva e realista.

Além destas séries, produziu diversos álbuns independentes, como Sarajevo Tango ou Caatinga, este último ambientado no Nordeste brasileiro, além de vários trabalhos com o seu filhos Yves como argumentista.

Ao longo da carreira, Hermann recebeu numerosos prémios importantes no mundo da banda desenhada:

Prix Saint-Michel (1973 e 1980);

Grande Prémio Saint-Michel (2002);

Prémios Haxtur (Espanha), incluindo melhor álbum (1992) e melhor desenho (2001);

Grande Prémio da Cidade de Angoulême (2016), uma das maiores distinções da BD mundial;

Troféu HQ Mix (Brasil, 1999), pelo álbum Caatinga.

Hermann é considerado um dos grandes mestres da banda desenhada europeia. A sua obra destacou-se pelo realismo gráfico, pela complexidade psicológica das personagens e por narrativas frequentemente duras e desencantadas. Com séries como Jeremiah ou Les Tours de Bois-Maury, influenciou várias gerações de autores e ajudou a consolidar a banda desenhada como forma de arte adulta e literária.

Ensaio de quadriculografia portuguesa

HP de Guido Buzzelli

HP, de Guido Buzzelli com argumento de Alexis Kostandi, é uma obra singular da banda desenhada europeia que cruza ficção científica, sátira social e imaginário western, assumindo-se como um verdadeiro “western distópico” no sentido mais amplo do termo.

A narrativa, originalmente criada em 1973, decorre num mundo pós-apocalíptico onde coexistem duas realidades: por um lado, uma cidade ultratecnológica dominada por uma elite militar e científica; por outro, comunidades marginalizadas que sobrevivem em territórios áridos, evocando o ambiente clássico do faroeste. No centro da história surge o enigmático “HP” (Horse Power), um cavalo mecânico lançado como instrumento de manipulação e controlo social. A perseguição a essa criatura desencadeia uma reflexão amarga sobre poder, ilusão e violência estrutural. 

Buzzelli utiliza este cenário para construir uma alegoria feroz: a promessa de progresso tecnológico revela-se enganadora, servindo antes para perpetuar desigualdades e subjugar populações. O tom grotesco e por vezes absurdo — característico do autor — reforça essa crítica, transformando o western tradicional numa fábula distópica sobre decadência civilizacional. 

Em Portugal, HP foi publicado pela editora Escorpião Azul, fundada por Jorge Deodato. Esta edição integra o esforço da editora em divulgar autores internacionais relevantes no panorama da BD. A edição portuguesa contou com prefácio do próprio Jorge Deodato, enquadrando a importância de Buzzelli enquanto figura pioneira da graphic novel europeia e destacando o carácter visionário de HP.

Base de dados

HP, Guido Buzzelli e Alexis Kostandi, Escorpião Azul, 109 pp., p&b, capa mole, 24€

20 de março de 2026

Elric encontra Stormbringer: o segundo volume da saga chega em banda desenhada

Depois do impacto de O Trono de Rubi, a saga de Elric de Melniboné continua com Stormbringer, o segundo volume da série publicada em Portugal pela Arte de Autor. A adaptação da obra criada por Michael Moorcock aprofunda agora o destino trágico do imperador albino e introduz um dos elementos mais emblemáticos de toda a fantasia: a sua espada demoníaca.

A história retoma os acontecimentos do primeiro volume com uma situação dramática. Yyrkoon, primo e rival de Elric, fugiu de Melniboné, levando consigo Cymoril, a noiva do imperador. Determinado a resgatá-la, Elric descobre que ela se encontra prisioneira nas ruínas de Dhoz Kham, nos chamados Reinos Jovens.

Para enfrentar o seu primo e recuperar Cymoril, Elric reúne um pequeno grupo de aliados e recebe a bênção de Straasha, o Senhor dos Mares. A viagem conduz-lo a um confronto decisivo, onde o destino do imperador e do seu império começa a tomar um rumo cada vez mais sombrio.

Mas o momento mais marcante deste volume é o encontro de Elric com Stormbringer, a lendária espada negra que se tornará inseparável da personagem. Mais do que uma simples arma, Stormbringer é uma entidade com vontade própria, capaz de devorar almas e alimentar a força vital do seu portador — um poder terrível que irá marcar profundamente o destino trágico de Elric.

Tal como o primeiro volume, esta adaptação apresenta um impressionante trabalho visual de Didier Poli e Robin Recht, que recriam o universo decadente e fantástico de Moorcock com cenários grandiosos e uma atmosfera gótica que se adequa perfeitamente à narrativa. O argumento continua a cargo de Julien Blondel e Jean-Luc Cano, responsáveis por condensar a complexa mitologia da saga numa narrativa visual fluida e intensa.

A edição ganha ainda um toque especial com um prefácio de Alan Moore, um dos autores mais influentes da história da banda desenhada, cuja presença reforça o estatuto quase mítico desta adaptação.

Considerada pelo próprio Michael Moorcock como “a melhor adaptação alguma vez feita” do seu universo, esta série confirma, volume após volume, a força duradoura de Elric — um anti-herói trágico, melancólico e profundamente humano, que continua a fascinar leitores décadas depois da sua criação. Com Stormbringer, a saga avança para territórios cada vez mais épicos e sombrios, aproximando-nos do coração da lenda de Elric e da maldição que o acompanhará para sempre.

Base de dados

Elric #2: Stormbringer, Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Didier Poli, Robin Recht, Arte de Autor, 56 pp., cor, capa dura, 19,50€

18 de março de 2026

Solo Leveling #17

O fenómeno global Solo Leveling continua a conquistar leitores por todo o mundo, e o seu 17.º volume confirma que esta não é apenas uma história de ascensão — é uma saga em constante reinvenção. Publicado originalmente em 2023 na Coreia do Sul pela D&C Media, este volume chega agora ao público português através da Editorial Presença, trazendo consigo uma nova etapa carregada de tensão, mistério e acção.

Depois da batalha final que redefiniu o destino do mundo, Seong Jinu já não é apenas o caçador mais poderoso — é alguém que carrega o peso de tudo o que foi e do que ainda poderá ser. Este volume mergulha precisamente nesse espaço: o “depois” que tantas histórias evitam explorar.

Jinu regressa ao mundo humano após anos de ausência entre dimensões, procurando uma vida tranquila. No entanto, rapidamente se torna evidente que a paz não é um caminho fácil para alguém com o seu passado. Fenómenos inexplicáveis começam a surgir, e forças antigas despertam, atraídas pelo poder que ele tentou esconder.

Um dos grandes trunfos deste volume está no conflito interno do protagonista. Longe de ser apenas uma máquina de combate, Jinu enfrenta agora um dilema mais humano: até que ponto pode ele escolher a sua própria vida, quando o mundo continua a precisar dele? Os ecos do passado tornam-se cada vez mais intensos, e a narrativa constrói uma atmosfera de antecipação constante. Há uma sensação clara de que algo maior se aproxima — uma crise que exigirá decisões difíceis e sacrifícios inevitáveis.

Fiel à identidade da série, este volume não abdica de sequências de acção intensas e visualmente marcantes. No entanto, vai mais longe ao aprofundar o universo da história, introduzindo novos enigmas e expandindo as forças em jogo. As ameaças deixam de ser apenas físicas — há agora uma dimensão mais ampla, quase mitológica, que eleva o tom da narrativa e prepara o terreno para confrontos ainda mais grandiosos.

Parte do sucesso de Solo Leveling reside na sua capacidade de equilibrar espetáculo com evolução narrativa. O 17.º volume prova isso mesmo: ao invés de repetir fórmulas, aposta na transformação do protagonista e na expansão do mundo. Para fãs de longa data, este é um capítulo essencial que aprofunda as consequências do final da história principal. Para novos leitores, é mais uma demonstração do porquê desta série ter alcançado milhões de leitores globalmente.

Base de dados

Solo Leveling, Chugong, Presença, 272 pp., cor, capa mole, 16,90€