31 de março de 2026

Entradas na minha biblioteca de BD no mês de Março de 2026

 







Final Cut de Charles Burns

Publicado originalmente em 2014 pela Pantheon Books, Final Cut encerra a trilogia iniciada com X’ed Out (2010) e continuada em The Hive (2012). Trata-se de um dos trabalhos mais densos e formalmente sofisticados de Charles Burns, autor incontornável da banda desenhada contemporânea.

A narrativa acompanha Brian, jovem artista e aspirante a cineasta que, desde a infância, filma pequenas histórias de ficção científica no quintal de casa. Anos depois, decide realizar um verdadeiro filme de terror em 8 mm numa cabana isolada, com os amigos Jimmy, Tina e Laurie — esta última, musa involuntária e objecto de uma paixão não correspondida.

A homenagem declarada é ao clássico Invasion of the Body Snatchers, referência maior da ficção científica paranóica dos anos 50. Contudo, à medida que a rodagem avança, o leitor percebe que o verdadeiro palco da acção não é a floresta, mas a mente fragmentada de Brian.

Burns constrói um jogo subtil entre realidade, fantasia e memória. A idealização de Laurie transforma-se numa narrativa paralela onde Brian assume o papel de salvador, confundindo desejo com ficção. O autor explora a forma como o impulso criativo pode tornar-se fuga — ou até distorção — do real.

Graficamente, Final Cut mantém o traço rigoroso e contrastado que celebrizou o autor. O preto profundo e os enquadramentos meticulosamente compostos evocam tanto o cinema clássico como a estranheza do surrealismo. Há uma cadência quase hipnótica nas sequências mudas, onde o silêncio pesa tanto quanto o diálogo.

No panorama da banda desenhada contemporânea, Final Cut afirma-se como uma obra madura, inquietante e profundamente autoral. Charles Burns confirma aqui o seu estatuto de mestre da forma, capaz de transformar obsessões pessoais numa experiência estética de rara intensidade.

Base de dados

Final Cut, Charles Burns, ASA, 224 pp., cor, capa mole, 29,90€

30 de março de 2026

Carlota, Imperatriz – Uma narrativa intensa entre ambição, poder e desilusão

A obra Carlota, Imperatriz, de Fabien Nury e Matthieu Bonhomme, publicada em Portugal pela Ala dos Livros, apresenta-se como uma das mais marcantes novelas gráficas históricas dos últimos anos. Estruturada em dois volumes — cada um contendo dois tomos —, esta edição integral oferece ao leitor uma experiência completa e profundamente imersiva na vida de Charlotte da Bélgica, figura histórica tão fascinante quanto trágica.

Desde cedo, Charlotte foi moldada para a grandeza. Filha do rei Leopoldo I da Bélgica, o seu destino parecia inevitavelmente ligado a um casamento de prestígio. A união com o arquiduque Maximiliano da Áustria, irmão do imperador Francisco José, surge como a concretização desse desígnio. No entanto, aquilo que começou como um casamento promissor rapidamente se revela uma relação marcada por frustração, desencontro e ambições divergentes.

A narrativa ganha particular intensidade quando o casal aceita o trono do México, num contexto político extremamente instável e manipulado por interesses externos, nomeadamente pelo imperador francês Napoleão III. Ao chegarem a Veracruz, Charlotte e Maximiliano encontram um país profundamente fragilizado, longe da imagem idealizada que lhes fora apresentada. A resistência das elites locais, a instabilidade social e a fragilidade política do novo imperador criam um cenário de tensão permanente. É neste ambiente adverso que Charlotte emerge como uma figura central. Longe de ser apenas uma consorte passiva, a protagonista revela uma crescente determinação e complexidade psicológica. À medida que Maximiliano se mostra indeciso e incapaz de liderar, Charlotte assume um papel cada vez mais activo, tentando salvar um projecto imperial condenado desde o início. A sua trajectória transforma-se, assim, num percurso de afirmação pessoal, mas também de progressiva desilusão e colapso.

Do ponto de vista artístico, Matthieu Bonhomme apresenta um traço elegante e expressivo, capaz de transmitir tanto a grandiosidade dos cenários históricos como a intimidade emocional das personagens. Já o argumento de Fabien Nury destaca-se pela profundidade psicológica e pelo rigor histórico, equilibrando com mestria o drama pessoal e o contexto político. 

A obra, Carlota, Imperatriz foi amplamente elogiada pela crítica internacional, tendo recebido distinções importantes no circuito da banda desenhada europeia. Entre elas, destaca-se a sua nomeação e presença em selecções oficiais de festivais de prestígio, como o Festival Internacional de Banda Desenhada de Angoulême, um dos mais relevantes a nível mundial. A obra foi também distinguida em prémios franceses de BD, reforçando o seu estatuto como uma referência contemporânea no género histórico.

Carlota, Imperatriz é muito mais do que uma simples recriação histórica. Trata-se de um retrato poderoso de uma mulher presa entre o dever e a ambição, num mundo dominado por jogos de poder implacáveis. Uma leitura envolvente, visualmente deslumbrante e emocionalmente intensa, que merece lugar de destaque em qualquer biblioteca dedicada à banda desenhada de qualidade.

Base de dados

Carlota, Imperatriz (Tomos 1 e 2), Matthieu Bonhomme e Fabien Nury, Ala dos Livros, 192 pp., cor, capa dura, 35€ 

Tokyo Revengers – Tomo 9

A intensa guerra entre gangues chega ao seu clímax neste volume de Tokyo Revengers,  aclamada série criada por Ken Wakui. Após uma batalha épica entre a Toman e a Valhalla, o desfecho traz consequências inesperadas — e ainda mais perigosas.

Com a vitória da Toman, Takemichi regressa ao futuro esperando que tudo tenha mudado para melhor. No entanto, a realidade revela-se mais sombria: agora numa posição de destaque dentro da organização, ele percebe rapidamente que algo está errado. A presença de antigos membros dos Black Dragons infiltrados na liderança cria um ambiente de tensão e instabilidade. E quando Kisaki volta a entrar em cena, novas revelações vêm à tona — especialmente através de Naoto — colocando em causa tudo aquilo que Takemichi acreditava saber.

Este nono volume marca uma transição importante na história, abrindo caminho para novos conflitos e aprofundando o lado mais psicológico e estratégico da obra. A narrativa intensifica-se, mostrando que, mesmo quando o passado é alterado, o futuro pode esconder ameaças ainda maiores.

O mangá Tokyo Revengers é publicado pela Kodansha e serializado na revista Weekly Shōnen Magazine desde 2017. O tomo 9 foi originalmente lançado no Japão a 16 de Novembro de 2018, integrando uma série que rapidamente se tornou um fenómeno global, combinando acção, viagem no tempo e drama juvenil.

Base de dados

Tokyo Revengers #9, Ken Wakui, Distrito Manga, 192 pp., p&b, capa mole, 10,95€

26 de março de 2026

A força intemporal de A História de Uma Serva: a nova vida de um clássico

Depois de uma primeira edição (em 2020) rapidamente esgotada, a Bertrand Editora traz agora uma nova oportunidade para mergulhar no universo perturbador de A História de Uma Serva, desta vez numa edição em capa mole e com uma abordagem renovada. Lançada hoje, 26 de Março, esta reedição da novela gráfica reafirma a relevância de uma obra que continua a ecoar com inquietante actualidade.

Baseado no icónico romance de Margaret Atwood, este formato ganha nova expressão através da adaptação visual de Renée Nault, que transforma a narrativa numa experiência gráfica intensa e imersiva. O resultado é uma obra que mantém toda a força do original, mas que dialoga com novos públicos e novas formas de leitura. Provocante, chocante e profundamente profético, A História de Uma Serva consolidou-se como um dos livros mais influentes da literatura contemporânea. A sua visão distópica, marcada por temas como o controlo sobre o corpo feminino, o autoritarismo e a perda de direitos, tornou-se não apenas relevante, mas essencial para compreender muitas das tensões do mundo atual.

Antes desta reedição da novela gráfica, a Bertrand já havia assinalado os 40 anos da obra original com uma edição especial comemorativa, que se destacou pela sua apresentação cuidada: nova capa, sprayed edges e um prefácio exclusivo de Alberto Manguel. Este conjunto de iniciativas editoriais demonstra não só o reconhecimento da importância da obra, como também o seu contínuo apelo junto dos leitores.

O impacto de A História de Uma Serva ultrapassou largamente as páginas do livro. A adaptação televisiva, criada por Bruce Miller e protagonizada por Elisabeth Moss, tornou-se um fenómeno global, conquistando audiências e crítica ao longo de seis temporadas. Entre os muitos reconhecimentos, destacam-se 15 prémios Emmy e o Globo de Ouro para Melhor Série Dramática em 2018 — prova clara da força narrativa e simbólica desta história.

Base de dados

A História de uma Serva, Renée Nault, Bertrand Editora, 240 pp., cor, capa mole, 20,90€

25 de março de 2026

Murena #13 – As Neronia: o fogo da retórica e da ambição

O décimo terceiro volume de Murena, intitulado As Neronia, marca mais um capítulo na monumental recriação da Roma imperial por Jean Dufaux. Com a série a entrar numa fase mais sombria e politicamente densa, este novo tomo mergulha na arena do poder, onde palavra e espectáculo se confundem sob o olhar imprevisível de Nero.

No centro deste volume surge Lúcio Crasso (L. Crassus), jovem cuja reputação não assenta em heranças nem em protecções, mas na força da sua própria eloquência. Ainda em idade precoce, Crasso conquista notoriedade através de uma acusação pública memorável — gesto audaz numa Roma onde a retórica é arma e escudo.

Dufaux sublinha o contraste: numa fase da vida em que muitos são apenas celebrados por promessas, Crasso já triunfa nos tribunais. A sua presença na corte revela ambição, mas também uma consciência aguda de que, no coração do Império, o verbo pode ser tão letal quanto a lâmina.

As “Neronia” referem-se aos jogos instituídos por Nero — competições artísticas e atléticas concebidas à imagem dos festivais gregos. Mais do que celebração cultural, estes jogos funcionam como instrumento político: distraem o povo, consolidam a imagem do imperador-artista e reforçam a teatralização do poder. Neste contexto, a tensão dramática intensifica-se. A Roma de Murena não é apenas cenário histórico; é um palco onde cada gesto tem peso simbólico. O espectáculo público ecoa as intrigas privadas, e a linha entre justiça e encenação torna-se perigosamente ténue.

Jean Dufaux mantém a sua marca: diálogos densos, quase teatrais, carregados de subtexto. A intriga avança menos pela acção física e mais pelo embate ideológico e moral. A juventude de Crasso serve de contraponto à decadência progressiva do regime de Nero, num jogo subtil entre idealismo e corrupção.

A série, que desde o início tem explorado as zonas de sombra do poder imperial, ganha aqui uma dimensão particularmente política. A retórica, a justiça e a manipulação mediática surgem como temas centrais — surpreendentemente actuais.

Este novo tomo não é apenas mais um capítulo: é uma afirmação da maturidade da série. Roma arde — não necessariamente em chamas, mas na febre da palavra, da e vaidade e do poder.

Base de dados

Murena #13: As Neronia, Jean Dufaux e Jeremy, ASA, 56 pp., cor, capa dura, 17,90€

Lançamento: Simone de Beauvoir – Quero Tudo da Vida

A vida e o pensamento de Simone de Beauvoir continuam a inspirar gerações — e agora ganham uma nova abordagem acessível e visual com o lançamento de Simone de Beauvoir – Quero Tudo da Vida, das autoras Julia Korbik e Julia Bernhard.

Desde muito jovem, numa época em que as mulheres eram privadas de direitos fundamentais como estudar, votar ou escolher livremente a sua profissão, Simone de Beauvoir destacou-se por desafiar convenções. Movida por uma curiosidade insaciável e por uma recusa firme em aceitar papéis impostos, embarcou numa jornada profundamente pessoal: a de construir a sua própria identidade.

Filósofa existencialista e autora da obra marcante O Segundo Sexo, Beauvoir revolucionou a forma como a sociedade encara o papel da mulher. O seu pensamento continua atual, influenciando debates sobre igualdade, liberdade e identidade.

Neste novo livro, Korbik e Bernhard oferecem um retrato multifacetado de Beauvoir — não apenas como intelectual, mas também como filha, amiga e mulher. A obra destaca-se pela sua abordagem visual apelativa, com ilustrações a cores que tornam a leitura mais dinâmica e envolvente, aproximando o público contemporâneo do legado da pensadora. Mais do que uma biografia tradicional, Quero Tudo da Vida convida o leitor a mergulhar nas questões que marcaram a vida de Beauvoir: a condição feminina, a sexualidade e a busca pela liberdade.

Num momento em que as questões de género e igualdade continuam no centro do debate público, esta obra surge como uma leitura relevante e inspiradora. Ao apresentar Simone de Beauvoir de forma acessível e visual, torna o seu pensamento mais próximo de leitores de todas as idades.

Simone de Beauvoir – Quero Tudo da Vida não é apenas uma homenagem — é um convite a pensar, questionar e, sobretudo, a viver com a mesma intensidade e liberdade que marcaram a vida desta pensadora extraordinária.

Base de dados

Simone de Beauvoir – Quero Tudo da Vida,  Julia Korbik e Julia Bernhard, Iguana, 224 pp., cor, capa dura, 21,95€

24 de março de 2026

Sétimo Homem e outros contos

Um homem desaparece entre andares. Um sapo gigante tenta salvar Tóquio. Uma jovem recebe a promessa de um desejo único.

Em Sétimo Homem e Outros Contos, o insólito instala-se no quotidiano com uma naturalidade desconcertante, dando forma a um universo onde o real e o fantástico coexistem sem fronteiras definidas.

Esta obra reúne nove narrativas ilustradas adaptadas a partir de contos de Haruki Murakami, sob a interpretação visual e narrativa de Jean-Christophe Deveney e PMGL. A edição original foi publicada em França, em 2023, com o título Le Septième Homme et autres récits, antes de chegar a outros mercados internacionais.

As histórias que compõem o volume foram inicialmente publicadas no Japão em formato literário, integrando várias colectâneas de Murakami ao longo das décadas. Nesta versão ilustrada, ganham nova dimensão estética, com um traço que reforça o lado onírico, melancólico e por vezes tragicómico tão característico do autor japonês. Entre desaparecimentos inexplicáveis, insónias obsessivas e criaturas improváveis que emergem no coração das grandes cidades, o livro recria esse espaço tão caro a Murakami: a fronteira onde o banal se funde com o extraordinário. O resultado é um cenário poético e ligeiramente barroco, onde o absurdo convive com emoções profundamente humanas como a solidão, o medo e o desejo.

Haruki Murakami é um dos mais reconhecidos escritores contemporâneos do Japão e uma figura central da literatura mundial. Nascido em 1949, em Quioto, destacou-se a partir da década de 1980 com romances que combinam realismo mágico, cultura pop, jazz, solidão urbana e elementos surrealistas. Autor de obras como Norwegian Wood, Kafka à Beira-Mar e 1Q84, Murakami construiu um estilo inconfundível, marcado por atmosferas enigmáticas, personagens introspectivas e acontecimentos inexplicáveis tratados com aparente normalidade. A sua escrita explora frequentemente temas como identidade, memória, perda e a permeabilidade entre mundos.

Base de dados

Sétimo Homem e outros contos, Jean-Christophe Deveney e PMGL, Casa das Letras, 424 pp., cor, capa mole, 31,90€

Coimbra BD


O regresso do Coimbra BD promete transformar a cidade de Coimbra num verdadeiro ponto de encontro para fãs de banda desenhada, cultura pop e criatividade contemporânea. Entre os dias 24 e 26 de Abril, o evento volta a ocupar o emblemático Convento São Francisco (CSF), desta vez com uma área expositiva ampliada e uma programação ainda mais diversificada.

A edição de 2026 destaca-se pela expansão do espaço, com a inclusão da Antiga Igreja do CSF, permitindo acolher mais exposições, atividades e visitantes. Organizado pela Câmara Municipal de Coimbra, o evento mantém a entrada gratuita, reforçando o seu compromisso com a acessibilidade e a promoção cultural.

O cartaz reúne nomes importantes da banda desenhada nacional e internacional. Entre os autores confirmados estão Daniel Maia, Luís Louro, Osvaldo Medina, Ricardo Cabral, João Mascarenhas, Filipe Abranches, André Carrilho, os irmãos Duarte e Henrique Gandum, e ainda o espanhol Ángel de la Calle.

Para além das sessões de autógrafos, os visitantes terão a oportunidade de conhecer de perto o trabalho destes artistas e descobrir novos talentos na área de Artists’ Alley, um espaço dedicado à criatividade independente.

O festival apresenta um conjunto de exposições que cruzam estilos e narrativas, como:

Butterfly Chronicles, de João Mascarenhas

Distopias e Metamorfoses: os Clássicos Ilustrados, de André Carrilho

Rattlesnake, de João Amaral

Kachisou: Entre a BD e Ilustração, da artista portuguesa Kachisou

A programação inclui ainda cinema, lançamentos editoriais, workshops e demonstrações de jogos, incluindo sessões de Dungeons & Dragons.

Uma das grandes novidades deste ano é o reforço do cosplay, com a realização — pela primeira vez em Portugal — de uma eliminatória do Cosplay Central Crown Championships. Esta competição irá selecionar o representante nacional para a final internacional em Londres, elevando o evento a um novo patamar no circuito global. Além disso, regressa o tradicional concurso de cosplay aberto ao público, bem como encontros com cosplayers convidados.

O Coimbra BD aposta numa programação inclusiva, com conteúdos dedicados a mangá, anime e K-Pop, bem como uma área de gaming com consolas, realidade virtual, PC gaming e retrogaming.

As famílias também encontram um espaço dedicado às crianças, com atividades como Horas do Conto, oficinas de pintura e desenho e workshops criativos.

Com horários alargados — das 10h00 às 20h00 nos dias 24 e 25, e até às 18h00 no dia 26 — o Coimbra BD 2026 afirma-se como um dos principais eventos culturais da região. A produção está a cargo da GuessTheChoice, sendo esperado o anúncio detalhado do programa completo em breve.

Se és fã de banda desenhada, ilustração ou cultura pop, este é um evento obrigatório na agenda de Abril.

“O Sr. Agricultor” — humor, simplicidade e humanidade no quotidiano

Publicado em 2026, O Sr. Agricultor, de Rohini Nilekani, com ilustrações de Angie & Upesh, é um livro infantil que reúne pequenas histórias em torno de uma personagem tão excêntrica quanto cativante: Sringeri Srinivas.

O protagonista é um agricultor de uma pequena aldeia, conhecido pelo seu ar rabugento e comportamento imprevisível — mas, paradoxalmente, muito querido por todos. As histórias acompanham episódios do seu quotidiano, marcados por situações simples que ganham contornos inesperados e humorísticos.

O livro insere-se num conjunto mais amplo de histórias protagonizadas pela mesma personagem, originalmente publicadas pela editora indiana Pratham Books.

Títulos como Too Many Bananas ou Annual Haircut Day exploram o mesmo universo, centrado no humor e em situações do quotidiano rural. 

Este contexto ajuda a perceber que O Sr. Agricultor não é apenas um livro isolado, mas parte de uma espécie de “ciclo” narrativo, onde a repetição da personagem reforça a identificação do jovem leitor.

Rohini Nilekani é uma filantropa, autora e ex-jornalista indiana. Reconhecida pelo seu impacto no sector social da Índia ao longo de décadas. Escreveu diversas obras, desde thrillers médicos a livros infantis populares.

Angie & Upesh são Angeline S. Pradhan e Upesh Pradhan, uma dupla de ilustradores e designers indianos, conhecidos pelo seu trabalho em ilustração. Mas não só, também são reconhecidos como autores de outras formas de artes manuais.

Para os interessados, a obra está disponível em https://linktr.ee/faeditora

O Sr. Agricultor, Rohini Nilekani e Angie & Upesh, FA, 44 pp., cor, capa mole, 17,90€ (e-book: 7,99€)

Há monstros debaixo da minha cama? — A imaginação sem limites de Calvin & Hobbes regressa às livrarias

As aventuras de Calvin e do seu inseparável tigre de peluche Hobbes continuam a conquistar leitores em todo o mundo. Publicadas pela primeira vez em Novembro de 1985, as tiras desta série tornaram-se um fenómeno internacional, traduzido em mais de quarenta línguas e com cerca de trinta milhões de exemplares vendidos. Agora, os leitores portugueses têm novamente a oportunidade de mergulhar neste universo com a reedição do livro “Há monstros debaixo da minha cama?”, lançada pela Gradiva.

O volume corresponde à edição original “Something Under the Bed Is Drooling”, publicada em 1988, e reúne um conjunto de tiras que acompanharam os primeiros anos de sucesso da série nos jornais. Nelas encontramos o humor inteligente, a imaginação exuberante e a visão irreverente do mundo que tornaram estas personagens tão queridas por várias gerações.

Calvin é um rapaz de seis anos com uma imaginação ilimitada. Num momento pode estar a lutar contra monstros escondidos debaixo da cama e, no instante seguinte, transforma-se num astronauta destemido ou num explorador intergaláctico. Ao seu lado está sempre Hobbes, o tigre de peluche que, aos olhos de Calvin, ganha vida própria e participa nas suas aventuras, partilhando reflexões inesperadamente profundas e comentários sarcásticos sobre o quotidiano.

A reedição de “Há monstros debaixo da minha cama?” surge como uma excelente oportunidade para novos leitores descobrirem o universo de Calvin & Hobbes e para os fãs de longa data revisitarem algumas das histórias mais memoráveis da dupla. Num tempo em que o humor rápido domina as redes sociais, estas tiras recordam-nos que a imaginação, a curiosidade e o espírito crítico continuam a ser ingredientes essenciais para olhar a realidade com outros olhos.

Mais do que simples banda desenhada, Calvin & Hobbes permanece um clássico intemporal que continua a fazer rir, pensar e sonhar.

Base de dados

Calvin & Hobbes: Há monstros debaixo da minha cama?. Bill Watterson, Gradiva, 128 pp., p&b, capa mole, 13,99€

23 de março de 2026

Hermann [1938-2026]

O desenhador belga Hermann Huppen, conhecido artisticamente apenas como “Hermann”, faleceu a 22 de Março de 2026, aos 87 anos, deixando uma das carreiras mais marcantes da banda desenhada europeia.

Hermann nasceu a 17 de Julho de 1938, em Malmedy, na Bélgica. Antes de se dedicar aos quadradinhos, formou-se em marcenaria e trabalhou como designer de interiores. Entrou no mundo da banda desenhada nos anos 1960, publicando as primeiras histórias na revista Spirou. O seu talento foi rapidamente reconhecido pelo argumentista Greg, com quem colaborou em várias séries iniciais. A partir do final da década de 1970, começou a escrever também os seus próprios argumentos, afirmando-se como autor completo. Desenvolveu um estilo realista, frequentemente sombrio, marcado por uma visão crítica da sociedade e da natureza humana.

Hermann construiu uma obra extensa e influente, com séries que se tornaram clássicos da banda desenhada franco-belga:

Jeremiah (desde 1979) – A sua obra mais famosa, uma série pós-apocalíptica que viria a ser adaptada para televisão.  

Bernard Prince (1969–1980) – Série de aventura marítima criada com Greg.

Comanche (1972–1983) – Um western de referência na BD europeia. 

Jugurtha (1975–1977) – Série histórica ambientada na Antiguidade. 

As Torres de Bois-Maury (desde 1983) – Saga medieval mais introspectiva e realista.

Além destas séries, produziu diversos álbuns independentes, como Sarajevo Tango ou Caatinga, este último ambientado no Nordeste brasileiro, além de vários trabalhos com o seu filhos Yves como argumentista.

Ao longo da carreira, Hermann recebeu numerosos prémios importantes no mundo da banda desenhada:

Prix Saint-Michel (1973 e 1980);

Grande Prémio Saint-Michel (2002);

Prémios Haxtur (Espanha), incluindo melhor álbum (1992) e melhor desenho (2001);

Grande Prémio da Cidade de Angoulême (2016), uma das maiores distinções da BD mundial;

Troféu HQ Mix (Brasil, 1999), pelo álbum Caatinga.

Hermann é considerado um dos grandes mestres da banda desenhada europeia. A sua obra destacou-se pelo realismo gráfico, pela complexidade psicológica das personagens e por narrativas frequentemente duras e desencantadas. Com séries como Jeremiah ou Les Tours de Bois-Maury, influenciou várias gerações de autores e ajudou a consolidar a banda desenhada como forma de arte adulta e literária.

Ensaio de quadriculografia portuguesa

HP de Guido Buzzelli

HP, de Guido Buzzelli com argumento de Alexis Kostandi, é uma obra singular da banda desenhada europeia que cruza ficção científica, sátira social e imaginário western, assumindo-se como um verdadeiro “western distópico” no sentido mais amplo do termo.

A narrativa, originalmente criada em 1973, decorre num mundo pós-apocalíptico onde coexistem duas realidades: por um lado, uma cidade ultratecnológica dominada por uma elite militar e científica; por outro, comunidades marginalizadas que sobrevivem em territórios áridos, evocando o ambiente clássico do faroeste. No centro da história surge o enigmático “HP” (Horse Power), um cavalo mecânico lançado como instrumento de manipulação e controlo social. A perseguição a essa criatura desencadeia uma reflexão amarga sobre poder, ilusão e violência estrutural. 

Buzzelli utiliza este cenário para construir uma alegoria feroz: a promessa de progresso tecnológico revela-se enganadora, servindo antes para perpetuar desigualdades e subjugar populações. O tom grotesco e por vezes absurdo — característico do autor — reforça essa crítica, transformando o western tradicional numa fábula distópica sobre decadência civilizacional. 

Em Portugal, HP foi publicado pela editora Escorpião Azul, fundada por Jorge Deodato. Esta edição integra o esforço da editora em divulgar autores internacionais relevantes no panorama da BD. A edição portuguesa contou com prefácio do próprio Jorge Deodato, enquadrando a importância de Buzzelli enquanto figura pioneira da graphic novel europeia e destacando o carácter visionário de HP.

Base de dados

HP, Guido Buzzelli e Alexis Kostandi, Escorpião Azul, 109 pp., p&b, capa mole, 24€

20 de março de 2026

Elric encontra Stormbringer: o segundo volume da saga chega em banda desenhada

Depois do impacto de O Trono de Rubi, a saga de Elric de Melniboné continua com Stormbringer, o segundo volume da série publicada em Portugal pela Arte de Autor. A adaptação da obra criada por Michael Moorcock aprofunda agora o destino trágico do imperador albino e introduz um dos elementos mais emblemáticos de toda a fantasia: a sua espada demoníaca.

A história retoma os acontecimentos do primeiro volume com uma situação dramática. Yyrkoon, primo e rival de Elric, fugiu de Melniboné, levando consigo Cymoril, a noiva do imperador. Determinado a resgatá-la, Elric descobre que ela se encontra prisioneira nas ruínas de Dhoz Kham, nos chamados Reinos Jovens.

Para enfrentar o seu primo e recuperar Cymoril, Elric reúne um pequeno grupo de aliados e recebe a bênção de Straasha, o Senhor dos Mares. A viagem conduz-lo a um confronto decisivo, onde o destino do imperador e do seu império começa a tomar um rumo cada vez mais sombrio.

Mas o momento mais marcante deste volume é o encontro de Elric com Stormbringer, a lendária espada negra que se tornará inseparável da personagem. Mais do que uma simples arma, Stormbringer é uma entidade com vontade própria, capaz de devorar almas e alimentar a força vital do seu portador — um poder terrível que irá marcar profundamente o destino trágico de Elric.

Tal como o primeiro volume, esta adaptação apresenta um impressionante trabalho visual de Didier Poli e Robin Recht, que recriam o universo decadente e fantástico de Moorcock com cenários grandiosos e uma atmosfera gótica que se adequa perfeitamente à narrativa. O argumento continua a cargo de Julien Blondel e Jean-Luc Cano, responsáveis por condensar a complexa mitologia da saga numa narrativa visual fluida e intensa.

A edição ganha ainda um toque especial com um prefácio de Alan Moore, um dos autores mais influentes da história da banda desenhada, cuja presença reforça o estatuto quase mítico desta adaptação.

Considerada pelo próprio Michael Moorcock como “a melhor adaptação alguma vez feita” do seu universo, esta série confirma, volume após volume, a força duradoura de Elric — um anti-herói trágico, melancólico e profundamente humano, que continua a fascinar leitores décadas depois da sua criação. Com Stormbringer, a saga avança para territórios cada vez mais épicos e sombrios, aproximando-nos do coração da lenda de Elric e da maldição que o acompanhará para sempre.

Base de dados

Elric #2: Stormbringer, Julien Blondel, Jean-Luc Cano, Didier Poli, Robin Recht, Arte de Autor, 56 pp., cor, capa dura, 19,50€

18 de março de 2026

Solo Leveling #17

O fenómeno global Solo Leveling continua a conquistar leitores por todo o mundo, e o seu 17.º volume confirma que esta não é apenas uma história de ascensão — é uma saga em constante reinvenção. Publicado originalmente em 2023 na Coreia do Sul pela D&C Media, este volume chega agora ao público português através da Editorial Presença, trazendo consigo uma nova etapa carregada de tensão, mistério e acção.

Depois da batalha final que redefiniu o destino do mundo, Seong Jinu já não é apenas o caçador mais poderoso — é alguém que carrega o peso de tudo o que foi e do que ainda poderá ser. Este volume mergulha precisamente nesse espaço: o “depois” que tantas histórias evitam explorar.

Jinu regressa ao mundo humano após anos de ausência entre dimensões, procurando uma vida tranquila. No entanto, rapidamente se torna evidente que a paz não é um caminho fácil para alguém com o seu passado. Fenómenos inexplicáveis começam a surgir, e forças antigas despertam, atraídas pelo poder que ele tentou esconder.

Um dos grandes trunfos deste volume está no conflito interno do protagonista. Longe de ser apenas uma máquina de combate, Jinu enfrenta agora um dilema mais humano: até que ponto pode ele escolher a sua própria vida, quando o mundo continua a precisar dele? Os ecos do passado tornam-se cada vez mais intensos, e a narrativa constrói uma atmosfera de antecipação constante. Há uma sensação clara de que algo maior se aproxima — uma crise que exigirá decisões difíceis e sacrifícios inevitáveis.

Fiel à identidade da série, este volume não abdica de sequências de acção intensas e visualmente marcantes. No entanto, vai mais longe ao aprofundar o universo da história, introduzindo novos enigmas e expandindo as forças em jogo. As ameaças deixam de ser apenas físicas — há agora uma dimensão mais ampla, quase mitológica, que eleva o tom da narrativa e prepara o terreno para confrontos ainda mais grandiosos.

Parte do sucesso de Solo Leveling reside na sua capacidade de equilibrar espetáculo com evolução narrativa. O 17.º volume prova isso mesmo: ao invés de repetir fórmulas, aposta na transformação do protagonista e na expansão do mundo. Para fãs de longa data, este é um capítulo essencial que aprofunda as consequências do final da história principal. Para novos leitores, é mais uma demonstração do porquê desta série ter alcançado milhões de leitores globalmente.

Base de dados

Solo Leveling, Chugong, Presença, 272 pp., cor, capa mole, 16,90€ 


17 de março de 2026

Os Cabelos de Edith: memória, culpa e reconciliação na Paris do pós-guerra

Na Primavera de 1945, a Europa começava lentamente a despertar de um dos períodos mais sombrios da sua história. Em Paris, o histórico Hotel Lutetia foi transformado num centro de acolhimento para sobreviventes dos campos de concentração nazis que regressavam a casa após o fim da guerra. É neste cenário carregado de emoção e memória que se desenrola Os Cabelos de Édith, um romance gráfico sensível e profundamente humano.

A obra é assinada por Fabienne Blanchut e Catherine Locandro, com ilustrações do desenhador Dawid Cathelin (conhecido artisticamente como Dawid). O livro foi publicado originalmente em França em Setembro de 2025, pela editora Dargaud, e chega este mês a Portugal, numa edição da ASA.  

A história acompanha Louis, um estudante de 17 anos que, numa Paris recentemente libertada, divide o seu tempo entre os estudos para o exame final do liceu e pequenos trabalhos. Tudo muda quando decide tornar-se voluntário no centro de repatriamento instalado no Hotel Lutetia. Ali chegam diariamente homens e mulheres que sobreviveram ao horror dos campos de concentração. É nesse contexto que Louis conhece Edith, uma jovem que regressou de Auschwitz‑Birkenau. Marcada por memórias traumáticas, Edith vive presa a um silêncio pesado, incapaz de traduzir plenamente a experiência que viveu. Ainda assim, entre ela e Louis nasce um vínculo profundo, feito de gestos simples, respeito e uma tentativa sincera de compreender o sofrimento do outro.

Ao mesmo tempo, o jovem confronta-se com uma revelação devastadora sobre a sua própria família. Ao investigar o passado da guerra, Louis descobre que o pai trabalhou como motorista durante a ocupação e transportou judeus para o campo de internamento de Drancy Internment Camp, ponto de partida para deportações para os campos de extermínio. A descoberta provoca uma ruptura irreparável entre pai e filho, colocando Louis perante questões difíceis sobre culpa, responsabilidade e memória histórica.

Com uma narrativa delicada e emocionalmente poderosa, Os Cabelos de Edith aborda temas fundamentais da memória do Holocausto: a dificuldade de regressar à vida após o trauma, o silêncio das vítimas e o peso moral que a guerra deixou em toda uma geração. O desenho suave e expressivo de Dawid reforça essa dimensão humana, criando um contraste tocante entre a ternura das personagens e a violência do passado que as assombra. Mais do que um relato histórico, este romance gráfico é também uma reflexão sobre a necessidade de lembrar. Ao contar uma história íntima dentro da grande História, os autores prestam homenagem aos sobreviventes e recordam-nos que compreender o passado é essencial para evitar que o horror se repita.

Com a edição portuguesa da ASA, Os Cabelos de Edith afirma-se como uma das obras de banda desenhada histórica mais marcantes dos últimos anos, convidando leitores de todas as idades a refletirem sobre memória, responsabilidade e humanidade.

Os Cabelos de Edith, Fabienne Blanchut, Catherine Locandro e Dawid, ASA, 168 pp., capa dura, 24,90€

Jujutsu Kaisen #19: 1.ª Colónia de Tóquio – A ira do Homem

O volume 19 de Jujutsu Kaisen, da autoria de Gege Akutami, mergulha ainda mais fundo no intenso arco narrativo do Jogo da Extinção, colocando Yuji Itadori e Megumi Fushiguro perante novos desafios e inimigos cada vez mais perigosos.

Determinados a alterar as regras do jogo mortal criado por Kenjaku, Itadori e Fushiguro partem em busca de Hiromi Higuruma, um poderoso participante que já acumulou 100 pontos — uma pontuação suficiente para introduzir novas regras no jogo. A esperança dos protagonistas é persuadi-lo a colaborar, criando condições que possam salvar mais participantes e alterar o rumo deste confronto sobrenatural.

Ao entrarem na 1.ª Colónia de Tóquio, uma das zonas onde decorre o Jogo da Extinção, os dois acabam por se separar, o que complica ainda mais a missão. Cada um terá de enfrentar adversários perigosos e tomar decisões difíceis enquanto tenta localizar Higuruma.

Em  A ira do Homem, este volume aprofunda a dimensão moral e psicológica do conflito, explorando temas como justiça, culpa e vingança. Hiromi Higuruma revela-se uma personagem complexa, cuja visão do mundo e do sistema de justiça coloca Itadori perante um dilema moral.

Entre combates espectaculares e momentos de tensão dramática, o volume 19 continua a expandir o universo de Jujutsu Kaisen, preparando o terreno para confrontos ainda mais decisivos dentro do Jogo da Extinção.

O volume 19 de Jujutsu Kaisen foi publicado originalmente no Japão a 4 de Abril de 2022, pela editora Shueisha, reunindo capítulos que haviam sido previamente serializados na revista Weekly Shōnen Jump, uma das publicações mais influentes do manga contemporâneo.

Jujutsu Kaisen #19: 1.ª Colónia de Tóquio – A ira do Homem, Gege Akutami, Devir, 208 pp., p&b, capa mole, 9,99€

16 de março de 2026

Dan Da Dan #2: monstros, espíritos e acção sem travões

Depois de um primeiro volume explosivo, Dan Da Dan de Yukinobu Tatsu, regressa com uma continuação ainda mais caótica, misturando terror sobrenatural, humor absurdo e batalhas frenéticas.

A história acompanha Okarun, um jovem obcecado por fenómenos paranormais, e Ayase Momo, uma estudante do secundário com poderes psíquicos. No final do primeiro volume, Okarun acaba amaldiçoado pela temível Velhota Turbo, um espírito lendário que habita num local assombrado. Para quebrar a maldição, os dois são forçados a aceitar um desafio insólito: jogar à apanhada contra o espírito. A única forma de sobreviver é fugir e vencer o desafio. No entanto, a tarefa complica-se quando surge um novo perigo pelo caminho: o espírito vingativo de um assassino preso à Terra, que assume a forma de um gigantesco caranguejo sobrenatural. Entre perseguições, confrontos e situações cada vez mais absurdas, Okarun e Momo terão de usar todas as suas capacidades — paranormais ou não — para escapar.

Neste segundo volume, Yukinobu Tatsu intensifica todos os elementos que tornaram a série popular: combates frenéticos contra criaturas sobrenaturais, aparições bizarras e monstros gigantes, uma narrativa rápida, cheia de humor inesperado e a dinâmica peculiar entre os dois protagonistas.

A mistura de romance juvenil, terror paranormal e acção desenfreada continua a ser uma das marcas distintivas da obra, mantendo o leitor constantemente surpreendido.

Dan Da Dan é uma série relativamente recente no universo do manga. A obra de Yukinobu Tatsu foi publicada pela primeira vez a 6 de Abril de 2021 na plataforma digital Shōnen Jump+, da editora japonesa Shueisha, conhecida por acolher títulos inovadores dentro do universo shōnen.

Com este segundo volume, Dan Da Dan confirma o seu tom imprevisível e caótico: uma corrida constante entre espíritos, monstros gigantes e emoções à flor da pele, onde o amor e o perigo parecem sempre andar lado a lado.

Dan Da Dan #2, Yukinobu Tatsu, Devir, 204 pp., p&b, capa mole, 9,99€

Elric de Melniboné regressa à banda desenhada – “O Trono de Rubi”

Entre as grandes figuras da fantasia heróica do século XX, poucas são tão singulares como Elric de Melniboné, o imperador albino criado por Michael Moorcock. Agora, esta personagem regressa à banda desenhada numa nova adaptação publicada em Portugal pela Arte de Autor, com o primeiro volume da série: O Trono de Rubi.

Criado em 1961 e rapidamente transformado numa figura de culto da literatura fantástica, Elric é tudo o que um herói tradicional não é. Frágil, doente e dependente de drogas e magia para sobreviver, o imperador de Melniboné governa um império antigo e decadente, herdeiro de poderes concedidos pelos deuses há milénios. Este contraste entre poder absoluto e fraqueza física dá origem a uma personagem profundamente trágica, marcada por dúvidas, ambiguidade moral e uma ligação inquietante aos Senhores do Caos.

Neste primeiro volume, O Trono de Rubi, acompanhamos um momento crítico do reinado de Elric. O seu primo Yyrkoon, ambicioso e implacável, despreza a fragilidade do imperador e pretende usurpar-lhe o trono. Quando surge a notícia de um iminente ataque de piratas às costas do império, Elric vê aí uma oportunidade para reafirmar a sua autoridade. No entanto, ao fazê-lo, revela não apenas a sua complexidade enquanto governante, mas também a sua ligação ao poderoso Senhor do Caos Arioch, entidade cujos desígnios permanecem envoltos em mistério.

A adaptação desta saga clássica assume aqui uma forma particularmente ambiciosa. Produzida por uma equipa criativa francesa, com ilustração de Didier Poli e Robin Recht, a série apresenta uma abordagem visual grandiosa, marcada por cenários sombrios, arquitetura fantástica e uma atmosfera gótica que combina perfeitamente com o universo criado por Moorcock.

A saga de Elric tem uma longa história de adaptações — desde romances e jogos de role-playing até videojogos e banda desenhada, incluindo a célebre interpretação de Philippe Druillet no final da década de 1960. Esta nova versão, no entanto, destaca-se pela ambição narrativa e pela qualidade gráfica, tendo recebido a aprovação entusiástica do próprio Moorcock.

Com O Trono de Rubi, a Arte de Autor inicia a publicação de uma série que promete trazer às livrarias portuguesas uma das mais icónicas sagas da fantasia. Épica, gótica e fascinante, esta adaptação devolve-nos um dos anti-heróis mais marcantes do género — uma personagem cuja grandeza reside precisamente nas suas contradições.

Para leitores de fantasia clássica, fãs de banda desenhada europeia ou simplesmente curiosos por descobrir uma das figuras mais influentes do género, este primeiro volume é um convite irresistível para entrar no mundo sombrio e majestoso de Elric de Melniboné.

Elric #1: O Trono de Rubi", Julien Blondel, Didier Poli, Robin Recht e Jean Bastide, Arte de Autor, 64 pp., cor, capa dura, 19,50€

15 de março de 2026

Qual é o problema com os beijos de cão? – Mais histórias irresistíveis do Snoopy

As aventuras do Snoopy parecem nunca ter fim — e ainda bem! No novo livro da colecção Peanuts da Nuvem de Letras, “Qual é o problema com os beijos de cão?”, somos novamente convidados a entrar no mundo divertido, caótico e surpreendentemente terno do cão mais famoso da banda desenhada.

Criado por Charles M. Schulz, o universo de Snoopy continua a encantar leitores de todas as idades. Desta vez, Snoopy vê a sua rotina (se é que ele tem alguma!) virar do avesso com a visita inesperada do seu irmão mais velho, Spike. Entre situações absurdas, momentos de ternura e muito humor, o nosso beagle preferido prova que a vida nunca é aborrecida quando se tem amigos por perto.

Como sempre, Snoopy não está sozinho. Ao seu lado estão o fiel Woodstock, a determinada Lucy van Pelt, o reflexivo Linus van Pelt e, claro, o eterno sonhador Charlie Brown — o “miúdo da cabeça redonda” que todos reconhecemos.

Ao longo das páginas, acompanhamos Snoopy em momentos tão inesperados quanto hilariantes: uma pata fracturada, cartas de rejeição particularmente cruéis, um irmão em fuga e até um momento complicado em Wimbledon. Mas, mesmo quando tudo parece correr mal, há sempre amizade, imaginação e um toque de humor para pôr as coisas no lugar.

Com a ajuda dos amigos, Snoopy consegue voltar a equilibrar a vida — e talvez até roubar um daqueles famosos beijos de cão, babados e cheios de carinho. Afinal, como o próprio Snoopy diria: qual é realmente o problema com os beijos de cão?

Este novo volume da colecção Peanuts é perfeito tanto para fãs antigos como para novos leitores que querem descobrir o charme intemporal destas personagens. Entre tiras clássicas e momentos inesquecíveis, o livro recorda-nos algo simples, mas essencial: mesmo nos dias mais complicados, a amizade e o humor podem fazer toda a diferença.

Se procura uma leitura leve, divertida e cheia de coração, “Qual é o problema com os beijos de cão?” é uma excelente companhia.

Qual é o problema com os beijos de cão?, Charles Schulz, Nuvem de Letras, 196 pp., cor, capa dura, 15,95€

13 de março de 2026

12 de março de 2026

Made in Abyss – Volume 4: Mais fundo no mistério do Abismo

O quarto volume de Made in Abyss leva-nos ainda mais fundo numa das histórias mais fascinantes e inquietantes da manga contemporânea. À medida que a narrativa avança, o Abismo revela novas camadas de perigo, beleza e mistério, colocando à prova a coragem dos seus jovens exploradores.

No centro da história continua a estar o Abismo, uma gigantesca cratera que mergulha nas profundezas da Terra e que esconde criaturas enigmáticas, relíquias de civilizações antigas e fenómenos que desafiam a compreensão humana. A sua origem permanece envolta em mistério, e cada nova camada explorada revela perigos ainda mais extremos. Ao longo dos anos, inúmeros exploradores tentaram desvendar os segredos deste lugar. Muitos desapareceram para sempre nas suas profundezas. Apenas os mais extraordinários conseguem sobreviver às descidas mais perigosas: os lendários Apitos Brancos, figuras quase míticas para os habitantes da superfície.

Neste volume, Rico e Reg continuam a sua arriscada descida pelo Abismo na esperança de encontrar a mãe de Rico. A jornada torna-se ainda mais intensa com a companhia de Nanachi, uma personagem tão adorável quanto misteriosa: um híbrido entre humano e animal que carrega consigo um passado sombrio e doloroso. A travessia leva-os por locais assustadores e fascinantes, como o temível Campo de Flores Proibido, um cenário tão belo quanto mortal. A tensão aumenta à medida que o grupo se aproxima da parte inferior da quinta camada do Abismo.

O destino deste volume é Ido Front, uma cidadela misteriosa que guarda segredos profundos sobre o funcionamento do Abismo. É aqui que os protagonistas conhecem Prushka, uma rapariga doce e curiosa, cuja vida está inevitavelmente ligada ao seu pai. Esse pai é ninguém menos que Bondrewd, um dos Apitos Brancos mais temidos e enigmáticos. A sua presença traz à narrativa um dos momentos mais intensos, perturbadores e emocionalmente devastadores de toda a série

Made in Abyss #4, AkihitoTsukushi, A Seita, 168 pp., p&b, capa mole, 9,99€

11 de março de 2026

LouriBD regressa à Lourinhã com uma semana dedicada à descoberta na Banda Desenhada

A vila da Lourinhã prepara-se para receber a 4.ª edição do LouriBD – Festival de Banda Desenhada da Lourinhã, que decorre entre 16 e 22 de Março, reunindo autores, editores, leitores e público escolar numa programação dedicada à criação contemporânea e à reflexão em torno da banda desenhada.

Organizado pelo Município da Lourinhã, em parceria com a editora local Escorpião Azul, o festival conta ainda com o apoio media da Antena 1 e com a colaboração do Museu da Lourinhã e da Galeria Parasol. Ao longo de uma semana, o evento propõe um encontro entre diferentes públicos e criadores, afirmando-se como um espaço de partilha, descoberta e debate.

Sob o tema “A Descoberta”, o LouriBD propõe uma reflexão sobre o acto de explorar novas possibilidades criativas dentro da narrativa gráfica. A ideia de descoberta atravessa toda a programação do festival, seja através da revelação de novos autores, da experimentação de linguagens visuais ou da apresentação de novas leituras da banda desenhada contemporânea. A iniciativa pretende assim incentivar o contacto com diferentes formas de expressão artística e promover o diálogo entre criadores e público.

Ao longo da semana, o festival apresenta um mercado do livro de banda desenhada e diversas exposições, que poderão ser visitadas durante todo o evento. A programação inclui ainda oficinas dirigidas a vários públicos, desde o pré-escolar e os diferentes ciclos do ensino básico e secundário até ao público sénior. Entre as actividades previstas estão também sessões de autógrafos e conversas com autores convidados, proporcionando momentos de proximidade entre criadores e leitores.

O programa intensifica-se durante o fim-de-semana, com lançamentos e apresentações de novas obras, bem como debates integrados nos Estados Gerais da Banda Desenhada, espaço dedicado à reflexão crítica sobre o presente e o futuro da BD.

A programação inclui ainda uma sessão de cinema dirigida ao público familiar e a apresentação do Primeiro Museu Nacional de Banda Desenhada, iniciativa que pretende valorizar e preservar o património desta forma de expressão artística.

Um dos momentos especiais do festival terá lugar no dia 22 de Março, com o lançamento do livro “Portugal Jurássico”, no Museu da Lourinhã. A obra estabelece uma ponte entre o património científico associado à paleontologia da região e a criação artística em banda desenhada.

A exposição colectiva desta edição reúne autores de Portugal e do Brasil, representando diferentes estilos e abordagens estéticas dentro da narrativa gráfica. Nesta mostra, as máscaras assumem um papel conceptual de destaque, surgindo trabalhadas em cortiça e acompanhadas por ilustrações produzidas com caneta BIC, café e vinho. A proposta explora temas como identidade, anonimato e liberdade formal, revelando novas possibilidades materiais e simbólicas no campo da ilustração.

Com esta quarta edição, o LouriBD reforça um modelo de colaboração entre instituições culturais e o sector editorial, consolidando-se progressivamente como um espaço de programação regular, debate crítico e apresentação de nova produção em banda desenhada.

Mais informações sobre o festival podem ser consultadas no site do Município da Lourinhã.