Publicada originalmente com o título Le prince des oiseaux de haut vol (2023), esta banda desenhada chega em Portugal pela ASA, propondo uma leitura que cruza biografia, ficção e homenagem literária.
Abril de 1942. Em plena Segunda Guerra Mundial, Saint-Exupéry encontra-se em Nova Iorque, afastado do combate e profundamente desanimado. Aviador por vocação e patriota convicto, sente-se inútil longe da França ocupada. É neste contexto que aceita um convite inesperado: uma digressão promocional pelo Canadá. Contudo, o que parecia uma simples viagem transforma-se rapidamente num impasse político — com o encerramento das embaixadas francesas, o escritor acaba “preso” no Quebeque. Girard parte deste episódio histórico para construir uma narrativa onde a realidade se mistura com elementos que parecem saídos diretamente de O Principezinho.
Durante a sua estadia no Canadá, Saint-Exupéry cruza-se com figuras enigmáticas: uma menina que desenha carneiros, um acendedor de candeeiros, um rapaz de olhar curioso que faz perguntas incessantes.
Para qualquer leitor familiarizado com a sua obra mais célebre, estes encontros não são coincidência. São ecos — ou talvez sementes — do universo que viria a ganhar forma pouco depois. A banda desenhada constrói assim uma espécie de “pré-história” de O Principezinho, sugerindo que a criação literária nasce tanto da experiência vivida como da necessidade emocional de escapar a ela.
O traço de Philippe Girard aposta numa estética expressiva e acessível, que equilibra leveza com profundidade. As paisagens canadianas — entre cidades e zonas rurais — servem de pano de fundo para o isolamento do protagonista, ao mesmo tempo que acolhem a emergência de um mundo interior rico e simbólico. Mais do que uma biografia tradicional, esta obra funciona como uma meditação sobre a solidão, a guerra e o poder da imaginação.
No fim, fica a sensação de que Girard não quis apenas contar o que aconteceu — quis imaginar o que poderia ter acontecido dentro da mente de um homem que, longe de casa e da guerra, encontrou uma outra forma de resistência: a criação.
O Príncipe dos Pássaros de Alto Voo, Philippe Girard, ASA, 160 pp., cor, capa dura, 29,90€




Parabéns pelo comentário. Foi exatamente isso tudo que senti quando tive contacto pela primeira vez com este livro. A força da criação mesmo em tempos conturbados, a matéria que viria a dar um dos livros mais lidos de sempre e ,tudo com um desenho e cores super adequados ao ambiente que se pretende recriar. Um livro diferente, mas muito bom. O autor virá do Canadá em meados de junho e irá estar presente na Feira do Livro de Lisboa e na BD BEJA. Obrigado.
ResponderEliminarAgradeço as suas palavras.
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