sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O Anjo Pasolini – Pasolini revisitado em novela gráfica

A Levoir, em parceria com o jornal Público, publica O anjo Pasolini, de Éric Liberge (desenho), Arnaud Delalande e Denis Gombert (argumento), integrado na X Série da colecção Novela Gráfica.

Publicado originalmente em França pela Denoël Graphic, em Fevereiro de 2025, L’Ange Pasolini assinala os cinquenta anos da morte de Pier Paolo Pasolini (1922-1975), uma das personalidades mais singulares, polémicas e influentes da cultura italiana do século XX.

Poeta, cineasta, escritor, ensaísta e intelectual marxista, Pasolini assumiu publicamente a sua homossexualidade numa Itália profundamente marcada pelo catolicismo e pelo conservadorismo moral. Ao longo da sua carreira transformou, sobretudo, o cinema num poderoso instrumento de intervenção política, social e cultural. Crítico feroz do consumismo, da burguesia italiana e da transformação acelerada da sociedade do pós-guerra, Pasolini considerava que a expansão do capitalismo e da sociedade de consumo estava a provocar uma profunda uniformização cultural e uma verdadeira mutação antropológica. Nem a esquerda escapou às suas críticas, numa atitude intelectual que frequentemente o colocou numa posição incómoda e isolada. Nos últimos anos da sua vida, as suas intervenções tornaram-se particularmente contundentes. Nos artigos publicados na imprensa italiana, questionou as estruturas do poder e denunciou a corrupção e as ligações entre interesses políticos, económicos e outros poderes instalados. Pasolini tornara-se uma voz difícil de enquadrar e ainda mais difícil de silenciar.

É precisamente na sua morte que L’Ange Pasolini começa.

Estamos em novembro de 1975. Pasolini, com 53 anos, é atraído para uma armadilha numa praia de Ostia, nos arredores de Roma, onde é brutalmente agredido e assassinado. Enquanto agoniza, surge-lhe um anjo. Entre ambos inicia-se um diálogo que permite revisitar os momentos fundamentais da vida do poeta e cineasta.

A opção de Delalande e Gombert não é, portanto, a de construir uma biografia convencional. O encontro imaginário entre Pasolini e o anjo funciona como dispositivo narrativo para um exame de consciência: regressam as origens familiares, as contradições políticas e religiosas, a sexualidade, a criação artística, as polémicas, os sucessos e os fracassos de uma vida marcada por permanentes conflitos. É também um retrato das contradições do próprio Pasolini: progressista mas crítico da modernidade, marxista mas profundamente interessado pelo sagrado, provocador e simultaneamente nostálgico de um mundo popular que via desaparecer perante o avanço da sociedade de consumo. A própria apresentação da edição francesa sublinha essa sucessão de paradoxos que marcou a sua personalidade e a sua obra.

O desenho de Éric Liberge, em preto e branco, acompanha essa abordagem introspectiva e contribui para uma narrativa que se situa entre a biografia, a evocação histórica e a reflexão sobre a memória. Mais do que contar simplesmente a vida de Pier Paolo Pasolini, L’Ange Pasolini procura regressar às suas ideias, às suas inquietações e às suas contradições. Cinquenta anos depois do seu assassinato, muitas das questões que colocou — o poder dos meios de comunicação, a sociedade de consumo, a uniformização cultural, a relação entre política e poder económico — ajudam também a explicar por que razão Pasolini continua a ser uma figura tão discutida e atual.

O Anjo Pasolini, Arnaud Delagrand, Denis Gombert e Eric Liberge, Levoir, 104 pp., p&b, 16,90€



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