Com este segundo volume encerra-se a perturbadora viagem de Polza Mancini, uma das personagens mais extraordinárias e desconcertantes criadas pela banda desenhada francesa contemporânea.
Polza continua sob custódia policial, interrogado na sequência da morte de uma jovem. Obeso, marginal, inteligente e profundamente perturbado, relata aos investigadores os acontecimentos que o conduziram até ali. Mas o seu depoimento está longe de constituir uma simples confissão. É uma descida aos lugares mais obscuros da memória e da mente de um homem que decidiu abandonar as convenções da sociedade para perseguir uma experiência quase impossível de explicar.
O Blast é aquele instante de iluminação que Polza procura obsessivamente: um momento em que a realidade parece dissolver-se e ele é transportado para outro estado de consciência, libertando-se, ainda que brevemente, do peso do corpo, da existência e do mundo. Para voltar a encontrá-lo, Polza afasta-se progressivamente da sociedade. Deambula, bebe, dorme ao relento, conhece outros excluídos e atravessa sucessivas experiências de degradação física e psicológica. Pelo caminho surgem hospitais psiquiátricos, pesadelos, alucinações, violência e recordações que tornam cada vez mais difícil distinguir a verdade da versão que ele próprio construiu.
Neste segundo integral, a viagem aproxima-se inevitavelmente do seu destino. As peças dispersas começam a encontrar o seu lugar e os acontecimentos que conduziram Polza à esquadra adquirem progressivamente outro significado. A verdade aproxima-se — mas não necessariamente da maneira que esperamos.
Larcenet abandona aqui grande parte dos códigos gráficos pelos quais se tornara conhecido e mergulha num universo predominantemente a preto e branco, carregado de manchas, sombras, texturas e silêncios. Os corpos têm peso. A lama parece colar-se às páginas. As florestas tornam-se simultaneamente refúgio e ameaça. Os rostos revelam uma humanidade que oscila permanentemente entre a ternura e a brutalidade. Estamos perante um Larcenet muito diferente daquele que muitos leitores conheceram através de obras mais humorísticas. É um autor disposto a explorar os limites da própria linguagem gráfica.
Originalmente, Blast foi publicado em França em quatro grandes álbuns, entre 2009 e 2014. A edição da Ala dos Livros reúne-os em dois volumes integrais, preservando a dimensão monumental de uma narrativa concebida para ser lida como um todo. Este segundo integral corresponde à segunda metade da obra e conduz a história até à sua conclusão definitiva.
BLAST – Volume Integral 2, Manu Larcenet, Ala dos Livros, 408 pp., p&b, capa dura, 49,90€
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