Depois dos acontecimentos que abalaram Londres, Jay e Kita são agora consideradas terroristas por uma burguesia que vê nas duas mulheres uma ameaça à ordem estabelecida. Mas aquilo que deveria significar o fim da sua luta acaba por produzir o efeito contrário. Graças às «Mães Furiosas», o movimento alastra pela cidade e o misterioso símbolo SHI nunca esteve tão presente nas ruas de Londres. Ao mesmo tempo, no presente, Apolline aproxima-se cada vez mais da verdade sobre a mãe biológica. Junto ao túmulo de Jay, começa finalmente a compreender a dimensão da vida que esta levou: uma existência marcada pela luta, pelo sofrimento e pela dedicação absoluta a uma causa. A descoberta coloca, porém, uma questão inevitável: estará Apolline preparada para suportar o peso dessa herança e assumir o legado de uma mãe que praticamente só conhece através da memória dos outros?
Jay aguarda na prisão o julgamento pelos trágicos acontecimentos de Trafalgar Square. Kita e Sensei procuram recuperar dos ferimentos, físicos e emocionais, enquanto uma nova ameaça se abate sobre a capital do Império Britânico. Uma vaga de calor sufocante faz baixar drasticamente as águas do Tamisa. O rio, transformado numa gigantesca cloaca a céu aberto, espalha pela cidade um odor insuportável e coloca Londres perante uma grave crise sanitária e o risco de novas epidemias. É o episódio que ficaria conhecido na História como The Great Stink — o Grande Fedor de Londres.
Zidrou volta assim a inserir as suas personagens ficcionais num acontecimento histórico real, ocorrido durante o verão de 1858 e decisivo para a modernização do sistema de saneamento londrino. A miséria das classes populares, as deficientes condições sanitárias e as enormes desigualdades sociais da Inglaterra vitoriana proporcionam um cenário particularmente adequado ao universo de SHI. E as Mães Furiosas não estão dispostas a permanecer quietas.
Enquanto Londres quase sufoca, continuam a preparar novos ataques, combatem o trabalho infantil e procuram desesperadamente a filha de Jay. Paralelamente, aproxima-se mais uma etapa do plano que atravessa toda a série: falta apenas a encarnação do quarto demónio para que a vingança contra o Império possa finalmente concretizar-se.
Desde o primeiro volume, SHI distingue-se pela forma como Zidrou combina aventura, drama histórico, fantástico e crítica social. Por detrás das conspirações, dos mistérios e dos elementos sobrenaturais encontramos questões bem concretas: exploração laboral, pobreza, desigualdade entre homens e mulheres, colonialismo, racismo e os privilégios de uma sociedade rigidamente hierarquizada.
E se o argumento de Zidrou constrói uma Inglaterra vitoriana particularmente sombria, Homs dá-lhe uma extraordinária presença visual. As ruas sobrelotadas, os interiores burgueses, as zonas miseráveis da cidade e, agora, uma Londres abrasada pelo calor e contaminada pelo Tamisa criam um ambiente simultaneamente grandioso e opressivo. O chamado Grande Fedor parece, aliás, feito à medida do seu desenho.
Com este lançamento, a Ala dos Livros dá continuidade a uma série que tem vindo a conquistar um lugar de destaque entre os leitores portugueses de BD franco-belga. O novo volume aprofunda simultaneamente as duas linhas temporais de SHI: a luta de Jay e Kita na Londres do século XIX e a descoberta, pelas gerações seguintes, das consequências dessa luta. E a revolta das Mães Furiosas está longe de ter terminado.
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