Nesta obra autobiográfica, Li-Chin Lin regressa à infância e juventude em Taiwan para reconstruir a descoberta gradual das contradições políticas e culturais do país onde cresceu. Nascida em 1973, a autora pertence a uma geração educada sob a influência do regime autoritário do Kuomintang, marcada pela propaganda, pelo culto de Chiang Kai-shek e por uma visão oficial da história transmitida diariamente nas escolas.
Em casa, porém, sobrevivia uma memória diferente. Os avós de Li-Chin falavam japonês, herança do período de domínio colonial do Japão, embora essa língua fosse rejeitada pelo novo regime. Entre as tradições familiares, a doutrinação escolar e o seu fascínio pela manga, a jovem autora começa a perceber que a identidade taiwanesa é muito mais complexa do que os discursos oficiais faziam acreditar.
A revolta de Tiananmen, em 1989, funciona como um momento decisivo dessa tomada de consciência. As notícias vindas de Pequim levam Li-Chin a questionar o partido único, o culto da personalidade e as versões da realidade que lhe tinham sido impostas. O resultado é um testemunho pessoal sobre o modo como uma criança aprende a reconhecer os mecanismos da propaganda e a desenvolver um olhar crítico sobre a sociedade que a rodeia.
O desenho, influenciado pelos códigos da manga, acompanha essa descoberta com energia, imaginação e irreverência. Li-Chin Lin combina memória, humor e reflexão política, evitando transformar a obra numa simples lição de História. A experiência individual torna-se uma porta de entrada para compreender as várias identidades, línguas e memórias que coexistem em Taiwan.
O título recupera o nome dado pelos navegadores portugueses à ilha no século XVI: Formosa, a “ilha bela”. Actualmente, Taiwan possui governo democrático, forças armadas, moeda e instituições próprias, funcionando de forma autónoma. A República Popular da China reclama, contudo, soberania sobre o território e considera a sua integração inevitável, enquanto o estatuto internacional da ilha permanece disputado e constitui um dos principais focos de tensão no Indo-Pacífico.
Depois de estudar arte em França, na École Supérieure de l’Image, em Angoulême, e animação na escola La Poudrière, em Valence, Li-Chin Lin dedicou-se à banda desenhada a partir de 2002. Após colaborações em fanzines e a publicação de livros infantis, encontrou em Formosa, a sua primeira novela gráfica, o espaço ideal para interrogar a própria memória e a história do lugar onde nasceu.
Mais do que uma autobiografia, Formosa é uma reflexão sobre identidade, educação e liberdade. Uma obra que mostra como a História entra na vida quotidiana e como o olhar rebelde de uma criança pode começar a desfazer as certezas fabricadas por um regime.
Formosa, Li-Chin Lin, Levoir, Colecção Novela Gráfica IX — volume 5, 256 pp., p&b, capa dura, 16,90€





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